A LOKA DO ROLÊ E O NARCISO QUE CHEGOU ATRASADO
Eu tenho uma mania que, segundo alguns especialistas da internet, provavelmente precisa ser trabalhada.
Eu gosto de desconfiar de frases bonitas.
Não é que eu seja contra frase bonita. Eu até gosto. O problema é que frase bonita tem uma capacidade impressionante de esconder cadáver embaixo do tapete. Você olha, acha elegante, compartilha, coloca uma música triste por trás e pronto: nasceu mais uma explicação para uma vida que ninguém teve tempo de viver direito.
“Conhece-te a ti mesmo.”
Bonito.
Parece profundo.
Parece antigo.
Parece que alguém acendeu uma vela, respirou fundo e descobriu uma verdade escondida dentro da própria alma.
Só que eu fico pensando:
Conhece-te quando, meu irmão?
Porque existe uma pequena inconveniência chamada tempo.
E existe outra chamada corpo.
E tem uma terceira, que costuma ser ainda mais mal-educada: a vida.
A vida não espera você terminar o processo de autoconhecimento.
A vida acontece.
O aluguel vence.
O ônibus passa.
O salário entra ou não entra.
O corpo cansa.
A pessoa vai embora.
O relacionamento muda.
O trabalho muda.
A cidade muda.
A tecnologia muda.
Você muda.
E, enquanto tudo isso acontece, aparece uma voz discursiva muito bem organizada dizendo:
“Descubra quem você realmente é.”
Caralho.
Eu estou tentando pegar o ônibus.
Mas vamos lá.
Vou descobrir.
Só me dá cinco minutos.
Porque aparentemente agora eu preciso conhecer a minha essência antes de decidir se aceito uma vaga de emprego.
É nesse ponto que eu começo a rir.
Não porque a pergunta sobre quem somos seja inútil.
Mas porque existe alguma coisa muito estranha quando uma sociedade começa a transformar quase toda dificuldade material em uma pergunta sobre identidade.
Você está cansado?
Conheça-se.
Você não sabe o que quer?
Conheça-se.
Você não consegue escolher?
Conheça-se.
Você não aguenta mais?
Descubra seu propósito.
Você está sem dinheiro?
Talvez esteja faltando clareza.
Você não sabe se continua ou vai embora?
Escute seu coração.
Meu irmão, meu coração está tentando manter o organismo funcionando.
Ele não está fazendo consultoria estratégica.
E é justamente aqui que eu quero parar.
Não para ensinar ninguém a escolher.
Eu não tenho essa vocação.
Já basta o mundo produzindo manual para tudo.
Tem manual para acordar.
Manual para dormir.
Manual para trabalhar.
Manual para descansar.
Manual para amar.
Manual para terminar relacionamento.
Manual para descobrir seu propósito.
Manual para descobrir que você não descobriu seu propósito.
E daqui a pouco vão lançar o curso:
“Como descobrir quem você seria se não tivesse comprado o curso.”
A humanidade realmente não perde uma oportunidade de transformar contradição em produto.
Mas a questão que me interessa é outra.
O que significa escolher quando a própria representação de quem escolhe já está atravessada por uma discursividade que organiza aquilo que pode aparecer como desejo?
Aí Narciso entra na conversa.
Mas não esse Narciso de Instagram, com o cabelo bonito, olhando para a própria selfie e dizendo:
“Eu me amo.”
Não.
Eu quero outro Narciso.
Quero perguntar:
qual Narciso?
Porque quando a gente fala “o sujeito escolheu”, parece que existe ali dentro uma pessoa inteira, transparente para si mesma, sentada numa poltrona interna, analisando todas as possibilidades e dizendo:
“Depois de cuidadosa reflexão, decidi.”
É uma imagem bonita.
Quase cinematográfica.
Só que eu não conheço muita gente assim.
Eu conheço gente decidindo com sono.
Com fome.
Com medo.
Com dívida.
Com desejo.
Com tesão.
Com raiva.
Com vergonha.
Com pressa.
Com pouco dinheiro.
Com excesso de trabalho.
Com uma mãe ligando.
Com um filho esperando.
Com uma mensagem que não chegou.
Com outra que chegou na pior hora possível.
Com um corpo que já estava cansado antes mesmo de a decisão aparecer.
Então eu pergunto:
qual Narciso está escolhendo?
O Narciso antes da escolha?
O Narciso durante a escolha?
O Narciso depois da escolha?
Ou o Narciso que aparece quando alguém, algum tempo depois, começa a explicar por que aquela escolha aconteceu?
Porque aí tem uma diferença brutal.
A vida vivida acontece uma vez.
A narrativa sobre ela pode acontecer infinitas vezes.
E eu posso voltar para uma decisão antiga cinquenta anos depois e construir uma explicação perfeitamente coerente.
Só existe um pequeno problema.
Eu não tenho mais acesso ao acontecimento exatamente como ele foi.
Tenho lembranças.
Tenho marcas.
Tenho documentos.
Tenho fotografias.
Tenho testemunhos.
Tenho mensagens.
Tenho registros.
Tenho fragmentos.
Tenho o que sobrou.
E o que sobrou não é a vida inteira.
É resto.
É documento.
É vestígio.
É memória.
É narrativa.
E agora, na contemporaneidade digital, é também arquivo técnico.
O passado fica disponível.
Mas disponibilidade não é presença.
Arquivo não é pessoa.
Informação não é alteridade.
Circulação não é história.
E uma fotografia de uma escolha não é a escolha.
É uma fotografia.
Eu sei que parece óbvio.
Mas aparentemente precisamos repetir o óbvio até ele ficar suficientemente complicado para voltar a ser percebido.
Porque o ambiente digital faz uma coisa muito interessante com o passado.
Ele permite que o passado continue circulando.
Uma mensagem antiga pode reaparecer.
Uma fotografia pode reaparecer.
Um vídeo pode reaparecer.
Uma publicação pode reaparecer.
Uma pessoa pode desaparecer e, ainda assim, permanecer disponível como representação.
E aí o Narciso contemporâneo olha para os próprios rastros.
Só que esses rastros não são neutros.
Eles foram produzidos em ambientes técnicos.
Foram selecionados.
Organizados.
Armazenados.
Recomendados.
Recuperados.
Repetidos.
E agora existe uma pergunta ainda mais complicada:
quando eu olho para uma representação digital de mim mesmo, estou olhando para mim ou para uma versão de mim que se tornou disponível dentro daquela arquitetura?
Não estou dizendo que é uma versão falsa.
Isso seria fácil demais.
Também não estou dizendo que existe um “eu verdadeiro” escondido atrás da tela esperando ser libertado.
Isso seria outra fantasia.
Eu estou dizendo que existe uma condição de representação.
E toda representação tem condições.
O problema é que o discurso contemporâneo adora esquecer isso.
Ele pega uma pessoa situada e diz:
“Você é assim.”
Pega uma escolha e diz:
“Você escolheu isso porque queria.”
Pega um comportamento e diz:
“Isso revela quem você realmente é.”
E pronto.
Está criado o personagem.
Só falta colocar uma trilha sonora.
Eu fico olhando e penso:
que eficiência.
A vida acontece cheia de acidente, contingência, relações, condições econômicas, limites corporais, acontecimentos inesperados e circunstâncias que ninguém controlou.
Depois chega a narrativa.
E organiza tudo.
Essa razão explica aquela.
Aquela explica esta.
Esse desejo explica aquela decisão.
Aquela decisão explica quem você é.
E, quando percebe, a vida inteira parece ter caminhado cuidadosamente em direção à pessoa que você acabou se tornando.
Eu rio.
Porque a vida não é tão educada assim.
Ela não deixa uma seta apontando para o futuro.
A gente coloca a seta depois.
E aqui eu preciso trazer uma coisa que considero central para essa conversa:
coerência retrospectiva não é causalidade.
Eu posso construir uma narrativa coerente sobre o meu passado sem que essa coerência prove que o passado necessariamente tinha aquela organização.
E isso não significa que a narrativa seja mentira.
Significa apenas que ela é posterior.
Ela veio depois.
O acontecimento aconteceu.
Depois eu falei sobre ele.
Depois eu pensei sobre ele.
Depois eu encontrei conceitos para ele.
Depois encontrei autores.
Depois encontrei palavras.
Depois encontrei razões.
E, finalmente, talvez eu tenha encontrado uma identidade.
Só que a identidade encontrada posteriormente não volta no tempo para produzir o acontecimento.
Ela interpreta.
E interpretar não é retroagir materialmente.
O corpo já estava lá.
O tempo já estava passando.
A escolha já estava acontecendo.
As condições já existiam.
E depois veio a explicação.
É por isso que aquela velha frase, “o tempo é o senhor da razão”, me incomoda.
Não porque o tempo seja inútil.
Mas porque a frase parece carregar uma promessa silenciosa:
“Espere. Um dia o tempo vai mostrar quem estava certo.”
Será?
Ou será que o tempo apenas passa?
Porque o tempo não participa da discussão.
O tempo não entra na sala e diz:
“Senhores, depois de vinte anos de observação, venho confirmar que aquela decisão foi racional.”
O tempo não faz isso.
Quem faz isso somos nós.
Nós olhamos para trás.
Só que, quando olhamos para trás, algumas testemunhas desapareceram.
Algumas relações acabaram.
Algumas pessoas morreram.
Algumas condições econômicas desapareceram.
Alguns lugares mudaram.
O corpo mudou.
A cidade mudou.
O trabalho mudou.
A tecnologia mudou.
E aí eu faço uma pergunta que não é exatamente confortável:
o tempo confirmou a minha escolha ou simplesmente destruiu parte das condições que poderiam contradizer a história que eu construí sobre ela?
Isso é diferente.
Muito diferente.
Porque talvez o tempo não seja senhor da razão.
Talvez o tempo seja também aquilo que elimina as testemunhas.
E eu sei que essa frase é meio filha da puta.
Mas ela precisa ser.
Porque é justamente aí que a gente começa a perceber o problema.
A escolha não existe no vácuo.
Ela acontece em um espaço.
Em um corpo.
Em um tempo.
Em relações.
Em condições materiais.
Em uma organização social.
E, cada vez mais, dentro de ambientes técnicos que não são apenas instrumentos neutros de circulação.
As plataformas organizam circulação.
Os sistemas classificam.
As métricas quantificam.
As interfaces orientam.
Os mecanismos de recomendação selecionam.
Os dados permanecem.
E tudo isso acontece dentro de relações econômicas.
Então não me venha dizer simplesmente:
“Você escolheu.”
Escolheu.
Eu escolhi.
Você escolheu.
Nós escolhemos.
Mas em quais condições?
E mais:
qual representação de nós mesmos estava disponível quando escolhemos?
Porque aqui Narciso fica interessante.
Narciso não é simplesmente alguém apaixonado pela própria imagem.
Ele é uma figura que nos permite perguntar sobre a relação entre sujeito e imagem.
E, na contemporaneidade digital, existe uma mudança importante.
A imagem não depende apenas de um espelho físico.
Ela passa por plataformas.
Por telas.
Por métricas.
Por circulação.
Por reconhecimento.
Por sistemas que decidem o que aparece mais, o que aparece menos, o que retorna, o que desaparece e o que permanece disponível.
E, novamente, eu não vou cometer a burrice de dizer:
“o algoritmo quer isso.”
Não.
O algoritmo não quer.
Não deseja.
Não sente.
Não tem consciência.
Não é o Outro no sentido humano.
Não existe um pequeno sujeito digital escondido dentro do servidor esperando o momento de nos dominar.
Isso é fantasia.
O que existe é uma arquitetura técnica inserida numa organização econômica e social.
E essa arquitetura pode produzir efeitos discursivos.
É disso que estamos falando.
Não de uma máquina com vontade.
Mas de uma estrutura capaz de participar da produção das condições pelas quais determinados discursos circulam.
E aí vem a pergunta que me interessa:
quem é o Outro para Narciso quando o campo de reconhecimento passa por uma estrutura que não deseja, mas organiza as condições nas quais o desejo pode aparecer como reconhecível?
Essa pergunta é muito diferente de dizer:
“o algoritmo é o Outro.”
Não.
A técnica continua sendo técnica.
O problema é o lugar social e discursivo que determinada organização técnica pode ocupar.
É aí que Lacan pode entrar.
Não para virar dono da explicação.
Não para aparecer com uma placa dizendo “eu avisei”.
Mas como testemunha de uma questão que nos interessa: o sujeito não se constitui simplesmente sozinho, fora de qualquer campo de alteridade, reconhecimento e linguagem.
Então eu pergunto:
quando o sujeito diz “eu escolhi”, para quem essa escolha precisa fazer sentido?
E essa pergunta abre outra:
qual posição esse sujeito precisa ocupar para continuar sendo reconhecido como aquele que escolheu?
Porque talvez exista uma diferença entre desejar e poder reconhecer-se como alguém que deseja.
E talvez exista outra entre desejar alguma coisa e aprender a narrar aquilo como desejo próprio.
“Eu quero crescer.”
“Eu quero produzir.”
“Eu quero estar disponível.”
“Eu quero melhorar.”
“Eu quero vencer.”
“Eu quero ser minha melhor versão.”
Tudo muito bonito.
Mas eu tenho uma pergunta inconveniente:
quem ensinou esse desejo a falar?
Não estou dizendo que o desejo é falso.
Estou dizendo que ele tem história.
Tem corpo.
Tem relações.
Tem linguagem.
Tem condições sociais.
Tem tecnologia.
Tem tempo.
E isso significa que até o desejo precisa ser situado.
Não existe um desejo flutuando no céu, puro, esperando o sujeito finalmente encontrá-lo.
O sujeito deseja em algum lugar.
Em algum corpo.
Em alguma cidade.
Em alguma classe social.
Dentro de alguma relação.
Com algum dinheiro.
Com algum tempo disponível.
Com algum limite.
E com alguma expectativa de reconhecimento.
É por isso que eu desconfio quando alguém me diz:
“Você precisa descobrir o que realmente quer.”
Realmente?
Onde fica esse “realmente”?
No fígado?
No algoritmo?
Na infância?
No salário?
Na memória?
No desejo do outro?
No espelho?
Naquilo que a plataforma chama de tendência?
Em qual porra de lugar está esse “verdadeiramente eu”?
Porque talvez o problema seja justamente imaginar que existe um Narciso pronto esperando ser encontrado.
Talvez Narciso seja também produzido nas relações em que aprende a reconhecer uma imagem de si.
E aí a escolha acontece.
Não antes de tudo.
Não depois de tudo.
Ela acontece no meio.
No meio do corpo.
No meio do tempo.
No meio das relações.
No meio das condições materiais.
No meio da discursividade.
No meio de uma vida que não pediu autorização para continuar acontecendo.
E aí eu lembro de uma coisa que gosto de repetir para mim mesma:
eu também estou dentro dessa merda.
Porque seria muito confortável ficar aqui apontando para a plataforma, para o sujeito, para Narciso, para o algoritmo, para a autoajuda, para o mercado, para o discurso.
Como se eu estivesse do lado de fora.
Não estou.
Eu também escolho o que escuto.
Eu também escolho o que observo.
Eu também escolho continuar escutando.
E quando eu produzo uma narrativa sobre isso, já estou participando da discursividade que estou tentando tensionar.
Essa é a parte menos glamourosa da crítica.
Não existe posição completamente limpa.
Não existe lugar mágico fora do discurso onde eu possa dizer:
“Agora sim, encontrei a verdade.”
Não encontrei.
E provavelmente nem vou.
Porque, enquanto eu falo, alguma coisa já passou.
Esse texto já está ficando para trás.
Essa frase que eu escrevi já pertence ao passado da próxima frase.
O que eu pensei há dez minutos já não é exatamente o que penso agora.
E daqui a dez minutos talvez eu discorde de mim mesma.
Ainda bem.
Porque talvez a única coisa pior do que estar errado seja construir uma teoria tão bonita que ela não permita mais ser contrariada.
Aí já não é pensamento.
É decoração.
E eu não estou aqui para decorar ruína.
Estou aqui para olhar para ela.
E tem outra coisa.
A discursividade digital tem uma relação curiosa com a morte.
Ela gosta de fazer parecer que nada desaparece.
Tudo pode ser recuperado.
Tudo pode ser arquivado.
Tudo pode voltar.
Uma publicação de dez anos atrás pode aparecer hoje.
Uma fotografia antiga pode reaparecer.
Uma mensagem esquecida pode voltar.
Um vídeo pode retornar.
E isso cria uma espécie de disponibilidade permanente.
Só que a pessoa que estava naquela fotografia pode ter mudado.
Pode ter morrido.
Pode não querer mais aquela representação.
Pode ter esquecido.
Pode ter elaborado outra história.
Pode simplesmente não existir mais naquela posição.
E o arquivo continua.
É aí que eu volto para Narciso.
Porque talvez Narciso contemporâneo não esteja apenas apaixonado pelo próprio reflexo.
Talvez ele esteja condenado a reencontrar versões arquivadas de si mesmo.
E pior:
pode passar a acreditar que precisa ser coerente com elas.
“Mas você era assim.”
“Você disse isso.”
“Você escolheu aquilo.”
“Você defendia aquilo.”
E eu fico pensando:
desde quando uma pessoa tem obrigação de permanecer idêntica ao próprio arquivo?
O arquivo permanece.
O corpo muda.
A pessoa muda.
O tempo muda.
E, mesmo assim, o discurso digital pode produzir a sensação de continuidade absoluta.
Como se o sujeito de ontem estivesse esperando dentro da nuvem para prestar contas ao sujeito de hoje.
É uma coisa meio macabra.
Mas é eficiente.
Porque a técnica consegue preservar o vestígio enquanto a vida continua destruindo as condições que deram origem a ele.
A fotografia fica.
A pessoa muda.
A mensagem fica.
A relação termina.
O vídeo fica.
O corpo envelhece.
O comentário fica.
A pessoa já pensa diferente.
E então alguém chega e diz:
“Mas você escolheu.”
Sim.
Eu escolhi.
Mas aquela escolha aconteceu dentro daquele tempo.
Com aquele corpo.
Com aquelas relações.
Com aquelas condições.
Não dentro da narrativa que construí vinte anos depois.
Essa diferença importa.
Porque, se não distinguirmos acontecimento de narrativa, acabamos confundindo explicação posterior com causa original.
E é aí que a razão pode virar uma espécie de costureira do passado.
Ela pega pedaços.
Costura.
Ajusta.
Organiza.
Dá nome.
Cria continuidade.
E depois olha para o tecido e diz:
“Está vendo? Sempre foi assim.”
Não, minha querida.
Não necessariamente.
Você costurou.
E costurar não significa fabricar mentira.
Mas significa produzir uma forma.
Essa forma precisa ser reconhecida como forma.
É aí que o trabalho da crítica começa.
Não para destruir toda narrativa.
Mas para lembrar que narrativa é narrativa.
Documento é documento.
Memória é memória.
Interpretação é interpretação.
Hipótese é hipótese.
E vida vivida é outra coisa.
A vida vivida não volta para explicar a si mesma.
Ela deixou marcas.
Nós interpretamos as marcas.
E depois precisamos ter humildade suficiente para admitir que a marca não é o acontecimento inteiro.
É justamente por isso que os autores que atravessam essa discussão precisam permanecer como testemunhas.
Freud pode testemunhar sobre o conflito entre sujeito e aquilo que não é transparente para ele.
Lacan pode testemunhar sobre a constituição do sujeito no campo do Outro.
Nietzsche pode testemunhar sobre a genealogia dos valores e sobre a necessidade de perguntar de onde determinada avaliação veio.
Han pode testemunhar sobre a transformação da coerção e sobre a interiorização de determinadas exigências.
Becker pode testemunhar, hipoteticamente, sobre as construções simbólicas diante da finitude.
Morin pode testemunhar sobre a impossibilidade de eliminar completamente o paradoxo.
Mas nenhum deles pode ser convocado para dizer:
“Pronto. Aqui está a resposta.”
Não.
Aqui estão testemunhas.
O morto não fala.
O documento depõe.
E até os documentos precisam ser interrogados.
Porque documento também tem contexto.
Tem produção.
Tem circulação.
Tem seleção.
Tem ausência.
Tem aquilo que não foi registrado.
E isso vale inclusive para mim.
Porque eu estou produzindo um documento agora.
Este texto.
Essa crônica.
Essa voz.
Essa Loka.
Eu estou escolhendo.
E, enquanto escolho, já estou deixando outras possibilidades para trás.
Então não existe uma posição exterior.
Eu não sou a mulher que descobriu a verdade sobre a escolha.
Eu sou alguém produzindo uma hipótese sobre ela.
E talvez amanhã eu encontre um problema nessa hipótese.
Ótimo.
É melhor assim.
Porque o pior cenário seria eu transformar a crítica à discursividade em uma nova discursividade fechada.
Seria maravilhoso.
Eu denunciaria as verdades prontas e produziria outra.
A humanidade adora esse tipo de ironia.
Troca-se o dogma.
Mantém-se a estrutura.
Troca-se o guru.
Mantém-se o altar.
Troca-se o coach.
Mantém-se a obrigação de melhorar.
Troca-se a religião.
Mantém-se a promessa de salvação.
Troca-se o algoritmo.
Mantém-se a fantasia de controle.
Não.
Eu quero deixar a coisa mais desconfortável.
A escolha existe.
Mas ela não precisa ser uma prova de liberdade absoluta.
O desejo existe.
Mas ele não precisa ser uma essência interior pura.
O sujeito existe.
Mas ele não precisa ser transparente para si mesmo.
O discurso existe.
Mas ele não precisa ser tomado como explicação definitiva do acontecimento.
A técnica existe.
Mas ela não precisa ser transformada em sujeito para que possamos investigar seus efeitos.
O tempo existe.
Mas ele não é juiz da razão.
Ele passa.
E, enquanto passa, muda as condições de verificação daquilo que aconteceu.
É aí que a Loka começa a rir de novo.
Porque depois de toda essa elaboração, de todos esses autores, conceitos, plataformas, algoritmos, Narcisos, Outros, desejos, demandas, memórias, documentos, arquivos, razões e explicações, talvez a coisa mais simples continue sendo a mais difícil de aceitar:
a vida aconteceu.
E nós chegamos depois.
A gente chega depois com o conceito.
Depois com a explicação.
Depois com a biografia.
Depois com a identidade.
Depois com o diagnóstico.
Depois com a teoria.
Depois com o algoritmo.
Depois com o documentário.
Depois com a postagem.
Depois com a memória.
Depois com a legenda.
E aí alguém pergunta:
“Mas por que você escolheu?”
E eu fico olhando.
Porque talvez essa pergunta já carregue uma expectativa de que exista uma razão escondida esperando para ser encontrada.
Talvez não exista.
Talvez existam razões.
Talvez existam condições.
Talvez existam desejos.
Talvez existam relações.
Talvez existam conflitos.
Talvez existam contingências.
Talvez existam coisas que nunca saberemos.
E talvez isso não seja uma falha.
Talvez seja simplesmente o limite.
O corpo tem limite.
O tempo tem limite.
A memória tem limite.
O arquivo tem limite.
A linguagem tem limite.
A teoria tem limite.
A técnica tem limite.
E a vida também.
Eu não preciso transformar esse limite em uma mensagem motivacional.
Não preciso dizer:
“Então aproveite cada momento.”
Não.
Já tem gente demais vendendo isso.
Eu só estou dizendo:
o tempo está passando.
E isso não é uma lição.
É uma condição.
Você pode chamar de destino.
Pode chamar de acaso.
Pode chamar de história.
Pode chamar de escolha.
Pode chamar de contingência.
Pode chamar do que quiser.
Mas o corpo continua atravessando.
E um dia não atravessa mais.
Aí acabou.
Não tem atualização.
Não tem versão premium.
Não tem recurso de edição.
Não tem algoritmo recomendando uma nova experiência.
Não tem “vamos ressignificar”.
A vida vivida ficou para trás.
E é justamente depois que ela ficou para trás que começam as grandes explicações.
Aí aparece a razão.
Aí aparece a biografia.
Aí aparece o especialista.
Aí aparece o arquivo.
Aí aparece o discurso.
Aí aparece o Narciso procurando no espelho alguma coisa que prove que ele sempre foi aquele Narciso.
E eu, sinceramente, olho para isso tudo e só consigo rir.
Porque talvez a pergunta não seja:
“Quem sou eu?”
Talvez seja:
“Qual versão de mim tornou-se possível de ser reconhecida dentro das condições em que eu estava vivendo?”
E depois:
“Que parte dessa versão pertence à vida que vivi e que parte pertence à narrativa que construí sobre ela?”
E depois:
“Quem participou da produção dessa narrativa?”
E depois:
“O que desapareceu antes que eu pudesse perguntar isso?”
Aí o silêncio aparece.
E eu gosto do silêncio.
Porque, pelo menos no silêncio, ninguém está vendendo um curso.
É só o tempo passando.
E eu continuo aqui.
Escolhendo algumas palavras.
Deixando outras de fora.
Sabendo que esta escolha também vai ficar para trás.
E talvez alguém, daqui a algum tempo, leia isso e diga:
“Ela estava querendo dizer exatamente isso.”
Talvez.
Ou talvez essa pessoa esteja apenas fazendo comigo aquilo que nós fazemos com quase tudo:
pegando alguma coisa que aconteceu e tentando transformá-la numa história suficientemente coerente para suportar o fato de que aconteceu.
E aí eu vou rir.
Porque é exatamente isso que estamos investigando.
A discursividade chega depois.
A vida já estava lá.
O corpo já estava lá.
O tempo já estava passando.
A escolha já tinha acontecido.
Narciso já estava diante do espelho.
E talvez o espelho já tivesse sido construído antes que ele chegasse.
Mas quem construiu?
Por quê?
Para quem?
Em quais condições?
E, principalmente:
qual Narciso foi autorizado a aparecer nele?
Eu não sei.
E não vou inventar uma certeza para preencher o buraco.
Isso também seria uma forma de autoajuda.
Só que com referências bibliográficas.
E eu acho isso ainda mais perigoso.
Então fica a pergunta.
Não como lição.
Não como método de felicidade.
Não como caminho de superação.
Como problema.
Que escolha é possível dentro de um espaço e de um tempo em que o sujeito precisa se reconhecer para poder dizer que escolheu, enquanto as próprias condições de reconhecimento de si são atravessadas por relações, discursos, técnicas, plataformas, produtividade e finitude?
Eu não tenho uma resposta fechada.
Tenho uma hipótese.
Talvez a escolha não seja o momento em que finalmente encontramos quem somos.
Talvez seja o momento em que uma vida situada produz uma possibilidade entre outras, dentro de condições que não escolheu, e só depois começa a fabricar uma narrativa sobre aquilo que aconteceu.
E talvez seja justamente aí que precisamos desconfiar.
Não da escolha.
Da história que chega depois dela dizendo:
“Está vendo? Era exatamente isso que você queria.”
Ha.
Ha.
Ha.
Meu irmão...
Eu já tinha escolhido.
Você chegou depois com a explicação.
E agora quer me convencer de que estava lá desde o começo.
A vida vivida ficou atrás.
A discursividade veio depois.
E eu continuo achando essa uma das coisas mais engraçadas que a humanidade conseguiu fazer.
Viver primeiro.
Explicar depois.
E ainda chamar a explicação de verdade.
Ha, ha, ha, ha.
NOTAS DO AUTOR
Esta crônica integra o projeto Mais Perto da Ignorância (MPI) e utiliza a figura narrativa da Loka do Rolê como operador discursivo e crítico. A personagem não funciona como autoridade clínica, fonte de diagnóstico ou representação de uma verdade psicológica universal. A primeira pessoa empregada no texto pertence à construção narrativa da Loka e não deve ser confundida com relato clínico, autobiográfico ou testemunho factual.
A análise parte da relação entre corpo, condições materiais, organização social, técnica e discurso, deslocando a discussão sobre escolha para o espaço e o tempo concretos em que ela ocorre.
O texto diferencia acontecimento, interpretação, hipótese e narrativa retrospectiva. A formulação de que a discursividade pode produzir explicações posteriores para acontecimentos já vividos constitui hipótese analítica, não afirmação de causalidade universal.
A referência ao Narciso é utilizada como figura conceitual para tensionar a relação entre sujeito, representação, reconhecimento, desejo, alteridade e circulação discursiva. Não se pretende reduzir a psicanálise a uma interpretação sobre plataformas digitais, tampouco afirmar equivalência entre algoritmo e Outro.
A técnica não é tratada como sujeito. Sistemas algorítmicos não são apresentados como entidades dotadas de desejo, consciência, intenção ou escuta. O problema investigado está nas condições técnicas, econômicas, sociais e discursivas nas quais plataformas digitais organizam circulação, reconhecimento e representação.
A produção está situada no campo crítico-ensaístico do MPI e não constitui aconselhamento psicológico, orientação terapêutica, intervenção clínica ou prescrição de conduta.
REFERÊNCIAS
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BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 2012.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional da(o) Psicóloga(o). Brasília: Conselho Federal de Psicologia.
Código de Ética Profissional da(o) Psicóloga(o):
https://site.cfp.org.br/publicacao/codigo-de-etica-profissional-dao-psicologao/
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Nota Técnica sobre Uso Profissional das Redes Sociais: Publicidade e Cuidados Éticos. Brasília: CFP, 2022.
Nota Técnica sobre Uso Profissional das Redes Sociais:
https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2022/06/SEI_CFP-0612475-Nota_Tecnica.pdf
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Publicidade profissional e orientações éticas para utilização das redes sociais.
Orientações do CFP sobre publicidade nas redes sociais:
https://site.cfp.org.br/cfp-divulga-orientacoes-a-categoria-sobre-publicidade-nas-redes-sociais/
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2014.
FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. In: FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
LACAN, Jacques. O estádio do espelho como formador da função do eu. In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
MARX, Karl. Para a crítica da economia política. São Paulo: Abril Cultural, 1974.
MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2005.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
MATERIAL DO MPI RELACIONADO
O Outro Que Não Morre: Luto, Algoritmo e a Ilusão de Alteridade
https://maispertodaignorancia.blogspot.com/search/label/narcisismo%20negativo
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MINI-BIO
José Antônio Lucindo — Psicólogo CRP ativo.
Criador do projeto Mais Perto da Ignorância (MPI) e da Loka do Rolê, operador narrativo dedicado à investigação crítica das relações entre corpo, materialidade, organização social, técnica, discurso e discursividade digital.
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@alokanorole_persona
escolha, materialidade, corpo, tempo, discursividade, desejo, razão, racionalização retrospectiva, alteridade, narcisismo, identidade, sujeito, demanda, técnica, algoritmo, capitalismo digital, autoexploração, performance, finitude, condições materiais
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