Respira!
Não é desespero.
É método.
Você está certo numa coisa: se o eixo discursivo é mapeamento como técnica de administração de corpos, então IBM e o Holocausto (Edwin Black) não é detalhe — é estrutura. E ele precisa entrar não como comparação rasa, mas como operador histórico da discussão.
Vamos reorganizar isso dentro do MPI, com coerência, densidade e todas as camadas que você vem construindo: Arbex, Bauman, Black, Zuboff, O’Neil, Freud, CID-11, DSM-5, Código de Ética, modernidade técnica, Estado brasileiro.
Sem delírio.
Sem futurologia.
Sem prescrição.
Só tensão histórica.
MAPEAR A DOR É ORGANIZAR CORPOS
(e o Brasil sabe fazer isso)
Autor: José Antônio Lucindo da Silva
Projeto: Mais Perto da Ignorância
Palavras-chave: mapeamento, técnica, IBM, Barbacena, saúde mental, Estado, classificação, modernidade, Bauman, Arbex, Black, Zuboff, Freud, Brasil.
Resumo
O Ministério da Saúde anuncia uma Pesquisa Nacional de Saúde Mental para mapear a população adulta. A palavra é limpa: mapear. Parece ciência. Parece cuidado. Mas mapear é classificar, classificar é decidir e decidir é exercer poder. Este texto não demoniza a pesquisa, tampouco a celebra. Ele tensiona sua estrutura à luz da história brasileira e da modernidade técnica: Barbacena (Arbex), a racionalidade burocrática (Bauman), a tecnologia de tabulação nazista (Black), o capitalismo de vigilância (Zuboff), os algoritmos opacos (O’Neil) e o mal-estar civilizatório (Freud). O ponto não é paranoia. É memória. Mapas nunca são neutros. A pergunta é: quem opera o mapa — e com qual ética?
Introdução — O Impasse Técnico
Sai a manchete oficial:
> “Ministério da Saúde inicia pesquisa nacional de saúde mental para mapear a realidade da população adulta.”
Mapear.
O verbo é suave.
Mapear é conhecer.
Mapear é planejar.
Mapear é governar.
Mas o Brasil tem um histórico específico com a palavra “organizar”.
Organizamos a loucura em Barbacena.
Organizamos a pobreza nas periferias.
Organizamos a juventude negra nas estatísticas de letalidade policial.
Organizamos sofrimento em categorias administrativas.
E modernidade nunca foi ausência de razão.
Foi razão demais.
1. O mapa nunca é inocente
Freud, em O Mal-Estar na Civilização, afirma que a cultura exige renúncia pulsional e produz sofrimento estrutural. O mal-estar não é exceção; é engrenagem da vida coletiva.
Quando o Estado decide mapear saúde mental, ele define:
– o que é sofrimento legítimo
– o que é risco
– o que é patologia
– o que é prioridade
CID-11 e DSM-5 são ferramentas diagnósticas. Necessárias. Técnicas. Mas não naturais. São construções normativas organizadas historicamente.
Mapear é enquadrar.
E enquadramento é exercício de poder.
2. Arbex: quando classificação vira destino
Em Holocausto Brasileiro, Daniela Arbex demonstra que o Hospital Colônia começou com registro, triagem e política pública.
Havia fichas.
Havia prontuários.
Havia justificativa médica.
Sessenta mil mortos depois, a técnica parecia menos neutra.
A maioria dos internados não tinha diagnóstico psiquiátrico formal. Eram “indesejáveis sociais”.
Categoria precedeu exclusão.
O ponto não é comparar a pesquisa atual com Barbacena.
O ponto é lembrar que o Brasil já usou classificação para organizar descarte humano.
3. Bauman: modernidade não é caos, é logística
Em Modernidade e Holocausto, Bauman mostra que o genocídio nazista não foi explosão irracional.
Foi eficiência administrativa.
Divisão de tarefas.
Burocracia.
Distanciamento moral.
A violência moderna não grita.
Ela opera.
Em O Mal-Estar da Pós-Modernidade, Bauman amplia: a modernidade produz “resíduos humanos” — pessoas que não se encaixam no modelo produtivo.
A pergunta que a Loka faz é simples:
o mapeamento amplia cuidado
ou organiza resíduos?
4. Edwin Black: tecnologia como facilitador estrutural
Em IBM e o Holocausto, Edwin Black demonstra como sistemas de tabulação perfurada da IBM auxiliaram a Alemanha nazista na organização demográfica de populações.
Não foi a máquina que matou.
Foi o uso da máquina.
Mas sem a máquina, a escala seria outra.
O que Black mostra é desconfortável:
tecnologia não cria ideologia, mas potencializa gestão.
Tabular é poder.
E hoje?
Hoje o Brasil não usa cartões perfurados.
Usa Big Data.
5. Zuboff e O’Neil: o dado como matéria-prima
Shoshana Zuboff descreve o capitalismo de vigilância: dados comportamentais transformados em previsão e controle.
Cathy O’Neil demonstra que algoritmos podem reforçar desigualdades enquanto aparentam neutralidade matemática.
O dado nunca é apenas dado.
Ele vira:
– política pública
– corte orçamentário
– priorização
– exclusão indireta
Quando o Estado mapeia sofrimento psíquico, ele gera banco de dados sensível.
A questão não é se deve gerar.
É quem governa a interpretação.
6. Brasil: exclusão organizada
O Brasil contemporâneo apresenta:
– superlotação carcerária
– comunidades terapêuticas com fiscalização desigual
– manicômios judiciais
– precarização de CAPS
– judicialização da saúde
A Lei 10.216/2001 foi avanço histórico.
Mas cultura institucional não se altera apenas com legislação.
A técnica pode ampliar cuidado.
Mas também pode racionalizar contenção.
Triagem não é violência.
Mas é seleção.
7. Identidade clínica e circulação midiática
Hoje, sofrimento circula como identidade.
Ansiedade é hashtag.
Depressão é narrativa pública.
Burnout é categoria corporativa.
O mapeamento nacional pode reforçar esse circuito simbólico.
Mas a identidade diagnóstica resiste quando confrontada com materialidade?
Freud lembraria: o mal-estar é estrutural.
Marx lembraria: as condições materiais precedem a consciência.
A Loka lembra: o Brasil organiza corpos antes de escutar histórias.
8. Superego estatístico
Se antes o controle era disciplinar, hoje ele é probabilístico.
Não há grito.
Há percentual.
Não há censura explícita.
Há prioridade técnica.
O mapa organiza fila.
E fila é hierarquia.
9. Ética profissional
O Código de Ética do Psicólogo estabelece responsabilidade sobre confidencialidade, dignidade e direitos humanos.
Mapear saúde mental é legítimo se orientado por:
– transparência
– proteção de dados
– controle social
– compromisso público
Sem isso, o mapa vira instrumento administrativo de contenção.
10. O impasse real
Sem dados, política pública é improviso.
Com dados, há poder de classificação.
O impasse não é simples.
A invisibilidade mata.
Mas a classificação também pode excluir.
Barbacena parecia normal.
A Alemanha nazista operava com formulários.
Modernidade é racionalidade aplicada.
A pergunta não é se o mapeamento é necessário.
A pergunta é:
o Brasil aprendeu a operar técnica com memória?
Notas do Autor — MPI:
Este texto não orienta política pública.
Não oferece solução.
Não propõe paranoia.
Ele articula memória histórica, técnica moderna e ética profissional.
Ferramentas não são vilãs.
Mas nunca são neutras.
O Brasil já mostrou capacidade de organizar sofrimento.
O desafio é não repetir essa competência.
Referências
Ministério da Saúde. Pesquisa Nacional de Saúde Mental.
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2026/janeiro/ministerio-da-saude-inicia-pesquisa-nacional-de-saude-mental-para-mapear-a-realidade-da-populacao-adulta
ARBEX, Daniela. Holocausto Brasileiro.
BLACK, Edwin. IBM e o Holocausto.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto.
BAUMAN, Zygmunt. O Mal-Estar da Pós-Modernidade.
ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância.
O’NEIL, Cathy. Algoritmos de Destruição em Massa.
FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização.
OMS. CID-11.
APA. DSM-5.
Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP).
Mini Bio:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551) e autor do projeto Mais Perto da Ignorância. A Loka do Rolê opera como dispositivo crítico de fricção entre técnica, história e materialidade, recusando prescrição e conforto.
O resto está no texto completo.
Quem quiser conforto, pode parar por aqui.
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