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Quando a conversa se torna um problema

Quando a conversa se torna um problema PODCAST DRAMATURGICO 01:  Parte I — O problema começa antes das palavras Há fenômenos que passam despercebidos justamente porque continuam acontecendo todos os dias. Não desaparecem de uma vez. Reorganizam-se lentamente até que a nova forma de existir pareça natural. É somente quando alguém afirma que "as pessoas já não conversam como antes" que aquilo que parecia invisível volta a chamar atenção. A afirmação não é recente. Em diferentes épocas, intelectuais, educadores, religiosos e pesquisadores registraram preocupação com transformações nas formas de convivência humana. Mudam os objetos — o rádio, a televisão, a internet, os telefones celulares, as plataformas digitais, a inteligência artificial —, mas permanece a impressão de que alguma dimensão da experiência compartilhada estaria sendo perdida. Uma dessas interpretatações foi recentemente apresentada no artigo "A geração que desaprendeu a conversa...

A GUERRA DAS PALAVRAS ANTES DA GUERRA DAS COISAS

A 0GUERRA DAS PALAVRAS ANTES DA GUERRA DAS COISAS AUTOR: A Loka do Rolê PROJETO: Mais Perto da Ignorância — MPI PALAVRAS-CHAVE: crime organizado, terrorismo, discurso, soberania, subjetividade, política, tecnologia, exaustão, vigilância, linguagem RESUMO: Passei os últimos dias observando uma palavra atravessar fronteiras com mais velocidade do que qualquer operação policial. Terrorismo. Bastou que a possibilidade de enquadrar PCC e CV nessa categoria ganhasse espaço para que especialistas, políticos, jornalistas e usuários de redes sociais começassem imediatamente a disputar o significado do acontecimento. O curioso não é a classificação em si. O curioso é a velocidade com que qualquer fato contemporâneo precisa ser convertido em narrativa. Antes dos efeitos concretos surgem as interpretações. Antes das consequências aparecem os posicionamentos. O episódio expõe menos uma discussão jurídica e mais uma característica da vida contemporânea: a incapacidade de permanecer diant...

A ARQUITETURA DA FADIGA

A ARQUITETURA DA FADIGA AUTOR: A Loka do Rolê PROJETO: Mais Perto da Ignorância — MPI RESUMO Passei os últimos dias ouvindo pessoas explicarem o mundo. Especialistas explicavam a política. Economistas explicavam os mercados. Tecnólogos explicavam os algoritmos. Jornalistas explicavam as crises. Psicólogos explicavam o sofrimento. Em algum momento percebi que a quantidade de explicações estava crescendo mais rápido do que a capacidade de compreender qualquer coisa. Talvez esse seja o verdadeiro cenário contemporâneo. Não uma crise de informação, mas uma superprodução dela. Não uma ausência de sentido, mas uma indústria inteira dedicada a fabricá-lo. Enquanto isso, o sujeito continua acordando cansado. Continua ansioso. Continua acelerado. Continua produzindo dados, atenção e comportamento para sistemas que já não consegue enxergar. Este ensaio não procura localizar culpados nem oferecer respostas. Procura apenas observar a rachadura que aparece quando o sofrimento encontra u...

A ESCUTA VIROU INFRAESTRUTURA

A ESCUTA VIROU INFRAESTRUTURA AUTOR: A Loka do Rolê PROJETO: Mais Perto da Ignorância — MPI RESUMO: Durante séculos, escutar foi uma experiência humana. Um gesto atravessado por presença, conflito, afeto, silêncio e linguagem. No século XXI, entretanto, a escuta deixou progressivamente de ser apenas uma prática relacional para tornar-se infraestrutura técnica. Plataformas digitais, sistemas algorítmicos, dispositivos móveis e modelos de inteligência artificial transformaram conversas, emoções, preferências e hesitações em matéria-prima econômica. Este ensaio investiga a transformação da escuta em mecanismo operacional do capitalismo contemporâneo, articulando subjetividade, corpo, tecnologia, trabalho, linguagem e vigilância. A partir de uma perspectiva psico-bio-social-tecnológico-discursiva, examina-se como a experiência humana passa a ser convertida em dado, previsão e produto. O texto propõe uma leitura crítica da captura algorítmica da atenção, da erosão dos espaços de...

NADA COMEÇA NO ATO: A VIOLÊNCIA COMO EFEITO DE UM AMBIENTE SEM LIMITE

NADA COMEÇA NO ATO: A VIOLÊNCIA COMO EFEITO DE UM AMBIENTE SEM LIMITE Autor: José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo 🎬 CANAL NO YOUTUBE:  RESUMO: Este artigo sustenta que as manifestações contemporâneas de violência juvenil mediadas por redes sociais — incluindo misoginia, humilhação pública e práticas extremas — não constituem fenômenos inéditos, mas reconfigurações de estruturas já antecipadas em formulações teóricas anteriores. A partir de uma articulação entre dimensões biológicas, materiais, sociais, técnicas e discursivas, argumenta-se que o problema não se origina no ato violento, mas em um ambiente anterior caracterizado pela ausência de mediação efetiva do outro como limite. A tecnologia não inaugura essa dinâmica, apenas a reorganiza, intensificando a repetição e reduzindo a possibilidade de interrupção simbólica. Em consonância com referenciais como Freud, Bauman, Han, Lasch e André Green, propõe-se que a violência emerge como uma forma de insc...