A ESCUTA VIROU INFRAESTRUTURA AUTOR: A Loka do Rolê PROJETO: Mais Perto da Ignorância — MPI RESUMO: Durante séculos, escutar foi uma experiência humana. Um gesto atravessado por presença, conflito, afeto, silêncio e linguagem. No século XXI, entretanto, a escuta deixou progressivamente de ser apenas uma prática relacional para tornar-se infraestrutura técnica. Plataformas digitais, sistemas algorítmicos, dispositivos móveis e modelos de inteligência artificial transformaram conversas, emoções, preferências e hesitações em matéria-prima econômica. Este ensaio investiga a transformação da escuta em mecanismo operacional do capitalismo contemporâneo, articulando subjetividade, corpo, tecnologia, trabalho, linguagem e vigilância. A partir de uma perspectiva psico-bio-social-tecnológico-discursiva, examina-se como a experiência humana passa a ser convertida em dado, previsão e produto. O texto propõe uma leitura crítica da captura algorítmica da atenção, da erosão dos espaços de...
A ESCUTA ESTÁ SE TORNANDO UMA INFRAESTRUTURA TECNOLÓGICA. Durante muito tempo imaginamos que tecnologias digitais serviam para transmitir informação. Hoje elas começam a ocupar outro espaço. O espaço da conversa. Uma pesquisa internacional realizada com aproximadamente 3.800 jovens entre 11 e 25 anos, em França, Alemanha, Suécia e Irlanda, identificou que 51% dos participantes consideravam mais fácil conversar com um chatbot sobre questões emocionais do que com profissionais de saúde, incluindo psicólogos. O dado pode gerar reações rápidas. Entusiasmo tecnológico. Alarmismo moral. Ou previsões apressadas sobre o futuro da clínica. Mas talvez nenhuma dessas leituras alcance a questão principal. A pergunta não é se a inteligência artificial escuta melhor. A pergunta é por que tantos indivíduos passaram a perceber determinadas interfaces digitais como espaços mais acessíveis para falar sobre sofrimento. A disponibilidade permanente é parte da resposta. Não existem filas. Não e...