A LOKA DO ROLÊ E O NARCISO QUE CHEGOU ATRASADO Eu tenho uma mania que, segundo alguns especialistas da internet, provavelmente precisa ser trabalhada. Eu gosto de desconfiar de frases bonitas. Não é que eu seja contra frase bonita. Eu até gosto. O problema é que frase bonita tem uma capacidade impressionante de esconder cadáver embaixo do tapete. Você olha, acha elegante, compartilha, coloca uma música triste por trás e pronto: nasceu mais uma explicação para uma vida que ninguém teve tempo de viver direito. “Conhece-te a ti mesmo.” Bonito. Parece profundo. Parece antigo. Parece que alguém acendeu uma vela, respirou fundo e descobriu uma verdade escondida dentro da própria alma. Só que eu fico pensando: Conhece-te quando, meu irmão? Porque existe uma pequena inconveniência chamada tempo. E existe outra chamada corpo. E tem uma terceira, que costuma ser ainda mais mal-educada: a vida. A vida não espera você terminar o processo de autoconhecimento. A vida acontece. O aluguel ...
A VIDA DEPOIS DA MORTE Quando o passado não consegue mais virar história Artigo crônico-ensaístico — Mais Perto da Ignorância Resumo Este ensaio parte de um acontecimento particular de morte que, anos depois, retorna à circulação pública por meio de novas notícias, reativação investigativa e produção audiovisual. O acontecimento não é utilizado para determinar a causa da morte, estabelecer diagnósticos retrospectivos ou representar a totalidade da população, da mídia ou das plataformas digitais. Ele funciona como documento situado para tensionar uma operação discursiva possível: a transformação de uma vida interrompida em matéria continuamente disponível para novas interpretações. A hipótese do Mais Perto da Ignorância (MPI) é que, sob condições contemporâneas de circulação digital, a permanência técnica de informações sobre uma pessoa pode não equivaler à preservação de sua historicidade ou de sua alteridade. O passado pode permanecer disponível, reproduzível e reativável ...