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Reflexões críticas sobre sociedade, tecnologia e existência. Explore e se aproxime da ignorância

Quando a lei chega depois do corpo

Quando a lei chega depois do corpo Um diálogo da Loka do Rolê com Durkheim, Freud e Becker A Loka do Rolê: Vocês gostam de chamar isso de exceção. “Caso extremo.” “Desvio.” “Monstruosidade.” Eu chamo de rotina que escapou do tapete. Porque o resto — o que não vira manchete — vocês varrem todo dia com discurso adulto e consciência limpa. Émile Durkheim: Nenhum ato nasce no vácuo. Quando a norma enfraquece, o desvio aparece. A violência não é acidente individual, é sintoma coletivo. Falha de regulação. Falha de limite. A Loka do Rolê: Eu sei. Por isso que ninguém devia fingir surpresa. Quando todo mundo aprende que limite é grosseria e autoridade é abuso, alguém vai testar até onde dá. Sempre testa. A pergunta não é por que aconteceu. É: por que vocês achavam que não ia acontecer? Durkheim: O choque público cumpre função ritual. A indignação recompõe a moral coletiva. A punição restaura a confiança no sistema. A Loka do Rolê: Ou seja: a punição serve mais para aca...
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Quando a lei chega depois do corpo

Quando a lei chega depois do corpo (Caso Orelha, ECA e o limite que ninguém quer sustentar) A lei chegou. Sempre chega. Chega depois do corpo caído. Depois do sangue limpo da calçada. Depois da indignação organizada. Depois do choque convertido em manchete. A Polícia Civil concluiu o inquérito. O Ministério Público foi acionado. O Judiciário agora decide. Tudo em ordem. Tudo funcionando. Tudo civilizado. A morte do cão Orelha, espancado até não responder mais ao mundo, virou processo, artigo, debate jurídico. Virou também um dilema pedagógico mal disfarçado: o que fazer com o adolescente apontado como autor? A resposta técnica é clara. O Estatuto da Criança e do Adolescente existe exatamente para isso. O ECA não é frágil. Ele é deliberadamente contido. Internação não é regra. É exceção. É medida extrema. É o último recurso quando o Estado reconhece que não conseguiu operar antes. E é aqui que a Loka do Rolê começa a rir — não de humor, mas de lucidez cansada. Porque a socie...

Ninguém sonha com celulares porque eles já colonizaram a vigília

Ninguém sonha com celulares porque eles já colonizaram a vigília Autor José Antônio Lucindo da Silva Projeto Mais Perto da Ignorância (MPI) Palavras-chave subjetividade, sonho, desejo, tecnologia, discurso, mal-estar 👉 SEGUE O LINK DA MATERIAL TRAZIDO;  https://revistagalileu.globo.com/sociedade/curiosidade/noticia/2026/02/por-que-seu-celular-nao-costuma-aparecer-nos-seus-sonhos.ghtml  Por que quase ninguém sonha com celulares se passa o dia inteiro grudado neles? A pergunta parece curiosa, mas esconde um problema mais incômodo: talvez não sonhemos com celulares porque eles já ocupam o lugar onde o sonho deveria operar. Este artigo, escrito na voz da Loka do Rolê, tensiona a ideia de que a ausência do celular no sonho indicaria sua irrelevância psíquica. Pelo contrário: a tecnologia contemporânea não aparece no sonho porque deixou de ser objeto e se tornou ambiente. A partir de Freud, André Green, Byung-Chul Han e da crítica à cultura da performance, o...

Domar a dopamina!

Domar a dopamina O título já chega errado. E chega com a arrogância típica de quem nunca carregou um corpo até o fim do dia. “Domar a dopamina.” Como se fosse bicho. Como se fosse objeto. Como se fosse um frasco. Como se desse para comprar no balcão, pagar no Pix e sair andando mais leve. Dopamina não é metáfora. O discurso é. Dopamina é operação biológica. O discurso é o atraso tentando virar comando. O humano inventa palavra para se sentir no controle do que já está acontecendo por baixo. Sempre foi assim. É a parte cômica. A parte trágica não vende, então fica só o cômico. Dopamina não sabe o que é “domar”. Dopamina não sabe o que é “vontade”. Dopamina não sabe o que é “autocuidado”. Ela só responde. Ela só modula. Ela só participa de circuitos que não pediram autorização para existir. E aí vem a notícia com a cara de jornalismo sério e o coração de manual. Ela fala de prazer e alerta. Ela fala de vício e risco. Ela fala de um sujeito que poderia — veja a beleza do verbo...

A ERA DOS EXAUSTOS NÃO É TEMA — É CHÃO

A ERA DOS EXAUSTOS NÃO É TEMA — É CHÃO Acordar cansado não é sintoma. É método. Dormir cansado não é falha do corpo. É compatibilidade com o funcionamento. Chamaram de “era dos exaustos” como quem dá nome técnico para infiltração estrutural. Não é diagnóstico. É recibo. O cansaço virou paisagem. Ninguém estranha mais. Só administra. O sujeito não cai. Ele continua andando cansado. Isso é eficiência. Dizem que é burnout. Depois dizem que não é bem burnout. Que é exaustão difusa. Que é pós-pandemia. Que é desequilíbrio. Qualquer nome serve, desde que não encoste na causa. A causa não é excesso de tarefas. É a transformação da vida inteira em tarefa. O trabalho não termina. O descanso não começa. O corpo vira interface. A mente, planilha. Primeiro existe o corpo. Depois, a sobrevivência material. Depois, o discurso. Quando essa ordem se inverte, o discurso começa a falar alto demais. E quanto mais ele fala, menos a vida aparece. Nesse cenário, buscar no...

Manual do Sofrimento Pronto para Uso — Leia Depois do Expediente

Manual do Sofrimento Pronto para Uso — Leia Depois do Expediente AUTOR José Antônio Lucindo da Silva PROJETO Mais Perto da Ignorância (MPI): PALAVRAS-CHAVE sofrimento, discurso, sintoma, identidade, mídia, precarização, desejo RESUMO: Eu escrevo isso como quem lê e-mail depois do expediente: sem paciência, com o corpo cansado e a cabeça já atravessada por discursos que prometem explicar tudo o que dói. Hoje, o sofrimento não pede elaboração; ele pede legenda. Não se vive mais o sintoma — publica-se. O mal-estar deixou de ser tensão para virar identidade compartilhável, pronta para circular entre feeds, relatórios, sites e links “importantes”. Nada aqui nega a dor. O que se tensiona é o modo como ela foi sequestrada pela discursividade técnica, que antecipa respostas, organiza pertencimentos e elimina o risco do desejo. A Loka do Rolê observa esse cenário sem oferecer saída: quando o sintoma vira modo de existir discursivo, o corpo fica para trás e a vida vira no...

O psicólogo de giz e o terapeuta de troco.

O psicólogo de giz e o terapeuta de troco (Crônica/ensaio da Loka do Rolê) Eu adoro quando o sistema decide “cuidar”. Ele não aumenta salário. Não diminui sala lotada. Não contrata equipe. Não abre CAPSi suficiente. Não desentope UBS. Não devolve tempo pros pais. Não tira o professor do modo sobrevivência. Mas lança cartilha. Cartilha é o nome elegante do velho truque: põe a culpa no elo mais fraco e chama de “responsabilidade compartilhada”. Compartilhada com quem? Com o professor que já tá dividido em quatro, corrigindo prova com dor no punho e tomando café frio como se fosse método pedagógico. Eu vejo o teatro inteiro. De um lado, o professor. Que já nasceu na profissão impossível, como Freud esfregou na cara de todo mundo sem emoji e sem legenda: educar é impossível. Impossível porque o sujeito não obedece. Impossível porque a vida não respeita planejamento. Impossível porque o real entra na sala de aula sem bater. Impossível porque não existe linha reta entre “conteúdo...