A VONTADE NÃO OPERA SOZINHA Dependência, Livre-Arbítrio e a Ilusão da Soberania Crônica-Ensaio | Mais Perto da Ignorância Talvez exista um lugar onde a discussão sobre livre-arbítrio encontre sua prova mais desconfortável. Não na filosofia. Não na neurociência. Não na metafísica. Mas na dependência. Porque enquanto filósofos discutem liberdade, o dependente costuma estar tentando sobreviver ao próximo impulso. Essa diferença parece pequena. Não é. Ela separa o discurso da experiência. Durante séculos discutimos se o ser humano é livre. Mas a dependência produz uma pergunta muito mais brutal. O que acontece quando alguém continua fazendo aquilo que reconhece como destrutivo? Não uma vez. Não duas. Mas repetidamente. Apesar das consequências. Apesar das perdas. Apesar da dor. Apesar do desejo de parar. A partir desse ponto, a discussão deixa de ser abstrata. Torna-se clínica. Torna-se material. Torna-se observável. E talvez seja exatamente por isso que a adicção continue inco...
O TEMPO NÃO PARTICIPA DO DEBATE Crônica-Ensaio | Mais Perto da Ignorância Outro dia encontrei uma discussão interminável sobre livre-arbítrio. Era uma dessas discussões modernas que adoram parecer profundas porque utilizam palavras grandes, gráficos coloridos, imagens do cérebro iluminadas por ressonâncias magnéticas e uma quantidade razoável de convicção. De um lado, estavam aqueles que defendiam a liberdade humana. Do outro, aqueles que afirmavam que tudo já estava determinado. No meio da confusão apareceu Robert Sapolsky dizendo que talvez aquilo que chamamos de escolha tenha começado décadas antes do momento em que acreditamos ter decidido. Confesso que achei interessante. Mas não pelo motivo que muita gente imagina. O que me chamou atenção não foi a questão do livre-arbítrio. Foi o desaparecimento do tempo. Porque enquanto todos discutiam quem escolheu, ninguém parecia notar que a vida já havia acontecido. A escolha já tinha virado passado. O corpo já tinha envelhecido...