Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Reflexões críticas sobre sociedade, tecnologia e existência. Explore e se aproxime da ignorância

Trabalhar seis dias não é virtude. É estrutura.

Trabalhar seis dias não é virtude. É estrutura. Autor: José Antônio Lucindo da Silva Projeto: Mais Perto da Ignorância Palavras-chave: trabalho, tempo, 6x1, corpo, fadiga, política, produtividade, materialidade. A discussão sobre o fim da escala 6x1 voltou ao centro do debate público brasileiro. Manchetes falam em dignidade, risco econômico, modernização ou ameaça ao emprego. A Loka do Rolê não entra nesse ringue para escolher lado moral. Ela observa o funcionamento. O que está em disputa não é apenas jornada de trabalho, mas quem controla o tempo de vida. Entre discursos de crescimento e promessas de justiça social, o corpo segue sendo a variável silenciosa. O debate político negocia horas. A economia calcula impacto. A fadiga não vira manchete. Este texto tensiona o discurso dominante, expõe a engrenagem material e articula o impasse à tradição crítica — de Marx a Freud, de Han a Zuboff — sem prescrever saída, sem oferecer consolo. Apenas nomeando o que opera....
Mensagens recentes

O Adolescente como Matéria-Prima: Narciso, Algoritmo e o Mercado da Angústia

O Adolescente como Matéria-Prima: Narciso, Algoritmo e o Mercado da Angústia 🎬 CANAL DO YOUTUBE. Autor José Antônio Lucindo da Silva Projeto Mais Perto da Ignorância — com A Loka do Rolê Palavras-chave narcisismo negativo; capitalismo de vigilância; sociedade do cansaço; identidade; adolescência; angústia; soberania do eu; poder instrumentário. Resumo Há quem diga que estamos diante de uma “crise geracional”. Outros preferem falar em “emergência de saúde mental”. O discurso oscila entre o alarme e a estatística. O que raramente se nomeia é o arranjo estrutural: a infância e a adolescência tornadas infraestrutura de dados. Narciso deixou de se mirar na água; agora se mira numa superfície programada para devolver mais do que reflexo — devolve demanda. André Green chamou de trabalho do negativo; Byung-Chul Han falou do cansaço como sintoma da positividade compulsória; Zuboff descreveu a captura da experiência como matéria-prima. O que se apresenta como liberdade d...

Quando o Tempo Encurta, o Corpo Paga a Conta

Quando o Tempo Encurta, o Corpo Paga a Conta Autor: José Antônio Lucindo da Silva Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI) Palavras-chave: trabalho, tempo, produtividade, corpo, economia política, escala 6x1, materialidade, discurso Resumo: Reduzir a jornada de trabalho virou o novo mantra civilizatório da semana. Os dados circulam com entusiasmo: menos horas, mais vida, mais dignidade. Mas o discurso corre mais rápido que o corpo que trabalha. Relatórios do Ipea, análises econômicas e colunas de opinião disputam o enquadramento do problema como se o tempo fosse uma variável administrativa neutra. A produtividade aparece como fetiche técnico; o custo do trabalho, como ameaça abstrata; o trabalhador, como ruído estatístico. Esta crônica não propõe solução, não defende modelo e não oferece síntese conciliadora. Ela descreve o funcionamento: quando o debate sobre jornada se desloca da materialidade do corpo para o ideal econômico, o tempo não liberta — ele apenas muda de nome. ...

QUEM GUARDA O PASSADO NÃO PRECISA GOVERNAR

QUEM GUARDA O PASSADO NÃO PRECISA GOVERNAR Autor: José Antônio Lucindo da Silva Projeto: Mais Perto da Ignorância — A Loka do Rolê Palavras-chave: arquivo, poder, vigilância, retro-política, narrativa, tecnologia, memória, tempo Chamaram de revelação. Chamaram de vazamento. Chamaram de transparência histórica. Mas o que se apresenta como escândalo tardio não inaugura nada. Apenas confirma o funcionamento. Arquivos reaparecem quando já não interferem no curso dos acontecimentos, mas ajudam a organizar o discurso sobre eles. O passado não retorna para corrigir o presente — retorna para explicar o tipo de presente que produz esse tipo de arquivo. Esta crônica não investiga culpados, não absolve atores e não promete esclarecimento. Ela observa o arquivo como técnica política, o tempo como lente diagnóstica e a narrativa como operador de enquadramento. Não se trata de controle do futuro, nem de destruição do passado, mas de armazenamento sistemático como forma de est...

Saúde Mental Não Paga Boleto

Saúde Mental Não Paga Boleto Autor: José Antônio Lucindo da Silva: Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI): Palavras-chave: trabalho; materialidade; saúde mental; discurso; precarização; subjetividade; capitalismo tardio; exclusão simbólica. Resumo: Falam de saúde mental como se ela fosse anterior ao corpo, como se existisse antes da fome, antes da conta de luz, antes do aluguel atrasado. O discurso contemporâneo transforma sofrimento em pauta é pauta em mercadoria, mas só depois que a materialidade mínima já está garantida. Este texto tensiona a ideia de “saúde mental no trabalho” mostrando que ela só existe depois que o trabalho já operou sua função central: garantir pertencimento simbólico. Fora do trabalho, o sofrimento não vira diagnóstico — vira silêncio. O desempregado não é um sujeito adoecido: é um sujeito ilegível. A saúde mental surge como nova moral do trabalho, ao mesmo tempo em que administra seus restos e protege a estrutura que adoece. Não há pro...

Quando a lei chega depois do corpo

Quando a lei chega depois do corpo Um diálogo da Loka do Rolê com Durkheim, Freud e Becker A Loka do Rolê: Vocês gostam de chamar isso de exceção. “Caso extremo.” “Desvio.” “Monstruosidade.” Eu chamo de rotina que escapou do tapete. Porque o resto — o que não vira manchete — vocês varrem todo dia com discurso adulto e consciência limpa. Émile Durkheim: Nenhum ato nasce no vácuo. Quando a norma enfraquece, o desvio aparece. A violência não é acidente individual, é sintoma coletivo. Falha de regulação. Falha de limite. A Loka do Rolê: Eu sei. Por isso que ninguém devia fingir surpresa. Quando todo mundo aprende que limite é grosseria e autoridade é abuso, alguém vai testar até onde dá. Sempre testa. A pergunta não é por que aconteceu. É: por que vocês achavam que não ia acontecer? Durkheim: O choque público cumpre função ritual. A indignação recompõe a moral coletiva. A punição restaura a confiança no sistema. A Loka do Rolê: Ou seja: a punição serve mais para aca...

Quando a lei chega depois do corpo

Quando a lei chega depois do corpo (Caso Orelha, ECA e o limite que ninguém quer sustentar) A lei chegou. Sempre chega. Chega depois do corpo caído. Depois do sangue limpo da calçada. Depois da indignação organizada. Depois do choque convertido em manchete. A Polícia Civil concluiu o inquérito. O Ministério Público foi acionado. O Judiciário agora decide. Tudo em ordem. Tudo funcionando. Tudo civilizado. A morte do cão Orelha, espancado até não responder mais ao mundo, virou processo, artigo, debate jurídico. Virou também um dilema pedagógico mal disfarçado: o que fazer com o adolescente apontado como autor? A resposta técnica é clara. O Estatuto da Criança e do Adolescente existe exatamente para isso. O ECA não é frágil. Ele é deliberadamente contido. Internação não é regra. É exceção. É medida extrema. É o último recurso quando o Estado reconhece que não conseguiu operar antes. E é aqui que a Loka do Rolê começa a rir — não de humor, mas de lucidez cansada. Porque a socie...