NÃO É FALTA DE TEMPO. É RECUSA AO REGIME DA DISPONIBILIDADE. Existe uma mentira silenciosa sustentando as conversas digitais: a de que todos estão sempre acessíveis. O celular vibra e inaugura uma micro-ordem. Responder vira dever. Demorar vira suspeita. Visualizar e não responder vira quase um crime relacional. Não é comunicação. É vigilância distribuída. A cultura da disponibilidade permanente não surgiu da psicologia — surgiu da infraestrutura. Plataformas foram desenhadas para abolir intervalos. O “online”, o “digitando…”, o “visto por último” são dispositivos de controle suave. Não impõem resposta; produzem ansiedade suficiente para que você se imponha a si mesmo. O corpo continua biológico. A expectativa, não. Daí nasce a ansiedade digital: uma forma de angústia sem objeto claro, mas com gatilho constante. Cada notificação ativa um circuito de alerta. Não responder rapidamente produz desconforto — não porque exista urgência real, mas porque o sistema foi calibrado par...
A Carta Que Voltou Tarde Demais Palavras chaves; carta, resposta, Freud, psicanálise, supereu, mal-estar, sexualidade, norma social, desejo, moral, comentário público, redes sociais, algoritmo, visibilidade, intimidade, discurso midiático, transferência, ética da resposta, deslocamento simbólico, carta aberta, Loka do Rolê, fratura simbólica, crítica cultural, contemporaneidade, Caro Dr. Freud, capítulo ensaístico. (Resposta ao Dr. Freud na Era do Comentário Público) Caro Dr. Freud, Escrevo-lhe novamente, mas agora de forma mais precisa. Segundo alguns dados midiáticos recentemente difundidos, um jornalista de alta credibilidade foi interpelado publicamente por uma seguidora que lhe pediu que jamais tornasse pública sua suposta orientação sexual. A interpelação veio revestida de vergonha e oração, como se moral e cuidado fossem sinônimos. Não houve crime. Não houve escândalo. Houve discurso. A resposta do jornalista foi direta: delimitou fronteira, nomeou o cará...