PAÇOCA E PAÇOQUINHA: O DIA EM QUE A PRAÇA VIROU ARGUMENTO E O BOLETO CONTINUOU SENDO BOLETO Autor: José Antônio Lucindo da Silva Projeto: Mais Perto da Ignorância — MPI Palavras-chave: materialidade, território, trabalho, renda, discursividade digital, praça pública, conflito, comércio, necessidade econômica, redes sociais, pertencimento, legitimidade, subjetividade, circulação discursiva, finitude. RESUMO Duas atividades econômicas chegam ao mesmo território e, antes que alguém consiga terminar de montar uma barraca, a situação já ganhou personagens, versões, indignações, comentários, justificativas e uma pequena indústria de certezas. Aqui entram Paçoca e Paçoquinha — não como pessoas, nem como lados, mas como nomes provisórios para mercadorias e atividades que tornam visível uma questão anterior ao discurso: a necessidade material de trabalhar e produzir renda. Este ensaio não pretende decidir quem tem razão. Aliás, essa seria provavelmente a maneira mais rápid...
PARTE I — QUANDO O BOTÃO VIRA A EXPLICAÇÃO O caso Discord e a fabricação de uma solução que cabe numa manchete Uma adolescente de 13 anos morreu em Mato Grosso do Sul depois de um episódio transmitido ao vivo em ambiente digital. A investigação policial que se seguiu produziu um dado material incontornável: não se tratava simplesmente de uma relação entre uma adolescente e um aplicativo. Havia outras pessoas, grupos organizados, diferentes ambientes digitais e uma investigação que atravessou mais de um estado brasileiro. Em 4 de agosto de 2026, a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul deflagrou a Operação Lívia e informou a apreensão de adolescentes em cinco estados, investigados por participação em uma rede associada à indução de práticas violentas contra crianças e adolescentes. Equipamentos eletrônicos foram apreendidos para perícia e a investigação permaneceu sob segredo de Justiça. Esse ponto é importante porque desloca imediatamente o problema. O acontecimento não nasceu...