A CAUSA NUNCA CHEGA SOZINHA Hipótese Clínico-Discursiva Provisória sobre Dependência, Materialidade e Condições de Produção do Sofrimento PARTE 1 — CONTRATO DE LEITURA, FUNDAMENTAÇÃO METODOLÓGICA E INTRODUÇÃO DA HIPÓTESE "Talvez o maior equívoco da nossa época não seja responder errado. Talvez seja fazer a pergunta tarde demais." Resumo O presente texto constitui uma hipótese clínico-discursiva elaborada no âmbito do Dossiê #nsdp (Notícias sobre Dependências Químicas e outras Dependências), desenvolvido pelo projeto Mais Perto da Ignorância (MPI). Sua finalidade não é oferecer uma teoria definitiva acerca da dependência, tampouco substituir modelos explicativos consolidados na Psicologia, na Psiquiatria, na Saúde Pública ou nas Neurociências. A proposta consiste em deslocar o foco analítico do sintoma para as condições materiais, históricas, biológicas, psicológicas, sociais, culturais, discursivas e digitais que podem anteceder sua emergência. Parte-se da hipótes...
A VONTADE NÃO OPERA SOZINHA Dependência, Livre-Arbítrio e a Ilusão da Soberania Crônica-Ensaio | Mais Perto da Ignorância Talvez exista um lugar onde a discussão sobre livre-arbítrio encontre sua prova mais desconfortável. Não na filosofia. Não na neurociência. Não na metafísica. Mas na dependência. Porque enquanto filósofos discutem liberdade, o dependente costuma estar tentando sobreviver ao próximo impulso. Essa diferença parece pequena. Não é. Ela separa o discurso da experiência. Durante séculos discutimos se o ser humano é livre. Mas a dependência produz uma pergunta muito mais brutal. O que acontece quando alguém continua fazendo aquilo que reconhece como destrutivo? Não uma vez. Não duas. Mas repetidamente. Apesar das consequências. Apesar das perdas. Apesar da dor. Apesar do desejo de parar. A partir desse ponto, a discussão deixa de ser abstrata. Torna-se clínica. Torna-se material. Torna-se observável. E talvez seja exatamente por isso que a adicção continue inco...