Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Reflexões críticas sobre sociedade, tecnologia e existência. Explore e se aproxime da ignorância

A SERINGA NÃO INJETA SENTIDO.

A SERINGA NÃO INJETA SENTIDO. (ou: quando o laboratório vira altar). Autor: José Antônio Lucindo da Silva Projeto: Mais Perto da Ignorância Palavras-chave: dependência química; vacina anti-droga; mal-estar estrutural; recaída; discurso biomédico; Loka do Rolê. Vacinas contra determinadas drogas são apresentadas como avanço científico capaz de reduzir recaídas ao bloquear a molécula antes que ela alcance o cérebro. Descrição técnica correta. A Loka do Rolê não nega laboratório, anticorpo ou pesquisa clínica. O problema começa quando o discurso transforma intervenção biomédica em redenção moral. Este texto menciona esse deslizamento. Nomeia o impasse entre molécula e estrutura, entre técnica e mundo, entre efeito farmacológico e sofrimento organizado socialmente. A seringa pode neutralizar a droga. Não neutraliza a precariedade, o vazio, a lógica de desempenho. O avanço é real. A salvação é a narrativa. A técnica sobe ao palco. O mercado distribui os ingressos. A ...
Mensagens recentes

#kde1984CADÊ 1984? — O FILME-METRALHADORA E A PAZ DE TELA.

#kde1984 CADÊ 1984? — O FILME-METRALHADORA E A PAZ DE TELA Antes de falar do filme, é preciso explicar o selo que abre este texto. #kde1984 não é nostalgia literária. Não é slogan alarmista. Não é comparação simplista com ditadura. É um operador de deslocamento. “Cadê 1984?” pergunta por que ainda esperamos um tirano clássico — Estado centralizado, polícia ideológica, coerção explícita — enquanto o regime contemporâneo opera por infraestrutura econômica de dados, saturação informacional e modulação algorítmica. Orwell diagnosticou a soberania política. #kde1984 analisa soberania informacional. A vigilância não desapareceu. Mudou de arquitetura. Com isso claro, voltamos ao filme. Dizem que Orwell: 2+2=5 é “filme-metralhadora”. A expressão já vem com o barulho embutido: não é biografia contemplativa; é rajada de imagens, arquivos, guerra, propaganda, líderes contemporâneos e o texto de Orwell como fio narrativo. A tese explícita do documentário: a pós-verdade não ...

A VACINA NÃO SALVA O SUJEITO

A VACINA NÃO SALVA O SUJEITO Corpo, promessa biomédica e o mercado da abstinência 1. Introdução — O corpo não é o discurso O corpo não lê manchetes. O corpo responde a estímulos químicos. Antes de qualquer debate moral, jurídico ou motivacional, existe um dado material: a dependência química envolve alterações neurobiológicas mensuráveis. Alterações no sistema dopaminérgico mesolímbico, no circuito de recompensa, na plasticidade sináptica. O corpo aprende. O corpo repete. O corpo registra. Quando surge a proposta de uma vacina contra substâncias psicoativas — como cocaína ou opioides — estamos diante de uma intervenção que atua diretamente na interface entre molécula e receptor. Não é discurso. É bioquímica. Mas o problema começa quando a intervenção biológica é convertida em promessa de reorganização subjetiva. É aqui que o MPI interrompe a euforia. 2. Descrição Factual — O que a vacina faz (e o que não faz) Pesquisas conduzidas por centros como a UNIFESP e ins...

CONSUMO DE DROGAS ILÍCITAS NO BRASIL (2012–2023): DADOS EPIDEMIOLÓGICOS E VARIAÇÕES DEMOGRÁFICAS

CONSUMO DE DROGAS ILÍCITAS NO BRASIL (2012–2023): DADOS EPIDEMIOLÓGICOS E VARIAÇÕES DEMOGRÁFICAS O consumo de drogas ilícitas no Brasil tem sido acompanhado por levantamentos populacionais periódicos que permitem observar tendências ao longo do tempo. Este texto apresenta uma síntese descritiva e contextualizada desses dados, com base em pesquisas nacionais representativas e literatura científica reconhecida, sem julgamento moral, prescrição ou personalização do fenômeno. 1. Contexto metodológico O Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD) é uma pesquisa domiciliar com amostra representativa da população brasileira, conduzida por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e vinculada ao Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (OBID), do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). A terceira edição, LENAD III (2022–2024), mantém comparabilidade metodológica com levantamentos anteriores, como o realizado em 2012, permitin...

QUANDO O BEM VIRÁ COREOGRAFIA: ARENDT, BRODSKY E O CONFORTO DE NÃO PENSAR

QUANDO O BEM VIRÁ COREOGRAFIA: ARENDT, BRODSKY E O CONFORTO DE NÃO PENSAR Há uma frase de Hannah Arendt que atravessou o século como um alerta moral: o mal se torna banal quando as pessoas deixam de pensar. A leitura clássica dessa afirmação costuma produzir um alívio rápido — o problema seriam os que não refletem, os burocratas obedientes, os que executam ordens sem examinar consequências. O mal, então, estaria ligado à ausência de pensamento. Mas talvez a nossa cultura tenha aprendido a repetir essa frase sem sustentar seu peso. Quando Joseph Brodsky sobe ao púlpito do Williams College, em 1984, ele começa de outro ponto: vocês inevitavelmente encontrarão o Mal, e ele aparecerá sob o disfarce do bem . A estrutura da vida é tal que aquilo que chamamos de virtude pode ser usado do avesso com facilidade . Aqui a tensão começa. Arendt observa em Eichmann a incapacidade de julgar. Brodsky observa a plasticidade da moral. Arendt denuncia a suspensão do pensamento; B...

UMA VEZ ADICTO, SEMPRE ADICTO?

UMA VEZ ADICTO, SEMPRE ADICTO? Crítica à Fixação Identitária na Adicção 1. Introdução O enunciado “uma vez adicto, sempre adicto”, presente na literatura de Narcóticos Anônimos (NA, 2013), consolidou-se como fórmula preventiva e identitária no campo da recuperação. Sua função declarada é impedir a negação da vulnerabilidade e manter o sujeito atento ao risco de recaída. Entretanto, quando essa formulação deixa de ser instrumento clínico e passa a operar como definição permanente do sujeito, surgem implicações conceituais e éticas relevantes. O problema não está na ideia de vulnerabilidade persistente, mas na conversão dessa vulnerabilidade em identidade essencial. O presente texto analisa criticamente essa formulação a partir de três eixos: (1) identidade e definição permanente do sujeito; (2) materialidade neurobiológica; (3) temporalidade e reconstrução narrativa. O objetivo não é negar a gravidade da adicção, mas neutralizar sua leitura punitiva e essencializ...

A TELA NÃO INVENTOU O SINTOMA. ELA SÓ TROUXE LUZ.

A TELA NÃO INVENTOU O SINTOMA. ELA SÓ TROUXE LUZ. Autor: José Antônio Lucindo da Silva Projeto: Mais Perto da Ignorância — A Loka do Rolê Palavras-chave: tecnologia, infância, sintoma, materialidade, discurso alarmista, capitalismo de atenção, historicidade. Resumo Toda época descobre um vilão pedagógico. Já foi o romance barato, já foi o rádio, já foi a televisão, já foi o videogame. Agora é a tela. O discurso corre mais rápido que o método. Manchetes falam em “destruição cerebral”, “burnout digital aos oito anos”, “infância sequestrada”. A Loka do Rolê observa. Não para defender tecnologia. Nem para demonizar. Mas para lembrar que o sintoma nunca nasce do discurso — ele nasce do atravessamento material que reorganiza o corpo. A escrita reorganizou a memória. A prensa reorganizou a verdade. A fábrica reorganizou o tempo. A plataforma reorganiza a atenção. E a gente finge que o problema é o objeto. Não é. É a estrutura. E estrutura não cabe em vídeo de 30 segundos. ...