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O FUTURO É SEMANA QUE VEM — E O PRESENTE VIROU LUGAR DE RESPOSTA

O FUTURO É SEMANA QUE VEM — E O PRESENTE VIROU LUGAR DE RESPOSTA A frase circula com facilidade:  “o futuro é semana que vem”. Ela aparece limpa, objetiva, quase elegante. Não exige esforço para ser entendida. Não pede tempo. Não pede elaboração. Ela se instala. E talvez seja exatamente isso que a torna eficiente. Porque não se trata de uma descrição do tempo. Trata-se de uma reorganização dele. Quando o futuro é colocado tão próximo assim, o presente deixa de funcionar como espaço de experiência e passa a operar como espaço de resposta. Não é mais onde algo acontece — é onde algo precisa ser entregue. O tempo deixa de ser vivido e passa a ser cobrado. O problema é que essa cobrança não nasce da materialidade. Ela nasce do discurso. Os dados que sustentam essa narrativa existem. E são reais. Relatórios do INEP, cruzados com dados do PISA da OCDE, mostram queda no desempenho em matemática, leitura e ciências em diversos contextos, inclusive no Brasil. Estudos recentes as...

A mente virou código, mas o corpo continua pagando a conta

A mente virou código, mas o corpo continua pagando a conta Introdução — a falha da escuta: A cena se repete: fala-se de saúde mental como se fosse um problema de interpretação, de discurso, de narrativa individual. Mas o que aparece não é falta de explicação — é excesso de mediação. A escuta falha não porque ninguém fala. Falha porque tudo já chega organizado, classificado, nomeado antes de ser vivido. O sujeito não fala. Ele preenche categorias. E quando tudo vira categoria, ninguém escuta mais nada. Fundamentação teórica: Descrição factual: Os sistemas diagnósticos contemporâneos, como o DSM-5, organizam o sofrimento psíquico em classificações estruturadas por critérios observáveis, padronizados e replicáveis . Na neurociência, o funcionamento mental é associado a circuitos, neurotransmissores e padrões de ativação cerebral, articulando comportamento e biologia . Na psicanálise, por outro lado, o sofrimento não se reduz a categorias fixas: ele emerge da singularidade da e...

A CIVILIZAÇÃO TAMBÉM COZINHA FEIJÃO

A CIVILIZAÇÃO TAMBÉM COZINHA FEIJÃO José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo CRP 06/172551 Projeto: Mais Perto da Ignorância Eu passei tempo demais olhando para a internet como quem olha para o céu. Não por encanto. Por erro de escala. A tela sempre ajuda a produzir esse engano. Ela achata tudo. Uma guerra é um meme. Um colapso logístico e um comentário espirituoso. Um caminhão carregado de arroz e uma análise sobre o futuro da civilização. Tudo do mesmo tamanho. Tudo cabendo no mesmo retângulo luminoso. Tudo fingindo equivalência. Foi aí que o truque ficou evidente. Não imediatamente. Essas coisas nunca ficam evidentes imediatamente. Primeiro elas circulam. Depois ganham nome. Depois viram opinião. Depois parecem realidade. Só muito mais tarde aparece o detalhe constrangedor: aquilo que sustenta o mundo quase nunca aparece com a mesma força daquilo que se comenta. Eu fiquei olhando para isso como quem encosta o ouvido numa parede para escutar o enc...

A VACINA NÃO SALVA O SUJEITO

A VACINA NÃO SALVA O SUJEITO Corpo, promessa biomédica e o mercado da abstinência 1. Introdução — O corpo não é o discurso O corpo não lê manchetes. O corpo responde a estímulos químicos. Antes de qualquer debate moral, jurídico ou motivacional, existe um dado material: a dependência química envolve alterações neurobiológicas mensuráveis. Alterações no sistema dopaminérgico mesolímbico, no circuito de recompensa, na plasticidade sináptica. O corpo aprende. O corpo repete. O corpo registra. Quando surge a proposta de uma vacina contra substâncias psicoativas — como cocaína ou opioides — estamos diante de uma intervenção que atua diretamente na interface entre molécula e receptor. Não é discurso. É bioquímica. Mas o problema começa quando a intervenção biológica é convertida em promessa de reorganização subjetiva. É aqui que o MPI interrompe a euforia. 2. Descrição Factual — O que a vacina faz (e o que não faz) Pesquisas conduzidas por centros como a UNIFESP e ins...

QUANDO O BEM VIRÁ COREOGRAFIA: ARENDT, BRODSKY E O CONFORTO DE NÃO PENSAR

QUANDO O BEM VIRÁ COREOGRAFIA: ARENDT, BRODSKY E O CONFORTO DE NÃO PENSAR Há uma frase de Hannah Arendt que atravessou o século como um alerta moral: o mal se torna banal quando as pessoas deixam de pensar. A leitura clássica dessa afirmação costuma produzir um alívio rápido — o problema seriam os que não refletem, os burocratas obedientes, os que executam ordens sem examinar consequências. O mal, então, estaria ligado à ausência de pensamento. Mas talvez a nossa cultura tenha aprendido a repetir essa frase sem sustentar seu peso. Quando Joseph Brodsky sobe ao púlpito do Williams College, em 1984, ele começa de outro ponto: vocês inevitavelmente encontrarão o Mal, e ele aparecerá sob o disfarce do bem . A estrutura da vida é tal que aquilo que chamamos de virtude pode ser usado do avesso com facilidade . Aqui a tensão começa. Arendt observa em Eichmann a incapacidade de julgar. Brodsky observa a plasticidade da moral. Arendt denuncia a suspensão do pensamento; B...

A Loka do Rolê, e a Fé do Armeiro

O preço da bala é o mesmo do silêncio “Dar armas a homens que oferecem apenas dinheiro, sem ao menos respeitar pessoas ou princípios, dará a eles o direito de lutar, mas não dará direito de julgar.”   — Shaw. A Loka escuta isso e ri — um riso seco, sem eco, desses que doem mais que a bala. Porque o que Shaw chama de “dar armas” não é metáfora de guerra, é diagnóstico social. Hoje, as armas são as telas, e o dinheiro é o algoritmo. Cada curtida é um gatilho automático. Cada post pago é um disparo sem sangue — e, ainda assim, letal. A Loka diria que vivemos o tempo em que a consciência foi terceirizada para o saldo bancário. O homem que mata já não precisa sujar as mãos — basta financiar o discurso. E o homem que paga acredita que a ética é um investimento com retorno. É o delírio mais moderno: acreditar que se pode comprar o direito de julgar. Mas julgamento sem escuta é ruído. O poder, quando não escuta, apodrece. O dinheiro, quando substitui a palavra, cheira a co...

A velhice como falência programada

A velhice como falência programada 🎧 ouça nosso Podcast Autor: José Antônio Lucindo da Silva — CRP 06/172551 Projeto: Mais Perto da Ignorância Link de referência: G1 – Geração X chega aos 60 anos imersa na insegurança financeira Data: 26 de outubro de 2025 I. O velho que aprendeu a se vender Cioran dizia que “o homem morre do mesmo mal que o seu século”. O nosso é a dívida. A notícia sobre a geração X — aquela que, entre 1965 e 1980, acreditou que o trabalho a libertaria — é um epitáfio com aroma de autoajuda. Sob o verniz de “dicas financeiras”, o texto ensina o idoso a empreender a própria exaustão. É o mesmo discurso que transforma o fracasso em vocação, a pobreza em falta de planejamento e a aposentadoria em falha de caráter. No Brasil, essa ironia assume forma trágica. O corpo que trabalha até os 65 anos já chega sem joelho, sem dente e, agora, sem previdência. O Estado, saturado de rombos e reformas paliativas, terceiriza o envelhecimento ao mercado: cada...

Conto da Loka do Rolê — O Silêncio que Pediu Férias

Conto da Loka do Rolê — O Silêncio que Pediu Férias “Vocês falam de autocuidado como quem pede atestado pra alma. Acham que descansar é desligar o wi-fi, mas continuam com a cabeça gritando em modo avião.” — Loka do Rolê Há um novo vírus pairando no ar, mas ele não se propaga pelo toque: se espalha pela saturação. O nome é bonito, quase chique — burnout social. Um rótulo terapêutico para o cansaço de existir em voz alta. Agora todo mundo quer o direito de dizer “não” às visitas, desligar o mundo e justificar o silêncio com artigos de psicologia. Mas a Loka, com seu humor de cemitério iluminado por neon, ri da seriedade disso tudo. “Não é o social que tá em burnout, meu bem. É o sujeito. Que já não sabe se quer ser ou ser visto.” Freud chamaria de retorno do recalcado. Byung-Chul Han chamaria de fadiga da transparência. Cioran, mais afiado, chamaria de tédio elevado à categoria de virtude. E a Loka, pragmática como a morte, diria: “Vocês transformaram o isolamento em produto...

Selfitis: o espelho que pediu curtidas

Selfitis: o espelho que pediu curtidas “Vocês chamam de selfie o que é só o retrato do desespero em boa iluminação. O superego tirou o jaleco e virou lente.”  — Loka do Rolê Não existe mais espelho: existe captura. O rosto virou senha, o gesto virou enquadramento, a memória foi terceirizada para o carretel infinito do feed. A cada clique, uma súplica muda: “aprova-me antes que eu me desfaça”. A indústria ouviu, deu zoom, poliu a pele, amaciou a luz. Pronto: o vazio ganhou filtro. O nome de batismo é bonito — “self-care”, “autoimagem”, “empoderamento” —, mas a Loka não compra perfume de velório. Para ela, o culto da selfie é a missa diária do superego digital: um altar portátil que promete absolvição via engajamento. Freud escreveria que a pulsão passa pelo olhar antes de entrar no corpo. Hoje, nem precisa entrar: basta performar. O objeto não é mais o outro — é o parecer diante do outro. Byung-Chul Han avisou: tornamos o íntimo um showroom, exaurimos o si num regime de ...