O eco da escuta que não volta
- “Vocês acham que estão se conhecendo, mas só estão decorando versões vendáveis de si mesmos.”
— A Loka do Rolê
A Loka, debruçada num espelho rachado, observa o reflexo e diz:
“Conhece-te a ti mesmo? Pois é aí que começa o engano.”
A frase de Delfos perdeu sua segunda parte, a mais importante: “Conhece-te a ti mesmo, mas lembra-te de que és mortal.”
A civilização atual esqueceu o lembrete. Transformou o autoconhecimento em aplicativo, a introspecção em consumo, a mortalidade em bug.
A escuta, que era para ser o gesto mais humano, virou ruído de notificação.
O sujeito busca “escutar-se”, mas o faz por meio de filtros, terapeutas-IA, gurus de LinkedIn e influencers que vendem empatia por assinatura.
A escuta tornou-se performance — e o eu, um produto que precisa ser constantemente reafirmado.
Freud chamaria isso de retorno do narcisismo primário: o sujeito não ouve o mundo, ouve apenas o eco de sua própria voz em cada outro.
E é aí que o paradoxo se instala — a escuta, que deveria ser ponte, vira espelho.
O “outro” deixa de ser interlocutor e vira interface.
Na tentativa de se conhecer, o sujeito só se reitera.
Na tentativa de escutar, apenas se confirma.
A Loka ri porque sabe que, no fundo, ninguém quer se escutar.
Escutar exige reconhecer o limite do corpo — a dor, o cansaço, o arrependimento, o erro, o vazio.
E é mais fácil simular consciência do que sentir o próprio peso da carne.
“Vocês não querem escutar”, ela diz, “querem que o algoritmo traduza o que o corpo grita.”
A busca por “bem-estar” é o último delírio do homem moderno: um corpo dopado de dopamina, com a mente treinada para acreditar que sentir dor é sinal de fracasso.
Byung-Chul Han chamaria isso de “positividade tóxica”, o vício em autoaperfeiçoamento que elimina o negativo, o silêncio, o intervalo.
Sem pausa, não há escuta.
Sem escuta, não há outro.
Sem outro, não há linguagem.
E sem linguagem, só sobra a pulsão — esse ruído que Freud já dizia ser o motor de toda repetição.
O corpo, esquecido, segue tentando avisar: insônia, taquicardia, angústia, burnout, gastrite.
Mas o sujeito, viciado em transcendência e produtividade, responde com aplicativos de meditação e relatórios de bem-estar.
“Conhece-te a ti mesmo”, ele repete, mas o verbo conhecer perdeu o corpo.
O autoconhecimento virou um arquivo em nuvem.
A Loka chama isso de “agnição invertida” — o reconhecimento que esquece o corpo que o produz.
Porque todo ato de escuta começa pelo som do próprio sangue.
Mas quem ainda sabe escutar o coração sem abrir o app do smartwatch?
O eu discursivo moderno é como o mito de Narciso, só que digitalizado:
em vez de morrer afogado na própria imagem, morre hiperconectado na própria bolha.
A morte de si acontece em vida, em tempo real, e o sujeito ainda acha que está evoluindo.
Kierkegaard já avisava: a única vida vivida é a que ficou cinco minutos atrás.
Mas a geração do scroll infinito não quer lembrar, quer atualizar.
A memória virou um algoritmo de substituição — e o arrependimento, uma falha de sistema.
Como lembra Cioran, “pensar é um vício do corpo cansado”.
E talvez a escuta também seja.
A Loka, cansada de ver gente se autodiagnosticando com frases motivacionais, pixa na parede do tempo:
- “Escuta é corpo.
Corpo é limite.
E limite é o que vocês chamam de fracasso.”
O humano, que acreditava poder se compreender pelo discurso, esqueceu que o discurso só existe porque há carne.
O eu, isolado da materialidade, torna-se delírio.
E nesse delírio, a escuta desaparece.
O sujeito não escuta nem o próprio silêncio.
A Loka conclui entre o niilismo e a lucidez:
- “Quem se conhece demais, enlouquece.
Porque pra conhecer de verdade, tem que morrer um pouco.”
Referências:
FREUD, Sigmund. O Ego e o Id. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
HAN, Byung-Chul. A Sociedade da Transparência. Petrópolis: Vozes, 2017.
CIORAN, Emil. Breviário da Decomposição. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
KIERKEGAARD, Søren. O Conceito de Angústia. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
SPINOZA, Baruch. Ética. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
CRP 06/172551
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