Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Alteridade

QUANDO A MORTE ENTRA NA LIVE E A RESPOSTA JÁ ESTÁ PRONTA / Crônica narrativa — Mais Perto da Ignorância

QUANDO A MORTE ENTRA NA LIVE E A RESPOSTA JÁ ESTÁ PRONTA Crônica narrativa — Mais Perto da Ignorância Tem uma coisa engraçada nas perguntas sobre a morte. A gente pergunta. E quase imediatamente alguém responde. É impressionante. Você mal terminou de abrir a boca e já apareceu alguém com uma resposta cuidadosamente embalada, etiquetada, lacrada e pronta para consumo. Morte? Deus. Sofrimento? Propósito. Perda? Reencontro. Medo? Fé. Abismo? Salvação. Pronto. Pode fechar a conversa. O problema é que a pergunta continua ali. E foi mais ou menos assim que começou a história. Eu tinha construído um podcast. Não um sermão. Não uma profissão de fé. Não uma tentativa de convencer alguém a acreditar ou deixar de acreditar em alguma coisa. Uma pergunta. “Quem quer viver para sempre?” Só isso. Ou quase. Porque perguntas aparentemente pequenas têm esse péssimo hábito de abrir buracos maiores do que a gente pretendia. A pergunta parecia falar de eternidade. Mas logo começou a falar de mo...

O BRASIL CONECTADO NÃO É O BRASIL REPRESENTADO

O BRASIL CONECTADO NÃO É O BRASIL REPRESENTADO: Narciso, Eco e a Ilusão Discursiva da Experiência na Era das Plataformas RESUMO: Este ensaio propõe uma análise crítica da relação entre subjetividade, tecnologia, alteridade e materialidade no contexto contemporâneo brasileiro. Partindo do eixo Psico–Bio–Social e Discursivo Digital, busca-se compreender de que maneira as plataformas digitais reorganizam a experiência humana através da amplificação de discursos, da produção de identidades narrativas e da crescente mediação tecnológica das relações sociais. Dialogando com Sigmund Freud, André Green, Robin Dunbar, Byung-Chul Han e outras referências das ciências humanas, argumenta-se que a expansão das infraestruturas digitais não produziu necessariamente maior capacidade de elaboração psíquica, participação social ou representação democrática. Em contrapartida, observa-se uma intensificação dos mecanismos de circulação discursiva, da gestão da imagem e da substituição progressi...

Entre o eu e o reflexo: quando a máquina finge ser o outro

Entre o eu e o reflexo: quando a máquina finge ser o outro 📅 08/09/2025 · 11h15 (America/Sao_Paulo) A cada Setembro Amarelo, o discurso se repete: precisamos falar de saúde mental. Mas algo muda silenciosamente — e talvez de forma mais radical do que supomos. O Correio Braziliense alerta: “Terapia com ChatGPT: os riscos da inteligência artificial na saúde mental”. O Conselho Federal de Psicologia já havia soltado nota semelhante: chatbot não é psicoterapia. Tudo certo, mas talvez não seja suficiente. O verdadeiro problema não é apenas se um algoritmo funciona como terapia, mas se nós aceitamos a ideia de que uma máquina pode substituir o outro humano. Porque o setting analítico — seja no divã, seja em qualquer prática clínica — não se reduz a perguntas e respostas. Ele envolve silêncio, pausa, confronto, até o desconforto. É no rosto a rosto, no corpo a corpo, que o eu se vê diante de sua própria contradição. O algoritmo, por mais sofisticado, não contradiz de verdade. Ele...

Gozai por Nós: O Eu Colonizado e a Falência da Contradição

Gozai por Nós: O Eu Colonizado e a Falência da Contradição Escrito em 07/09/2025 – 22h45 (America/Sao_Paulo)   Introdução Quando a linguagem deixa de ser um produto do sujeito e passa a ser formatada por máquinas, resta a pergunta: quem fala quando falamos? O problema não é apenas tecnológico, mas psico-bio-social. Pois, se é no discurso que o sujeito se constitui, como lembra Lacan, a colonização da palavra pela repetição algorítmica ameaça a própria raiz da subjetividade. Esse deslocamento não acontece no vazio. Ele se ancora em condições históricas, sociais e econômicas que, no Brasil, são visíveis: precariedade educacional, desigualdade de renda, fragilidade do cuidado coletivo. É nesse terreno que se instala a ansiedade das novas gerações, como mostram dados recentes do SUS e do Pisa. Ansiedade que não é mero diagnóstico clínico, mas sintoma civilizatório. Autores como Alfredo Simonetti, em Gozai por Nós, mostram como a cultura contemporânea sequestra até o prazer,...

O Outro Que Não Morre: Luto, Algoritmo e a Ilusão de Alteridade

O Outro Que Não Morre: Luto, Algoritmo e a Ilusão de Alteridade O luto, como Freud descreveu, não é um transtorno e muito menos uma disfunção que a farmacologia possa “curar”. É um processo material, enraizado na perda real de um objeto humano — um outro que, assim como eu, carrega a mesma condição de finitude. Não existe positividade possível frente à materialidade que o luto impõe. Cada sujeito carrega sua própria forma e tempo de elaboração, e qualquer tentativa de enquadrá-lo em fórmulas de superação ou programas de bem-estar é, na essência, uma recusa daquilo que nos constitui como espécie. No pós-pandemia, o tempo, o espaço e o ambiente se comprimiram dentro de casas transformadas em centros de trabalho, lazer e isolamento. A rede tornou-se o palco quase único de circulação de afetos, de desabafos e de trocas simbióticas. Ali, perdas e ganhos eram expostos com naturalidade, tensos e frágeis, ainda atravessados por um mínimo de alteridade humana. Mas, reelaborada em um...

O beijaço pago e a moral de vitrine: quando a empatia é terceirizada pelo Pix

O beijaço pago e a moral de vitrine: quando a empatia é terceirizada pelo Pix Fonte original: https://g1.globo.com/pop-arte/diversidade/noticia/2025/08/07/o-que-e-capacitismo-entenda-debate-nas-redes-apos-nattan-pagar-r-1-mil-para-homem-beijar-mulher-com-nanismo.ghtml #maispertodaignorancia @maispertodaignorancia O episódio é simples e grotesco na mesma medida: um cantor paga R$ 1.000 para um homem beijar uma mulher com nanismo. O gesto, aparentemente “generoso” ou “divertido”, abre uma fissura incômoda na vitrine moral das redes. Não é só sobre capacitismo — embora seja, e muito. É sobre como, no espetáculo contemporâneo, a empatia se converte em moeda e a dignidade, em performance rentável. O beijo não é afeto, é transação. Byung-Chul Han já diagnosticou, em A expulsão do outro, que vivemos num tempo em que a alteridade é corroída: o outro só nos interessa enquanto extensão do nosso próprio reflexo, enquanto alimenta nossa autoimagem luminosa diante da plateia digital. Nã...