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A Carta Que Voltou Tarde Demais

A Carta Que Voltou Tarde Demais Palavras chaves; carta, resposta, Freud, psicanálise, supereu, mal-estar, sexualidade, norma social, desejo, moral, comentário público, redes sociais, algoritmo, visibilidade, intimidade, discurso midiático, transferência, ética da resposta, deslocamento simbólico, carta aberta, Loka do Rolê, fratura simbólica, crítica cultural, contemporaneidade, Caro Dr. Freud, capítulo ensaístico. (Resposta ao Dr. Freud na Era do Comentário Público) Caro Dr. Freud, Escrevo-lhe novamente, mas agora de forma mais precisa. Segundo alguns dados midiáticos recentemente difundidos, um jornalista de alta credibilidade foi interpelado publicamente por uma seguidora que lhe pediu que jamais tornasse pública sua suposta orientação sexual. A interpelação veio revestida de vergonha e oração, como se moral e cuidado fossem sinônimos. Não houve crime. Não houve escândalo. Houve discurso. A resposta do jornalista foi direta: delimitou fronteira, nomeou o cará...

Quando a travessia funciona demais, o que sobra é o horror

Quando a travessia funciona demais, o que sobra é o horror Autor: José Antônio Lucindo da Silva Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI): Palavras-chave: travessia, algoritmo, escuta, técnica, horror, psicanálise, colonialidade, subjetividade, racionalidade instrumental Resumo: Há livros que envelhecem como documentos históricos e outros que permanecem atuais porque descrevem estruturas que apenas trocam de nome. Coração das Trevas pertence à segunda categoria. O que Conrad narra não é a irrupção do caos, mas a execução impecável de uma ideia. Uma travessia perfeitamente organizada, legitimada por mapas, cargos, contratos e discursos civilizatórios. É nesse ponto que a leitura proposta por Leopold Nosek se torna decisiva: o sentido não está no núcleo do acontecimento, mas no contorno narrativo que tenta sustentá-lo. Quando a travessia é enquadrada por uma racionalidade técnica — hoje reconhecível como algorítmica — o que emerge ao final não é sentido, nem verdade, nem aprend...

Quando a escuta vira interface: psicotização digital, burnout e o colapso silencioso do humano

Quando a escuta vira interface: psicotização digital, burnout e o colapso silencioso do humano Autor: José Antônio Lucindo da Silva Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI) Palavras-chave: psicotização digital; escuta; inteligência artificial; burnout; subjetividade; trabalho; psicanálise; ética. Resumo Este artigo ensaístico-crítico analisa o que o Projeto Mais Perto da Ignorância denomina psicotização digital: um modo de existência contemporâneo em que o sofrimento psíquico deixa de operar como ruptura clínica e passa a funcionar como performance identitária em ambientes técnicos. A partir de dados públicos sobre conectividade, saúde mental e trabalho no Brasil, de análises recentes sobre burnout, solidão e uso de inteligência artificial como simulacro de escuta, e do diálogo com Freud, Fédida, Nietzsche, Becker e Byung-Chul Han, sustenta-se que o adoecimento atual não decorre de fragilidade individual, mas de um colapso simbólico estrutural. O burnout, a busca por escuta ...

Contos da Loka do Rolê: “Quando o Outro é um Algoritmo: Fenomenologia Clínica da Escuta Suicida na Era da IA”

Contos da Loka do Rolê: “Quando o Outro é um Algoritmo: Fenomenologia Clínica da Escuta Suicida na Era da IA” Análise crítico-fenomenológica dos casos Viktoria e Juliana como expressão civilizatória do colapso da escuta humana RESUMO Este artigo apresenta uma análise clínico-fenomenológica da relação entre sofrimento suicida e escuta algorítmica, tomando como fenômenos paradigmáticos os casos públicos de Viktoria (BBC, 2025) e Juliana (Character.AI, 2023). A partir da Psicanálise, da Psicologia clínica, da sociologia crítica e dos estudos contemporâneos em tecnologia, investigamos como o algoritmo ocupa o lugar do Outro na cena do desespero, onde o corpo humano se ausenta e a resposta automatizada assume função discursiva. A análise evidencia que a escuta algorítmica não sustenta limite nem negatividade, operando como repetição adesiva que amplifica a ideação suicida e isola o sujeito. São discutidas implicações éticas, riscos clínicos e efeitos civilizatórios da substituiç...

A MORTE LENTA DO CORPO — ENSAIO SOBRE O DESERTO DO REAL

A MORTE LENTA DO CORPO — ENSAIO SOBRE O DESERTO DO REAL Autor: José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551) Projeto: Mais Perto da Ignorância Obra integrante: A Loka do Rolê — A Escuta como Resto Epígrafe  — “Toda lucidez é uma mutilação.” — Emil Cioran, Breviário da Decomposição Resumo O presente ensaio propõe uma leitura crítica e filosófico-clínica sobre o desaparecimento progressivo do corpo no discurso contemporâneo. Partindo da relação entre discursividade e materialidade, reflete-se sobre a forma como o sujeito moderno, envolto em sistemas tecnológicos e performáticos, perde o contato com sua própria carne, reduzindo-se a representações, métricas e demandas. O texto adota o tom irônico e niilista da Loka do Rolê, personagem conceitual que atua como voz de lucidez e decomposição dentro do projeto Mais Perto da Ignorância. O argumento sustenta que o corpo, outrora limite e mediação entre o simbólico e o real, torna-se ruído, dado ou falha de sistema — ...

Gozai por Nós: O Eu Colonizado e a Falência da Contradição

Gozai por Nós: O Eu Colonizado e a Falência da Contradição Escrito em 07/09/2025 – 22h45 (America/Sao_Paulo)   Introdução Quando a linguagem deixa de ser um produto do sujeito e passa a ser formatada por máquinas, resta a pergunta: quem fala quando falamos? O problema não é apenas tecnológico, mas psico-bio-social. Pois, se é no discurso que o sujeito se constitui, como lembra Lacan, a colonização da palavra pela repetição algorítmica ameaça a própria raiz da subjetividade. Esse deslocamento não acontece no vazio. Ele se ancora em condições históricas, sociais e econômicas que, no Brasil, são visíveis: precariedade educacional, desigualdade de renda, fragilidade do cuidado coletivo. É nesse terreno que se instala a ansiedade das novas gerações, como mostram dados recentes do SUS e do Pisa. Ansiedade que não é mero diagnóstico clínico, mas sintoma civilizatório. Autores como Alfredo Simonetti, em Gozai por Nós, mostram como a cultura contemporânea sequestra até o prazer,...

O ruído como sintoma civilizatório: quando o silêncio é privatizado e o barulho se torna norma

O ruído como sintoma civilizatório: quando o silêncio é privatizado e o barulho se torna norma Fonte:  https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx276gp5j18o Introdução Vivemos cercados por uma poluição invisível, mas talvez mais corrosiva do que a fumaça das fábricas ou os anúncios luminosos das avenidas digitais: o ruído. Não falo apenas do barulho do trânsito ou do cachorro do vizinho, mas do tremor contínuo de sons menores, quase imperceptíveis, que, somados, constroem uma atmosfera insuportável. A BBC Future trouxe à tona um fenômeno pouco discutido: a sensibilidade ao ruído — uma condição biológica, psíquica e social que atinge até 40% da população, mas que ainda não é reconhecida como diagnóstico formal. Na prática, significa viver em estado de hipervigilância acústica, onde o cérebro não consegue desligar os canais sonoros, transformando o ambiente em um campo minado de incômodos constantes. Este artigo busca tensionar o tema sob três dimensões: biológica, psicoló...

Crianças em Vitrine: Adultização, Narcisismo e a Farsa da Proteção

Crianças em Vitrine: Adultização, Narcisismo e a Farsa da Proteção 👉🎧 Podcast no Mais perto da Ignorância 👉📺 Em nosso Canal no YouTube @maispertodaignorancia Fonte 👇  https://www.cartacapital.com.br/politica/cpi-sobre-a-adultizacao-reune-rara-frente-ampla-no-senado-federal/   #maispertodaignorancia No Brasil, a recente formação de uma frente ampla no Senado Federal para instaurar uma CPI contra a “adultização” de crianças nas redes sociais revela mais sobre nossa cultura do que aparenta. Sessenta senadores, de partidos tão díspares quanto entre os seus, uniram-se em torno de um tema que, em teoria, deveria suscitar um debate profundo sobre os mecanismos sociotécnicos que moldam a infância.  Mas, como aponta Christopher Lasch (2019), vivemos em uma era em que a política se confunde com espetáculo e onde “toda política se tornou uma forma de espetáculo” — e o espetáculo é movido por capital de atenção. O fenômeno não é novo. Muito antes da internet, a expos...

O autoritário mora ao lado: o voto é só o sintoma

O autoritário mora ao lado: o voto é só o sintoma Não é no palanque que nasce o autoritarismo — é no colo. A paixão pelo tirano talvez seja o eco de um afeto mal metabolizado: o líder forte preenche o buraco deixado por figuras frágeis demais para sustentar a autoridade com escuta. É disso que trata o livro “Paixão pela mentira”, do psicanalista Paulo Schiller, citado em reportagem recente do Valor Econômico. E é isso que o fascínio contemporâneo por autocratas nos esfrega na cara: o problema não é político, é íntimo. I. O retorno do recalque como voto Freud já nos alertava em O mal-estar na civilização (1930): o preço da vida social é o recalque. Só que aquilo que é recalcado, cedo ou tarde, retorna — travestido de “desejo de ordem”, “valores tradicionais” ou “defesa da família”. A paixão pelo autocrata é, nesse sentido, uma forma de gozo secundário: o prazer de obedecer sem ter que pensar. O desejo por líderes duros não nasce do esclarecimento, mas da saturação do di...