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Quando a conversa se torna um problema

Quando a conversa se torna um problema PODCAST DRAMATURGICO 01:  Parte I — O problema começa antes das palavras Há fenômenos que passam despercebidos justamente porque continuam acontecendo todos os dias. Não desaparecem de uma vez. Reorganizam-se lentamente até que a nova forma de existir pareça natural. É somente quando alguém afirma que "as pessoas já não conversam como antes" que aquilo que parecia invisível volta a chamar atenção. A afirmação não é recente. Em diferentes épocas, intelectuais, educadores, religiosos e pesquisadores registraram preocupação com transformações nas formas de convivência humana. Mudam os objetos — o rádio, a televisão, a internet, os telefones celulares, as plataformas digitais, a inteligência artificial —, mas permanece a impressão de que alguma dimensão da experiência compartilhada estaria sendo perdida. Uma dessas interpretatações foi recentemente apresentada no artigo "A geração que desaprendeu a conversa...

A ESCUTA VIROU INFRAESTRUTURA

A ESCUTA VIROU INFRAESTRUTURA AUTOR: A Loka do Rolê PROJETO: Mais Perto da Ignorância — MPI RESUMO: Durante séculos, escutar foi uma experiência humana. Um gesto atravessado por presença, conflito, afeto, silêncio e linguagem. No século XXI, entretanto, a escuta deixou progressivamente de ser apenas uma prática relacional para tornar-se infraestrutura técnica. Plataformas digitais, sistemas algorítmicos, dispositivos móveis e modelos de inteligência artificial transformaram conversas, emoções, preferências e hesitações em matéria-prima econômica. Este ensaio investiga a transformação da escuta em mecanismo operacional do capitalismo contemporâneo, articulando subjetividade, corpo, tecnologia, trabalho, linguagem e vigilância. A partir de uma perspectiva psico-bio-social-tecnológico-discursiva, examina-se como a experiência humana passa a ser convertida em dado, previsão e produto. O texto propõe uma leitura crítica da captura algorítmica da atenção, da erosão dos espaços de...

A INFÂNCIA NÃO É UM CONCEITO. É UM CORPO CONECTADO.

A INFÂNCIA NÃO É UM CONCEITO. É UM CORPO CONECTADO. Antes de falar em algoritmo, é preciso falar em corpo. No Brasil, mais de 90% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos utilizam internet. Não é tendência cultural. É condição material de existência (CETIC.br, 2021). O celular não é acessório. É infraestrutura. E infraestrutura molda comportamento. Quando pesquisas internacionais apontam associação entre posse precoce de smartphone e aumento de indicadores de depressão, obesidade e privação de sono — como no Adolescent Brain Cognitive Development Study (10.500 adolescentes acompanhados nos EUA) — não estamos diante de metáfora, mas de correlação estatística observável. Pergunta metodológica obrigatória (Shaughnessy, 2012): É causalidade? Não. É associação? Sim. Quais limites? Estudos observacionais não estabelecem causa direta. O que não sabemos? Impacto longitudinal no contexto brasileiro específico. Sem método, não há autoridade. Enquanto isso, nos EUA, um julgamento...

Beijo comprado, silêncio vendido

Beijo comprado, silêncio vendido Fonte original: https://g1.globo.com/pop-arte/diversidade/noticia/2025/08/07/o-que-e-capacitismo-entenda-debate-nas-redes-apos-nattan-pagar-r-1-mil-para-homem-beijar-mulher-com-nanismo.ghtml #maispertodaignorancia Não é preciso muito esforço para perceber que o espetáculo contemporâneo tem uma fome insaciável por transformar tudo em moeda — até mesmo aquilo que supostamente denuncia. O caso recente do cantor Nattan, que pagou mil reais para um homem beijar uma mulher com nanismo, foi imediatamente capturado pelas redes sociais, não como tragédia, mas como matéria-prima para a coreografia previsível da indignação digital. O gesto, já em si constrangedor, não foi isolado: é parte de um ritual social que Byung-Chul Han chamaria de “pornografia da transparência”, na qual o íntimo é exposto para produzir comoção, compartilhamentos e, claro, engajamento. A ação, que poderia ser lida como violência simbólica — e é —, tornou-se apenas mais um frame ...

Entre espelhos digitais e corpos materiais: crítica irônico-argumentativa ao pânico cognitivo da IA

Entre espelhos digitais e corpos materiais: crítica irônico-argumentativa ao pânico cognitivo da IA Resumo Reúno, em pouco palavras, um ensaio que confronta o diagnóstico midiático de “atrofia cerebral” provocada pelo uso da inteligência artificial (IA) com tradições críticas de Marx, Bauman, Han, Zuboff, O’Neil e Twenge. Defendo que tais manchetes ignoram a dimensão sócio-material da aprendizagem: a capacidade reflexiva nunca esteve distribuída igualmente, pois depende dos meios de produção simbólica e das vivências concretas. A IA, portanto, não “rouba” cognição; antes, espelha — e às vezes amplifica — os atalhos mentais buscados pelo cérebro em qualquer ecossistema técnico.  O verdadeiro risco está em reforçar, via algoritmos, as assimetrias de consumo cultural que já moldam o Brasil “analfabeto funcional”. Concluo que a discussão pública permanece restrita a grupos hiperescolarizados capazes de publicar em portais de alta visibilidade, enquanto as camadas populares ...