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EMAGRECER NÃO CURA O VAZIO — APENAS O TORNA SOCIALMENTE ACEITÁVEL

EMAGRECER NÃO CURA O VAZIO — APENAS O TORNA SOCIALMENTE ACEITÁVEL Autor José Antônio Lucindo da Silva Projeto Mais Perto da Ignorância — A Loka do Rolê Palavras-chave GLP-1; medicalização; narcisismo; cultura da performance; subjetividade; capitalismo de plataforma; corpo; Sociedade do Cansaço; sofrimento psíquico. Primeiro venderam felicidade. Depois produtividade. Agora vendem silêncio metabólico. As chamadas “canetas emagrecedoras” não são apenas fármacos que atuam no eixo hormonal — tornaram-se dispositivos culturais de adequação estética. Reduzem o apetite fisiológico, mas não reduzem o olhar avaliativo do outro. Diminuem calorias, mas não diminuem a fome simbólica por pertencimento. O fenômeno não é conspiração farmacêutica nem fraqueza individual. É engrenagem social funcionando perfeitamente. O corpo emagrece. O algoritmo não. A pressão cultural permanece intacta. Este texto não condena nem celebra. Ele observa o mecanismo. Eu observo a cena como quem as...

O psicólogo de giz e o terapeuta de troco.

O psicólogo de giz e o terapeuta de troco (Crônica/ensaio da Loka do Rolê) Eu adoro quando o sistema decide “cuidar”. Ele não aumenta salário. Não diminui sala lotada. Não contrata equipe. Não abre CAPSi suficiente. Não desentope UBS. Não devolve tempo pros pais. Não tira o professor do modo sobrevivência. Mas lança cartilha. Cartilha é o nome elegante do velho truque: põe a culpa no elo mais fraco e chama de “responsabilidade compartilhada”. Compartilhada com quem? Com o professor que já tá dividido em quatro, corrigindo prova com dor no punho e tomando café frio como se fosse método pedagógico. Eu vejo o teatro inteiro. De um lado, o professor. Que já nasceu na profissão impossível, como Freud esfregou na cara de todo mundo sem emoji e sem legenda: educar é impossível. Impossível porque o sujeito não obedece. Impossível porque a vida não respeita planejamento. Impossível porque o real entra na sala de aula sem bater. Impossível porque não existe linha reta entre “conteúdo...

Quando o discurso chega antes do corpo (e chama isso de cuidado)

Quando o discurso chega antes do corpo (e chama isso de cuidado) Autor: José Antônio Lucindo da Silva Projeto: Mais Perto da Ignorância: Palavras-chave: escuta simulada; medicalização; sofrimento psíquico; tecnologia; discurso; materialidade; laço social Resumo: Todo mundo fala de saúde mental. Pouca gente aguenta o que isso implica. O discurso circula rápido, elegante, higienizado. A dor vira pauta, a angústia vira dado, o conflito vira categoria. Enquanto isso, o corpo chega tarde. Chega cansado. Chega sem lugar. Esta crônica, narrada no tom da Loka do Rolê, não busca explicar o sofrimento contemporâneo nem oferecer leitura edificante. Ela apenas acompanha o funcionamento: a escuta que não se sustenta, o cuidado que vira protocolo, a crítica que circula sem deslocar nada. Sites, links, campanhas e falas institucionais se multiplicam enquanto a materialidade da existência — trabalho, tempo, renda, desigualdade — segue operando em silêncio. Aqui não há denúncia heroica nem ...

Entre o delírio químico e o mercado da consciência

Entre o delírio químico e o mercado da consciência Fonte original: https://theconversation.com/alem-do-cerebro-como-psicodelicos-e-organoides-estao-redefinindo-a-neurociencia-262584  O texto da The Conversation celebra, com o entusiasmo habitual da ciência em modo TED Talk, a convergência entre psicodélicos e organoides cerebrais como se estivéssemos diante da nova fronteira libertadora da neurociência. A promessa é tentadora: entender e talvez “reparar” a mente humana pela manipulação de estados de consciência e pela miniaturização do cérebro em laboratório. É o tipo de narrativa que se encaixa no imaginário contemporâneo: otimista, sedutora, com o verniz científico suficiente para neutralizar a dúvida. Mas o que não é dito — e é aqui que começa o incômodo — é que essa euforia ocorre num momento histórico em que a própria experiência subjetiva está colonizada por métricas, produtividade e vigilância digital. Não estamos explorando o “mistério” da mente: estamos produzi...

Transtornos femininos ou sintomas de uma sociedade adoecida?

Transtornos femininos ou sintomas de uma sociedade adoecida? (https://www.metropoles.com/saude/saude-mental-feminina-5-transtornos) Vivemos tempos em que a saúde mental feminina parece ser recortada em categorias de transtornos como se fossem mercadorias diagnósticas expostas numa vitrine clínica. No artigo do Metrópoles, lemos sobre ansiedade, depressão, burnout, transtornos alimentares e bipolaridade — todos apresentados como condições recorrentes entre mulheres, especialmente em contextos de acúmulo de papéis. Mas será que estamos falando de transtornos propriamente ditos, ou sintomas de um sistema que patologiza os efeitos de sua própria opressão? A chamada saúde mental feminina talvez revele mais da saúde do sistema do que da mulher. Como já sugeria a crítica feminista da psiquiatria, desde o século passado, há uma tendência de medicalizar respostas legítimas ao sofrimento, sobretudo quando vêm do feminino. A “mulher ansiosa” pode ser apenas a mulher que carre...