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Sexta é o Novo Velório da Consciência“Se eu fosse você, não lia.Esse texto não traz alívio, traz espelho.Sexta não é fuga: é culto.Cês chamam de descanso o que Camus chamou de absurdo.”— A Loka do Rolê, 2025Há um tipo de desespero que se disfarça de entusiasmo às sextas-feiras.O sujeito trabalha a semana inteira esperando um instante que nunca chega inteiro.O happy hour é a metáfora do absurdo moderno: celebra-se o nada como se fosse alívio.Camus veria nisso a tragédia contemporânea — a consciência de Sísifo adaptada ao relógio de ponto.O homem moderno não empurra pedras, empurra planilhas, dívidas, boletos e a própria sanidade.Mas o gesto é o mesmo: levantar o peso, ver tudo desmoronar, e no dia seguinte recomeçar.Sísifo, condenado pelos deuses a repetir eternamente a mesma tarefa, se torna símbolo do ser que compreende a inutilidade do esforço, mas ainda assim o realiza.Camus escreve que “é preciso imaginar Sísifo feliz”, porque a revolta nasce da lucidez.O absurdo não é o sofrimento em si, mas a consciência dele.A Loka diria: “vocês empurram as pedras e ainda tiram selfie”.A diferença é que o Sísifo de hoje posta o abismo em stories e chama de autenticidade.A sexta-feira é o momento em que o absurdo se disfarça de alívio coletivo.Mas não há transcendência — só repetição mascarada de liberdade.A cerveja é o sacramento, o bar é o templo e o esquecimento é a comunhão.Camus chamaria isso de evasão metafísica: o impulso de fugir do real, mascarando a ausência de sentido com distrações sucessivas.Freud já havia notado que o homem civilizado troca pulsão por produtividade — mas agora ele troca cansaço por consumo.O fim de semana é o álibi simbólico de quem não suporta o próprio desejo.Byung-Chul Han diria que o sujeito da positividade não precisa de opressão — ele se explora com prazer.E quando se exaure, chama de merecimento.É a mesma engrenagem que transforma o tédio em falha pessoal e o silêncio em sintoma.O “descanso” virou performance; o lazer, simulacro de autonomia.O trabalhador contemporâneo é o Sísifo corporativo, condenado não por deuses, mas por metas de engajamento e relatórios semanais.A Loka caminha entre os escombros do expediente e pichona no muro:“Vocês não descansam, vocês apenas mudam de prisão.”Camus fala da “revolta silenciosa” do homem absurdo — aquele que recusa a fuga religiosa ou racional e encara o vazio com dignidade.Mas o homem de hoje prefere o delírio anestésico: Netflix, cerveja, dopamina.Tudo para não escutar o ruído interior que denuncia o fracasso da promessa moderna de sentido.A sexta virou rito, e o rito virou vício.O sujeito não suporta a lucidez, então transforma o esquecimento em rotina.O mais irônico é que, enquanto Sísifo se liberta no instante em que aceita o peso da pedra, o trabalhador contemporâneo se escraviza no instante em que acredita merecer o descanso.A crença no “fim de semana” é a nova teologia do cansaço.O tempo livre é apenas o intervalo publicitário do sistema.E o sistema agradece: o sujeito volta segunda mais dócil, mais dependente, mais cansado — e, portanto, mais produtivo.A Loka gargalha porque entende o truque:a sexta não é liberdade, é manutenção.É o anestésico coletivo que sustenta o ciclo de autofagia.E a ressaca de domingo é o eco do absurdo.Camus escreveu que “a consciência do absurdo é o ponto de partida da verdadeira liberdade”.Mas quem ainda quer ser livre, se liberdade dói?É mais fácil seguir empurrando o calendário e chamar isso de vida.No fundo, toda sexta é uma tentativa de suicídio adiada.O sujeito não quer morrer, quer parar de sentir.Quer desligar a mente, fugir do espelho, dissolver-se por algumas horas no ruído.Mas o bar não salva ninguém.O álcool não consola, só adia o colapso.E quando a sobriedade retorna, o vazio está lá — intacto, irônico, pontual como a segunda-feira.A Loka olha pra tudo isso e sussurra:“Cês não tão vivendo.Tão sobrevivendo em parcelas, com juros emocionais.”Camus propõe que a única resposta ao absurdo é a revolta consciente — a recusa em se render ao desespero ou à fuga transcendental.Revoltar-se é aceitar a ausência de sentido e, ainda assim, viver plenamente.Mas o sujeito atual não se revolta: se reinventa.E essa reinvenção constante é só outro nome pra exaustão.Enquanto Sísifo encontra sentido no próprio gesto, nós o perdemos no meio das notificações.Ele subia montanhas; nós descemos feeds.O eterno retorno agora tem Wi-Fi.E o absurdo, antes filosófico, virou métrica de engajamento.Freud chamaria isso de “repetição neurótica”.Han chamaria de “autoexploração digital”.Camus chamaria de “negação da revolta”.E a Loka chamaria simplesmente de loucura organizada.No fim, a pedra continua rolando.Mas agora ela tem patrocínio.#alokadorole#maispertodaignorancia#ianaoeprofissionaldasaudemental

Sexta é o Novo Velório da Consciência “Se eu fosse você, não lia. Esse texto não traz alívio, traz espelho. Sexta não é fuga: é culto. Cês chamam de descanso o que Camus chamou de absurdo.” — A Loka do Rolê, 2025 Há um tipo de desespero que se disfarça de entusiasmo às sextas-feiras. O sujeito trabalha a semana inteira esperando um instante que nunca chega inteiro. O happy hour é a metáfora do absurdo moderno: celebra-se o nada como se fosse alívio. Camus veria nisso a tragédia contemporânea — a consciência de Sísifo adaptada ao relógio de ponto. O homem moderno não empurra pedras, empurra planilhas, dívidas, boletos e a própria sanidade. Mas o gesto é o mesmo: levantar o peso, ver tudo desmoronar, e no dia seguinte recomeçar. Sísifo, condenado pelos deuses a repetir eternamente a mesma tarefa, se torna símbolo do ser que compreende a inutilidade do esforço, mas ainda assim o realiza. Camus escreve que “é preciso imaginar Sísifo feliz”, porque a revolta nasce da lucidez. O ...

Outro sem Escuta: apresentação!

  Outro sem Escuta: apresentação! O silêncio que fala mais alto Vivemos um tempo em que todo mundo fala, mas quase ninguém escuta. As timelines são ocupadas por vozes que se sobrepõem, discursos que se atropelam, diagnósticos que viram rótulos e hashtags que mais anestesiam do que convocam. Foi desse incômodo – e da constatação de que a escuta ainda é o ato mais revolucionário que podemos sustentar – que nasceu O Outro sem Escuta. Não se trata de autoajuda, coaching, fórmula de superação ou manual de sobrevivência emocional. Ao contrário: este livro é uma travessia crítica entre corpo, linguagem e limite. Uma obra que recusa respostas prontas, porque sabe que as perguntas são sempre maiores do que qualquer ilusão de solução. Aqui, não há atalhos. Há o chão duro da experiência e a carne que insiste em falar, mesmo quando silenciada. Corpo, diagnóstico e liberdade Ao longo dos capítulos, o livro percorre o território do corpo como primeira forma de escuta. Antes do discur...

Setembro Amarelo encontra Setembro Verde: Escutar o Corpo Invisível

Setembro Amarelo encontra Setembro Verde: Escutar o Corpo Invisível Setembro virou um mês carregado de símbolos. O amarelo é chamado para falar da prevenção ao suicídio; o verde, para lembrar a luta das pessoas com deficiência. Mas, na prática, essas duas campanhas correm em pistas paralelas que raramente se cruzam. O artigo do Conselho Nacional de Saúde (“Saúde Mental e Deficiência: por que o Setembro Amarelo não pode ignorar o Dia de Luta da Pessoa com Deficiência” – disponível em https://www.gov.br/conselho-nacional-de-saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/outubro/artigo-saude-mental-e-deficiencia-por-que-o-setembro-amarelo-nao-pode-ignorar-o-dia-de-luta-da-pessoa-com-deficiencia) é um lembrete incômodo: não existe prevenção ao suicídio se não houver escuta inclusiva, sensível e radicalmente atenta às diferenças. A autora Pérola de Souza, mulher cega e conselheira nacional de saúde, denuncia que falar de saúde mental sem falar de deficiência é perpetuar um silêncio históric...

“Entre o posto de saúde e o silêncio: o corpo que pede escuta”

“Entre o posto de saúde e o silêncio: o corpo que pede escuta” Quando uma Unidade de Saúde da Família abre suas portas para mais do que vacina, mais do que triagem, mais do que protocolos, ela abre também uma fresta para algo que não cabe em cartaz de campanha: a escuta. O que aconteceu na USF Usina, em Atibaia, no dia 25 de setembro de 2025, é mais do que um evento do Setembro Amarelo. É um microcosmo de um problema que insistimos em analisar neste livro: o encontro do corpo com sua própria finitude, e a chance – pequena, mas concreta – de alguém ouvir antes que o silêncio vire tragédia. A programação parece simples: atendimento multiprofissional, vacinação contra HPV, atividades lúdicas, contação de histórias, pintura facial, parceria com universitários. Mas por baixo dessa superfície, há um gesto radical. Ao unir saúde física e narrativa, a equipe local está, ainda que não saiba, dando ao corpo uma linguagem para se reconhecer no mundo. O posto de saúde vira cenário de a...

Epílogo – Corpos, Sintomas e Escuta: persistir na existência

Epílogo – Corpos, Sintomas e Escuta: persistir na existência O livro que você tem nas mãos não é um manual de autoajuda, nem um guia de boas práticas clínicas, nem uma cartilha de protocolos. Ele é um mapa imperfeito de uma travessia. Cada capítulo nasce da escuta radical de estados-limite, daqueles instantes em que a vida parece cessar dentro do corpo antes mesmo de cessar biologicamente. Atravessamos, juntos, epilepsias e bipolaridades, diagnósticos e estigmas, silêncio e gritos, Matrix e Morpheus, Constantine, Coração das Trevas, O Escafandro e a Borboleta, Kierkegaard, Freud, Jung, Durkheim, Becker, Camus, Cioran, Aristóteles e Huxley. Não para construir uma doutrina, mas para repetir um gesto simples: escutar. Neste percurso, descobrimos que o diagnóstico é apenas um ponto de partida material, nunca o ponto final. Ele não transforma ninguém em “paciente passivo”: ao contrário, pode funcionar como um convite à responsabilidade concreta pelo corpo e, a partir daí, pela n...

Capítulo 1 – Corpos, Sintomas e Escuta: entre mito, medo e vida vivida

Capítulo 1 – Corpos, Sintomas e Escuta: entre mito, medo e vida vivida “Aprenda todas as técnicas, mano. Estude todas as teorias. Mas, quando encontrar um humano, seja apenas humano. Porque sem escuta não há prevenção, não há cuidado, não há vida vivida.” #maispertodaignorancia Este livro não é um manual, nem cartilha, nem protocolo. É um ensaio crítico-clínico sobre aquilo que persiste quando diagnósticos, campanhas e hashtags já não dão conta. Desde as primeiras páginas, o leitor encontra Freud, Kierkegaard, Nietzsche, Ernest Becker, Spinoza, Camus, Matrix, Constantine e DSM-5 dialogando entre si. Essa escolha não é capricho: é uma tentativa de costurar a materialidade do corpo (neurobiologia, diagnóstico, risco, sintoma) com a dimensão simbólica e discursiva (medo, fé, angústia, luto, melancolia) sem cair em fórmulas de autoajuda nem em slogans vazios. Porque, como Kierkegaard lembra, só há vida vivida. E como Lacan insiste: escuta, escuta, escuta — e quando não puder ma...

Vida vivida, corpo ausente: Kierkegaard, Freud e a prevenção no deserto do discurso

Vida vivida, corpo ausente: Kierkegaard, Freud e a prevenção no deserto do discurso Pode ser o pica das métricas, o bam-bam-bam das campanhas, mas se você não encostar no outro como humano, mano, você não segura nem a verdade vivida. Para Kierkegaard, a verdade não é uma ideia abstrata; é verdade vivida. Não existe essência antes da existência: primeiro estamos, depois nos tornamos. Essa chave filosófica ilumina a experiência dos sujeitos em estados-limite: coma, crises neurológicas, tentativas involuntárias de auto-eliminação. Quando voltam, não trazem mensagens do além; trazem corpos marcados e memórias fragmentadas. A verdade que possuem é apenas “estar vivos”, mas sem uma narrativa. É uma vida que não foi vivida, um lapso de tempo sem inscrição simbólica. Para Freud, no Luto e Melancolia, o luto é o trabalho de se desprender do objeto perdido. Quando esse trabalho falha, surge a melancolia: a perda se volta para dentro, a sombra do objeto cai sobre o eu. Em quadros de p...

Escutar o silêncio: Kierkegaard, Freud e a crise contemporânea da escuta

Escutar o silêncio: Kierkegaard, Freud e a crise contemporânea da escuta Pode ser o pica dos diagnósticos, o bam-bam-bam das métricas, mas sem encostar no outro como humano, mano, você não segura nem a vida vivida. Kierkegaard escreveu que “a verdade é a verdade vivida”. Não é uma ideia abstrata; é um ato existencial. Essa chave filosófica ajuda a compreender o que se passa quando um indivíduo atravessa um estado-limite — coma, crise neurológica, tentativa involuntária de auto-eliminação. Ao voltar, ele não traz uma mensagem do além; traz um corpo marcado e memórias fragmentadas. A verdade que possui é apenas “estar vivo”, mas sem uma narrativa. É uma vida que não foi vivida, um lapso de tempo sem inscrição simbólica. Para Freud, no Luto e Melancolia, o luto é o trabalho de se desprender do objeto perdido. Quando esse trabalho falha, surge a melancolia: a perda se volta para dentro, a sombra do objeto cai sobre o eu. Em quadros de perda sem corpo — desaparecimentos, suicídi...

Verdade vivida, medo e fé: Kierkegaard, Freud e a ética da escuta

Verdade vivida, medo e fé: Kierkegaard, Freud e a ética da escuta Pode ser o pica das métricas, o bam-bam-bam dos protocolos, mas sem encostar no outro como humano, mano, você não segura nem a verdade vivida. Kierkegaard nos ensina que a verdade não é uma ideia abstrata, mas “verdade vivida”. Primeiro existimos, depois vem a essência. Essa chave filosófica ilumina o paradoxo dos estados-limite: coma, crises neurológicas, tentativas involuntárias de auto-eliminação. Ao voltar, a pessoa não traz mensagens do além; traz um corpo marcado e memórias fragmentadas. A única verdade que possui é estar viva, mas sem narrativa. É uma vida não vivida que precisa ser reinscrita. Para Freud, no Luto e Melancolia, o luto é o trabalho de se desprender do objeto perdido. Quando esse trabalho falha, surge a melancolia: a perda volta-se para dentro, a sombra do objeto cai sobre o eu. Em quadros de perda sem corpo — desaparecimentos, suicídios, internações sem consciência — não há objeto claro...

Corpo, sintoma e código: um mapa materialista do sofrimento psíquico

Corpo, sintoma e código: um mapa materialista do sofrimento psíquico Aprenda todas as técnicas, seja o bam-bam-bam do pedaço, mas quando ouvir outro humano, seja humano com humano. Quando falamos de sofrimento psíquico em estados-limite — epilepsia, crises maníacas, tentativas involuntárias de autoextermínio, diagnósticos terminais — não estamos falando de metáfora. Estamos falando de um corpo vivo, com sistema nervoso, que pode desligar de repente. Antes de qualquer narrativa existe um corpo. É nesse corpo que o diagnóstico se ancora — e é nesse corpo que ele também pode falhar em nomear a experiência singular do sujeito. O DSM-5 define os transtornos mentais como “síndromes caracterizadas por perturbação clinicamente significativa na cognição, regulação emocional ou comportamento, refletindo disfunção dos processos psicológicos, biológicos ou de desenvolvimento” (APA, 2014). A CID-11 descreve, no capítulo 6, “transtornos mentais, comportamentais e de desenvolvimento neuro...

Fontes recentes: quando dados gritam e o medo fica mudo

Fontes recentes: quando dados gritam e o medo fica mudo Pode ser o pica das métricas, o mestre dos protocolos, mas sem escutar o medo cru do outro você não é nada, mano. Os números estão aí, frios. Um levantamento recente mostra que o suicídio entre adolescentes no Brasil cresceu 81% em uma década. O dado se repete: mais jovens, de 10 a 19 anos, morrendo por suicídio, enquanto a sociedade investe cada vez mais em filtros amarelos e campanhas de prevenção. Ao mesmo tempo, outro estudo gigantesco descobre 26 loci genéticos associados à epilepsia, abrindo caminhos para terapias personalizadas. E, na rede pública, os atendimentos para epilepsia aumentam 120% em cidades como Campinas. Em tese, são boas notícias: mais ciência, mais acesso. Mas o que acontece com quem volta dessas crises, dessas tentativas involuntárias, desses estados-limite? Onde está a escuta para o medo cru? As campanhas falam do ato; a clínica, dos sintomas; a sociedade, dos rótulos; a religião, das promessas...

Constantine sem fases: medo, retorno e escuta radical

Constantine sem fases: medo, retorno e escuta radical Pode ser o bam-bam-bam da ciência, o mestre dos protocolos, o pica das métricas… mas quando alguém volta do nada sem narrativa, não é manual nem protocolo: é humano com humano. Em Constantine vemos um personagem que é tratado como louco porque vê o que ninguém vê. Tenta suicídio não por “livre escolha”, mas porque não aguenta mais o que vê. Depois descobre que tem câncer — um diagnóstico terminal que ameaça eliminá-lo biologicamente e discursivamente. Ao mesmo tempo em que se declara niilista, faz barganhas com instâncias sobrenaturais para tentar escapar de um destino que lhe foi prometido pelas liturgias religiosas. Vive um paradoxo: discursivamente “nada faz sentido”, mas ao mesmo tempo preso à negociação com algo maior. Constantine é um Neo sem Morpheus: tem acesso ao “código”, mas não tem um outro confiável para intermediar sua travessia. Essa imagem expõe o que chamamos aqui de estado-limite: coma, crises neurológi...