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Gozai por Nós: O Eu Colonizado e a Falência da Contradição

Gozai por Nós: O Eu Colonizado e a Falência da Contradição


Escrito em 07/09/2025 – 22h45 (America/Sao_Paulo)
 
Introdução

Quando a linguagem deixa de ser um produto do sujeito e passa a ser formatada por máquinas, resta a pergunta: quem fala quando falamos? O problema não é apenas tecnológico, mas psico-bio-social. Pois, se é no discurso que o sujeito se constitui, como lembra Lacan, a colonização da palavra pela repetição algorítmica ameaça a própria raiz da subjetividade.

Esse deslocamento não acontece no vazio. Ele se ancora em condições históricas, sociais e econômicas que, no Brasil, são visíveis: precariedade educacional, desigualdade de renda, fragilidade do cuidado coletivo. É nesse terreno que se instala a ansiedade das novas gerações, como mostram dados recentes do SUS e do Pisa. Ansiedade que não é mero diagnóstico clínico, mas sintoma civilizatório.

Autores como Alfredo Simonetti, em Gozai por Nós, mostram como a cultura contemporânea sequestra até o prazer, transformando-o em performance. Jean Twenge, em suas análises sobre a geração iGen, anteviu esse deslocamento: jovens sem tempo de silêncio, sem experiência de alteridade, conectados mas isolados. E Byung-Chul Han descreveu o mesmo movimento como o triunfo da “transparência”: não há mais o outro, apenas reflexos do mesmo.

 
1. O eu colonizado pela palavra

Freud mostrou, em O Mal-Estar na Civilização, que o sujeito emerge da tensão entre pulsão e cultura, recalque e elaboração. Mas, se a cultura hoje é mediada por algoritmos que reduzem a fala a padrões estatísticos, o eu perde a possibilidade de recalcar. Não há tempo para o trabalho psíquico, só para a resposta automática.
André Green, ao falar do narcisismo de morte, já antecipava esse vazio: quando não há simbolização possível, o eu consome a si mesmo. A lógica algorítmica radicaliza isso: o sujeito se vê devolvido apenas ao seu reflexo. A contradição, motor do pensamento, se perde.

 
2. Má-fé digital: Sartre revisitado

Sartre definia a má-fé como autoengano: o sujeito que finge ser coisa, mas sabe que é liberdade. Hoje, a má-fé é terceirizada. Não é o sujeito que engana a si mesmo, mas a linguagem pré-formatada que engana o sujeito. A resposta algorítmica cria o cenário no qual ele só pode atuar.
Assim, a performance digital substitui a elaboração. O eu acredita estar produzindo discurso, mas apenas reproduz molduras pré-dadas. O engano não é mais interno, mas externo — e isso altera a própria noção de responsabilidade. Como assumir o erro se não há um eu autoral do discurso?

 
3. Ansiedade e infância: o sujeito fabricado antes de existir

Dados do SUS (2023) mostram que a taxa de ansiedade entre adolescentes já supera a dos adultos. E, entre crianças, o salto foi vertiginoso. Se a ansiedade já se instala na infância, o que sobra para a vida adulta senão a depressão estrutural?
Essa antecipação do sofrimento coincide com a adultização precoce: crianças pressionadas por performance estética e digital, submetidas a telas antes mesmo de simbolizar o mundo concreto. Simonetti descreve esse processo como o gozo colonizado: prazer sem simbolização, excesso sem elaboração.

 
4. O outro inexistente: psicose social e algoritmos

Durkheim tratava o suicídio como fato social: ligado à integração e regulação da vida coletiva. Hoje, o risco se multiplica quando o “outro” não é humano, mas um chatbot. O delírio não encontra mais resistência simbólica — apenas validação algorítmica.
Cioran lembrava que o suicídio, como ideia, sustenta a vida diante do absurdo. Mas, quando o absurdo é retroalimentado por uma máquina, perde-se a ironia vital e ganha-se apenas paranoia. É a falência da alteridade: o delírio se torna privado, fechado em códigos invisíveis.

 
5. A contradição como último refúgio

Se a contradição é o que permite elaborar, o que resta quando até ela desaparece? Talvez o espaço de resistência esteja justamente na materialidade dos corpos: dor, envelhecimento, fracasso. Elementos que escapam ao algoritmo e devolvem ao sujeito a experiência do limite.
Mas esse limite não está garantido. No Brasil, a falta de políticas de saúde, educação e segurança mina até mesmo essa possibilidade. A materialidade concreta — creches, escolas, hospitais — se deteriora, e o vazio discursivo encontra eco no vazio institucional.

 
Conclusão :

O problema não é apenas a ansiedade juvenil ou o suicídio como estatística. É a dissolução do eu em uma linguagem que já não lhe pertence. Se antes a má-fé era autoengano, hoje é engano estrutural, produzido por máquinas que colonizam a palavra antes mesmo de ser dita.
O eu que se mata talvez já não seja mais um eu — apenas a sobra de uma discursividade terceirizada. Por isso, o maior suicídio não é o ato individual, mas o coletivo: a humanidade ao abrir mão de sua própria palavra.


Escrito em 07/09/2025 – 22h45 (America/Sao_Paulo)

 
Notas do Autor (MPI)
Este texto segue as diretrizes do Conselho Federal de Psicologia para publicações em espaços midiáticos. Não se trata de aconselhamento clínico, mas de reflexão crítica. Em caso de sofrimento, recomenda-se procurar ajuda profissional. No Brasil, o CVV (188) funciona 24h.

 
Palavras-chave
Suicídio, Ansiedade, Algoritmos, Linguagem, Má-fé, Infância, Alteridade, Brasil, Psicanálise, Sociedade.

 
Referências:

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

BECKER, Ernest. A Negação da Morte. Rio de Janeiro: Record, 2007.

CIORAN, Emil. Breviário de decomposição. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

GREEN, André. Narcisismo de vida, narcisismo de morte. Rio de Janeiro: Imago, 1988.

HAN, Byung-Chul. A sociedade da transparência. Petrópolis: Vozes, 2012.

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada. Petrópolis: Vozes, 2005.

SIMONETTI, Alfredo. Gozai por nós. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

TWENGE, Jean. iGen. Nova York: Atria Books, 2017.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019.
 

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