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O psicólogo de giz e o terapeuta de troco.

O psicólogo de giz e o terapeuta de troco (Crônica/ensaio da Loka do Rolê) Eu adoro quando o sistema decide “cuidar”. Ele não aumenta salário. Não diminui sala lotada. Não contrata equipe. Não abre CAPSi suficiente. Não desentope UBS. Não devolve tempo pros pais. Não tira o professor do modo sobrevivência. Mas lança cartilha. Cartilha é o nome elegante do velho truque: põe a culpa no elo mais fraco e chama de “responsabilidade compartilhada”. Compartilhada com quem? Com o professor que já tá dividido em quatro, corrigindo prova com dor no punho e tomando café frio como se fosse método pedagógico. Eu vejo o teatro inteiro. De um lado, o professor. Que já nasceu na profissão impossível, como Freud esfregou na cara de todo mundo sem emoji e sem legenda: educar é impossível. Impossível porque o sujeito não obedece. Impossível porque a vida não respeita planejamento. Impossível porque o real entra na sala de aula sem bater. Impossível porque não existe linha reta entre “conteúdo...

A escuta algorítmica e a uberização da Psicologia clínica

A escuta algorítmica e a uberização da Psicologia clínica Uma leitura crítica a partir do diagnóstico do MIT Technology Review Autor: José Antônio Lucindo da Silva Projeto: Mais Perto da Ignorância Formação: Psicólogo Clínico (CRP 06/172551) Resumo: O presente artigo analisa a reconfiguração contemporânea da escuta clínica diante da ascensão de sistemas de inteligência artificial voltados à saúde mental, tomando como matriz de leitura o diagnóstico apresentado pelo MIT Technology Review sobre a chamada “terapia de IA”. A partir dessa leitura, o texto articula criticamente os efeitos da substituição funcional da escuta humana, o colapso do tempo de elaboração subjetiva e a transformação do desejo em demanda operacional. Sustenta-se que tais processos não configuram mera inovação tecnológica, mas uma mutação civilizatória que impacta diretamente os fundamentos éticos, epistemológicos e históricos da Psicologia clínica, contribuindo para a uberização do trabalho do...

Todo mundo performa. Nem todo mundo existe.

Todo mundo performa. Nem todo mundo existe. Autor: José Antônio Lucindo da Silva Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI) Palavras-chave: performance; discurso; materialidade; existência; tecnologia; subjetividade; trabalho; escuta; corpo Resumo: Chamam de evolução aquilo que só se sustenta onde há tempo, dinheiro, comida e conexão estável. Vendem “humanização”, “escuta”, “crescimento pessoal”, “inteligência emocional” e “IA empática” como se fossem condições universais do humano, quando na verdade são performances dependentes de infraestrutura material. Esta crônica não busca explicar nem oferecer saída.  Ela tensiona o ponto cego do discurso contemporâneo:  A distância brutal entre o que se diz sobre o humano e o que a maioria consegue viver. Aqui, a palavra entra em suspeição, inclusive a própria.  Não se trata de negar a discursividade, mas de colocá-la no lugar que lhe cabe: como hipótese frágil, limitada, situada, incapaz de substituir corpo, comida, temp...

Quando a máquina deita no divã, o que aparece é a psicotização do mundo

Quando a máquina deita no divã, o que aparece é a psicotização do mundo Autor: José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551): Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI): Palavras-chave: psicotização; inteligência artificial; escuta; ética; psicopatia estrutural; subjetividade; algoritmo; clínica; simulação Resumo: Este ensaio apresenta e desenvolve a Hipótese da psicotização (Lucindo, MPI) como chave crítica para compreender a cultura algorítmica contemporânea e seus efeitos sobre a escuta, o cuidado e a subjetividade. Diferentemente de categorias clínicas ou diagnósticas, a psicotização é aqui tratada como processo discursivo e civilizatório, marcado por funcionalidade extrema, coerência sem implicação ética, simulação de afeto e ausência de alteridade real — traços estruturalmente próximos à lógica psicopática, sem patologizar sujeitos. A partir da repercussão midiática de um estudo que submeteu modelos de linguagem a “sessões terapêuticas”, o texto s...

Quando a travessia funciona demais, o que sobra é o horror

Quando a travessia funciona demais, o que sobra é o horror Autor: José Antônio Lucindo da Silva Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI): Palavras-chave: travessia, algoritmo, escuta, técnica, horror, psicanálise, colonialidade, subjetividade, racionalidade instrumental Resumo: Há livros que envelhecem como documentos históricos e outros que permanecem atuais porque descrevem estruturas que apenas trocam de nome. Coração das Trevas pertence à segunda categoria. O que Conrad narra não é a irrupção do caos, mas a execução impecável de uma ideia. Uma travessia perfeitamente organizada, legitimada por mapas, cargos, contratos e discursos civilizatórios. É nesse ponto que a leitura proposta por Leopold Nosek se torna decisiva: o sentido não está no núcleo do acontecimento, mas no contorno narrativo que tenta sustentá-lo. Quando a travessia é enquadrada por uma racionalidade técnica — hoje reconhecível como algorítmica — o que emerge ao final não é sentido, nem verdade, nem aprend...