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O psicólogo de giz e o terapeuta de troco.

O psicólogo de giz e o terapeuta de troco



(Crônica/ensaio da Loka do Rolê)

Eu adoro quando o sistema decide “cuidar”.

Ele não aumenta salário.
Não diminui sala lotada.
Não contrata equipe.
Não abre CAPSi suficiente.
Não desentope UBS.
Não devolve tempo pros pais.
Não tira o professor do modo sobrevivência.

Mas lança cartilha.

Cartilha é o nome elegante do velho truque: põe a culpa no elo mais fraco e chama de “responsabilidade compartilhada”.
Compartilhada com quem?
Com o professor que já tá dividido em quatro, corrigindo prova com dor no punho e tomando café frio como se fosse método pedagógico.

Eu vejo o teatro inteiro.

De um lado, o professor.
Que já nasceu na profissão impossível, como Freud esfregou na cara de todo mundo sem emoji e sem legenda: educar é impossível.
Impossível porque o sujeito não obedece.
Impossível porque a vida não respeita planejamento.
Impossível porque o real entra na sala de aula sem bater.
Impossível porque não existe linha reta entre “conteúdo” e “resultado”.
E porque ninguém aprende com dignidade dentro de uma máquina que mastiga tempo e cospe cobrança.

Do outro lado, o psicólogo.
Que também tá na profissão impossível — analisar é impossível — porque o inconsciente não assina contrato, não cumpre combinado, não fecha relatório trimestral.
E porque conflito exige aquilo que o mundo odeia: tempo, presença, intervalo.
Coisas que não circulam bem.
Coisas que não dão retorno rápido.
Coisas que não cabem no aplicativo.

Aí o sistema olha pra essas duas impossibilidades, dá um sorriso de gerente e fala:
“Vamos otimizar.”


É assim que nasce o educador-psicólogo.
Não o psicólogo de verdade — aquele que carrega formação, ética, limite e responsabilidade técnica.
Não.
Nasce o psicólogo por acúmulo, o psicólogo por abandono, o psicólogo por falta de alternativa.
Um psicólogo de giz, de lousa, de corredor, de pátio.
Um psicólogo que não pode diagnosticar, mas tem que perceber.
Que não pode tratar, mas tem que acolher.
Que não pode guardar segredo, mas tem que ouvir.
Que não pode se omitir, mas também não pode fazer demais.
Um psicólogo que não existe como profissão, mas existe como demanda.

Isso não é interdisciplinaridade.
Isso é sobrevivência institucional.

E eu vejo como isso é vendido.

Vem a cartilha, toda cheirosa de boa intenção, dizendo:
“Professor, observe sinais.”
Mudança de humor.
Isolamento.
Queda de rendimento.
Falas de desesperança.
Sono bagunçado.
Alimentação alterada.
Autocuidado indo pro ralo.

Eu olho isso e penso: vocês acham que professor não vê?

Professor vê tudo.
Vê o menino dormindo porque chegou do trabalho.
Vê a menina quieta porque em casa grito é rotina.
Vê a pele pedindo pausa.
Vê o corpo pedindo socorro.
Vê a fome mascarada de indisciplina.
Vê a vergonha virando agressividade.
Vê o medo virando “bagunça”.
Professor vê tanto que às vezes precisa parar de ver pra não enlouquecer.

O problema nunca foi “ver”.
O problema é: o que acontece depois de ver?

Depois de ver, o professor faz o quê?

Chama pra conversar “num lugar tranquilo”?


Qual lugar tranquilo existe numa escola que parece estação de trem em horário de pico?
Fala “sem julgamento”?
Como falar sem julgamento quando o próprio professor está sendo julgado por metas, por coordenação, por pai, por diretoria, por rede social, por secretário, por algoritmo e por uma planilha que acha que gente é gráfico?

“Escute mais do que fale.”
Eu adoro essa frase.
Linda.
Parece até que o mundo permite.

Escutar exige corpo disponível.
E corpo disponível virou artigo de luxo.

E aí entra o pulo do gato: a cartilha diz que o professor não diagnostica.
Que ele só acolhe e encaminha.
Só.

“SÓ” é a palavra mais violenta do português.

“Só encaminha.”

“Só registra.”

“Só comunica a coordenação.”

“Só conversa com a família.”

“Só aciona rede.”

“Só acompanha.”


Eu queria ver alguém dizer “só” com uma sala de quarenta.
Com aluno faltando porque tem que cuidar do irmão.
Com criança em crise e adulto em burnout.
Com ameaça de violência na porta.
Com professor ganhando o suficiente pra continuar vivo, não o suficiente pra estar inteiro.

O sistema sempre faz isso: ele nega o estatuto, mas exige a função.
Ele diz “não é clínica”, mas pede gesto clínico.
Ele diz “não é terapia”, mas pede sustentação de impasse.
Ele diz “não é psicologia”, mas pede manejo de sofrimento.

Aí, quando não dá certo, ele acha um culpado.

E eu conheço esse filme.
Porque o mesmo filme passa na clínica.

Agora eu mudo a câmera.

Eu vejo o psicólogo no aplicativo.
No convênio.
Na plataforma digital.
Na esteira invisível onde o tempo é fatiado e vendido como se fosse hambúrguer.

E eu vejo o valor.

Treze reais por sessão.
Às vezes menos.
Às vezes o suficiente pra comprar um lanche e fingir que isso é valorização profissional.
Eu vejo o absurdo com números, porque o capitalismo gosta de números.
Ele acha que número dá legitimidade pro assalto.


Aí surge a tal sugestão legislativa: piso de R$ 100,00 por atendimento, reajuste anual, sanção pra quem descumprir.
Eu olho e digo: finalmente alguém escreveu o óbvio com tinta oficial: sem remuneração minimamente decente, não existe sustentação.
Não porque o psicólogo seja santo.

Mas porque o corpo é corpo.
O corpo come.
O corpo paga conta.
O corpo adoece.
O corpo não trabalha por epifania.

A escuta não é uma nuvem.
A escuta é um corpo sustentado.

E aí a frase que eu guardo é essa: o terapeuta não está em crise de método. Está em crise de sustentação.

Quando o chão social cede, o que acontece é simples:
a escuta até existe, mas não se aguenta em pé.

E quando a escuta não se aguenta em pé, o diagnóstico ganha asa.
Porque o diagnóstico é a forma mais rápida de produzir uma aparência de solidez quando tudo virou lama.


Não é que as pessoas “inventem transtorno” por maldade.
É que o sistema precisa de categoria pra gerir o que ele não quer sustentar.
Categoria é um jeito de empacotar o excesso e mandar embora.

Categoria vira protocolo.

Protocolo vira fluxo.

Fluxo vira estatística.

Estatística vira apresentação.
Apresentação vira “ação”.

E a vida continua quebrando.

A infância vira risco.
O comportamento vira alerta.
A tristeza vira categoria administrável.
O professor vira triagem.
O psicólogo vira prestador precarizado.
E o sistema chama isso de “cuidado”.

O mais bonito é que ele ainda pede aplauso.

“Isso é valorização profissional. Isso é defesa da saúde mental.”


Eu não duvido da intenção de quem escreve essas frases.
Eu duvido do mundo que as torna necessárias.

Porque o mesmo mundo que produz cartilha pra professor falar de sofrimento é o mundo que não garante condições mínimas de existência.
E o mesmo mundo que diz “precisamos acolher” é o mundo que paga migalha por escuta e depois pergunta por que a clínica está cansada.

Aí entra a parte que vocês fingem que não existe:
a escola e a clínica estão sendo usadas como tampões de um buraco estrutural.

O buraco é material.
O buraco é tempo.
O buraco é renda.
O buraco é moradia.
O buraco é comida.
O buraco é transporte.
O buraco é violência.
O buraco é precarização.
O buraco é a vida inteira virando tarefa.

E quando o buraco é estrutural, o sistema faz o quê?
Ele terceiriza.

Terceiriza pro professor.
Terceiriza pro psicólogo de aplicativo.
Terceiriza pra família.
Terceiriza pro “projeto”.
Terceiriza pro “programa”.
Terceiriza pra “campanha”.

Porque é mais barato terceirizar do que sustentar.


Aí a cartilha chega e diz: “A escola é espaço privilegiado.”
Privilegiado pra quê?
Pra absorver o que ninguém quer pagar.
Pra ouvir o que ninguém quer sustentar.
Pra segurar o que o Estado não segura.
Pra conter o que o mercado explora.

E o professor fica ali, no centro, virando psicólogo sem poder ser psicólogo.
E o psicólogo fica ali, no canto, virando operário da escuta em linha de montagem.

Dois impossíveis.
Duas profissões que Freud já chamou de impossível.
E o sistema, genial, decide somar uma dentro da outra.

Como se impossibilidade fosse peça de lego.

É aí que eu chamo de psicólogo negativo:
o educador que carrega a função sem carregar o lugar.
Ele tem a demanda, mas não tem o estatuto.
Tem o peso, mas não tem o instrumento.
Tem o risco, mas não tem a proteção.
Tem a cobrança, mas não tem a condição.


E depois perguntam por que o professor adoece.

Adoece porque o corpo não aguenta a fantasia social de que ele é a última barreira entre a criança e o colapso.
Adoece porque ele é convocado a operar no impossível sem direito ao impossível.
Adoece porque o sistema transforma limite em culpa.

“Você não acolheu.”
“Você não percebeu.”
“Você não encaminhou.”
“Você não teve empatia.”

Empatia virou martelo.
E o professor virou prego.

Aí eu volto pro psicólogo.

O psicólogo de aplicativo recebe pouco, atende rápido, registra o mínimo, e vira alvo de um paradoxo:
se ele tenta sustentar o impasse, ele não fecha a conta.
se ele corre, ele vira técnico de procedimento.

E o sistema adora esse dilema, porque dilema é produtividade disfarçada.

“Quanto menos vale quem escuta, mais vale o diagnóstico.”
Eu repito porque é simples demais pra ignorar.

Quanto mais barata a clínica, mais cara precisa parecer a patologia.
Patologia vende tratamento.
Patologia justifica protocolo.
Patologia cria mercado.

E enquanto isso a crítica circula.
A revista denuncia.
O post viraliza.
O debate acontece.


Nada se desloca.

Porque deslocamento exige o que ninguém quer bancar:
materialidade.

O mundo prefere discurso.
Discurso é barato.
Discurso dá sensação de ação.
Discurso dá engajamento.
Discurso não mexe no orçamento.

Por isso eu digo: eco não é escuta.
Resposta não é cuidado.

E aí entra a tecnologia com seu sorriso limpo:

“Quer escuta infinita? Eu te dou.”
Sem corpo.
Sem cansaço.
Sem salário.
Sem greve.
Sem licença médica.
Sem limite.

Escuta infinita, mas sem alteridade.
Escuta infinita, mas sem responsabilidade.
Escuta infinita, mas sem risco real.

Ela não cria o buraco.
Ela ocupa.

E é aí que vocês se confundem:
não é que a inteligência artificial “ameaça” a escuta.
A escuta já estava sendo desmontada por um sistema que odeia intervalo.
A IA só aparece como a prótese perfeita daquilo que o mundo já decidiu: ninguém pode parar.


O professor não pode parar.
O psicólogo não pode parar.
O aluno não pode parar.
O pai não pode parar.
A mãe não pode parar.

E quando ninguém pode parar, a vida vira sintoma.
Não por teoria.
Por funcionamento.

Eu olho esse quadro todo e não vejo contradição.
Vejo coerência.

O mesmo sistema que esvazia a escuta é o sistema que pede acolhimento.
O mesmo mundo que denuncia a medicalização é o mundo que fabrica as condições pra ela ser necessária.
O mesmo Congresso que debate piso é o mundo que permite treze reais por sessão.
A mesma escola que “protege” é a escola que está superlotada, precarizada e atravessada por violência cotidiana.

Não falta consciência.
Não falta cartilha.
Não falta protocolo.
Não falta campanha.

Falta chão.


E chão não é conceito.
Chão é corpo sustentado.
É renda.
É tempo.
É equipe.
É rede que alcança.
É sala que comporta gente sem virar depósito.

O resto é discurso tentando ocupar o lugar do que não existe.

Eu não vou concluir.
Conclusão é truque.
Conclusão é porta de saída.
E aqui não tem saída.
Tem exposição.

Quando a escuta perde chão, o diagnóstico aprende a voar.
Quando o professor vira psicólogo por abandono, a escola vira triagem.
Quando o psicólogo vira prestador barato, o cuidado vira mercadoria.
E quando o cuidado vira mercadoria, o sofrimento vira categoria.

Não é falha.
É desenho.

E o desenho continua.


Referências:

— BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

— CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.

— FREUD, Sigmund. Análise terminável e interminável (1937). In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago.

— HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.

— MAZON, Márcia da Silva; BIANCHI, Eugênia. Viver e conviver com a infância sem tratá-la como um problema. Revista Cult.

— MOYSÉS, Maria Aparecida A.; COLLARES, Cecília A. L. Vidas de crianças e adolescentes comprometidas pelos processos de patologização.

— ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.


Notas do Autor:

José Antônio Lucindo da Silva — psicólogo clínico (CRP 06/172551), formado em Psicologia (UNIARA), pós-graduado em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Atua na clínica com adultos e escreve no projeto Mais Perto da Ignorância, investigando precarização, tecnologia e sofrimento psíquico sem promessa de cura, sem pedagogia e sem consolo.

#alokadorole
@alokdorole_persogem
#maispertodaignorancia

Palavras chaves: escuta, diagnóstico, medicalização, precarização do cuidado, tempo clínico, exaustão profissional, psicologia, saúde mental, sofrimento psíquico, infância medicalizada, patologização, laço social, desigualdade estrutural, violência estrutural, clínica precarizada, trabalho do psicólogo, uberização da psicologia, cuidado automatizado, gestão do sofrimento, crítica à medicalização, discurso psicológico, ética da escuta, escuta sem sustentação, capitalismo de vigilância, tecnologia e subjetividade, inteligência artificial e saúde mental, crítica ao diagnóstico, função do educador, escola sobrecarregada, profissão impossível, Freud, mal-estar na civilização, sociedade do cansaço, escuta simulada, cuidado como código, colapso da escuta, tempo e clínica, discurso e materialidade, Mais Perto da Ignorância, Loka do Rolê 


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