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O psicólogo de giz e o terapeuta de troco.

O psicólogo de giz e o terapeuta de troco (Crônica/ensaio da Loka do Rolê) Eu adoro quando o sistema decide “cuidar”. Ele não aumenta salário. Não diminui sala lotada. Não contrata equipe. Não abre CAPSi suficiente. Não desentope UBS. Não devolve tempo pros pais. Não tira o professor do modo sobrevivência. Mas lança cartilha. Cartilha é o nome elegante do velho truque: põe a culpa no elo mais fraco e chama de “responsabilidade compartilhada”. Compartilhada com quem? Com o professor que já tá dividido em quatro, corrigindo prova com dor no punho e tomando café frio como se fosse método pedagógico. Eu vejo o teatro inteiro. De um lado, o professor. Que já nasceu na profissão impossível, como Freud esfregou na cara de todo mundo sem emoji e sem legenda: educar é impossível. Impossível porque o sujeito não obedece. Impossível porque a vida não respeita planejamento. Impossível porque o real entra na sala de aula sem bater. Impossível porque não existe linha reta entre “conteúdo...

Violência, Discurso & Invisibilidade —Crítica ao dispositivo patológico-moral e à impunidade simbólica no Brasil contemporâneo

Violência, Discurso & Invisibilidade — Crítica ao dispositivo patológico-moral e à impunidade simbólica no Brasil contemporâneo Autor: José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551) Resumo Este artigo analisa criticamente a maneira dominante pela qual episódios recentes de violência extrema — institucional, de gênero ou midiática — são representados no discurso público brasileiro. Argumenta-se que a patologização ou moralização dos perpetradores age como mecanismo de invisibilização da vítima, de reabilitação simbólica do agressor e de reprodução da violência em estrutura social e simbólica. Com base em revisão teórica, dados empíricos recentes e análise documental, propõe-se uma abordagem ética-clínica que revaloriza a vida do outro em sua alteridade absoluta, recusando explicações simplistas que naturalizam o horror. Palavras-chave: violência estrutural; discurso mediático; psicopatologia; impunidade simbólica; subjetividade. 1. Introdução Nos últimos anos ...

Da Dor à Identidade: Performatividade Vitimária, Patologização do Eu e Capital Simbólico do Sofrimento na Sociedade Pós-Exposicional

Da Dor à Identidade: Performatividade Vitimária, Patologização do Eu e Capital Simbólico do Sofrimento na Sociedade Pós-Exposicional RESUMO O presente artigo analisa o fenômeno contemporâneo de apropriação identitária da dor psicológica, no qual sintomas, diagnósticos e narrativas traumáticas deixam de constituir elementos clínicos transitórios para se tornarem marcadores discursivos estáveis do eu e dispositivos de pertencimento social. A partir da crítica da vitimização apresentada por Giglioli (2014) e articulando perspectivas de Freud, Bauman, Han e Zuboff, discute-se a passagem da subjetividade experiencial para a subjetividade performativa, marcada pela patologização autopromocional. Tal fenômeno implica uma inversão ética e clínica: a elaboração subjetiva é substituída pela estetização da ferida, e a cura deixa de ser horizonte terapêutico para tornar-se ameaça identitária. Conclui-se que o sofrimento, quando capturado pela lógica de visibilidade algorítmica, convert...