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Da Dor à Identidade: Performatividade Vitimária, Patologização do Eu e Capital Simbólico do Sofrimento na Sociedade Pós-Exposicional

Da Dor à Identidade: Performatividade Vitimária, Patologização do Eu e Capital Simbólico do Sofrimento na Sociedade Pós-Exposicional


RESUMO

O presente artigo analisa o fenômeno contemporâneo de apropriação identitária da dor psicológica, no qual sintomas, diagnósticos e narrativas traumáticas deixam de constituir elementos clínicos transitórios para se tornarem marcadores discursivos estáveis do eu e dispositivos de pertencimento social. A partir da crítica da vitimização apresentada por Giglioli (2014) e articulando perspectivas de Freud, Bauman, Han e Zuboff, discute-se a passagem da subjetividade experiencial para a subjetividade performativa, marcada pela patologização autopromocional. Tal fenômeno implica uma inversão ética e clínica: a elaboração subjetiva é substituída pela estetização da ferida, e a cura deixa de ser horizonte terapêutico para tornar-se ameaça identitária. Conclui-se que o sofrimento, quando capturado pela lógica de visibilidade algorítmica, converte-se em ativo simbólico, corroendo o potencial clínico da elaboração psíquica.

Palavras-chave: vitimização; patologização; performance; capitalismo simbólico; subjetividade digital.


1. INTRODUÇÃO


O debate sobre saúde mental no século XXI ampliou-se tanto no espaço clínico quanto na esfera pública, produzindo uma rápida disseminação de repertórios psicológicos e diagnósticos em contextos sociais, midiáticos e relacionais. Entretanto, junto ao avanço discursivo, emerge um fenômeno paradoxal: a substituição da dor como experiência processual pela dor como identidade social legitimadora. A clínica psicológica, historicamente vinculada à elaboração subjetiva, passa a conviver com o risco de uma economia psíquica da vitimização, baseada na identificação do sujeito com sua condição sintomatológica, e não com a travessia transformadora possível a partir dela.

Segundo Giglioli (2014), a sociedade ocidental contemporânea desenvolveu uma mitologia vitimária, na qual o status de vítima se converteu em lugar moralmente privilegiado e estrategicamente incontestável. A partir desse ponto de vista, sofre-se não apenas por contingência existencial, mas também por vantagem argumentativa e valor simbólico. O sofrimento, publicamente narrado, torna-se uma garantia discursiva, uma legitimação automática do falar e do existir social.


2. REFERENCIAL TEÓRICO E BASE CRÍTICA


Freud (1917), em Luto e Melancolia, evidencia que, quando o sujeito identifica seu eu com o objeto perdido, a dor deixa de ser transitória e passa a compor sua estrutura egóica. Na sociedade atual, essa identificação deixa a esfera clínica e alcança o território social e performativo, tornando-se uma identidade circulável.

Bauman (2001) amplia a leitura ao afirmar que, na modernidade líquida, tudo o que não é exposto corre risco de desaparecer, incluindo a dor, que passa a demandar visibilidade como forma de existência. Já Han (2015) destaca o imperativo contemporâneo da transparência: o sujeito deve explicar-se, justificar-se e revelar-se continuamente, eliminando o direito ao segredo psíquico.

Além disso, as contribuições de Zuboff (2019) sobre o capitalismo de vigilância revelam que emoções, traumas e fragilidades tornaram-se dados, rastros monetizáveis e recursos de extração econômica. O sofrimento passa a ter valor de mercado simbólico e técnico, sendo consumido, replicado e convertido em engajamento.


3. DESENVOLVIMENTO E DISCUSSÃO CRÍTICA


A patologização contemporânea ultrapassa a dimensão clínica e adentra a esfera de inscrição identitária. Não se trata apenas de possuir um diagnóstico, mas de ser o diagnóstico: “eu sou ansioso”, “eu sou depressivo”, “eu sou borderline”. A linguagem, mais do que descritiva, torna-se ontológica. A patologia, outrora circunstancial, converte-se em “sobrenome existencial”.

Essa transição revela uma lógica de pertencimento, na qual o sintoma atua como senha de acesso comunitário. A vítima adquire uma posição discursiva incontestável, porque a crítica ao sofrimento passa a ser confundida com negação da dor, e não com problematização ética e clínica. Assim, o discurso de superação deixa de ser desejável e torna-se suspeito, pois ameaça a coesão identitária do grupo. A cura, paradoxalmente, expulsa.

A cultura digital potencializa tal dinâmica por meio da performatividade emocional. Redes sociais oferecem uma arena onde o sofrimento se torna narrativa, e a narrativa se torna produto compartilhável. As dores passam a operar como conteúdos culturalmente monetizáveis, e a subjetividade transforma-se em linha editorial pessoal. O “sofrer” passa a funcionar não apenas como sinal clínico, mas como prova de autenticidade.

Diante disso, assiste-se a um deslocamento da noção de tratamento: o objetivo deixa de ser a transformação subjetiva e se reorganiza como manutenção simbólica da ferida. Tal mecanismo produz o que se pode chamar de “economia psíquica da permanência”, na qual mudar implica perder público, sentido, grupo ou identidade.


4. CONSIDERAÇÕES FINAIS


O fenômeno analisado demonstra que a disseminação do vocabulário emocional e clínico não garante evolução psíquica. Ao contrário, pode produzir uma cultura de identificação patológica, na qual o sujeito encontra refúgio no diagnóstico, transformando a dor em morada discursiva. Nesse contexto, a cura não é apenas difícil: ela se torna inconveniente, pois dissolve uma identidade socialmente estabilizada.

O risco maior não é sofrer, mas reter o sofrimento como destino. A clínica, portanto, precisa reintroduzir o valor do silêncio, da opacidade, do intervalo e da incerteza — condições mínimas para a elaboração simbólica. Se a dor vira assinatura, o sujeito perde o direito de se tornar outro.

A História:

#alokadorole 

A história da saúde mental não é só ciência — é também um cemitério de diagnósticos usados para justificar violência, controle e moralismo. A Folha publicou uma lista de transtornos que nunca existiram, mas que serviram perfeitamente para manter estruturas inteiras de poder funcionando como se fossem tratamento .

A Loka olha para isso e não vê psiquiatria: vê engenharia de obediência.

Drapetomania, por exemplo, era o “transtorno” de escravos que queriam fugir. Não era doença — era liberdade sendo criminalizada.
Disestesia etiópica era o “diagnóstico” de escravos que não queriam trabalhar para seus donos. A “cura”? Chicotadas. Medicina ou manual de opressão?

A lista continua:
– Histeria, usada para silenciar mulheres por séculos, mutilando corpos e apagando subjetividades.
– Insanidade moral, aplicada a quem ousava desobedecer papéis sociais.
– Síndrome pós-aborto, inventada por grupos religiosos para controlar o corpo feminino.
– Homossexualidade, considerada doença até ontem — não por ciência, mas por dogma.

Nada disso caiu do céu.
Cada diagnóstico atendia perfeitamente ao medo de uma sociedade que não tolerava autonomia, desejo, fuga, crítica ou prazer.
Onde havia resistência, criavam “sintoma”. Onde havia diferença, inventavam “desvio”. Onde havia sofrimento real, aplicavam violência fantasiada de cuidado.

E não pense que isso é passado. O nome muda, o rótulo muda, o discurso muda — mas a lógica é a mesma: patologizar o desconforto que o poder sente diante de quem não se encaixa.

A Loka não tem ilusão: quando o sistema quer te domesticar, ele não te algema — ele te define. E diagnóstico errado dói mais que doença: ele te obriga a carregar o delírio do outro como se fosse sua verdade.

O que a história mostra não é evolução da ciência.
É evolução da forma de controlar corpos.

📎 Leitura completa:

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2025/11/diagnosticos-inventados-a-lista-de-transtornos-mentais-que-nunca-existiram.shtml#webview=1

#alokadorole #maispertodaignorancia

REFERÊNCIAS:

BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

BOURDIEU, P. The forms of capital. New York: Greenwood, 1986.

FREUD, S. Luto e melancolia. 1917.

GIGLIOLI, D. La crítica de la víctima. Roma: Nottetempo, 2014. 

HAN, B.-C. A sociedade da transparência. Petrópolis: Vozes, 2015.

MALDANER, A. T. O individualismo proprietário e a função social da propriedade. UFPR, 2012.

ZUBOFF, S. The age of surveillance capitalism. New York: PublicAffairs, 2019.

📄 MINI BIO 

José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo (CRP 06/172551), pesquisador independente em psicanálise, subjetividade digital e sofrimento contemporâneo. Autor do projeto Mais Perto da Ignorância, onde desenvolve ensaios, podcasts e análises sobre o colapso da escuta humana na era algorítmica.

— A Loka do Rolê 

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