A Carta Que Voltou Tarde Demais
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(Resposta ao Dr. Freud na Era do Comentário Público)
Caro Dr. Freud,
Escrevo-lhe novamente, mas agora de forma mais precisa.
Segundo alguns dados midiáticos recentemente difundidos, um jornalista de alta credibilidade foi interpelado publicamente por uma seguidora que lhe pediu que jamais tornasse pública sua suposta orientação sexual. A interpelação veio revestida de vergonha e oração, como se moral e cuidado fossem sinônimos.
Não houve crime.
Não houve escândalo.
Houve discurso.
A resposta do jornalista foi direta: delimitou fronteira, nomeou o caráter discriminatório do comentário e afirmou que sua vida íntima não é assunto público.
E eu pensei no senhor.
Não no Freud sistemático dos tratados, mas no Freud das cartas — aquele que Gilson Iannini analisa em Caro Dr. Freud .
Ali, o que importa não é o conteúdo clínico, mas o lugar que o senhor ocupa ao responder. O senhor não se deixa capturar pela fantasia do remetente. Não moraliza. Não absolve. Não se indigna performativamente.
O senhor desloca.
E o remetente, como sabemos, não respondeu de volta.
Esse silêncio sempre me intrigou.
Porque ele revela algo essencial: a resposta do analista não depende da validação do outro. A carta é ato ético, não contrato afetivo.
Hoje, Dr. Freud, o cenário mudou brutalmente.
A carta virou comentário público.
O remetente escreve diante de audiência.
A transferência foi capturada pela visibilidade.
O que naquela época era correspondência privada, hoje é feed.
O comentário dirigido ao jornalista não buscava saber. Buscava regular. Não era pergunta; era prescrição moral. Era o supereu falando em nome da normalidade.
O senhor descreveu o supereu como herdeiro da instância paterna. Em suas cartas, como evidencia Iannini, ele aparece também como voz cultural que atravessa o laço social. Ele exige conformidade, mas se apresenta como cuidado.
Hoje ele tem botão de compartilhar.
A resposta pública do jornalista não operou deslocamento simbólico como o senhor faria. Ela operou corte. Foi um gesto de delimitação: “não é da sua conta”.
E talvez seja isso que nosso tempo exija: delimitação.
Porque o intervalo epistolar desapareceu.
O senhor escrevia sem garantia de retorno. A ausência de resposta não anulava o gesto. Havia tempo. Havia hiato. Havia espaço para a elaboração.
Hoje o silêncio é interpretado como culpa.
Não responder é assumir posição política.
Não se declarar é esconder algo.
A rede exige transparência total.
Eu, Loka do Rolê, atravesso esse mundo discursivo e mediático e vejo sujeitos sendo convocados a justificar sua intimidade para satisfazer fantasias alheias. Vejo o desejo sendo policiado sob a máscara da preocupação. Vejo o gozo de vigiar travestido de zelo.
E vejo também que sua ética da resposta permanece atual.
O senhor respondia sem ocupar o lugar do Outro absoluto. Mantinha a assimetria. Não transformava a carta em espetáculo. Não se deixava arrastar pela moral do remetente.
Hoje, Dr. Freud, a moral não desapareceu. Ela se digitalizou.
O mal-estar que o senhor descreveu continua operando — apenas amplificado, compartilhável, arquivado.
Escrevo-lhe, portanto, para ocupar o lugar daquele que nunca lhe respondeu.
Talvez o remetente original tenha silenciado porque sua fantasia não suportou o deslocamento que o senhor operou.
Eu não silencio.
Eu respondo para registrar que a estrutura permanece.
O conflito entre desejo e norma continua.
A diferença é que agora ele acontece diante de milhares de olhos.
A carta que não voltou no passado retorna agora como capítulo.
Não para encerrar a correspondência.
Mas para mantê-la aberta na fratura.
Atenciosamente,
A Loka do Rolê
@alokdorole_personagem
Referência:
IANNINI, Gilson. Caro Dr. Freud. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.
Origem do debate
Discussão pública que motivou esta elaboração:
👉 https://www.facebook.com/share/1DoWQHUkis/
#alokadorole
@alokdorole_personagem
#maispertodaignorancia
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