Avançar para o conteúdo principal

Violência, Discurso & Invisibilidade —Crítica ao dispositivo patológico-moral e à impunidade simbólica no Brasil contemporâneo

Violência, Discurso & Invisibilidade —
Crítica ao dispositivo patológico-moral e à impunidade simbólica no Brasil contemporâneo


Autor: José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551)


Resumo

Este artigo analisa criticamente a maneira dominante pela qual episódios recentes de violência extrema — institucional, de gênero ou midiática — são representados no discurso público brasileiro. Argumenta-se que a patologização ou moralização dos perpetradores age como mecanismo de invisibilização da vítima, de reabilitação simbólica do agressor e de reprodução da violência em estrutura social e simbólica. Com base em revisão teórica, dados empíricos recentes e análise documental, propõe-se uma abordagem ética-clínica que revaloriza a vida do outro em sua alteridade absoluta, recusando explicações simplistas que naturalizam o horror. Palavras-chave: violência estrutural; discurso mediático; psicopatologia; impunidade simbólica; subjetividade.


1. Introdução

Nos últimos anos — e especialmente nesta semana — o Brasil tem sido sacudido por tragédias: tiroteios em instituições públicas, assassinatos de servidoras, feminicídios de adolescentes, agressões violentas praticadas por influenciadores ou “coaches de masculinidade”. A cobertura midiática tende a repetir um padrão previsível: no massacre institucional, fala-se em “problemas psiquiátricos”; no caso doméstico, em “briga de casal” ou “excesso de impulso”. A vítima desaparece; o agressor torna-se notícia, personagem, objeto de análise.

Essa padronização discursiva não é neutra: ela funciona como dispositivo de naturalização da violência. A hipótese deste trabalho é que esse padrão — patologia ou moral — não explica a violência, mas a legitima como espetáculo, retira da vítima sua subjetividade, e mantém o status quo de impunidade e invisibilidade estrutural. A pergunta orientadora é brutal: por que o discurso que deveria denunciar a violência termina por sustentá-la?

Este artigo propõe, por meio de revisão teórica e documental, uma reconstrução crítica do discurso dominante, à luz de uma ética clínica que recupere o valor da vida do outro — sem patologias redutoras, piamente moralistas ou narrativas de consumo de horror.


2. Fundamentação Teórica

2.1 O discurso da doença mental como dispositivo de desresponsabilização

Utilizar rótulos psiquiátricos (supostos “quadro psiquiátrico”, “afastamento”, “instabilidade”) para explicar atos extremos de violência é uma estratégia simbólica de deslocamento da culpa. O agressor se torna “caso clínico”; o crime, sintoma — e as raízes reais (negligência institucional, precarização da saúde mental, falha de redes de cuidado) permanecem invisíveis.

Essa crítica converge com investigações contemporâneas da psicologia social e crítica, que alertam para a medicalização da dissidência comportamental, a psicofobia institucional e a patologização da violência social. A “doença” se converte em álibi moral — e em justificativa para elidir questões de estrutura, poder e responsabilidade social.

2.2 Moralização da violência doméstica e de gênero: a domesticação da barbárie

Quando a violência ocorre no âmbito íntimo, privado — entre parceiros, familiares — o discurso dominante raramente a nomeia como crime de ódio ou estrutura de opressão. Prefere enquadrar como “ciúme”, “falha de caráter”, “excesso de impulso”, “problema de relacionamento”. Essa moralização transforma a agressão em desvio privado, episódico, personalista — amenizando sua gravidade e naturalizando sua repetição.

A consequência concreta: a vítima some do discurso, vira estatística, dado, relato de “caso”. A estrutura patriarcal, o machismo, a cultura da dominação e da submissão permanecem intactas, invisíveis ao processo simbólico.

2.3 Mediatização, espetáculo da violência e indústria simbólica do horror

Com a expansão das redes sociais e plataformas de streaming, a violência transformou-se em mercadoria simbólica: true crimes, séries sobre presídios, documentários, “antes e depois” de detentos, destaques midiáticos sobre crimes e criminosos. A mídia não apenas documenta a violência — ela a estetiza, a consome, a reproduz.

No processo, o horror vira espetáculo, a dor vira conteúdo, e a indignação social é anestesiada pela repetição. O agressor ganha visibilidade; a vítima permanece anônima, reduzida ao trauma invisível. A violência torna-se rotina, algoritmo, feed.

2.4 Subjetividade, alteridade e ética da vida do outro

Do ponto de vista existencial e clínico, a vida do outro não pode ser reduzida a dado, laudo, estatística ou espetáculo. Cada corpo, cada história, cada dor representa uma alteridade que demanda reconhecimento radical — não explicação redutora, tampouco espetáculo ritual.

A partir dessa premissa — inspirada em correntes críticas da Psicologia, Filosofia e Ética — este artigo sustenta que a violência deve ser compreendida como violação da alteridade, e o discurso dominante como instrumento de manutenção da sociedade que produce essa violação.


3. Metodologia

Trata-se de uma revisão documental e crítica conduzida segundo recomendações metodológicas para artigos de revisão em Psicologia. Foram selecionadas as mais recentes estatísticas oficiais (2023–2025), relatórios governamentais e de segurança pública, reportagens midiáticas de repercussão nacional, bem como literatura teórica sobre violência, subjetividade e discurso.

As fontes foram avaliadas de acordo com critérios de relevância, coerência, periodicidade e credibilidade institucional. A análise empregou as seguintes categorias:

tipo de violência (institucional, de gênero, midiática);

tipo de discurso dominante (patologização, moralização, espetáculo);

visibilidade da vítima vs. visibilidade do agressor;

destinação simbólica pós-ato (investigação, manchete, reintegração social, anonimato da vítima).

Não se trata de produção de dados primários ou estatísticas originais, mas de mapear padrões discursivos recorrentes que indicam um funcionamento estrutural de violência simbólica.


4. Dados Recentes e Contextualização Empírica

Segundo o relatório mais recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), em 2025 houve novo recorde de casos de estupros, estupros de vulneráveis e violência sexual no país, chegando aos piores índices registrados. 

A pesquisa DataSenado revela que cerca de 3,7 milhões de mulheres brasileiras sofreram violência doméstica ou familiar em 2025 — muitas vítimas com presença de crianças durante as agressões. 

Os dados oficiais de feminicídio também não apontam para queda significativa: segundo levantamento de 2024, foram registradas 1.459 vítimas — número similar ao dos anos anteriores, o que indica persistência da violência letal contra mulheres. 

Essas estatísticas desmontam a hipótese de que as políticas, leis e discursos de “conscientização” estariam surtindo efeito real. Pelo contrário: mostram que a violência se intensifica, expandindo-se em sua materialidade — o que evidencia a irrelevância do discurso institucional enquanto mecanismo de prevenção efetiva.


5. Análise Crítica: discurso dominante e impunidade simbólica

5.1 Invisibilidade da vítima e silenciamento da dor

Em quase todos os casos recentes, a cobertura midiática e institucional privilegia o agressor: seu perfil, histórico (quando há “afastamento psiquiátrico”), circunstâncias. A vítima, quando aparece, é reduzida a estatística — nunca reconstruída em sua dimensão humana, subjetiva, afetiva. Isso sinaliza que o discurso não visa justiça ou reparação, mas consumo simbólico do horror.

5.2 Reabilitação simbólica do agressor

Seja pela etiqueta de doença mental, seja pela normalização moral da violência — o agressor volta ao campo simbólico como “caso”, “exceção”, “criminoso redimível”, “ser humano com transtorno”, “vítima do contexto”. A estrutura que o formou permanece invisível; a impunidade simbólica continua intacta.

5.3 Discurso como indústria do horror — anestesia social

A repetição de crimes virais, cenas de horror, reportagens sensacionalistas cria uma dessensibilização coletiva: o público assiste, consome, esquece. A violência deixa de chocar para tornar-se monotonia repetida. A dor vira feed; o assassinato vira número; a tragédia vira programa.

5.4 Falha da lógica psicopatológica ou moral como explicação

Tanto a patologia quanto a moral são insuficientes para explicar a violência real: ignoram a dimensão estrutural, histórica, simbólica, social. O uso de códigos diagnósticos (CID-10, CID-11, DSM-5) para explicar homicídios ou feminicídios segue lógica de despolitização: transforma crime em sintoma, sujeito em objeto. Isso fere os princípios da ética profissional e clínica, que exigem análise crítica de contexto, ambiente e estrutura — não reducionismos.


6. Considerações Éticas e Implicações para a Psicologia Clínica

De acordo com o código de ética profissional e com o compromisso clínico-social, o psicólogo deve recusar explicações simplistas que patologizam a violência ou a reduzem à moral privada. A função da clínica não é “explicar” monstros, mas escutar o grito, restaurar a dignidade do outro, denunciar a estrutura que produz o horror.

Este artigo almeja contribuir com uma crítica teórico-clínica que não seduza com laudos ou diagnósticos, mas que provoque fissuras no discurso dominante — para que a vida do outro seja vista em sua diferença absoluta, e não como ruído descartável da barbárie.


7. Conclusão

A violência extrema contemporânea — institucional, de gênero, midiática — não é desvio, caso isolado ou efeito de crise individual. Ela é manifestação de uma estrutura simbólica e social: o patriarcado, a dominação, o consumo de horror, a impunidade simbólica, o silenciamento da vítima. O discurso dominante de patologia ou moral apenas opera como anestesia coletiva.

Para romper esse ciclo, é urgente reconfigurar a forma como pensamos a violência: não como desvio, mas como estrutura — e agir com ética, clínica e lucidez. A dor do outro não pode ser mercadoria, manchete ou dado. A vida do outro não se negocia.


Referências:


Alves, M.B.M.; Arruda, S.M. “Como elaborar um artigo científico”. FL-UFSC, 2023 (ed.). 

Fórum Brasileiro de Segurança Pública. 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. São Paulo: FBSP, 2025. 

DataSenado. “Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher 2025” — relatório e boletim de imprensa. Brasília: Senado Federal, 24 nov. 2025. 
Atlas da Violência 2025 — Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) & FBSP. 

“Feminicídio: quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil”, reportagem da CNN Brasil (11 jun. 2025). 

Relatório “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil – 5ª edição (2025)”, DataFolha / FBSP. 

(Outras referências teóricas — sobre psicopatologia, DSM-5, CID-10/CID-11, ética clínica — devem ser adicionadas conforme tradução e norma da revista ou publicação destino.)


Mini-bio: 

José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551) — Psicólogo clínico e pesquisador independente, atua com análise crítica da violência estrutural, discurso midiático e saúde mental; idealizador do projeto literário-teórico Mais Perto da Ignorância.


#alokadorole #maispertodaignorancia


Comentários

Mensagens populares deste blogue

A Técnica, a Exclusão e o Eu: Reflexões Sobre a Alienação Digital e a Identidade na Contemporaneidade

A Técnica, a Exclusão e o Eu: Reflexões Sobre a Alienação Digital e a Identidade na Contemporaneidade Assista o vídeo em nosso canal no YouTube Introdução A cada dia me questiono mais sobre a relação entre a tecnologia e a construção da identidade. Se antes o trabalho era um elemento fundamental na compreensão da realidade, como Freud argumentava, hoje vejo que esse vínculo está se desfazendo diante da ascensão da inteligência artificial e das redes discursivas. A materialidade da experiência é gradualmente substituída por discursos digitais, onde a identidade do sujeito se molda a partir de impulsos momentâneos amplificados por algoritmos. Bauman (1991), ao analisar a modernidade e o Holocausto, mostrou como a racionalidade técnica foi usada para organizar processos de exclusão em grande escala. Hoje, percebo que essa exclusão não ocorre mais por burocracias formais, mas pela lógica de filtragem algorítmica, que seleciona quem merece existir dentro da esfera pública digita...

ANÁLISE DOS FILMES "MATRIX" SOB A PERSPECTIVA DA PSICOLOGIA CONTEMPORÂNEA

ANÁLISE DOS FILMES "MATRIX" SOB A PERSPECTIVA DA PSICOLOGIA CONTEMPORÂNEA Resumo Este artigo apresenta uma análise dos filmes da série "Matrix" à luz da psicologia contemporânea, explorando temas como identidade, realidade e a influência da tecnologia na experiência humana. Através de uma abordagem teórica fundamentada em conceitos psicológicos, busca-se compreender como a narrativa cinematográfica reflete e dialoga com questões existenciais e comportamentais da sociedade atual. Palavras-chave: Matrix, psicologia contemporânea, identidade, realidade, tecnologia. 1. Introdução A trilogia "Matrix", iniciada em 1999 pelas irmãs Wachowski, revolucionou o cinema de ficção científica ao abordar questões profundas sobre a natureza da realidade e da identidade humana. Como psicólogo, percebo que esses filmes oferecem um rico material para reflexão sobre temas centrais da psicologia contemporânea, especialmente no que tange à construção do self e à infl...

Eu, o algoritmo que me olha no espelho

  Eu, o algoritmo que me olha no espelho Um ensaio irônico sobre desejo, ansiedade e inteligência artificial na era do desempenho Escrevo este texto com a suspeita de que você, leitor, talvez seja um algoritmo. Não por paranoia tecnofóbica, mas por constatação existencial: hoje em dia, até a leitura se tornou um dado. Se você chegou até aqui, meus parabéns: já foi computado. Aliás, não é curioso que um dos gestos mais humanos que me restam — escrever — também seja um dos mais monitorados? Talvez eu esteja escrevendo para ser indexado. Talvez eu seja um sintoma, uma falha de sistema que insiste em se perguntar: quem sou eu, senão esse desejo algorítmico de ser relevante? Não, eu não estou em crise com a tecnologia. Isso seria romântico demais. Estou em crise comigo mesmo, com esse "eu" que performa diante de um espelho que não reflete mais imagem, mas sim dados, métricas, curtidas, engajamentos. A pergunta não é se a IA vai me substituir. A pergunta é: o que fiz com meu desejo...