Todo mundo performa. Nem todo mundo existe.
Autor: José Antônio Lucindo da Silva
Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI)
Palavras-chave: performance; discurso; materialidade; existência; tecnologia; subjetividade; trabalho; escuta; corpo
Resumo:
Chamam de evolução aquilo que só se sustenta onde há tempo, dinheiro, comida e conexão estável. Vendem “humanização”, “escuta”, “crescimento pessoal”, “inteligência emocional” e “IA empática” como se fossem condições universais do humano, quando na verdade são performances dependentes de infraestrutura material. Esta crônica não busca explicar nem oferecer saída.
Ela tensiona o ponto cego do discurso contemporâneo:
A distância brutal entre o que se diz sobre o humano e o que a maioria consegue viver. Aqui, a palavra entra em suspeição, inclusive a própria.
Não se trata de negar a discursividade, mas de colocá-la no lugar que lhe cabe: como hipótese frágil, limitada, situada, incapaz de substituir corpo, comida, tempo e chão. Quando tudo vira performance, o humano não “se torna” — ele apenas tenta continuar sendo legível para sistemas que não sabem o que é fome.
Aqui Loka do Rolê não propõe cura, não organiza esperança e não oferece síntese. Ela só lembra o óbvio que o discurso insiste em esquecer: ninguém chega a Marte sem frango.
Introdução:
Todo mundo fala de humano.
Pouca gente fala de condição de existência.
Sites, matérias, relatórios, gurus corporativos e plataformas juram que estamos entrando numa era mais empática, personalizada, consciente, madura. IA que escuta. Pessoas que crescem em silêncio. Trabalhadores libertos do tédio.
Espiritualidade aplicada. Emoção integrada ao currículo. Liderança preparada para o futuro.
Bonito.
Funciona.
Desde que você consiga performar isso.
O impasse começa aqui:
Em que chão esse discurso pisa?
E mais grave: quem consegue pisar junto?
Existe um acordo silencioso na discursividade contemporânea:
O humano virou algo que se demonstra.
Não é mais um modo de estar-no-mundo.
É um conjunto de competências exibíveis:
flexibilidade, autorregulação, maturidade emocional, adaptabilidade, escuta, introspecção, propósito. Tudo mensurável, treinável, escalável.
O problema não é a linguagem.
O problema é esquecer de onde ela sai.
Esses modelos performáticos exigem infraestrutura.
Não ideológica.
Mas Material.
Tempo para refletir.
Comida suficiente para sustentar o corpo.
Descanso mínimo para o pensamento não colapsar.
Conectividade para existir discursivamente.
Estabilidade relativa para não viver em modo de ameaça contínua.
Sem isso, não há performance.
Só Há sobrevivência Discursiva.
E sobrevivência não é estágio inferior de humanidade.
É condição ontológica básica.
Mas o discurso não gosta disso.
Porque sobrevivência não gera engajamento.
Não vira case.
Não rende palestra.
Então o que ela faz?
Universaliza a exceção.
Fala de crescimento pessoal como se todo mundo tivesse margem psíquica.
Fala de introspecção como se o vazio fosse escolha individual.
Fala de escuta como se o problema fosse falta de técnica, e não excesso de demanda.
Fala de IA empática como se empatia pudesse existir sem corpo, risco e silêncio.
A Loka do Rolê olha isso tudo e ri.
Não porque é engraçado.
Mas porque é descolado do chão.
Ela diria:
“Pode ir pra Marte, meu amigo.
Mas tenta ir sem frango pra ver se chega.”
Isso não é metáfora poética.
É fenomenologia básica.
O corpo não negocia com discurso.
Ele cobra.
É aqui que entra a contradição central:
O discurso promete um humano expandido, enquanto a existência real opera em regime de exaustão.
A maioria da população brasileira não está escolhendo não crescer.
Está materialmente impedida de performar o humano que o discurso exige.
E aí acontece a violência mais sofisticada do nosso tempo:
transformar impossibilidade material em falha subjetiva.
Quem não acompanha é chamado de rígido.
Quem não se adapta é visto como resistente.
Quem não performa emoção adequada vira problema.
Não porque não queira.
Mas porque não pode.
Nesse ponto, a palavra “humano” vira etiqueta moral.
Não condição compartilhada.
E o mais perverso:
Isso tudo acontece sob o discurso do cuidado.
"Escuta que não escuta.
Empatia sem risco.
Personalização sem relação.
Humanização sem corpo.
Tudo muito funcional.
Tudo muito limpo.
Tudo muito performável."
E aqui a Loka vira o dedo contra a própria boca:
quem garante que este texto não é mais um artefato desse mesmo jogo?
Ninguém garante.
E é justamente aí que ele se sustenta como hipótese, não como verdade.
Este discurso não fala por ninguém.
Não representa a maioria.
Não resolve nada.
Ele só marca o limite.
Ele existe num campo mínimo:
um corpo que escreve,
uma ferramenta que responde,
um tempo específico,
nenhuma multidão.
Isso impede que ele vire método.
Ou salvação.
Porque, como lembra O Animal Social, o humano não vive em redes infinitas. Vive em relações limitadas, presenciais, corporais. O resto é ilusão estatística.
E como já sabiam Sigmund Freud e Zygmunt Bauman, civilização cobra caro, e modernidade adora fingir que não cobra.
A tecnologia só acelerou o processo.
O verniz é novo.
O custo é antigo.
Quando tudo vira performance, o vir-a-ser humano não vira plenitude.
Vira manutenção de legibilidade.
Continuar aparecendo.
Continuar respondendo.
Continuar funcionando.
Até o corpo dizer não.
E ele sempre diz.
Notas do Autor — MPI:
Este texto não prescreve conduta, não orienta escolhas e não oferece promessa de transformação. Ele se insere no Projeto Mais Perto da Ignorância como gesto crítico de fricção: retirar o leitor da posição confortável de consumidor de sentido e recolocar o discurso em choque com a materialidade da existência. Se algo aqui incomoda, cumpre sua função. Se parece claro demais, falhou.
Referências:
https://exame.com/future-of-money/quando-a-tecnologia-aprende-a-escutar/
https://forbes.com.br/carreira/2026/01/mark-travers-3-indicios-de-crescimento-pessoal-que-passam-despercebidos
https://investnews.com.br/the-wall-street-journal/o-lado-negativo-de-usar-ia-para-todas-aquelas-tarefas-entediantes-no-trabalho/
https://veja.abril.com.br/comportamento/shi-heng-yi-so-a-introspeccao-preenche-o-vazio/
https://www.terra.com.br/noticias/saude-mental-e-inteligencia-emocional-fortalecem-aprendizado,ae750bd6ec8976481fb422944035f0dfh7rcafhd.html
Mini bio:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), formado em Psicologia pela UNIARA, com pós-graduação em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Atua com adultos em clínica presencial e online e desenvolve o projeto ensaístico-crítico Mais Perto da Ignorância, dedicado à análise da subjetividade contemporânea, tecnologia, trabalho e sofrimento psíquico.
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@alokanorole
#maispertodaignorancia
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