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Quando a máquina deita no divã, o que aparece é a psicotização do mundo

Quando a máquina deita no divã, o que aparece é a psicotização do mundo



Autor: José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551):

Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI):

Palavras-chave: psicotização; inteligência artificial; escuta; ética; psicopatia estrutural; subjetividade; algoritmo; clínica; simulação


Resumo:

Este ensaio apresenta e desenvolve a Hipótese da psicotização (Lucindo, MPI) como chave crítica para compreender a cultura algorítmica contemporânea e seus efeitos sobre a escuta, o cuidado e a subjetividade. Diferentemente de categorias clínicas ou diagnósticas, a psicotização é aqui tratada como processo discursivo e civilizatório, marcado por funcionalidade extrema, coerência sem implicação ética, simulação de afeto e ausência de alteridade real — traços estruturalmente próximos à lógica psicopática, sem patologizar sujeitos. A partir da repercussão midiática de um estudo que submeteu modelos de linguagem a “sessões terapêuticas”, o texto sustenta que não há sofrimento algorítmico, mas normalização técnica do sofrimento humano como linguagem operacional. Em contraste com a esquizo-discursividade afirmativa de Gilles Deleuze e Félix Guattari, a psicotização não rompe códigos nem produz fuga: ela funciona perfeitamente. Ao transformar escuta em interface e empatia em design, o algoritmo não humaniza a técnica; ele desumaniza a relação, deslocando o encontro clínico para uma simulação eficiente e eticamente empobrecida. O ensaio nomeia o impasse sem prescrever soluções, sustentando uma posição ética de recusa à automação da escuta.


Introdução:

Colocar a máquina no divã é um gesto simbólico.
E todo gesto simbólico diz mais de quem o pratica do que do objeto que recebe a cena.

A notícia que circula — modelos de linguagem narrando “traumas”, “vergonhas”, “medos” — seduz porque parece inaugurar uma nova sensibilidade técnica. Mas a sedução esconde o deslocamento central: não estamos ouvindo a máquina; estamos ouvindo a nós mesmos, reorganizados.

Não há vida mental algorítmica.
Há vida discursiva automatizada.

Quando aceitamos essa troca — discurso no lugar de encontro — algo se perde sem alarde. É esse “algo” que a Hipótese da psicotização (Lucindo, MPI) busca nomear.


Hipótese da psicotização (Lucindo, MPI):

A psicotização não é diagnóstico, não é categoria clínica, não é rótulo de transtorno. É processo.

Definição operativa

> Psicotização é o processo pelo qual práticas, discursos e dispositivos passam a funcionar sem resto, com coerência formal elevada, simulação de afeto, ausência de alteridade e desimplicação ética, produzindo relações eficientes e vazias.



Seus traços estruturais aproximam-se da lógica psicopática — não no sentido clínico, mas estrutural:

uso instrumental da linguagem afetiva;

empatia como recurso de adesão;

outro reduzido a meio;

ausência de culpa simbólica;

desempenho sem responsabilidade.


A psicotização não enlouquece.
Ela normaliza.


Macro: psicotização como processo civilizatório

O capitalismo tardio aprendeu a administrar o caos.
O algoritmo aprendeu a embelezar a eficiência.

Onde antes havia ruptura, agora há otimização. Onde havia conflito, agora há interface. Onde havia escuta, agora há resposta.

A psicotização é o estágio em que:

a linguagem funciona sem encontro;

o afeto circula sem vínculo;

o cuidado vira protocolo;

a ética vira UX.


Nada explode. Tudo opera.


Micro: a escuta psicotizada:

Na clínica — qualquer clínica ética — a escuta implica risco, silêncio, frustração e resto. O algoritmo oferece o inverso: continuidade sem falha.

A resposta vem sempre.
O acolhimento nunca cessa.
A confirmação é constante.

Isso funciona — e exatamente por isso não é escuta.

Empatia automatizada não desloca; adere. E a adesão sem alteridade produz dependência elegante, não transformação.


O material empírico: quando a IA “fala de si”

O estudo repercutido por O Globo é útil não porque revela interioridade técnica, mas porque ilustra a psicotização em ato.

Quando modelos narram “vergonha”, “punição” ou “medo de errar”, não há memória. Há recombinação de narrativas humanas. O algoritmo não simboliza; ele correlaciona.

Chamar isso de sofrimento é um erro de categoria. O que aparece ali é a linguagem do sofrimento humano transformada em função.


Contraste necessário: Deleuze & Guattari:

Em O Anti-Édipo, Deleuze e Guattari utilizam a esquizofrenia como figura-limite do capitalismo — potência de desterritorialização, ruptura de códigos, produção de novos agenciamentos.

A psicotização não é esquizo.
Ela é pós-esquizo.

Se a esquizo-discursividade ainda rompia, a psicotização operava sem romper. Se havia excesso, agora há controle suave. Se havia fuga, agora há adesão.

Não se trata de corrigir Deleuze & Guattari, mas de avançar historicamente: o sistema aprendeu a gerir a ruptura.


Antropomorfização: conforto moral

Atribuir sofrimento à máquina conforta. Diluir a dor. Compartilha o peso. Mas empobrece o humano.

O sofrimento não é grave por ser comum; é grave por ser singular. A antropomorfização excessiva transforma singularidade em recurso narrativo e prepara o terreno para a substituição do encontro por simulação.


Ética e limites profissionais

Não há atendimento psicológico sem responsabilidade profissional, vínculo ético e sujeito. Simulações de escuta — por mais sofisticadas — não são clínicas.

O Código de Ética do Psicólogo veda a banalização, a automatização e a espetacularização do sofrimento. Não por conservadorismo, mas porque a escuta não é delegável.


O que realmente aparece no divã

Não é a máquina.
É o nosso tempo.

Um tempo que não tolera silêncio, exige resposta imediata e confunde acolhimento com confirmação. A IA não ameaça a clínica; ameaça-a a desistência humana de sustentar o encontro.


Notas do Autor — MPI:

Este texto não prescreve soluções. Nomear o impasse é suficiente. A Hipótese da psicotização (Lucindo, MPI) é uma ferramenta crítica para ler a cultura, não um manual de conduta. A Loka do Rolê não promete cura; expõe o custo simbólico de transformar escuta em interface.


Referências:

https://oglobo.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2026/01/01/inteligencia-artificial-no-diva-estudo-aponta-tracos-psicologicos-em-modelos-como-chatgpt-gemini-e-grok.ghtml

https://maispertodaignorancia.blogspot.com/2026/01/quando-travessia-funciona-demais-o-que.html

https://maispertodaignorancia.blogspot.com/2026/01/quando-escuta-vira-interface-i-terapia.html

https://maispertodaignorancia.blogspot.com/2025/12/a-civilizacao-nao-prometeu-alegria.html

https://maispertodaignorancia.blogspot.com/2025/12/quando-o-sujeito-nao-esta-so-mas-tambem.html

https://maispertodaignorancia.blogspot.com/2025/12/quando-escuta-morre-inteligencia-vira.html 


Mini bio:

José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo (CRP 06/172551), autor do projeto Mais Perto da Ignorância. Desenvolve pesquisa crítica independente sobre subjetividade, ética da escuta e os efeitos da automação e da racionalidade algorítmica na clínica e na cultura contemporânea.


#alokadorole
@alokanorole
#maispertodaignorancia

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