Conto da Loka do Rolê — O Silêncio que Pediu Férias
“Vocês falam de autocuidado como quem pede atestado pra alma.
Acham que descansar é desligar o wi-fi,
mas continuam com a cabeça gritando em modo avião.”
— Loka do Rolê
Há um novo vírus pairando no ar, mas ele não se propaga pelo toque: se espalha pela saturação. O nome é bonito, quase chique — burnout social. Um rótulo terapêutico para o cansaço de existir em voz alta. Agora todo mundo quer o direito de dizer “não” às visitas, desligar o mundo e justificar o silêncio com artigos de psicologia.
Mas a Loka, com seu humor de cemitério iluminado por neon, ri da seriedade disso tudo.
“Não é o social que tá em burnout, meu bem. É o sujeito. Que já não sabe se quer ser ou ser visto.”
Freud chamaria de retorno do recalcado.
Byung-Chul Han chamaria de fadiga da transparência.
Cioran, mais afiado, chamaria de tédio elevado à categoria de virtude.
E a Loka, pragmática como a morte, diria: “Vocês transformaram o isolamento em produto e o silêncio em performance. Agora o recolhimento tem legenda e filtro.”
O lar, que o artigo do O Globo chama de “refúgio íntimo”, virou bunker emocional.
O sujeito contemporâneo tranca a porta não por medo do outro, mas por medo de se dissolver na convivência. Cada visita se torna uma ameaça ao controle precário de si.
A casa, antes espaço de acolhimento, virou território de vigilância interna.
E o “ficar sozinho” virou uma forma de monitorar a própria sanidade.
“Dizer não às visitas”, diz o texto, “é um ato de autocuidado.”
A Loka responde:
“Autocuidado é não precisar justificar o silêncio.”
Mas justificar virou necessidade — o sujeito moderno precisa de narrativa até pra se ausentar.
Não basta descansar, é preciso postar o descanso.
O cansaço virou identidade; o esgotamento, status espiritual.
No fundo, o burnout social é a confissão de que o humano desaprendeu a estar entre outros sem se sentir invadido.
E também desaprendeu a estar só sem se sentir inútil.
Tudo é medido em termos de funcionalidade emocional: o descanso precisa ser produtivo, o lazer precisa curar, a solidão precisa gerar conteúdo.
Até o “não” virou performance — um grito estilizado dentro do feed.
A Loka, que é o avesso do equilíbrio, observa a cena com o mesmo fascínio que a Morte de Zusak observava os homens tentando pintar sentido no caos.
Ela sabe que a sociedade que fala em “recarregar energias” está, na verdade, tentando recarregar a bateria de um corpo que já não sente nada.
“Vocês não estão exaustos de viver”, ela diz, “estão exaustos de parecer vivos.”
O burnout social é o espelho perfeito daquilo que Freud chamaria de conflito entre o superego e o corpo: o indivíduo quer descansar, mas o superego exige que ele descanse direito, que ele sinta culpa por não produzir o suficiente enquanto tenta relaxar.
O descanso se torna mais um campo de batalha moral.
E no fim, o sujeito desaba — não por excesso de trabalho, mas por overdose de si mesmo.
Há quem ache que o isolamento é cura.
Mas o que a Loka sabe, e o texto não diz, é que o isolamento é só anestesia temporária.
O humano precisa do outro não para ser curado, mas para ser confrontado.
E o confronto é sempre um espelho quebrado.
No fundo, ninguém quer estar só — só querem estar sozinhos com aplausos.
O artigo cita a psicóloga espanhola Marian Rojas, que diz que “dizer não às visitas é uma decisão baseada na sabedoria emocional”.
Mas a Loka, essa especialista em pós-morte, responde:
“Sabedoria emocional é aceitar que ninguém te deve paz. E que a paz, quando vem, dura o tempo de um scroll.”
Ela caminha pelas ruas como quem atravessa um cemitério de conexões interrompidas.
Cada casa com suas luzes apagadas, cada corpo abraçando seu próprio reflexo no escuro.
O humano moderno se tornou um arquivo offline de afetos pendentes.
A ironia é que, na tentativa de se proteger do mundo, o sujeito criou um mundo que o consome.
A solitude virou meta, mas a solidão continua sendo castigo.
E quando o silêncio chega, é insuportável — porque nele não há notificações, só eco.
O burnout social é o novo sintoma civilizatório.
Um luto sem velório, uma dor sem trauma, uma depressão higienizada.
A sociedade moderna conseguiu o que nenhuma ditadura ousou: transformar o isolamento em virtude e o convívio em ameaça.
E a psicologia, com sua linguagem pasteurizada de bem-estar, tenta traduzir isso como “cuidado”.
Mas o cuidado que não reconhece o desamparo é só marketing emocional.
No final do conto, a Loka apaga o cigarro na parede e deixa o recado:
“Vocês chamam de saúde mental o que é só medo de sentir demais.
E chamam de autocuidado o que é só desistência polida.”
Ela vira as costas e desaparece.
Não porque está cansada do mundo, mas porque o mundo já se cansou de sentir.
A morte, afinal, é a única que ainda sabe escutar o silêncio sem precisar diagnosticá-lo.
Referência:
O GLOBO. Burnout social: quando dizer “não” às visitas é questão de saúde mental e de recarregar as energias. 18 out. 2025.
Disponível em: https://oglobo.globo.com/saude/bem-estar/noticia/2025/10/18/burnout-social-quando-dizer-nao-as-visitas-e-questao-de-saude-mental-e-de-recarregar-as-energias.ghtml.
Acesso em: 19 out. 2025.
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#maispertodaignorancia
(José Antônio Lucindo da Silva – CRP 06/172551)
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