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O Reflexo Revolucionário

O Reflexo Revolucionário

“Vocês dizem que lutam contra o sistema,
mas o sistema é o palco e vocês são o espetáculo.
Revolta é conteúdo.
Dor é engajamento.
E o inimigo? Tá monetizando o desespero de vocês.”


— Loka do Rolê


Há algo de trágico e cômico nos protestos da geração Z.
Eles gritam, marcham, quebram vitrines e filmam tudo em 4K —
como se a revolução precisasse de edição de vídeo.
O corpo ainda sangra, mas o sangue precisa ter filtro.
A luta ainda acontece, mas só ganha sentido quando alguém comenta.

A Loka do Rolê sabe o que Marx quis dizer quando escreveu que as condições materiais determinam a consciência.
Só que hoje, as condições materiais são o próprio espelho digital.
O trabalhador, que antes vendia sua força física, agora vende a própria presença.
Ele não é mais explorado por aquilo que faz, mas por aquilo que mostra.
E, quando protesta, protesta dentro do produto — a plataforma — que o escraviza.

O sujeito da tela vive dentro da ilusão da escolha,
mas o que ele escolhe já foi escolhido por alguém que lucra com o gesto.
Os jovens que se dizem “a resistência” estão, sem perceber,
alimentando o mesmo algoritmo que transforma suas lágrimas em métricas.

 “O feed é o novo campo de batalha,
mas as balas agora são dados.”


A Loka, rindo entre dentes, diria que os protestos não são progressivos nem reacionários — são performáticos.
O sistema aprendeu a se renovar com o suor dos que o detestam.
A revolta é o combustível da máquina.
O algoritmo é o novo mercado, e o desespero, a nova moeda.

Ela olharia o mundo e veria Marx, Freud e Cioran bebendo juntos —
um analisando o sintoma, outro diagnosticando a alienação,
e o último gargalhando da farsa:
a humanidade lutando por liberdade dentro da cela do próprio reflexo.

O corpo ainda deseja, mas o desejo já vem com prazo de validade.
O impulso da carne foi substituído pelo refresh.
E cada revolução, antes de ser feita, já tem marca registrada.
Não há barricada, há branding.
Não há bandeira, há logo.
Não há grito, há trend.

“Vocês falam em revolução,
mas o capital já atualizou a versão do sistema que vocês usam pra gritar.”


A Loka não despreza a juventude — ela a entende.
Ela sabe que a fúria é real, mas o meio é falso.
Que a dor é autêntica, mas o canal é pago.
Que a urgência é legítima, mas a escuta foi deletada.

Ela não quer destruir os protestos — quer apenas lembrar que o corpo precisa voltar.
O corpo que toca, o corpo que apanha, o corpo que sente o chão.
Sem corpo, não há revolução.
Sem carne, não há verdade.
Sem escuta, só sobra o eco.

E, com a serenidade cruel de quem já morreu antes do mundo nascer,
a Loka picharia num muro rachado, olhando pra tela que a observa:

 “Vocês não são a geração do fim do mundo.
O mundo é que acabou,
e vocês ainda estão esperando a notificação.”


Referências:

MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. São Paulo: Boitempo, 2017.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

CIORAN, Emil. Breviário da Decomposição. São Paulo: Rocco, 2022.

FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.

Revista Fórum. Os protestos da Geração Z são progressivos ou reacionários? Disponível em:
https://revistaforum.com.br/opiniao/2025/10/17/os-protestos-da-gerao-so-progressivos-ou-reacionarios-190048.html
Acesso em: 18 out. 2025.


#alokadorole
#maispertodaignorancia


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