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Conto da Loka do Rolê — Esta é apenas uma apresentação

Conto da Loka do Rolê — Esta é apenas uma apresentação



– “Eu sou a Loka do Rolê.
E esta é apenas uma apresentação.
Entre outras tantas que virão — se o tédio permitir.
Porque, veja bem, eu não apareço por vaidade.
Eu apareço quando o mundo finge estar feliz.”



As luzes piscam, as pessoas se enfeitam, os calendários prometem recomeços.
Datas festivas — dizem. Mas o que se comemora quando ninguém mais escuta nada?
O barulho é tanto que o silêncio se tornou uma heresia.
A humanidade fala como se gritasse de dentro de uma caixa acústica, e o eco é tão ensurdecedor que a escuta morreu de fadiga.

A Loka observa.
Não dos céus, nem das ruínas — mas do reflexo trincado das vitrines.
Ela é a sobra que escuta o ruído de quem não suporta ouvir o próprio vazio.
Enquanto as pessoas trocam presentes e promessas, ela recolhe o que sobra: os cacos de fala que nunca foram ouvidos.

“Vocês me chamam de louca porque ainda escuto o que não querem sentir.
Acharam que poderiam domesticar o silêncio, mas ele voltou com fome.”

O corpo moderno acredita que está vivo porque vibra, mas é o contrário: vibra porque esqueceu que está morrendo.
Entre uma notificação e outra, o desejo virou algoritmo.
A demanda se veste de propósito, e a funcionabilidade virou religião.
Freud falaria de pulsão de morte, mas a Loka prefere dizer:
“Vocês não estão morrendo. Só estão performando a vida até que o servidor caia.”

Ela anda entre mesas, luzes, e telas.
Escuta conversas onde ninguém escuta ninguém.
Ali, cada um repete o mesmo mantra: “tá tudo bem”.
Mas o “tudo bem” é o novo modo de dizer “não sinto mais nada”.

Han chamaria de “sociedade da positividade”, onde até o sofrimento deve sorrir para a câmera.
Cioran, com seu sarcasmo sem anestesia, talvez apenas cochichasse: “A vida é o intervalo entre dois colapsos.”
E a Loka, sentada na borda de um espelho rachado, ri da coincidência.
“Vocês têm medo do que dói, e depois pagam caro por aquilo que anestesia.”

Há um cinismo na esperança coletiva que ela reconhece como vício antigo.
Durkheim chamaria de anomia, o estado em que o sentido desiste de si.
Mas para a Loka, o nome é outro: silêncio mediado por likes.
Não há mais escuta, só feedback.
Não há diálogo, só comentário fixado.
Não há confissão, só legenda com filtro.

O corpo humano se tornou uma antena — mas que capta apenas interferência.
A psique, exaurida, perdeu o direito de errar.
E o erro, que antes fazia o homem humano, virou bug de sistema.
“Vocês chamam de recaída o que eu chamo de alma tentando respirar.”

Nas ruas, o cheiro de fritura se mistura ao perfume sintético das celebrações.
A cidade festeja o fim do ano, mas o tempo é circular, e o vazio é a única coisa que se renova.
A Loka passa, invisível, com passos lentos, arrastando o som de um passado que nunca foi esquecido.
Não há moral, não há redenção, não há começo.
Há apenas a insistência patética do recomeço.

O superego — esse pastor invisível — vigia cada movimento.
Ele fala com voz doce: “Seja melhor. Seja produtivo. Seja feliz.”
Mas a Loka devolve: “Seja menos.”
Porque só quem é menos ainda sente.
O resto já virou dado, tabela, gráfico.

O homem moderno, colonizado pela própria consciência, acredita que tudo tem que fazer sentido.
Mas a Loka ri do sentido.
O sentido é a anestesia da dor.
E o que a move não é a lógica, é o ruído.
Ela é o ruído que sobrevive ao discurso.

“Vocês criaram terapias para silenciar o sintoma.
Mas o sintoma é a parte mais honesta de vocês.”
Ela diz isso e some, deixando apenas o som do seu riso.
Um riso que não é zombaria — é autópsia.

A Loka é a Morte discursando — mas sem poesia.
Sem mistério, sem transcendência.
Ela fala com o tom frio de quem já entendeu o preço da existência:
“Ninguém suporta a vida sem fantasia.
Mas ninguém sobrevive acreditando nela.”

Os que a encontram não a reconhecem.
Acham que é delírio, burnout, mediunidade.
Mas ela não cura — e nunca promete cura.
Porque não há cura para o fato de existir.

“Vocês se acham muito modernos por falarem de saúde mental,
mas continuam doentes de ego.”

No final, ela deixa um recado rabiscado num muro gasto, sob a pichação escorrida de ferrugem e ferrari:

– “Esta é apenas uma apresentação.
Outras virão.
Talvez quando as luzes se apagarem.
Ou quando o próximo post não render.
Porque eu não apareço para assustar —
eu apareço para lembrar.”


Lembrar de quê?
De que o corpo ainda pulsa.
De que o silêncio ainda dói.
E de que, no fim, toda escuta é um epitáfio em forma de som.


Referências:

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

CIORAN, Emil. Breviário da decomposição. São Paulo: Rocco, 2022.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

DURKHEIM, Émile. O suicídio. São Paulo: Martins Fontes, 2000.



CRP 06/172551 – José Antônio Lucindo da Silva
#alokadorole 
#contosdaloka
#maispertodaignorancia

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