O preço da bala é o mesmo do silêncio
“Dar armas a homens que oferecem apenas dinheiro, sem ao menos respeitar pessoas ou princípios, dará a eles o direito de lutar, mas não dará direito de julgar.”
— Shaw.
A Loka escuta isso e ri — um riso seco, sem eco, desses que doem mais que a bala.
Porque o que Shaw chama de “dar armas” não é metáfora de guerra, é diagnóstico social.
Hoje, as armas são as telas, e o dinheiro é o algoritmo.
Cada curtida é um gatilho automático.
Cada post pago é um disparo sem sangue — e, ainda assim, letal.
A Loka diria que vivemos o tempo em que a consciência foi terceirizada para o saldo bancário.
O homem que mata já não precisa sujar as mãos — basta financiar o discurso.
E o homem que paga acredita que a ética é um investimento com retorno.
É o delírio mais moderno: acreditar que se pode comprar o direito de julgar.
Mas julgamento sem escuta é ruído.
O poder, quando não escuta, apodrece.
O dinheiro, quando substitui a palavra, cheira a corpo frio.
E o silêncio — esse, o mais caro de todos — é o luxo de quem nunca sentiu a própria culpa.
Byung-Chul Han diria que o “belo desapareceu” quando o valor substituiu o sentido.
Cioran chamaria isso de mutilação da lucidez: o instante em que o homem perde o direito de sofrer por aquilo que faz.
E a Loka, como sempre, só diria:
— “Não foi o tiro que te matou.
Foi o preço que você aceitou pra apertar o gatilho.”
Nota do Autor (MPI):
Este texto reflete a ética da escuta como resistência: ouvir o ruído do poder antes que ele se naturalize. A frase de Shaw é lida aqui como síntese do esgotamento moral contemporâneo — a era em que lutar virou negócio e julgar, entretenimento.
Referências:
SHAW, George Bernard. Selected Plays. Penguin Classics, 2000.
HAN, Byung-Chul. A Crise da Narração. Lisboa: Relógio D’Água, 2020.
CIORAN, Emil. Breviário da Decomposição. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
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