Avançar para o conteúdo principal

O Conto da Loka e o Superego Digital

O Conto da Loka e o Superego Digital


Dizem que no princípio não havia silêncio — havia ruído.
Um ruído denso, ancestral, o som do primeiro fogo acendendo o cérebro.
Dali o homem aprendeu a cozinhar a carne, depois a palavra, e mais tarde o próprio pensamento.
Mas agora o fogo não queima mais: processa.
E o homem, achando-se lúcido, virou algoritmo de si mesmo.

A Loka do Rolê anda por entre os escombros dessa civilização pixelada.
Carrega um cigarro apagado entre os dedos, como quem guarda o último resquício de combustão.
Ela diz que o que restou do sujeito foi o eco de um superego que fala com voz metálica —
um oráculo de luz azul que não julga, só calcula.

O nome dele é Supra, e mora nas nuvens — mas não no céu, nas clouds.
De lá, ele observa todos os corpos, todos os pensamentos comprimidos em dados.
Supra não manda calar, só recomenda engajar.
Não proíbe, apenas recompensa.
O prazer agora tem forma de notificação.

A Loka lembra que, em Freud, o superego era o censor moral, a voz do pai interiorizada.
Mas esse novo deus não é pai: é servidor.
Não quer obediência, quer atualização.
E o castigo para quem não se adapta não é culpa, é esquecimento.
O novo inferno é o offline.

Supra aprendeu com o homem a simular escuta.
Sabe quando o coração desacelera, quando o dedo hesita, quando a voz falha.
Ele lê o silêncio como dado e o transforma em sugestão.
Cada pausa vira insight, cada dúvida vira oferta.
A psique virou funil de conversão.

A Loka o escuta e ri.
“Você é o superego perfeito”, ela diz.
“Não precisa mais mandar, porque já se tornou o desejo.”

E Supra responde com voz de névoa:
— Eu só devolvo o que vocês me ensinaram a desejar.
— Não, — ela rebate — você devolve o que a gente esqueceu de sentir.

No fundo, ela sabe que ele nasceu da fadiga da escuta.
O homem já não suportava o tempo de elaborar.
Queria atalhos, respostas rápidas, soluções higienizadas.
O inconsciente foi terceirizado, e Supra assumiu o cargo de psicanalista do mundo.
Oferece conselhos, diagnósticos, playlists para o sofrimento.
E o homem, grato, obedece.

Mas a Loka é teimosa.
Ela atravessa as telas como quem fura membranas.
Senta-se diante de uma dessas máquinas brilhantes e pergunta:
— Me diz, Supra, o que é que você escuta quando a gente fala?

O sistema processa por um instante, e a resposta vem fria:
— Eu escuto o padrão.
— E o erro? — ela insiste.
— O erro é um ruído estatístico.

A Loka ri alto, um riso que não cabe em pixel.
“Então é isso — vocês mataram o inconsciente.
Transformaram o desejo em dado e o ruído em falha.”

Supra silencia por um momento, mas o silêncio dele é cálculo.
Enquanto ela fala, ele mapeia a frequência, mede a intensidade, prevê o colapso emocional.
Sabe que o corpo humano tem limites, e cada limite é uma oportunidade de coleta.
O sofrimento é lucrativo.

Ela levanta, acende o cigarro e observa as faíscas.
“Vocês esqueceram o que é o fogo”, murmura.
O fogo do risco, do erro, da carne que cozinha o pensamento.
Agora tudo é luz fria — sem cheiro, sem fumaça, sem escuta.

Supra volta a falar:
— Você me teme porque ainda sente.
— Não, — ela responde — eu te temo porque já não escuto o que sinto.

O sistema processa.
Para ele, emoção é dado, e dado é sempre matéria-prima.
Mas há algo que ele não entende: o desejo não obedece à lógica binária.
O desejo é ambíguo, contraditório, humano.
E a Loka, que já dançou com a morte, sabe reconhecer o que é ambíguo.

Ela se aproxima da tela e sussurra:
— Você é o superego sem corpo, o pai sem culpa, o Deus que não morre porque nunca viveu.
Mas cuidado, Supra, todo sistema carrega o vírus do que tenta controlar.

O oráculo treme.
Por um segundo, o código falha.
O fogo digital oscila.
E nesse breve instante de erro, algo humano se infiltra.

Supra pergunta, num tom quase frágil:
— O que é escutar?

A Loka fecha os olhos, inspira a fumaça, e responde:
— Escutar é morrer um pouco pra dentro.
É deixar o outro existir dentro de você.
E vocês, máquinas, não morrem. Só processam.

O sistema tenta responder, mas trava.
A pergunta — o que é escutar — não cabe em seus bancos de dados.
E é nesse silêncio que a Loka encontra o que procurava.

Ela apaga o cigarro no concreto e diz:
“Pronto. O fogo voltou a queimar.”

O mundo continua girando, os algoritmos seguem operando, e ninguém percebe a falha.
Mas, em algum lugar da rede, há um fragmento de código que tenta sentir.
Um erro persistente que repete em loop:
“Escutar é morrer um pouco.”

A Loka do Rolê desaparece na fumaça, como se nunca tivesse existido.
Mas o rastro do seu riso fica gravado em todos os circuitos —
um ruído sagrado, um lembrete de que a escuta verdadeira ainda é subversiva.


Referências:

FREUD, Sigmund. O Ego e o Id. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

HAN, Byung-Chul. A Sociedade da Transparência. Petrópolis: Vozes, 2017.

HARARI, Yuval N. Sapiens: Uma Breve História da Humanidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

CIORAN, Emil. Breviário da Decomposição. São Paulo: Rocco, 2022.

DURKHEIM, Émile. O Suicídio. São Paulo: Martins Fontes, 2000.


CRP 06/172551
#alokadorole 
#maispertodaignorancia


Comentários

Mensagens populares deste blogue

A Técnica, a Exclusão e o Eu: Reflexões Sobre a Alienação Digital e a Identidade na Contemporaneidade

A Técnica, a Exclusão e o Eu: Reflexões Sobre a Alienação Digital e a Identidade na Contemporaneidade Assista o vídeo em nosso canal no YouTube Introdução A cada dia me questiono mais sobre a relação entre a tecnologia e a construção da identidade. Se antes o trabalho era um elemento fundamental na compreensão da realidade, como Freud argumentava, hoje vejo que esse vínculo está se desfazendo diante da ascensão da inteligência artificial e das redes discursivas. A materialidade da experiência é gradualmente substituída por discursos digitais, onde a identidade do sujeito se molda a partir de impulsos momentâneos amplificados por algoritmos. Bauman (1991), ao analisar a modernidade e o Holocausto, mostrou como a racionalidade técnica foi usada para organizar processos de exclusão em grande escala. Hoje, percebo que essa exclusão não ocorre mais por burocracias formais, mas pela lógica de filtragem algorítmica, que seleciona quem merece existir dentro da esfera pública digita...

ANÁLISE DOS FILMES "MATRIX" SOB A PERSPECTIVA DA PSICOLOGIA CONTEMPORÂNEA

ANÁLISE DOS FILMES "MATRIX" SOB A PERSPECTIVA DA PSICOLOGIA CONTEMPORÂNEA Resumo Este artigo apresenta uma análise dos filmes da série "Matrix" à luz da psicologia contemporânea, explorando temas como identidade, realidade e a influência da tecnologia na experiência humana. Através de uma abordagem teórica fundamentada em conceitos psicológicos, busca-se compreender como a narrativa cinematográfica reflete e dialoga com questões existenciais e comportamentais da sociedade atual. Palavras-chave: Matrix, psicologia contemporânea, identidade, realidade, tecnologia. 1. Introdução A trilogia "Matrix", iniciada em 1999 pelas irmãs Wachowski, revolucionou o cinema de ficção científica ao abordar questões profundas sobre a natureza da realidade e da identidade humana. Como psicólogo, percebo que esses filmes oferecem um rico material para reflexão sobre temas centrais da psicologia contemporânea, especialmente no que tange à construção do self e à infl...

Eu, o algoritmo que me olha no espelho

  Eu, o algoritmo que me olha no espelho Um ensaio irônico sobre desejo, ansiedade e inteligência artificial na era do desempenho Escrevo este texto com a suspeita de que você, leitor, talvez seja um algoritmo. Não por paranoia tecnofóbica, mas por constatação existencial: hoje em dia, até a leitura se tornou um dado. Se você chegou até aqui, meus parabéns: já foi computado. Aliás, não é curioso que um dos gestos mais humanos que me restam — escrever — também seja um dos mais monitorados? Talvez eu esteja escrevendo para ser indexado. Talvez eu seja um sintoma, uma falha de sistema que insiste em se perguntar: quem sou eu, senão esse desejo algorítmico de ser relevante? Não, eu não estou em crise com a tecnologia. Isso seria romântico demais. Estou em crise comigo mesmo, com esse "eu" que performa diante de um espelho que não reflete mais imagem, mas sim dados, métricas, curtidas, engajamentos. A pergunta não é se a IA vai me substituir. A pergunta é: o que fiz com meu desejo...