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A velhice como falência programada

A velhice como falência programada



Autor: José Antônio Lucindo da Silva — CRP 06/172551
Projeto: Mais Perto da Ignorância

Link de referência: G1 – Geração X chega aos 60 anos imersa na insegurança financeira

Data: 26 de outubro de 2025


I. O velho que aprendeu a se vender

Cioran dizia que “o homem morre do mesmo mal que o seu século”.
O nosso é a dívida.

A notícia sobre a geração X — aquela que, entre 1965 e 1980, acreditou que o trabalho a libertaria — é um epitáfio com aroma de autoajuda. Sob o verniz de “dicas financeiras”, o texto ensina o idoso a empreender a própria exaustão.
É o mesmo discurso que transforma o fracasso em vocação, a pobreza em falta de planejamento e a aposentadoria em falha de caráter.

No Brasil, essa ironia assume forma trágica.
O corpo que trabalha até os 65 anos já chega sem joelho, sem dente e, agora, sem previdência. O Estado, saturado de rombos e reformas paliativas, terceiriza o envelhecimento ao mercado: cada um que banque o próprio desamparo.

O resultado?
Velhos endividados vendendo bolo no Instagram, aposentados virando motoristas de aplicativo, idosos competindo com estagiários em cursos de “requalificação”.
O capital, lúcido e frio, descobriu o último filão: a senescência como startup.


II. Espinosa e o corpo hipotecado

Espinosa ensinou que pensar é uma forma de sentir.
Mas quem sente fome não pensa; e quem teme o boleto, delira.
A potência do corpo diminui quando as condições materiais o comprimem. O velho brasileiro é o retrato da impotência espinosana: atravessado por afetos tristes, paralisado pela insegurança.

A matéria estrangeira fala em “reaprender habilidades”, mas ignora a estrutura: o país onde 64% dos trabalhadores não contribuem regularmente para o INSS (IBGE, 2024), onde 10,5% dos idosos vivem abaixo da linha da pobreza (PUCRS, 2022) e onde o rombo previdenciário ultrapassou R$ 261 bilhões em 2023 (Tesouro Nacional).

Enquanto Kerry Hannon aconselha “eliminar supérfluos”, o idoso brasileiro já eliminou o almoço.
O “superfluo” aqui é o remédio de pressão, a passagem de ônibus, o dente que falta.

Espinosa diria que o corpo, ao ser dominado por paixões que o diminuem, deixa de ser causa de si.
E é isso o que se vê: a vida como reação à escassez.


III. Freud e o superego financeiro

Em O mal-estar na civilização, Freud descreve a renúncia pulsional que sustenta a cultura.
Hoje, a renúncia mudou de nome: “planejamento financeiro”.
Não há mais gozo, só investimento. O prazer deve render 3% ao ano.

O superego contemporâneo não castiga com culpa, mas com juros.
Ele exige produtividade até a última célula. O idoso que não poupa o suficiente sente-se moralmente falido — e a moral virou planilha.

Freud chamava isso de angústia do real: a percepção de que a vida é insuportável quando o símbolo falha.
Aqui, o símbolo é o dinheiro. Quando ele falta, o sujeito não sofre apenas materialmente: sofre narcisicamente.
A pobreza envelhece o rosto e humilha a linguagem.


IV. Marx e o ser-mercadoria

Marx, em seus Manuscritos Econômico-Filosóficos, já havia percebido que o ser humano se aliena ao transformar sua vida em mercadoria.
Hoje, não vendemos apenas a força de trabalho, mas o próprio tempo restante de existência.
A aposentadoria virou investimento; o idoso, ativo financeiro de curto prazo.

Segundo o IPEA (2023), até 2051 o número de beneficiários do INSS superará o de contribuintes. A equação é simples: menos jovens, mais velhos, mais déficit.
Para “equilibrar”, o Estado posterga a aposentadoria e o mercado oferece previdência privada — ou seja, o trabalhador financia duas vezes a mesma ilusão.

O discurso do “empoderamento financeiro” é o novo ópio do povo.
Promete autonomia enquanto entrega dependência.
Marx chamaria isso de fetichismo da longevidade: o corpo transformado em capital simbólico, o envelhecer reduzido a fluxo de consumo.


V. Han e o cansaço da sobrevivência

Byung-Chul Han descreve a sociedade do desempenho como um inferno luminoso: todos acreditam ser livres enquanto se autoexploram.
O velho brasileiro é o exemplo perfeito — não há patrão, mas há meta.
“Seja ativo”, “não pare”, “reinvista em você”.
A velhice foi privatizada e rebatizada de segunda carreira.

A depressão do aposentado, portanto, não é só clínica: é política.
O corpo que deveria descansar é convocado a performar vitalidade para não parecer obsoleto.
Han diria que a velhice se tornou “um estágio avançado da produtividade tóxica”.
Não se morre de idade, morre-se de competitividade.


VI. Bauman e o corpo líquido

Bauman, em O mal-estar da pós-modernidade, descreve a fluidez das relações e a obsolescência programada do sujeito.
O idoso, no Brasil, encarna essa liquidez ao extremo: sem garantias, sem laços, sem futuro previsível.
Sua única certeza é o boleto do plano de saúde.

A pesquisa da ANBIMA (2024) mostra que apenas 20% dos brasileiros têm algum tipo de investimento para a aposentadoria, e 48% dos aposentados vivem com medo da instabilidade financeira.
A velhice, portanto, não é fase: é zona de risco.

Bauman diria que “a liquidez dissolve até o chão onde se pisa”.
E o velho brasileiro, de chinelo gasto e olhar cansado, escorrega nesse chão todos os dias.


VII. Camus e o absurdo contábil

Em O mito de Sísifo, Camus ensina que o absurdo nasce do choque entre o desejo de sentido e o silêncio do mundo.
O cálculo da inteligência artificial na matéria — R$ 2,8 milhões para viver dos 60 aos 90 anos — é o exemplo perfeito do absurdo aritmético: um número impossível, erguido sobre a indiferença sistêmica.

Sísifo agora veste terno e consulta o saldo no aplicativo do banco.
Empurra a pedra do débito automático montanha acima.
Cada mês que sobrevive é uma vitória contábil.

Camus diria que devemos imaginar Sísifo feliz.
A Loka responde:

“Ele não está feliz, amor. Está em débito.”




VIII. Becker e a negação da velhice

Ernest Becker, em A Negação da Morte, mostrou que o homem contemporâneo inventa mitos para adiar o fim.
Hoje, esse mito chama-se “longividade ativa”.
O mercado vende planos de previdência, cirurgias estéticas e suplementos vitamínicos como antídotos contra a finitude.

Mas o que se nega não é a morte — é a pobreza.
A morte ainda tem poesia; a pobreza, não.
O idoso brasileiro não teme deixar de existir, teme não ter com que pagar o aluguel.


IX. A materialidade da escuta

Você ouviu bem, tem certeza, presta atenção!: o diálogo só existe porque há materialidade — energia elétrica, conexão, consumo.
A escuta digital depende da economia que a sustenta.
Da mesma forma, o “eu narrativo” da velhice depende do dinheiro que o mantém falante.

Quando a conta bancária seca, a escuta cessa.
Não há mais terapia, não há consulta, não há remédio.
A subjetividade se desliga junto com o Wi-Fi.

A Loka do Rolê, encostada num muro rachado, ri com ironia:

“Cês acham que liberdade é pagar o boleto em dia.
Mas liberdade de verdade é quando o banco esquece que você existe.”




X. O rombo como sintoma

O déficit da previdência, tão citado pelos economistas, é também rombo simbólico.
É o buraco deixado por uma sociedade que transformou a velhice em problema contábil.
Enquanto o Tesouro fala em bilhões, a Loka escuta o silêncio do corpo que trabalhou a vida inteira e agora não tem sequer um médico público disponível.

A cada reforma, o Estado diz “precisamos equilibrar as contas”.
Mas o equilíbrio é sempre do mesmo lado: o que pesa é o corpo do trabalhador.
E a cada corte, morre um pouco da dignidade coletiva.



XI. A lucidez impossível

Cioran escreveu: “Pensar é corromper o que se ama.”
Talvez o que reste seja apenas isso: pensar o fim da segurança financeira como quem observa o próprio esqueleto.
A lucidez é o único luxo que não se deprecia — embora doa mais que o aluguel.

O Brasil envelhece sem escuta, sem política de cuidado, sem tempo.
O velho é o espelho do futuro: todos caminhamos para o mesmo saldo negativo.
A morte, aqui, é a única forma de quitação.


“O capital não morre.
Ele apenas muda de nome e continua cobrando.”
— Loka do Rolê




Referências:

BRASIL. Tesouro Nacional: Resultado Previdenciário 2023. Brasília: Ministério da Fazenda, 2024.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2010.

ESPINOSA, Baruch. Ética. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Belo Horizonte: Âyiné, 2017.

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2016.

BECKER, Ernest. A Negação da Morte. Rio de Janeiro: Record, 2002.

IBGE. Tábuas de Mortalidade 2023. Agência de Notícias IBGE, 2024.

IPEA. Projeções da População e Sistema Previdenciário 2051. Brasília: IPEA, 2023.

ANBIMA. Pesquisa de Planejamento Financeiro 2024. São Paulo: ANBIMA, 2024.

PUCRS. Idosos abaixo da linha da pobreza no Brasil 2022. Porto Alegre: PUCRS, 2022.

HANNON, Kerry; HERRON, Janna. Retirement Bites. New York: Harper Business, 2025.

BRASIL. Agência Brasil. Brasileiros demoram a fazer plano financeiro para aposentadoria, 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-01/brasileiros-demoram-a-fazer-plano-financeiro-para-aposentadoria. Acesso em: 26 out. 2025.

G1. Geração X chega aos 60 anos imersa na insegurança financeira. Disponível em: https://g1.globo.com/bemestar/blog/longevidade-modo-de-usar/post/2025/10/23/geracao-x-chega-aos-60-anos-imersa-na-inseguranca-financeira.ghtml. Acesso em: 26 out. 2025.




Notas do autor (MPI)

A velhice brasileira não é um problema demográfico — é uma sentença política.
O envelhecer, que deveria ser tempo de escuta, virou índice de déficit.
E o que o capital chama de “longevidade” nada mais é do que o prolongamento da cobrança.

Palavras-chave: insegurança financeira; previdência social; capitalismo tardio; psicanálise social; Loka do Rolê.


#alokadorole
#maispertodaignorancia




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