Selfitis: o espelho que pediu curtidas
“Vocês chamam de selfie o que é só o retrato do desespero em boa iluminação. O superego tirou o jaleco e virou lente.”
— Loka do Rolê
Não existe mais espelho: existe captura. O rosto virou senha, o gesto virou enquadramento, a memória foi terceirizada para o carretel infinito do feed. A cada clique, uma súplica muda: “aprova-me antes que eu me desfaça”. A indústria ouviu, deu zoom, poliu a pele, amaciou a luz. Pronto: o vazio ganhou filtro. O nome de batismo é bonito — “self-care”, “autoimagem”, “empoderamento” —, mas a Loka não compra perfume de velório. Para ela, o culto da selfie é a missa diária do superego digital: um altar portátil que promete absolvição via engajamento.
Freud escreveria que a pulsão passa pelo olhar antes de entrar no corpo. Hoje, nem precisa entrar: basta performar. O objeto não é mais o outro — é o parecer diante do outro. Byung-Chul Han avisou: tornamos o íntimo um showroom, exaurimos o si num regime de positividade. Cioran, se existisse em 4K, diria que “o nada já tem aplicativo” e pediria para baixar em silêncio. A cultura não pede que você viva: pede que sinalize vida. E sinalizar cansa mais do que viver.
Aí alguém inventou “selfitis”. Foi meme, virou manchete, não virou diagnóstico. E ainda bem: o sintoma é social, não privado. O que a literatura empírica encontrou (escalas, correlações, perfis) diz menos sobre “doentes” e mais sobre condições de possibilidade: um ecossistema que remunera exposição, vicia em micro-recompensas e transforma validação em dieta básica. Os seis motores mapeados por pesquisadores — realce do ambiente, competição social, busca de atenção, modulação de humor, confiança e conformidade — não são vícios individuais; são protocolos de sobrevivência num mercado de visibilidade. E mercado não cura; treina.
A Loka ri: “Vocês acham que selfies fortalecem o eu. Não. Fortalecem o algoritmo.” O suposto fortalecimento da autoestima via autoimagem funciona como uma prótese que nunca integra o corpo; quanto mais você usa, mais dependente fica do aparelho. A cada curtida, o cérebro recebe um vale-brisa no deserto; refresca, não mata a sede. Para suportar o clima, o sujeito volta ao oásis de vidro: stories, sequência, a vida como estoque de evidências de si. Resultado? A escuta interna se torna ruído. Você já não se ouve: edita-se.
A psicanálise não se mete a polícia de costume: ela pergunta pelo resto — o que retorna quando o ar-condicionado do ego desliga e a imagem não te defende do calor do real. Nesse momento, a selfie deixa de ser ornamento e vira sintoma: um remendo visível para uma ferida que não quer tempo, quer tela. E o tempo, justamente ele, é o que a tecnologia rouba com delicadeza. Se pensar exige atraso e vínculo, a cultura do upload atropela o intervalo: “publicar é mais urgente do que elaborar”. O luto vira reels; a alegria, loop. O desejo, esse bicho que precisa de sombra, é posto sob luz branca até descolar da pele.
“Mas e os estudos?” — pergunta o perito do tribunal da razão. Eles existem, e quase todos dizem o que a Loka esmurra na parede: quando o rosto vira moeda, o corpo perde soberania; quando a aprovação vira dieta, o vínculo empobrece; quando a autoimagem se torna trabalho, o descanso vira culpa. Há associações com busca de atenção, comparação social, humor reativo e conformidade tribal. Nada que um oráculo precisasse revelar — basta dez minutos de rolagem para sentir o sal na língua. O que importa não é a psicopatologia do indivíduo; é a arquitetura da visibilidade. Aí, sim, dói onde tem que doer: nas condições materiais do olhar.
E aqui entra a heresia que salva: escuta. Não a técnica de “validar emoções” em caixas de comentários, mas a operação ética de se expor ao que não cabe na moldura. Escutar é arriscar o rosto sem filtro, admitir a opacidade do outro, aceitar que o tempo da palavra não cabe no cronograma da tendência. Escutar é desistir de vencer a comparação. É perder audiência para ganhar presença. É aguentar a própria voz sem legenda. A Loka chama isso de “ficar quieto até a frase te escolher”.
“Ah, mas então é para parar de se fotografar?” — pergunta o pragmático, querendo manual. A Loka detesta tutoriais: “Não te proíbo de nada. Só te aviso do preço.” Se você precisa da lente para lembrar que existe, a dívida está aberta. Se você precisa do retorno para acreditar no gesto, a autonomia já foi empenhada. Se o seu humor depende da aprovação invisível de desconhecidos reais, então o altar já te possui. Não é doença — é liturgia. E toda liturgia tem dízimo.
O que fazer? Trocar performance por presença em doses cirúrgicas. Silenciar notificações, não sentidos. Repetir o ato escandaloso de ir à rua sem câmera, ouvir um amigo sem “conteúdo”, registrar menos e sentir mais. Não por moralismo — por higiene psíquica. Reaprender a ficar feio, falhar em público, sobreviver sem prova. O rosto te pertence antes do upload. O corpo te encontra antes do espelho. E o desejo, quando volta, chega sem legenda.
No fim, a selfie pode ser só uma foto. A patologia é a fome. O algoritmo serve pratos infinitos que nunca alimentam. Quem tem coragem de passar fome de aprovação por algumas horas para voltar a ter apetite de mundo? Quem aceita ser mortal sem HDR? Quem suporta o tédio de não publicar para que uma ideia possa nascer? “Vocês não precisam de detox; precisam de deserto”, sussurra a Loka, acendendo um fósforo no escuro. “No preto, o rosto some. Fica a voz. Escutem-na antes que a bateria acabe.”
Porque quando a bateria acaba, acaba também o truque. E o que sobra, enfim, é você — sem máscara, sem filtro, sem público. A boa notícia é que, nesse silêncio sem thumbnail, a vida retorna com seus defeitos: rugas, pausas, risos tortos, lágrimas que não convertem. A má notícia é que não dá para postar.
A Loka conclui: “O antídoto para a selfitis não é abstinência. É desobediência: escutar o que o feed não monetiza.”
Referências:
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5-TR: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artmed, 2022.
BALAKRISHNAN, J.; GRIFFITHS, M. D. An Exploratory Study of “Selfitis” and the Development of the Selfitis Behavior Scale. International Journal of Mental Health and Addiction, v. 16, p. 722-746, 2018.
HAN, B.-C. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
TURKLE, S. Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. New York: Basic Books, 2011.
KUSS, D. J.; GRIFFITHS, M. D. Social Networking Sites and Addiction: Ten Lessons Learned. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 14, n. 3, 2017.
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