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Cadê a vítima? — Quando os dados crescem, o discurso engorda e a pessoa desaparece

Cadê a vítima? — Quando os dados crescem, o discurso engorda e a pessoa desaparece



Autor
A Loka do Rolê

Projeto
Mais Perto da Ignorância — MPI 


Palavras-chave;

vítima invisível; violência de gênero; dados estatísticos; discurso mediático; capitalismo de vigilância; Leviatã; limite simbólico.


Resumo:

A internet adora um monstro. Sempre adorou. O monstro gera clique, gera audiência, gera vídeo de análise, thread explicativa, podcast investigativo e comentário indignado. A vítima, curiosamente, quase sempre aparece menos. Não porque ela não exista — os dados estão aí, empilhados em relatórios, anuários e estatísticas oficiais. O problema é outro. Quanto mais dados surgem sobre violência, mais abstrata a vítima se torna. Ela vira taxa. Vira gráfico. Vira número. Enquanto isso, o agressor vira personagem. O presente ensaio observa esse curioso deslocamento narrativo: a transformação da experiência humana em dado estatístico e a conversão da violência em espetáculo mediático. Entre Hobbes, Freud, Bauman e Zuboff, a pergunta continua pairando no ar: se nunca tivemos tanta informação sobre violência, por que a vítima continua desaparecendo do discurso?


Introdução:

Um pequeno detalhe chamado vítima

A Loka do Rolê tem um hábito estranho.

Ela presta atenção nas coisas que ninguém presta.

Não nas manchetes.
Não no escândalo.
Não no trending topic.

Ela olha para o que desaparece.

E existe um desaparecimento curioso acontecendo.

Toda vez que surge um caso de violência que mobiliza internet, televisão e jornal, um fenômeno se repete.

O monstro aparece.

A vítima desaparece.

Não completamente, claro.
Ela aparece um pouco.

Mas aparece como dado.

Como estatística.

Como categoria.

E quanto mais se fala sobre o caso, mais o discurso gira em torno de outra figura.

O agressor.


O espetáculo do monstro

O agressor rende narrativa.

Ele gera análise psicológica improvisada.
Gera teoria social de YouTube.
Gera fio no Twitter.
Gera vídeo de três horas explicando “o que aconteceu de verdade”.

A vítima, por outro lado, raramente entra nesse circuito.

E não é por acaso.

Existe lei.

Existe proteção.

Existe o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Existe o direito ao anonimato.

Existe o cuidado com a exposição.

Tudo isso é necessário.

Mas o efeito discursivo é curioso.

O silêncio que protege a vítima cria um vazio narrativo.

E vazio narrativo, na internet, nunca fica vazio por muito tempo.

Ele é rapidamente ocupado por outra coisa.

Especulação.

Indignação.

E, claro, teorias.


A estatística que devora pessoas

Existe um momento curioso no funcionamento da civilização moderna.

É quando a experiência humana vira número.

Uma agressão vira ocorrência.

Uma ocorrência vira registro.

Um registro vira dado.

E o dado vira estatística.

É assim que instituições trabalham.

Polícia.
Judiciário.
Ministério da Saúde.

Sem números não existe política pública.

Sem estatística não existe diagnóstico social.

Mas existe um pequeno efeito colateral.

A vítima vira variável.

Idade.

Sexo.

Região.

Tipo de violência.

A vida real é traduzida em tabela.

E quando isso acontece, algo estranho ocorre no imaginário coletivo.

A vítima continua existindo.

Mas como abstração.


Hobbes e o nascimento da segurança

Lá no século XVII, um sujeito chamado Thomas Hobbes já tinha percebido algo incômodo.

Ele escreveu um livro chamado Leviatã.

Ali ele explica uma coisa bastante simples.

Sem autoridade comum, a convivência humana tende ao conflito.

Não porque as pessoas são necessariamente más.

Mas porque interesses colidem.

Desejos colidem.

Medos colidem.

O Estado nasce para conter isso.

Para produzir segurança.

A civilização, segundo Hobbes, começa quando alguém aceita um limite.

Um “não”.


Freud e o problema da agressividade

Séculos depois aparece outro diagnóstico desconfortável.

Sigmund Freud.

No livro O mal-estar na civilização, ele lembra de um detalhe que Hobbes apenas sugeriu.

O problema não está apenas nas instituições.

Está dentro das pessoas.

A agressividade humana não desaparece.

Ela é reprimida.

A civilização funciona porque os indivíduos aprendem a conter impulsos.

Mas essa contenção cobra um preço.

Culpa.

Frustração.

Mal-estar.


Bauman e a liquidez das certezas

Avançamos alguns séculos.

Instituições mudam.

Relações se tornam mais frágeis.

A segurança prometida pelo Leviatã parece menos sólida.

É aqui que entra Zygmunt Bauman.

No diagnóstico da modernidade líquida, estruturas sociais se tornam mais instáveis.

Relações são mais curtas.

Compromissos mais frágeis.

E a sensação de insegurança se espalha.

A civilização continua tentando conter conflitos.

Mas o terreno parece mais escorregadio.


A lógica do algoritmo

Agora entra a camada contemporânea.

Shoshana Zuboff observa que a internet introduziu algo novo.

O comportamento humano virou matéria-prima econômica.

As plataformas vivem de atenção.

E atenção costuma ser capturada por:

conflito
escândalo
indignação
medo.

O resultado é previsível.

Certas narrativas circulam mais.

E uma delas é a narrativa do monstro.


Quando o discurso engorda

A internet cria uma situação curiosa.

O caso acontece.

A vítima é protegida.

A lei exige silêncio.

Mas o algoritmo exige conteúdo.

Então o discurso cresce.

Especialistas improvisados aparecem.

Influenciadores analisam.

Perfis investigativos comentam.

A máquina discursiva gira.

E quanto mais ela gira, menos a vítima aparece.


O paradoxo final

Voltamos então à pergunta inicial.

Se existem tantos dados…

Se existem tantas leis…

Se existem tantos relatórios…

por que a vítima continua desaparecendo do discurso?

Talvez porque os sistemas que produzem conhecimento funcionem por abstração.

Talvez porque a mídia funcione por narrativa.

Talvez porque a internet funcione por indignação.

Ou talvez porque a civilização inteira ainda esteja tentando lidar com aquela pequena palavra que a inaugurou.

Não.


Notas do Autor — MPI:

Este texto integra o projeto Mais Perto da Ignorância (MPI) e segue o protocolo analítico #ocivilizacaocomecacomnao, dedicado à observação crítica de discursos culturais contemporâneos.

A análise possui caráter exclusivamente reflexivo e discursivo. Não constitui aconselhamento psicológico, orientação terapêutica ou intervenção clínica.

O texto respeita as diretrizes do Código de Ética Profissional do Psicólogo, evitando diagnósticos clínicos, prescrições comportamentais ou promessas de solução.

A inteligência artificial foi utilizada como ferramenta instrumental de organização textual.

Referências:

HOBBES, Thomas. Leviatã.
https://www.dominiopublico.gov.br 

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização.
https://www.freud.org.uk 

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade.
https://www.zahar.com.br 

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância.
https://www.intrinseca.com.br 

FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA
https://forumseguranca.org.br 

OBSERVATÓRIO DA MULHER CONTRA A VIOLÊNCIA — Senado Federal
https://www12.senado.leg.br/institucional/omv 


Mini Bio:

José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), formado em Psicologia pela UNIARA e pós-graduado em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise.

Desenvolve o projeto Mais Perto da Ignorância, dedicado à análise crítica de discursos contemporâneos envolvendo tecnologia, poder e sofrimento psíquico.

A persona Loka do Rolê atua como operador narrativo dessa investigação — uma observadora irônica das tensões culturais do presente.

#alokadorole
#ocivilizacaocomecacomnao
#maispertodaignorancia

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