A civilização começou com um “não”, (e alguns discursos ainda não aprenderam a lidar com isso).
Autor
A Loka do Rolê
Projeto
Mais Perto da Ignorância — MPI
Palavras-chave
Resumo:
Existe um detalhe pequeno na história da civilização que costuma passar despercebido: a palavra “não”. Antes de leis, contratos ou Estados, sociedades precisaram aprender a lidar com limites. O problema começa quando certos discursos contemporâneos tratam esse limite como afronta pessoal. Nas redes digitais, frustração afetiva, ressentimento masculino e economia algorítmica passam a se misturar. O resultado é um circuito discursivo curioso: rejeições individuais são reinterpretadas como teoria social, comunidades digitais transformam ressentimento em identidade coletiva e plataformas monetizam indignação. Ao mesmo tempo, dados institucionais continuam registrando feminicídios, agressões e violência sexual em números significativos. Surge então um impasse simbólico: enquanto alguns discursos proclamam que homens estão sendo oprimidos por mulheres, indicadores públicos mostram mulheres ainda ocupando a posição predominante de vítimas de violência. Este texto não pretende oferecer soluções nem conselhos. Seu objetivo é apenas observar uma tensão cultural contemporânea: quando a incapacidade de lidar com limites se transforma em narrativa ideológica.
Introdução:
O pequeno detalhe que iniciou a civilização
A Loka do Rolê costuma lembrar de uma coisa bastante simples.
Civilizações não começaram com discursos.
Começaram com limites.
Antes de leis.
Antes de contratos.
Antes de constituições.
Veio uma palavra curta.
Não.
Não pode.
Não agora.
Não assim.
Sem esse obstáculo linguístico não existe convivência.
Não existe negociação.
Não existe sociedade.
Mas existe um detalhe curioso.
Alguns discursos contemporâneos parecem ter desenvolvido uma dificuldade enorme com essa palavra.
Principalmente quando ela vem da boca de uma mulher.
Corpo crítico-ensaístico:
Quando a rejeição vira teoria social
Rejeição sempre existiu.
Isso não é novidade histórica.
Desde que humanos começaram a tentar se relacionar, alguns encontros deram certo e outros não.
O que mudou não foi a rejeição.
Foi a interpretação.
Hoje existe uma pequena indústria digital dedicada a explicar por que certos homens são rejeitados.
E a explicação costuma ser bastante direta.
Mulheres estão erradas.
Mulheres estão degeneradas.
Mulheres foram corrompidas pelo feminismo.
Mulheres se tornaram hipergâmicas.
Mulheres estariam destruindo relacionamentos, famílias e até a própria civilização.
É um diagnóstico ambicioso.
Uma teoria total.
Uma espécie de sociologia improvisada que circula em vídeos curtos, podcasts e fóruns online.
A monetização do ressentimento
A internet descobriu uma coisa extremamente lucrativa.
Ressentimento gera engajamento.
Frustração gera audiência.
Indignação gera clique.
E clique gera mercado.
De repente surgem especialistas.
Especialistas em masculinidade.
Especialistas em mulheres.
Especialistas em relacionamento.
Curiosamente, muitos desses especialistas parecem ter pouca experiência prática com aquilo que ensinam.
Mas isso não é um grande problema na economia digital.
Autoridade hoje não depende tanto de experiência.
Depende de performance.
Quem fala com mais convicção costuma ganhar mais audiência.
O manual masculino de sobrevivência ao feminino
Existe hoje um gênero discursivo bastante específico.
O manual masculino de sobrevivência às mulheres.
Ele aparece em vídeos com títulos dramáticos:
“COMO IDENTIFICAR UMA MULHER DE BAIXO VALOR”
“POR QUE MULHERES MODERNAS NÃO SERVEM PARA CASAR”
“COMO ESCAPAR DA HIPERGAMIA”
É quase um campo acadêmico paralelo.
Existe terminologia.
Existe taxonomia.
Existe classificação moral feminina.
Mulheres passam a ser divididas em categorias como:
mulher de alto valor
mulher de baixo valor
mulher para casamento
mulher para uso casual.
É um sistema aparentemente sofisticado.
Quase científico.
Se não fosse por um detalhe pequeno.
Ele nasceu de frustração.
O encontro incômodo com a realidade
Toda teoria social precisa enfrentar um teste bastante simples.
A realidade.
No Brasil, instituições públicas produzem regularmente indicadores sobre violência de gênero.
Esses dados não são opiniões.
São registros administrativos.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, feminicídios continuam ocorrendo todos os anos no país.
Segundo o Conselho Nacional de Justiça, milhares de processos relacionados à violência doméstica chegam ao sistema judicial.
Segundo o Observatório da Mulher contra a Violência do Senado, estupros e agressões seguem sendo registrados em números significativos.
Esses dados têm uma característica inconveniente.
Eles raramente confirmam teorias conspiratórias.
O ponto onde o discurso racha
Aqui aparece o impasse.
De um lado, certos discursos digitais afirmam que homens estão sendo oprimidos por mulheres.
Do outro, instituições públicas continuam registrando violência masculina contra mulheres em números elevados.
É uma tensão curiosa.
Enquanto alguns homens descrevem a si mesmos como vítimas de uma guerra cultural, tribunais continuam julgando casos de agressão, estupro e feminicídio.
A discrepância entre narrativa e materialidade não passa despercebida.
Quando o “não” vira problema
Voltamos então ao ponto inicial.
O “não”.
Recusa sempre existiu.
Mas ela produz efeitos específicos em contextos onde alguns homens acreditavam possuir um direito quase automático ao desejo feminino.
Quando esse direito imaginário encontra um limite real, a frustração precisa de explicação.
E explicações simples costumam ser mais atraentes.
Mulheres estão erradas.
O feminismo está errado.
A sociedade está errada.
Qualquer hipótese parece aceitável — desde que evite uma possibilidade mais desconfortável.
A possibilidade de que rejeição seja apenas parte da experiência humana.
O circuito fechado do ressentimento
A cultura digital amplifica esse fenômeno.
Homens frustrados encontram teorias que explicam sua frustração.
Essas teorias produzem isolamento.
O isolamento confirma a teoria.
A teoria reforça o ressentimento.
O ressentimento gera novos conteúdos.
E novos conteúdos recrutam novos seguidores.
É um sistema bastante eficiente.
Autoalimentado.
Autojustificado.
E perfeitamente adaptado ao algoritmo.
Notas do Autor — MPI:
Este texto integra o projeto Mais Perto da Ignorância (MPI), dedicado à análise crítica de discursos culturais contemporâneos.
A elaboração possui caráter exclusivamente analítico e reflexivo, não oferecendo aconselhamento psicológico, orientação terapêutica ou prescrição comportamental.
O conteúdo respeita o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP) ao evitar diagnósticos clínicos, intervenções terapêuticas ou promessas de solução.
A Inteligência Artificial foi utilizada como ferramenta instrumental de organização textual e análise discursiva.
Referências:
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA.
Disponível em:
https://forumseguranca.org.br
CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA.
Disponível em:
https://www.cnj.jus.br
OBSERVATÓRIO DA MULHER CONTRA A VIOLÊNCIA — Senado Federal.
Disponível em:
https://www12.senado.leg.br/institucional/omv
Mini Bio:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), com formação em Psicologia pela UNIARA e pós-graduação em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Atua na escuta clínica de adultos e desenvolve o projeto Mais Perto da Ignorância, dedicado à análise crítica de discursos contemporâneos envolvendo tecnologia, subjetividade, poder e sofrimento psíquico.
A persona Loka do Rolê funciona como operador narrativo dessa investigação — uma observadora irônica da cultura digital e das tensões sociais que atravessam o presente.
#alokadorole
@alokdorole_personagem
#maispertodaignorancia
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