NADA COMEÇA NO ATO: A VIOLÊNCIA COMO EFEITO DE UM AMBIENTE SEM LIMITE
Autor: José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo
RESUMO:
Este artigo sustenta que as manifestações contemporâneas de violência juvenil mediadas por redes sociais — incluindo misoginia, humilhação pública e práticas extremas — não constituem fenômenos inéditos, mas reconfigurações de estruturas já antecipadas em formulações teóricas anteriores. A partir de uma articulação entre dimensões biológicas, materiais, sociais, técnicas e discursivas, argumenta-se que o problema não se origina no ato violento, mas em um ambiente anterior caracterizado pela ausência de mediação efetiva do outro como limite. A tecnologia não inaugura essa dinâmica, apenas a reorganiza, intensificando a repetição e reduzindo a possibilidade de interrupção simbólica. Em consonância com referenciais como Freud, Bauman, Han, Lasch e André Green, propõe-se que a violência emerge como uma forma de inscrição quando o sujeito não encontra estrutura suficiente para elaboração da tensão constitutiva. Nesse sentido, o artigo retoma e reafirma a hipótese previamente sustentada no Trabalho de Conclusão de Curso do autor, indicando que o atual cenário não representa novidade, mas continuidade.
PALAVRAS-CHAVE:
violência. subjetividade. tecnologia. limite. discurso.
INTRODUÇÃO:
Eu vou começar pelo ponto que ninguém quer assumir: não há nada de novo aqui. O que hoje aparece como escândalo — jovem violento, misoginia, crueldade transmitida ao vivo, discurso de ódio organizado em rede — já estava colocado muito antes de virar manchete, muito antes de virar projeto de lei, muito antes de virar explicação pronta em vídeo curto. Eu já tinha sustentado isso quando o problema ainda não tinha nome suficiente para circular. Não era sobre tecnologia. Nunca foi. Era sobre a função do outro. E o erro continua sendo o mesmo: tentar explicar o ato sem olhar o ambiente que torna esse ato possível.
O discurso atual precisa de causa rápida. Ele organiza o mundo dizendo que é a internet, que é a desigualdade, que é a falta de afeto, que é a ausência de limites. Mas tudo isso aparece depois. O ato não inaugura nada. Ele apenas expõe um funcionamento que já estava operando de forma contínua, silenciosa e, principalmente, não interrompida.
DESENVOLVIMENTO:
1. CORPO: A TENSÃO QUE NÃO SE ELABORA
Freud não começa no comportamento, começa na tensão. O sujeito não nasce organizado, ele nasce atravessado. Desejo, agressividade, excitação, conflito. Isso não é opcional, isso é constitutivo. A questão nunca foi eliminar essa tensão, mas como ela seria mediada. E essa mediação depende de uma coisa muito específica: o outro como limite. Quando esse outro não incide, não frustra, não interrompe, a tensão não desaparece. Ela não se dissolve. Ela procura outra via. E quando não encontra elaboração, encontra atuação. Não é que o sujeito escolhe a violência como primeira opção. É que, em determinado ponto, ela passa a ser uma das poucas formas disponíveis de inscrição.
2. CONDIÇÃO MATERIAL: A EXPOSIÇÃO ANTES DA ESCOLHA
O sujeito contemporâneo não entra na internet como quem acessa uma ferramenta. Ele já nasce dentro dela. O acesso é precoce, contínuo e pouco mediado. O celular não é mais objeto externo, é extensão do corpo. O tempo não é vivido como experiência, mas ocupado como fluxo. E aqui está um ponto que não aparece nos discursos simplificados: não se trata apenas de acesso, mas de ausência de mediação consistente. A presença adulta é fragmentada, irregular, muitas vezes substituída por outras instâncias que não operam como limite. O sujeito cresce exposto antes mesmo de poder reconhecer o que está sendo exposto. Não há intervalo suficiente para que algo se estruture internamente.
3. ORGANIZAÇÃO SOCIAL: A TERCEIRIZAÇÃO DO LIMITE
A educação não desapareceu. Ela foi deslocada. A família delega, a escola administra, a tecnologia ocupa. Mas nenhuma dessas instâncias garante aquilo que importa: a experiência do limite. E limite não é regra escrita, não é norma jurídica, não é orientação verbal. Limite é repetição vivida no tempo, é frustração sustentada, é interrupção que se impõe. Quando isso não acontece, não há formação interna de contenção. O sujeito não se interrompe porque não aprendeu a se interromper. E quando a sociedade tenta corrigir isso por meio de leis, punições e regulamentações, ela está apenas nomeando algo que já estava operando sem mediação.
4. TÉCNICA: A CONTINUIDADE SEM CORTE
A tecnologia entra como intensificação, não como origem. O algoritmo não cria a violência, mas organiza sua circulação. Ele seleciona, repete, amplifica. Não porque tem intenção moral, mas porque funciona por retenção. Rolagem infinita não termina. Notificação não interrompe. O fluxo não se quebra. E sem quebra, não há espaço para elaboração. O sujeito não precisa decidir permanecer. Ele apenas continua. A continuidade substitui o limite. E quando tudo continua, nada se inscreve de fato — apenas se repete em escala maior.
5. DISCURSO: A EXPLICAÇÃO QUE CHEGA DEPOIS
Depois que tudo isso já está funcionando, o discurso aparece para organizar. Diz que é testosterona, diz que é falta de afeto, diz que é desigualdade, diz que é a internet. Tudo isso pode até tocar algum ponto, mas não sustenta o fenômeno. Porque são explicações posteriores. O que está em jogo não é a causa isolada, mas a ausência de um eixo que organize o sujeito frente à própria tensão. O discurso tenta dar forma ao que já aconteceu, mas não toca no que permite que continue acontecendo.
CONCLUSÃO:
Eu volto ao ponto inicial porque ele não mudou: não há novidade. O que há é intensificação de algo que já estava colocado. Quando eu sustentei que o problema não era a tecnologia, mas a transformação da função do outro, não era hipótese futurista. Era leitura de um processo em curso. Hoje isso aparece de forma mais explícita, mais violenta, mais visível. Mas não começou agora.
O sujeito não entra na violência como quem rompe uma ordem estabelecida. Ele entra como quem nunca teve essa ordem estruturada internamente. E quando precisa se inscrever no mundo, ele utiliza aquilo que produz impacto, porque nunca teve experiência suficiente de limite para sustentar outra forma de existência. O erro continua sendo procurar o problema no ato final. O problema está no que nunca foi interrompido.
REFERÊNCIAS:
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
LASCH, Christopher. A cultura do narcisismo. Rio de Janeiro: Imago, 1983.
GREEN, André. Narcisismo de vida, narcisismo de morte. São Paulo: Escuta, 1988.
NOTAS DO AUTOR — MPI:
Este texto constitui uma elaboração crítico-ensaística, sem finalidade de orientação, aconselhamento ou prescrição. A análise distingue descrição, interpretação e posição crítica, conforme Shaughnessy et al. (2012), e está em conformidade com o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP). A inteligência artificial foi utilizada como ferramenta instrumental de organização discursiva. A Loka do Rolê opera como função de corte, não como posição clínica.
MINI BIO:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), com atuação voltada à escuta clínica de adultos, análise do discurso e sofrimento psíquico contemporâneo. Desenvolve o projeto Mais Perto da Ignorância, articulando psicologia, filosofia e crítica da tecnologia.
O resto está no texto completo. Quem quiser conforto, pode parar por aqui.
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