O ESTÔMAGO NÃO POSTA, MAS SUSTENTA O FEED
ou: enquanto você debate o mundo, alguém está sendo modulado por ele
AUTOR
José Antônio Lucindo da Silva
PROJETO
Mais Perto da Ignorância (MPI)
PALAVRAS-CHAVE:
materialidade, modulação comportamental, saúde mental, economia da atenção, sofrimento psíquico, tecnologia, trabalho, discurso digital, dependência comportamental, subjetividade
RESUMO:
A internet fala. O corpo paga. Este artigo investiga o contraste entre a inflação discursiva das redes sociais e as condições materiais que sustentam — e modulam — a vida contemporânea. Entre a promessa de autonomia digital e a evidência de sofrimento psíquico crescente, emerge uma reorganização silenciosa: o comportamento humano passa a ser capturado, analisado e induzido por estruturas econômicas e tecnológicas. Amparado em contribuições de Marx, Freud, Byung-Chul Han e Shoshana Zuboff, o texto propõe que o sofrimento psíquico não é falha individual nem ruído estatístico, mas efeito estrutural da forma como a atenção, o trabalho e a vida são organizados. A Loka do Rolê não resolve o problema. Ela aponta o desconforto — e observa quem lucra com ele.
INTRODUÇÃO:
A civilização contemporânea desenvolveu uma habilidade impressionante: falar sobre tudo sem tocar no essencial.
Discute-se geopolítica entre um intervalo de trabalho e outro. Analisa-se inteligência artificial enquanto o almoço esfria. Opina-se sobre o futuro da humanidade com a mesma desenvoltura com que se comenta o placar do jogo.
Nada disso é exatamente falso.
Mas talvez seja lateral.
Porque enquanto o discurso se multiplica, algo permanece desconfortavelmente estável:
o corpo continua precisando comer.
E mais recentemente, algo se acrescentou:
o comportamento passou a ser organizado.
Não por moral.
Não por consciência.
Mas por estrutura.
O problema não é que as pessoas falam demais.
O problema é que falam dentro de sistemas que modulam como elas falam, o que veem e por quanto tempo permanecem ali.
E enquanto isso acontece, os indicadores de sofrimento psíquico sobem com a mesma consistência de quem não precisa pedir autorização para existir.
A pergunta não é se estamos mais informados.
A pergunta é:
👉 sob quais condições estamos vivendo enquanto nos informamos?
1. A CIVILIZAÇÃO AINDA DEPENDE DO ESTÔMAGO (INFELIZMENTE):
Existe uma fantasia elegante de que superamos a materialidade.
Ela vem embalada em fibra óptica.
Mas não sobrevive três dias sem comida.
Karl Marx não estava sendo poético quando afirmou que o ser social determina a consciência. Ele estava sendo direto ao ponto:
antes de qualquer ideologia, existe a produção da vida.
O problema é que atualizamos o cenário sem atualizar a análise.
A comida continua necessária.
Mas agora não basta.
Porque a civilização adicionou uma camada:
A a atenção.
Se antes era preciso produzir alimento, agora também é preciso capturar permanência.
E permanência, ao contrário do arroz, não nasce no campo.
Ela é projetada.
2. O DISCURSO NÃO É LIVRE — ELE É DISTRIBUÍDO:
A crença na liberdade discursiva digital tem um problema estrutural:
Ela ignora a infraestrutura.
O que aparece na tela não é o mundo.
É o que foi selecionado para aparecer.
Shoshana Zuboff descreve esse processo como a transformação da experiência humana em matéria-prima para extração e previsão comportamental. Não se trata de metáfora. Trata-se de modelo econômico.
O comportamento virou dado.
O dado virou produto.
E o produto precisa ser mantido ativo.
Isso exige uma coisa simples:
É você.
Mas não você como sujeito.
Você como fluxo de resposta.
3. O SOFRIMENTO NÃO FALHOU — ELE FUNCIONOU:
Sigmund Freud já havia sido suficientemente indelicado ao afirmar que a civilização cobra um preço.
Troca-se felicidade por segurança.
O mal-estar não é acidente. É contrato.
O que talvez Freud não tenha previsto é que esse mal-estar se tornaria operacional.
Hoje, ele não apenas acontece.
Ele é:
intensificado
explorado
e, em certos casos, economicamente aproveitado
A ansiedade não é apenas sofrimento.
Ela é também retenção.
4. O SUJEITO CANSADO NÃO DESCANSA — ELE CONTINUA:
Byung-Chul Han descreve uma sociedade onde o sujeito explora a si mesmo até a exaustão.
Perfeito.
Mas existe um detalhe adicional:
Ele não consegue parar.
Não por falta de disciplina.
Mas porque o ambiente não foi feito para ser interrompido.
A lógica é simples:
rolagem infinita
recompensa variável
estímulo contínuo
Não há ponto final.
Só atualização.
5. O EXEMPLO QUE NÃO PRECISA DE TEORIA:
Apostas online.
Ali, o modelo se apresenta sem vergonha.
Reforço intermitente.
Expectativa variável.
Acesso contínuo.
O suficiente para ativar circuitos conhecidos da neurociência:
dopamina
antecipação
repetição
Não é necessário interpretar muito.
Os dados mostram:
crescimento acelerado
impacto econômico
sofrimento psíquico associado
E então algo curioso acontece.
O problema vira política pública.
6. O ESTADO CHEGA DEPOIS (COM UMA TOALHA):
Quando o sistema produz efeitos em escala suficiente, o Estado aparece.
Teleatendimento.
Regulação.
Cuidado.
Tudo isso é real.
Mas a ordem importa.
Primeiro:
o comportamento é modulado
o sofrimento emerge
Depois:
ele é tratado
O que não aparece é a alteração da estrutura que produz o fenômeno.
Gerencia-se o efeito.
Mantém-se a engrenagem.
7. O GRANDE EQUÍVOCO CONTEMPORÂNEO:
Acreditar que estamos diante de um problema de saúde mental isolado.
Não estamos.
Estamos diante de um problema de organização da vida.
A subjetividade não está apenas adoecendo.
Ela está sendo atravessada por:
exigências de desempenho
captura de atenção
indução comportamental
E depois, naturalmente, respondendo a isso.
8. O SILÊNCIO MAIS BARULHENTO:
Enquanto milhares opinam, milhões trabalham.
Enquanto o discurso gira, a materialidade permanece.
A maior parte da população não está debatendo geopolítica.
Está:
pagando contas
lidando com cansaço
tentando manter a vida operando.
E é essa população que aparece nos dados:
nos afastamentos
nas estatísticas de sofrimento
nas demandas por cuidado
Não porque falou pouco.
Mas porque viveu sob condições que não dependem de opinião.
9. A NOVA CONFIGURAÇÃO DA CIVILIZAÇÃO:
Talvez o erro seja descrever o presente com categorias antigas.
Não é apenas sociedade da informação.
Nem apenas sociedade do cansaço.
É algo mais específico:
👉 uma sociedade de modulação comportamental.
Onde:
a materialidade sustenta
a economia organiza
a tecnologia opera
o Estado regula efeitos
E o sujeito…
responde.
10. O DESCONFORTO FINAL:
Nada disso elimina o básico.
Sem comida, não há discurso.
Mas agora também:
sem atenção, não há economia digital.
Entre o estômago e o algoritmo existe um corpo.
E esse corpo:
sente
reage
repete
cansa
Não porque falhou.
Mas porque está inserido em uma estrutura que funciona exatamente assim.
NOTAS DO AUTOR — MPI:
Este texto não oferece orientação psicológica, não propõe tratamento e não substitui acompanhamento clínico.
Integra o projeto Mais Perto da Ignorância, cujo objetivo é produzir análise crítica sobre a relação entre discurso, materialidade e subjetividade contemporânea.
A Loka do Rolê não resolve o sofrimento.
Ela o localiza.
Se houver desconforto na leitura, ele não foi colocado aqui por acaso.
REFERÊNCIAS:
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes.
MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca.
AGÊNCIA BRASIL. Governo oferece atendimento para dependência em apostas online. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br
MINI BIO:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo (CRP 06/172551), pesquisador e autor do projeto Mais Perto da Ignorância, onde investiga, com ironia e rigor ético, os efeitos dos discursos contemporâneos sobre a subjetividade, a escuta e o sofrimento humano.
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