O diploma cansado, o algoritmo produtivo e o sujeito que continua acreditando na promessa
Autor
José Antônio Lucindo da Silva
Projeto
Mais Perto da Ignorância — MPI
Palavras-chave;
educação superior, inflação de diplomas, sociedade do cansaço, capitalismo de vigilância, disciplinamento do trabalho, angústia, absurdo, produtividade acadêmica
Durante décadas, o ensino superior foi apresentado como o caminho mais seguro para mobilidade social. Estudar significava melhorar de vida, conquistar estabilidade e acessar posições mais valorizadas no mercado de trabalho. No entanto, a própria expansão massiva das universidades produziu um efeito paradoxal: quando milhões de pessoas passam a possuir diploma universitário, o valor diferencial dessa credencial diminui. Paralelamente, empresas ampliam sistemas de vigilância institucional, formalizam códigos de conduta e intensificam mecanismos de monitoramento do comportamento dos trabalhadores. Nesse cenário emerge um novo elemento: tecnologias capazes de produzir exatamente aquilo que o sistema acadêmico passou a exigir em abundância — texto. A inteligência artificial não inaugura a crise do conhecimento ou do trabalho contemporâneo. Ela apenas ilumina uma engrenagem histórica já em funcionamento. A partir do diálogo com Hobsbawm, Bauman, Byung-Chul Han, Zuboff, Freud, Kierkegaard e Camus, este ensaio examina como educação, produtividade, vigilância e subjetividade se entrelaçam em um mesmo processo histórico. Um sistema que continua prometendo progresso enquanto produz cansaço, angústia e um estranho sentimento de absurdo.
Introdução — A promessa que organizou o século
Durante grande parte do século XX, a história parecia relativamente organizada.
Estude.
Conquiste um diploma.
Construa uma carreira.
Esse roteiro estruturou expectativas sociais, políticas públicas e decisões familiares. A universidade tornou-se uma espécie de altar moderno. Ali se depositavam esperanças de ascensão social, reconhecimento profissional e estabilidade econômica.
Pais incentivavam filhos.
Governos expandiam vagas.
Instituições cresciam.
O diploma passou a funcionar como símbolo de progresso individual.
Mas sistemas históricos têm uma característica inconveniente: eles mudam enquanto continuam repetindo as mesmas promessas.
Quando a educação superior se expande de forma massiva, algo inevitável acontece.
O que antes distinguia começa a se tornar comum.
O diploma não desaparece.
Mas sua função social se transforma.
E é nesse deslocamento silencioso que começa a surgir um certo mal-estar que atravessa universidades, empresas e trajetórias individuais.
A Loka do Rolê costuma resumir esse momento histórico de forma bastante direta:
— “Ensinaram todo mundo a estudar.
Mas esqueceram de avisar o sistema que ele teria que absorver milhões de diplomas.”
Corpo crítico-ensaístico
A origem material da promessa
Para compreender esse fenômeno é preciso retornar à história material da modernidade.
Eric Hobsbawm, em A Era do Capital e A Era dos Extremos, descreve como o desenvolvimento do capitalismo industrial transformou profundamente as estruturas sociais. A expansão das fábricas, das cidades e das burocracias estatais exigiu novos tipos de conhecimento técnico.
Engenheiros.
Administradores.
Contadores.
Professores.
A universidade moderna expandiu-se justamente para atender essa demanda.
Durante muito tempo, o sistema funcionou de forma relativamente estável. O número de pessoas com formação superior era limitado, e o mercado de trabalho conseguia absorver boa parte desses profissionais.
O diploma representava distinção.
Mas a própria expansão educacional alterou essa equação.
Quando milhões de indivíduos passam a possuir diploma universitário, o valor diferencial dessa credencial diminui.
O sistema continua produzindo diplomas.
Mas a economia não cria posições qualificadas na mesma velocidade.
A dissolução das garantias
Zygmunt Bauman descreve esse processo como parte de uma transformação mais ampla da modernidade.
Em O Mal-Estar da Pós-Modernidade, ele argumenta que instituições antes consideradas sólidas começam a perder estabilidade.
Empregos tornam-se mais voláteis.
Carreiras tornam-se fragmentadas.
Trajetórias profissionais tornam-se menos previsíveis.
O diploma permanece culturalmente valorizado, mas sua capacidade de garantir estabilidade diminui.
A promessa educacional continua sendo repetida.
Mas o terreno histórico mudou.
É como correr em uma estrada que lentamente começa a se desfazer sob os pés.
A sociedade do desempenho
A análise de Byung-Chul Han acrescenta outra camada importante.
Em A Sociedade do Cansaço, Han argumenta que a sociedade contemporânea já não opera apenas por repressão externa. Ela funciona por autoexploração.
O sujeito moderno não precisa apenas obedecer.
Ele precisa performar.
Ele precisa demonstrar produtividade constante.
Nesse cenário, o diploma universitário deixa de ser ponto de chegada.
Ele se transforma apenas em uma etapa dentro de uma corrida infinita por desempenho.
Currículo.
Publicações.
Especializações.
Certificados.
A lógica da produtividade invade todos os espaços.
A fadiga deixa de ser acidente.
Ela se torna parte da estrutura.
Vigilância e disciplinamento
Shoshana Zuboff, em A Era do Capitalismo de Vigilância, descreve como o capitalismo contemporâneo reorganizou-se em torno da captura de dados comportamentais.
Plataformas digitais monitoram hábitos de consumo.
Empresas monitoram produtividade.
Instituições monitoram comportamento.
Essa lógica de observação ultrapassa o universo das redes sociais e reorganiza também o mundo do trabalho.
Empresas passam a estruturar:
códigos de conduta
compliance
auditorias internas
canais de denúncia.
O comportamento do trabalhador torna-se objeto de observação constante.
O que antes era informal passa a ser formalizado.
O que antes era invisível passa a ser monitorado.
A organização do trabalho torna-se cada vez mais regulamentada.
O mal-estar
Muito antes dessas transformações tecnológicas, Freud já havia identificado um conflito fundamental da civilização.
Em O Mal-Estar na Civilização, ele argumenta que toda organização social exige renúncia de impulsos individuais.
Quanto mais complexa a sociedade, maiores são as exigências de controle e adaptação.
A modernidade tardia intensifica esse processo.
O sujeito é convocado a ser produtivo, disciplinado e adaptável.
Mas as estruturas sociais tornam-se cada vez menos previsíveis.
O resultado é uma tensão permanente entre exigência cultural e experiência subjetiva.
O mal-estar não aparece como falha individual.
Ele emerge como efeito estrutural da própria organização social.
Angústia e possibilidade
Kierkegaard descreveu a angústia como uma espécie de vertigem diante da liberdade.
A modernidade amplia essa experiência.
A narrativa meritocrática afirma que qualquer pessoa pode alcançar sucesso.
Mas essa liberdade também se transforma em peso.
Se tudo depende do indivíduo, o fracasso também depende.
Essa lógica desloca para o sujeito uma responsabilidade que muitas vezes pertence à estrutura histórica.
O absurdo
Albert Camus descreveu o absurdo como o encontro entre o desejo humano de sentido e o silêncio do mundo.
A sociedade contemporânea continua prometendo progresso.
Mas muitos indivíduos encontram um cenário marcado por competição intensa, instabilidade econômica e pressão permanente por produtividade.
O sistema continua funcionando.
Mas as promessas começam a perder coerência.
É nesse ponto que o absurdo aparece.
Não como filosofia abstrata.
Mas como experiência cotidiana.
A máquina que escreve
Nesse cenário surge a inteligência artificial capaz de produzir textos acadêmicos, relatórios e análises.
A reação inicial costuma ser o espanto.
Mas talvez o espanto esteja mal direcionado.
Durante décadas, o sistema acadêmico passou a avaliar conhecimento principalmente por produção textual.
Publicações.
Artigos.
Impacto bibliométrico.
Quando aparece uma tecnologia capaz de reproduzir padrões de escrita científica, ela não cria essa lógica.
Ela apenas se encaixa perfeitamente nela.
A máquina não inventa a crise.
Ela a ilumina.
Observação final da Loka do Rolê
A Loka costuma olhar para tudo isso com uma mistura curiosa de ironia e lucidez.
Outro dia ela resumiu a situação em poucas frases:
— “A universidade ensinou milhões de pessoas a escrever para competir por um mundo que já não tem lugar para todos.
Enquanto isso, empresas vigiam trabalhadores, algoritmos produzem relatórios e o sujeito moderno continua acreditando que a solução é produzir mais currículo.
Engraçado… ensinaram vocês a pensar.
Mas o sistema parece muito mais interessado em quantas páginas vocês conseguem produzir.”
Notas do Autor — MPI:
Este texto integra o projeto Mais Perto da Ignorância (MPI), dedicado à análise crítica das transformações contemporâneas envolvendo trabalho, tecnologia e subjetividade.
O conteúdo possui caráter analítico e ensaístico, não constituindo orientação psicológica, aconselhamento ou prescrição de conduta.
A inteligência artificial foi utilizada apenas como ferramenta instrumental de organização textual, em conformidade com o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP).
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Referências:
HOBSBAWM, Eric.
A Era do Capital.
HOBSBAWM, Eric.
A Era dos Extremos.
BAUMAN, Zygmunt.
O Mal-Estar da Pós-Modernidade.
HAN, Byung-Chul.
A Sociedade do Cansaço.
ZUBOFF, Shoshana.
A Era do Capitalismo de Vigilância.
FREUD, Sigmund.
O Mal-Estar na Civilização.
KIERKEGAARD, Søren.
O Conceito de Angústia.
CAMUS, Albert.
O Mito de Sísifo.
IBGE — Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
https://www.ibge.gov.br
INEP — Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
https://www.gov.br/inep
Mini Bio:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), formado pela UNIARA e pós-graduado em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Atua em atendimento clínico online e presencial com adultos e desenvolve o projeto ensaístico Mais Perto da Ignorância, dedicado à análise crítica das relações entre subjetividade, cultura, tecnologia e organização social.
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