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O outro não é seu. E a vida não cabe na sua versão.

O BAR DO TIKTOK



O outro não é seu. E a vida não cabe na sua versão.

@aloka_no_role_persona


Domingo. Fim de tarde.

O bar está quase cheio. Na televisão, um jogo de futebol disputa a atenção com as conversas atravessadas, os copos sobre a mesa e os celulares que parecem ter adquirido o direito de interromper qualquer assunto.

Um homem reclama do resultado do jogo. Outro mostra um vídeo para o amigo. Uma mulher pede a conta. O garçom passa entre as mesas carregando duas cervejas e a expressão de quem já ouviu todas as opiniões possíveis sobre futebol, política e o comportamento alheio.

No canto, a Loka do Rolê está sentada. Tranquila. Um copo sobre a mesa, um cinzeiro ao lado e os olhos escondidos atrás dos óculos escuros.

Silvão está perto da janela, observando o movimento da rua.

Breguésio entra com o celular na mão.


BREGUÉSIO:


Loka! Loka! Se liga nessa fita aqui, mano! A mulher tá falando que feminicídio não existe!


Silvão fecha os olhos por um instante. Abaixa a cabeça. Não parece surpresa. Parece alguém que acabou de perceber que o domingo ainda pode piorar.

A Loka olha para Breguésio. Depois olha para Silvão.


LOKA:


Porra, o que você acha que eu tô fazendo aqui, meu?


Breguésio olha para ela. Depois para o celular.


BREGUÉSIO:
Como assim?


LOKA:


Nada, meu querido. Continua. Domingo é dia de entretenimento.

Silvão solta uma risada curta, sem levantar a cabeça.


SILVÃO:


Tem gente que não consegue assistir nem à própria realidade sem colocar legenda.


BREGUÉSIO:


Mas o negócio é sério! O sujeito tá dizendo que não existe feminicídio. Que estão inventando uma categoria. Que mulher também mata homem. Que todo mundo morre. Que é tudo homicídio.

A Loka estende a mão.


LOKA:


Deixa eu ver.

Breguésio entrega o celular. Ela assiste alguns segundos. Não comenta. Devolve o aparelho.


LOKA:


E aí? O que você quer fazer com isso?


BREGUÉSIO:


Como assim, o que eu quero fazer? Quero saber se o cara tá certo!


LOKA:


Então vamos começar pelo começo. O que exatamente ele está negando?


BREGUÉSIO:


O feminicídio.


LOKA:


A palavra? A lei? A morte das mulheres? A violência? Ou tudo junto, no mesmo pacote, porque separar as coisas dá trabalho?

Silvão levanta os olhos.


SILVÃO:


É um pacote econômico. Vem com opinião pronta e dispensa nota fiscal de evidência.


BREGUÉSIO:


Vocês ficam complicando! Tem mulher morrendo ou não tem?

A Loka se ajeita na cadeira.


LOKA:


Pronto. Agora apareceu uma pergunta que presta.

Ela olha para a televisão. O narrador grita um gol. Algumas pessoas comemoram. Outras reclamam.


LOKA:


Tem mulher morrendo. Tem registro. Tem investigação. Tem legislação. Tem família procurando resposta. Tem gente tentando conseguir proteção antes que alguma coisa aconteça. E tem gente discutindo se o nome da violência está correto como se a discussão pudesse fazer o acontecimento desaparecer.

BREGUÉSIO:


Mas os números também são discutidos.


LOKA:


E precisam ser. Número não é escritura sagrada, meu filho. Tem fonte, período, critério, metodologia. Um levantamento pode apresentar diferença em relação a outro. A gente compara, investiga e explica a divergência.


SILVÃO:


O dado não conta a história inteira. Mas a opinião também não é um solvente capaz de dissolver o acontecimento.


LOKA:


Isso. Não confunde uma discussão sobre classificação com a negação daquilo que está sendo investigado. Nem toda morte de mulher é automaticamente feminicídio. Mas também não é porque alguém questionou a classificação de um caso que desapareceu a violência contra as mulheres.

Breguésio guarda o celular no bolso. Parece que finalmente percebeu que o vídeo não vai resolver a conversa.


BREGUÉSIO:


Tá. Mas tem caso de ciúme, traição, briga de casal. Tem história que a gente não conhece.

A Loka pega o copo. Bebe um gole. Coloca-o de volta sobre a mesa.


LOKA:


Traição o caralho, meu amigo!

Silvão vira o rosto para esconder o sorriso.


BREGUÉSIO:


Mas eu tô falando que tem contexto!


LOKA:


E contexto precisa ser investigado. Eu não disse o contrário. Ciúme, separação, traição, ressentimento, discussão... tudo isso pode fazer parte da reconstrução de um acontecimento. Mas me explica uma coisa: desde quando a raiva de alguém virou autorização para controlar o corpo de outra pessoa?


BREGUÉSIO:


Não é isso.


LOKA:


Então não se mistura. Uma pessoa pode terminar uma relação. Pode não querer mais. Pode mudar de ideia. Pode sair, trabalhar, estudar, viajar, conversar com quem quiser. Pode não amar mais. Pode até fazer escolhas que você considera uma merda. Continua sendo uma pessoa.


SILVÃO:


Aparentemente, o problema começa quando alguém descobre que o outro tem uma vida que não depende da sua autorização.


BREGUÉSIO:


Mas e o sentimento? E o sofrimento de quem foi abandonado?

A Loka olha diretamente para ele.


LOKA:


Sofrimento existe, Breguésio. E pode ser enorme. Mas sofrer não transforma ninguém em proprietário de outra pessoa.

Silêncio.

Na mesa ao lado, um homem procura alguma coisa no celular. A televisão continua transmitindo o jogo. O garçom recolhe um copo vazio.


LOKA:


Você percebe que a conversa muda de lugar muito depressa? Começa com alguém que agrediu, ameaçou ou matou. Daqui a pouco estamos discutindo a roupa da MULHER, a escolha dela, a separação, a traição, o jeito de falar, o que ela deveria ter feito.


SILVÃO:


A pessoa que praticou a violência quase desaparece da pergunta.


LOKA:


Pois é. A gente começa perguntando o que aconteceu e termina julgando a vida de quem sofreu.

Breguésio fica quieto.


BREGUÉSIO:


Mas como é que a gente sabe o que realmente aconteceu?

A Loka aponta para o celular sobre a mesa.


LOKA:


Investigando, meu querido. Não é difícil de entender. É difícil de aceitar quando a resposta não vem pronta.

Ela faz uma pausa.


LOKA:


Tem documento, perícia, testemunho, registro, investigação. Tem que examinar tudo. Não dá para pegar a fala de quem ficou e tratar como se fosse a história inteira de quem morreu.


BREGUÉSIO:


Mas quem morreu não pode falar.

A Loka não responde imediatamente.

Silvão olha para a rua.


LOKA:


Exatamente.

O bar parece um pouco mais silencioso, embora ninguém tenha diminuído o volume da televisão.


LOKA:


Quando uma MULHER morre, ela não pode mais explicar o que escolheu. Não pode contestar a versão de alguém. Não pode dizer que aquela história está errada. Isso não significa que a gente não possa reconstruir os fatos. Significa que precisa ter cuidado com a facilidade com que alguém ocupa o lugar da voz que já não está aqui.


SILVÃO:


A ausência não é uma procuração.

Breguésio olha novamente para o celular. A tela acende com uma notificação.


BREGUÉSIO:


Então o que você está dizendo é que o outro tem que ser livre?

A Loka sorri discretamente.


LOKA:


Olha só. O menino chegou ao assunto.


BREGUÉSIO:


Tô perguntando sério!


LOKA:


Eu também.

Ela olha para a porta do bar. Uma mulher passa na calçada, falando ao telefone. Um homem atravessa a rua. Um ônibus para no ponto. A vida segue, sem pedir licença à discussão que acontece dentro do bar.


LOKA:


O outro só é se tem espaço para ser. Eu só posso ser onde posso estar. O outro também.


BREGUÉSIO:


E o que isso quer dizer?


LOKA:


Quer dizer que você precisa de outras pessoas para viver. Aprende a falar com alguém, trabalha com alguém, divide espaço, constrói relação, recebe cuidado, oferece cuidado. Ninguém nasce pronto, isolado numa ilha, com manual de instrução e garantia de fábrica.


SILVÃO:


Ainda bem. Imagina o custo da manutenção.


A Loka continua:

LOKA:


Mas precisar do outro não significa que o outro exista para fazer tudo o que você deseja. O outro não é extensão do seu corpo. Não é propriedade. Não é objeto para confirmar sua importância. Não tem que deixar de ser quem é para você continuar sendo quem acredita que é.


BREGUÉSIO:


Mas toda relação tem limite.


LOKA:


Tem. E limite não é coleira.

Ela pega o copo novamente.


LOKA:


Você pode discordar. Pode ir embora. Pode terminar. Pode sofrer. Pode procurar ajuda. Pode reconstruir sua vida. O que não pode é decidir que a existência do outro virou um problema que você tem o direito de resolver pela força.


SILVÃO:


Tem gente que chama de amor aquilo que só funciona quando a outra pessoa não tem liberdade.


LOKA:


Aí fica fácil, né? Você escolhe, você determina, você vigia, você proíbe, você controla. Depois chama de cuidado. Uma beleza. O outro virou um móvel da sala. Só falta escolher a cor.

Breguésio ri, mas a risada desaparece rapidamente.


BREGUÉSIO:


E quando a pessoa não aceita o fim?

A Loka olha para ele.


LOKA:


O fim continua sendo um fim. Não tem contrato de propriedade afetiva.

O garçom se aproxima.


GARÇOM:


Vai querer mais alguma coisa?


LOKA:


Mais uma dose de realidade. Mas essa aqui vocês não têm no cardápio.

O garçom olha para Silvão.


SILVÃO:


Traz outra cerveja. A realidade ela já pediu.

O garçom sai.

Breguésio pega o celular outra vez, mas não abre o vídeo.


BREGUÉSIO:


E a lei? Resolve isso?


LOKA:


A lei reconhece direitos, define responsabilidades e estabelece mecanismos de proteção. A Lei Maria da Penha trata da violência doméstica e familiar. A Lei 14.994 de 2024 tornou o feminicídio um crime autônomo. Isso importa.


SILVÃO:


Mas lei escrita não é a mesma coisa que proteção chegando à porta de alguém.


LOKA:


Exatamente. Tem que olhar para o atendimento, para a medida protetiva, para a fiscalização, para o serviço que precisa funcionar, para quem recebe o pedido de SOCORRO. Tem que saber se a AJUDA chega, se existe estrutura, se há acompanhamento, se o descumprimento é enfrentado.


BREGUÉSIO:


Então não basta dizer que existe proteção?


LOKA:


Não. Tem que investigar se ela existe na vida concreta.

Ela olha para a mesa. O copo está quase vazio.


LOKA:


E não adianta transformar tudo em disputa de internet. A tela mostra uma parte. A vida acontece inteira do lado de fora.

Silvão se levanta para atender uma ligação. Breguésio permanece sentado.


BREGUÉSIO:


Loka, e essa história do outro? Você acha que a gente só consegue existir porque tem alguém?

A Loka demora um pouco para responder.


LOKA:


A gente se constitui em relação. Mas o outro não nasceu para preencher o espaço que você não consegue ocupar sozinho.


BREGUÉSIO:


E se o outro vai embora?


LOKA:


Ele vai.


BREGUÉSIO:


E se você não quiser?


LOKA:


Você não querer não muda o direito dele de ir.

Breguésio baixa os olhos.


LOKA:


Meu querido, a existência de outra pessoa não é uma votação em que você tem maioria absoluta.

Silvão retorna, puxa a cadeira e se senta.


SILVÃO:


A democracia já é difícil o suficiente. Imagina dentro de um relacionamento em que um sujeito acha que tem poder de veto sobre a vida inteira do outro.

A Loka dá uma risada baixa.


LOKA:


A questão é simples, mas não é pequena. Se para você existir alguém precisa deixar de existir como pessoa livre, então não estamos falando de amor, de cuidado ou de liberdade. Estamos falando de domínio.

Breguésio olha para o celular mais uma vez. A publicação continua ali. Os comentários também. Alguém concorda. Alguém discorda. Alguém compartilha. A tela não demonstra o que acontece na casa de ninguém.

Na televisão, o jogo termina.

O bar começa a esvaziar. Um casal paga a conta. O garçom recolhe as cadeiras de uma mesa. Do lado de fora, o domingo vai embora sem pedir opinião.

Breguésio guarda o aparelho.


BREGUÉSIO:


Então a gente continua investigando?

A Loka coloca o copo sobre a mesa.


LOKA:


A gente nunca parou, meu querido.

Ela olha para Silvão. Depois para a porta.


LOKA:


Só não confunde a discussão sobre a história com a história de quem viveu. E, principalmente, não confunde a sua versão com a existência do outro.

Silvão observa o movimento da rua.


SILVÃO:


No fim, a pergunta continua a mesma.


BREGUÉSIO:


Qual?

A Loka se levanta. Deixa o dinheiro sobre a mesa.


LOKA:


Onde está a pessoa concreta enquanto vocês discutem se ela tem direito de existir?

Ela caminha até a saída.

Antes de atravessar a porta, vira o rosto.


LOKA:


O outro não é seu, vagabundo.

E vai embora.

O bar continua aberto. A televisão continua ligada. O celular de Breguésio vibra novamente.

Mas, por alguns segundos, ninguém olha.




Nota do autor

Esta crônica integra a investigação do Projeto Mais Perto da Ignorância (MPI) sobre alteridade, violência contra a MULHER, materialidade da existência e disputas discursivas no ambiente digital.

O Bar do TikTok é um cenário ficcional. Breguésio, Silvão e Loka do Rolê Raiz são personagens que desempenham funções narrativas distintas. Os diálogos não reproduzem falas de pessoas reais nem representam um episódio ocorrido em um estabelecimento específico.

A hipótese que atravessa a narrativa é a da Negação da Alteridade e da Apropriação Discursiva da Existência do Outro: em determinadas situações, explicações sobre ciúme, traição, separação ou comportamento da vítima podem deslocar a atenção do acontecimento violento para a conduta atribuída à pessoa atingida. Essa hipótese não é apresentada como conclusão universal nem como explicação causal de todos os casos.

A crônica não substitui investigação criminal, análise jurídica ou pesquisa científica. Seu propósito é abrir uma questão e devolvê-la às condições concretas da existência, da liberdade e da proteção.


Mini bio do autor

José Antônio Lucindo é psicólogo clínico e criador do Projeto Mais Perto da Ignorância (MPI), iniciativa independente de investigação crítica que articula materialidade, relações sociais, produção discursiva e infraestrutura digital. O projeto desenvolve análises, ensaios, crônicas e produções audiovisuais orientados pela observação, pela revisão de hipóteses e pelo confronto entre discurso e acontecimento.

Palavras-chave:

Alteridade, feminicídio, violência contra a mulher, liberdade, autonomia, materialidade, relações de poder, discurso digital, proteção institucional, Projeto Mais Perto da Ignorância.

Referências:

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

BRASIL. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006. Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Brasília, DF: Presidência da República, 2006.

BRASIL. Lei nº 14.994, de 9 de outubro de 2024. Altera a legislação penal para tornar o feminicídio crime autônomo e estabelecer outras medidas. Brasília, DF: Presidência da República, 2024.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução CFP nº 10, de 21 de julho de 2005. Aprova o Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília, DF: CFP, 2005.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. 1930. Referência conceitual utilizada como interlocução teórica; os dados completos da edição devem ser inseridos após a conferência da edição efetivamente consultada.


Projeto Mais Perto da Ignorância (MPI)

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