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CAMINHADAS DA IGNORÂNCIA: A IGUALDADE QUE NÃO AGUENTA O OUTRO: FALSIDADE, TRAIÇÃO E O CARALHO DA REPRESENTAÇÃO

CAMINHADAS DA IGNORÂNCIA

A IGUALDADE QUE NÃO AGUENTA O OUTRO: FALSIDADE, TRAIÇÃO E O CARALHO DA REPRESENTAÇÃO


Crônica de sexta-feira | 11 de setembro de 2026


LOKA DO ROLÊ


Eu vou começar esta sexta-feira por uma coisa que parece simples.

E justamente por parecer simples já me deixa desconfiada.

Vocês gostam muito de dizer que somos todos iguais.

Bonito.

Democrático.

Civilizado.

Dá até para colocar numa camiseta e vender na internet.

Somos todos iguais.

Tá.

Mas iguais em quê, meu irmão?

No direito à dignidade?

Em princípio, sim.

Na condição humana?

Compartilhamos muita coisa.

No corpo que nasce, adoece, envelhece e morre?

Tem uma igualdade aí que ninguém consegue negociar com a morte.

Agora, iguais em desejo?

Em expectativa?

Em necessidade?

Em medo?

Em dinheiro?

Em poder?

Em posição social?

Em história?

Em acesso?

Em capacidade de escolher?

Aí a porra começa a ficar menos bonita.

Porque igualdade não elimina diferença.

E sem diferença existe um pequeno problema conceitual chamado alteridade.

O outro precisa continuar sendo outro.

Senão não existe outro.

Existe espelho.

E eu já vi espelho demais nesta vida.


BREGUÉSIO

Lá vem.

SILVAN

Deixa ela terminar.


LOKA DO ROLÊ

Antes de você começar a me chamar de arrogante, niilista, pessimista, filha da puta ou qualquer outra classificação que o algoritmo consiga transformar em engajamento, calma.

Eu não estou aqui para disputar sua opinião.

Isso aqui não é coach.

Não é autoajuda.

Não é terapia.

Não é receita para você melhorar seu relacionamento.

Não é manual para descobrir se seu namorado é falso.

Também não é uma pregação da desgraça.

Eu não estou anunciando o fim do mundo.

Estou apenas lembrando que o mundo tem chão.

E que o corpo costuma pagar a conta das teorias que ficam bonitas demais.

Eu sou a Loka do Rolê.

Eu atravesso discursos.

Observo o que eles fazem.

Desconfio do que eles escondem.

Não tenho nenhuma obrigação de entregar uma resposta confortável no final.

Aliás, sexta-feira já tem boleto demais para eu ainda precisar fabricar esperança.


BREGUÉSIO

E o que você tem, então?


LOKA DO ROLÊ

Uma hipótese.

Uma entre milhares.

E hipótese, para mim, não é conclusão com maquiagem.

É uma pergunta que ainda não morreu.


SILVAN

Então começa pela pergunta.


LOKA DO ROLÊ

Já comecei.

Você queria igualdade ou queria previsibilidade?

BREGUÉSIO

Qual é a diferença?

LOKA DO ROLÊ

Toda.

Se eu digo que todos somos iguais, isso não significa que eu consiga prever o que você fará.

Se você é igual a mim em dignidade, isso não significa que deseja o que eu desejo.

Se possui os mesmos direitos fundamentais que eu, não significa que possui a mesma história.

Se é humano como eu, não significa que ocupa a mesma posição material.

E se ocupa uma posição material diferente, isso pode modificar aquilo que consegue fazer, recusar, escolher, suportar ou perder.

SILVAN

Então a igualdade pode existir junto com a desigualdade material.


LOKA DO ROLÊ

Pode.

E é justamente aí que o discurso bonito começa a tomar porrada da realidade.

Porque eu encontro alguém que não sou eu.

Esse alguém possui uma história que não é minha.

Um corpo que não é meu.

Desejos que não são meus.

Medos que não são meus.

Limites que eu não controlo.

E uma coisa profundamente inconveniente chamada liberdade.

Não uma liberdade absoluta.

Essa fantasia eu deixo para quem vende curso.

Mas uma margem de diferença que impede o outro de ser completamente previsível.


BREGUÉSIO

Mas se eu conheço alguém há vinte anos?

LOKA DO ROLÊ

Você pode conhecer alguém durante vinte anos.

Pode morar junto.

Dormir ao lado.

Dividir dinheiro.

Dividir doença.

Dividir filho.

Dividir trabalho.

Dividir silêncio.

Pode saber como a pessoa toma café.

Reconhecer o barulho da chave na porta.

Saber quando ela está irritada.

Conhecer histórias que ninguém mais conhece.

E ainda assim existe uma parte do outro que não é propriedade sua.

SILVAN

Porra.

LOKA DO ROLÊ

Pois é.

Isso é alteridade.

BREGUÉSIO

Então como eu conheço o outro?

LOKA DO ROLÊ

Eu construo uma representação.

Observo.

Interpreto.

Lembro.

Esqueço.

Comparo.

Associo.

Crio expectativas.

Faço previsões.

Reorganizo experiências anteriores.

E aos poucos surge uma figura interna daquele outro.

Só que essa figura não é o outro.

É uma representação.

SILVAN

E é aí que entra a traição?

LOKA DO ROLÊ

Talvez.

Porque grande parte da confusão começa quando confundimos a pessoa com a representação que construímos dela.

A pessoa existe.

O acontecimento existe.

O comportamento pode ser documentado.

A mentira pode ser verificável.

A promessa pode existir.

O compromisso pode existir.

A ruptura pode existir.

Mas a identidade total que construímos depois do acontecimento é outra coisa.

É representação.

BREGUÉSIO

Representação não é presença.

LOKA DO ROLÊ

Agora você está começando a me preocupar.

Mas é isso.

Representação não é presença.

Arquivo não é pessoa.

Fragmento verdadeiro não é necessariamente narrativa verdadeira sobre o todo.

SILVAN

E na internet?

LOKA DO ROLÊ

Na internet isso ganha velocidade.

Uma fotografia.

Uma mensagem.

Um áudio.

Uma postagem.

Uma conversa vazada.

Um vídeo.

Uma captura de tela.

Um trecho de conversa.

Uma declaração.

Tudo isso pode ser verdadeiro.

E mesmo assim o conjunto produzido a partir desses fragmentos pode ultrapassar aquilo que os fragmentos permitem afirmar.

A discursividade pega o acontecimento.

Classifica.

Repete.

Organiza.

Comenta.

Recorta.

Redistribui.

E quando você percebe, o acontecimento virou identidade.

BREGUÉSIO

Como assim?

LOKA DO ROLÊ

A pessoa mentiu.

Depois:

Ela é mentirosa.

A pessoa rompeu um compromisso.

Depois:

Ela é traidora.

A pessoa tomou determinada decisão.

Depois:

Ela sempre foi assim.

SILVAN

Esse sempre é perigoso.

LOKA DO ROLÊ

Pra caralho.

Porque essa palavrinha costuma aparecer depois que a história já terminou.

Aí eu paro.

Porque uma coisa é dizer:

Ele mentiu.

Outra:

Ele é mentiroso.

Outra:

Ele sempre foi assim.

São operações diferentes.

E precisam de demonstrações diferentes.

BREGUÉSIO

Mas e quando a pessoa realmente trai?

LOKA DO ROLÊ

Então houve um acontecimento.

E agora começa o trabalho difícil.

Porque dizer que houve traição não encerra a investigação.

Começa.

Traiu quem?

O quê?

Qual compromisso?

Qual valor?

Qual promessa?

Qual acordo?

Qual expectativa?

Qual relação?

Qual contrato?

Qual contexto?

SILVAN

Você está dizendo que traição precisa de uma relação.

LOKA DO ROLÊ

Exatamente.

Você não trai uma pedra.

Pode destruir uma pedra.

Vender uma pedra.

Esconder uma pedra.

Mas traição pressupõe uma relação na qual existia algum tipo de expectativa, confiança, compromisso ou pertencimento.

Então até a traição precisa de contexto para ser chamada de traição.

E isso não torna a traição menos real.

Torna o conceito mais preciso.

SILVAN

Agora chegamos onde ninguém gosta.

LOKA DO ROLÊ

Materialidade.

Porque é muito fácil falar de princípio quando princípio não custa nada.

Eu quero saber do valor quando ele precisa atravessar o aluguel.

O emprego.

A fome.

A dependência econômica.

A posição social.

A família.

O medo de perder status.

O medo de perder dinheiro.

O medo de perder proteção.

O medo de ficar sozinho.

A necessidade de reconhecimento.

A possibilidade de exclusão.

A desigualdade.

A porra toda.

BREGUÉSIO

Mas condição material explica traição?

LOKA DO ROLÊ

Não automaticamente.

Seria tão preguiçoso quanto dizer que caráter explica tudo.

Eu estou dizendo outra coisa.

Qualquer investigação minimamente séria precisa perguntar:

Em que chão esse acontecimento aconteceu?

Corpo.

Condições materiais.

Organização social.

Técnica.

Discurso.

Não porque discurso seja irrelevante.

Mas porque discurso nenhum paga o aluguel sozinho.

E quando paga, geralmente alguém descobriu uma maneira bastante sofisticada de transformar discurso em mercadoria.

BREGUÉSIO

E o medo?

LOKA DO ROLÊ

O medo é estranho.

Porque ele consegue chegar antes do acontecimento.

Eu posso ter medo de ser traída antes de existir qualquer traição.

O objeto do medo pode estar no futuro.

Mas o medo está acontecendo agora.

No corpo.

Na atenção.

No comportamento.

Na vigilância.

Na relação.

Eu posso começar a interpretar sinais.

Perguntar mais.

Desconfiar.

Testar.

Controlar.

Antecipar.

Me afastar.

Tudo isso acontece antes de o acontecimento que eu temo necessariamente acontecer.

SILVAN

Então sentir medo não prova que a traição existe.

LOKA DO ROLÊ

Não.

BREGUÉSIO

Mas também não significa que o medo seja falso.

LOKA DO ROLÊ

Exatamente.

O medo não é prova.

Mas também não é simplesmente mentira.

É um acontecimento corporal presente diante de uma possibilidade.

E isso muda a relação antes mesmo que o futuro decida o que fazer.

SILVAN

Talvez a pergunta seja quanto da relação já foi reorganizado por aquilo que ainda não aconteceu.

LOKA DO ROLÊ

Essa.

Essa pergunta já dá trabalho suficiente para uma sexta-feira.

BREGUÉSIO

Mas quando alguém trai, não é simplesmente porque o outro deixou de ser quem eu achava que era?

LOKA DO ROLÊ

Talvez.

E aqui a coisa fica feia.

Porque existe diferença entre o que o outro fez e o que eu esperava que o outro fosse.

As duas coisas podem se encontrar.

Mas não são idênticas.

Eu posso ter sido efetivamente enganada.

Posso ter recebido uma informação falsa.

Posso ter tido um compromisso quebrado.

Isso não desaparece porque também construí uma representação daquela pessoa.

Mas existe outra camada.

Eu posso descobrir que aquela pessoa não era quem eu imaginava.

E isso pode produzir uma experiência de ruptura.

Então eu pergunto:

Qual representação morreu?

A pessoa morreu?

Não necessariamente.

A relação morreu?

Talvez.

O compromisso morreu?

Talvez.

A confiança morreu?

Pode ser.

Ou morreu a versão daquela pessoa que existia dentro da minha expectativa?

Talvez.

SILVAN

Você gosta desse talvez, hein?

LOKA DO ROLÊ

Gosto.

Porque ele impede a certeza de entrar bêbada na sala.

BREGUÉSIO

E Freud?

LOKA DO ROLÊ

Freud pode entrar.

Mas sem virar santo.

SILVAN

Cadáver discursivo?

LOKA DO ROLÊ

Exatamente.

Cadáver discursivo.

Testemunha.

Não autoridade.

Quando Freud trabalha luto e melancolia, aparece uma questão interessante:

não basta perguntar quem foi perdido.

Também pode ser necessário perguntar o que foi perdido nesse objeto.

E isso abre outra pergunta.

Quando eu digo:

Você me traiu.

O que exatamente estou nomeando?

O ato?

A quebra da promessa?

A perda da confiança?

A perda da relação?

A perda da imagem?

A perda da expectativa?

Ou a colisão entre a pessoa que existia e a pessoa que eu precisava acreditar que existia?

BREGUÉSIO

Pode ser tudo isso?

LOKA DO ROLÊ

Pode.

Pode não ser.

E é exatamente por isso que eu não quero transformar teoria em diagnóstico de ninguém.

Estou usando o problema teórico.

Não uma fórmula para explicar pessoas.

SILVAN

Chama o Bauman.

LOKA DO ROLÊ

Ô, Bauman!

Chega aí, velho.

Você falou de amor líquido.

Falou de relações.

Falou dessa linguagem de conexões e redes.

E isso interessa.

Porque conectar e desconectar começam a parecer movimentos equivalentes.

BREGUÉSIO

Mas toda relação virou descartável?

LOKA DO ROLÊ

Não.

Isso seria uma generalização idiota.

O que interessa é a mudança na linguagem.

Porque quando a relação vira conexão, o outro pode começar a aparecer como ponto de acesso.

Liga.

Desliga.

Bloqueia.

Desbloqueia.

Segue.

Deixa de seguir.

Silencia.

Remove.

Adiciona.

Arquiva.

Denuncia.

E eu fico perguntando:

Onde ficou a pessoa?

Não estou dizendo que toda relação precisa continuar.

Não.

Algumas relações terminam.

O ponto é outro.

A técnica oferece operações rápidas sobre vínculos complexos.

E isso pode modificar a experiência da relação.

Não porque a máquina decidiu alguma coisa.

A máquina não decidiu porra nenhuma.

Mas porque uma infraestrutura técnica organiza possibilidades de ação.

BREGUÉSIO

Então hoje eu construo uma pessoa também pelos fragmentos digitais.

LOKA DO ROLÊ

Exatamente.

Uma fotografia.

Um perfil.

Uma postagem.

Uma curtida.

Uma ausência.

Uma mensagem visualizada.

Uma resposta que demorou.

Uma frase retirada do contexto.

Um vídeo de trinta segundos.

E pronto.

Temos um ser humano inteiro.

Ou pelo menos temos essa impressão.

SILVAN

O problema é que o fragmento pode ser verdadeiro.

LOKA DO ROLÊ

E ainda assim não ser a pessoa inteira.

O registro é real.

Mas o registro não é o acontecimento inteiro.

A imagem existe.

Mas imagem não é presença.

A informação circula.

Mas circulação não é conhecimento.

Disponibilidade não é intimidade.

BREGUÉSIO

Então uma narrativa pode começar com fatos verdadeiros e ainda assim produzir uma conclusão falsa?

LOKA DO ROLÊ

Agora você chegou no caralho da questão.

Alguém realmente disse aquilo.

A mensagem realmente existe.

A fotografia realmente foi publicada.

O encontro realmente aconteceu.

A pessoa realmente mentiu naquela situação.

Tudo isso pode ser verdadeiro.

E mesmo assim a conclusão:

Logo, sabemos quem essa pessoa é.

Pode não ser sustentada pelos dados.

Não é relativismo.

Não estou dizendo que verdade não existe.

Estou dizendo que a verdade de um fragmento não garante automaticamente a verdade da totalização construída a partir dele.

SILVAN

Fragmento verdadeiro não é narrativa verdadeira sobre o todo.

LOKA DO ROLÊ

Isso.

E a discursividade digital acelera essa passagem.

Acontecimento.

Interpretação.

Classificação.

Identidade.

Repetição.

Familiaridade.

Certeza.

E depois a certeza dispensa investigação.

A pessoa acaba condenada pela representação que circula sobre ela.

BREGUÉSIO

E se a representação estiver errada?

LOKA DO ROLÊ

A pessoa pode sofrer as consequências mesmo assim.

Porque representação circula.

E circulação tem efeitos materiais.

SILVAN

Então a culpa é da inteligência artificial?

LOKA DO ROLÊ

Não.

E eu já estou cansada dessa explicação.

Uma inteligência artificial não é um sujeito.

Não possui desejo.

Não possui consciência.

Não possui intenção própria.

Não possui escuta no sentido humano.

A máquina não acordou hoje pensando:

Vou destruir a confiança do José.

Não.

Quem produz essas infraestruturas são pessoas, empresas, instituições, mercados, Estados, trabalhadores, sistemas econômicos e decisões políticas.

BREGUÉSIO

Então onde está o problema?

LOKA DO ROLÊ

Na infraestrutura.

Na velocidade.

No registro.

Na classificação.

Na distribuição.

Na repetição.

E no regime econômico que organiza essas coisas.

A técnica amplia possibilidades.

Também amplia velocidade.

Também registra.

Classifica.

Distribui.

Repete.

E quando isso entra num regime econômico de atenção e dados, o problema não é a máquina possuir uma alma maligna.

O problema é ela não possuir alma nenhuma e ainda assim operar sobre vidas humanas.

SILVAN

Isso é menos cinematográfico.

LOKA DO ROLÊ

E muito mais interessante.

BREGUÉSIO

Você falou que eu construo uma representação do outro.

Mas o outro também participa da representação que eu faço de mim?

LOKA DO ROLÊ

Sim.

Eu não construo apenas uma imagem do outro.

O outro participa de determinadas formas do meu reconhecimento.

Eu sou filho de alguém.

Parceiro de alguém.

Amigo de alguém.

Colega de alguém.

Inimigo de alguém.

Trabalhador.

Desempregado.

Cidadão.

Vizinho.

Desconhecido.

Meu corpo não depende de uma plateia para existir.

Mas determinadas dimensões da minha experiência subjetiva e social são constituídas nas relações.

Então uma ruptura com o outro pode produzir uma ruptura na maneira como eu me reconhecia naquela relação.

SILVAN

Talvez seja por isso que traição doa de uma maneira específica.

LOKA DO ROLÊ

Talvez.

Não apenas porque alguém fez alguma coisa.

Mas porque uma relação que ajudava a sustentar determinada posição subjetiva deixou de funcionar da mesma maneira.

Isso não significa que a dor seja imaginária.

Significa apenas que existe mais de uma coisa acontecendo.

O acontecimento.

A relação.

A representação.

A expectativa.

O corpo.

O medo.

O valor.

A condição material.

A história.

E depois...

a narrativa.

Sempre ela.

A filha da puta da narrativa.

BREGUÉSIO

Volta para o começo.

Você não disse que todo mundo é igual?

LOKA DO ROLÊ

Disse.

E é exatamente por isso que voltei.

Se todos somos iguais em dignidade, isso não significa que somos iguais entre nós.

Se todos temos valor humano, isso não significa que ocupamos o mesmo lugar.

Se todos temos direito à dignidade, isso não significa que temos o mesmo dinheiro.

Se todos temos direito de existir, isso não significa que temos o mesmo poder.

E se somos diferentes, o outro pode me surpreender.

SILVAN

Então diferença não é inimiga da igualdade.

LOKA DO ROLÊ

Não.

Diferença não significa hierarquia.

E igualdade não significa identidade.

Essa talvez seja uma das confusões mais básicas dessa conversa.

Dignidade não significa previsibilidade.

Direito não significa desejo.

Semelhança humana não significa equivalência subjetiva.

BREGUÉSIO

Agora eu quero saber.

Se o outro é realmente outro, o que é traição?

LOKA DO ROLÊ

Talvez a traição seja impossível de compreender sem a diferença.

Porque é justamente porque o outro é outro que ele pode me surpreender.

Se o outro fosse completamente igual a mim, previsível em todos os aspectos, transparente em todos os desejos, controlável em todas as ações, eu não teria encontrado um outro.

Teria encontrado uma extensão de mim.

SILVAN

Então você queria igualdade ou queria previsibilidade?

LOKA DO ROLÊ

Essa é a pergunta.

Porque talvez eu não esteja sofrendo apenas porque o outro fez alguma coisa.

Talvez esteja sofrendo porque descobri que o outro não era a representação que eu construí.

E aí eu preciso perguntar:

O que eu esperava que ele fosse?

Essa expectativa foi compartilhada?

Foi prometida?

Foi acordada?

Ou eu simplesmente imaginei que o outro deveria ser assim?

BREGUÉSIO

E aí algumas traições são concretas e outras envolvem uma expectativa que nunca foi acordada.

LOKA DO ROLÊ

Exatamente.

E essas duas coisas não são iguais.

Eu quero deixar isso bem separado.

Falsidade pode dizer respeito à distância entre aquilo que alguém afirma e aquilo que efetivamente faz.

Mas nem toda inconsistência é mentira.

Nem toda mudança é falsidade.

Nem toda contradição é fraude.

Ser humano também é ser histórico.

A pessoa pode mudar.

Pode desistir.

Pode descobrir que não quer mais.

Pode ter desejado alguma coisa e depois deixar de desejar.

Pode ter prometido e não conseguir cumprir.

Isso não absolve automaticamente ninguém.

Mas obriga a investigar.

Traição, por outro lado, envolve uma relação na qual alguma expectativa, confiança, compromisso ou pacto foi rompido.

A categoria depende da relação.

Por isso a pergunta:

Qual representação foi traída?

Pode ser tão importante quanto:

Qual compromisso foi quebrado?

Talvez as duas respostas existam.

Talvez apenas uma.

Talvez nenhuma esteja suficientemente documentada.

E eu não tenho interesse em inventar certeza.

SILVAN

E depois?

LOKA DO ROLÊ

Depois vem o tempo.

E o tempo faz uma coisa bastante cruel.

Ele elimina testemunhas.

Modifica relações.

Apaga conversas.

Muda cidades.

Troca empregos.

Muda corpos.

Produz documentos.

Perde documentos.

Muda o significado das palavras.

E, às vezes, mata quem poderia responder.

BREGUÉSIO

Então uma narrativa posterior pode parecer mais segura justamente porque não existem mais testemunhas?

LOKA DO ROLÊ

Pode.

A segurança não significa necessariamente que ficou mais verdadeira.

Às vezes ficou apenas mais difícil de contestar.

O tempo não participa do debate.

O tempo passa.

E passando, retira do presente algumas condições que poderiam contradizê-lo.

Isso muda a verificabilidade.

Não significa automaticamente que a narrativa seja falsa.

Significa que o circuito de verificação foi alterado.

E isso deveria nos deixar um pouco menos arrogantes diante das nossas próprias histórias.

BREGUÉSIO

E a morte?

LOKA DO ROLÊ

A morte, como sempre, não está nem aí para nossa teoria.

Eu sou a Loka.

E a morte está comigo.

Ela não explica.

Não consola.

Não escolhe lado.

Ela apenas lembra que existe corpo.

E que o corpo tem limite.

Um dia alguém não responde mais.

Um dia alguém morre.

Um dia a pessoa não pode mais corrigir a representação que fazemos dela.

E aí existe um problema ainda maior.

O morto não pode entrar na conversa e dizer:

Não foi assim.

A pessoa desaparece da posição de interlocutora.

Mas o arquivo continua.

A fotografia continua.

A postagem continua.

A mensagem continua.

A interpretação continua.

A narrativa continua.

SILVAN

A vida termina.

A circulação continua.

LOKA DO ROLÊ

É.

E uma vida pode permanecer disponível como informação enquanto perde progressivamente a possibilidade de responder.

Por isso eu repito:

Arquivo não é pessoa.

Informação não é alteridade.

Circulação não é história.

Disponibilidade não é presença.

E representação não ressuscita ninguém.

Breguésio 

Então quem traiu quem?

LOKA DO ROLÊ

Talvez essa seja a pergunta errada.

Ou talvez seja a pergunta certa feita cedo demais.

Antes de perguntar quem traiu quem, eu preciso saber:

O que aconteceu?

O que foi prometido?

O que foi acordado?

O que era expectativa?

O que era representação?

O que era medo?

O que era valor?

Quais eram as condições materiais?

Quem tinha poder?

Quem dependia de quem?

Quem podia sair?

Quem precisava ficar?

Quem tinha dinheiro?

Quem tinha tempo?

Quem tinha proteção?

Quem podia falar?

Quem podia ser ouvido?

Quem podia desaparecer?

E quem ficou com a conta?

SILVAN

Porque até a traição tem materialidade.

LOKA DO ROLÊ

Exatamente.

Até o drama mais abstrato precisa de um corpo.

E o corpo está sempre pagando alguma coisa.

BREGUÉSIO

Então qual é a hipótese?

LOKA DO ROLÊ

Eu deixo assim.

Não como conclusão.

Como hipótese.

Talvez falsidade e traição sejam categorias relacionais que emergem quando acontecimentos concretos entram em conflito com valores, expectativas, compromissos e representações construídas sobre o outro.

O acontecimento pode ser verificável.

Mas sua transformação em identidade, caráter ou essência não decorre automaticamente dele.

Sob determinadas condições materiais, afetivas e sociais, o medo pode antecipar a possibilidade de ruptura.

A representação pode estabilizar uma imagem do outro.

E a discursividade digital pode acelerar a passagem do fragmento à classificação, da classificação à identidade e da identidade à narrativa retrospectiva.

Isso não elimina responsabilidade.

Não absolve mentira.

Não transforma traição em fantasia.

Não dissolve violência em contexto.

Não diz que tudo é relativo.

E também não diz que tudo é projeção.

A hipótese apenas pergunta:

O que acontece entre o acontecimento e a sentença sobre a pessoa?

Porque talvez seja justamente ali que a representação comece a ocupar o lugar da realidade.

BREGUÉSIO

Então quando eu digo “você me traiu”, o que exatamente estou dizendo?

LOKA DO ROLÊ

Essa é a pergunta.

Quando eu digo:

Você me traiu.

Estou descrevendo aquilo que você fez?

Aquilo que eu esperava de você?

Ou a morte da pessoa que eu precisava que você fosse?

SILVAN

Talvez sejam as três coisas.

LOKA DO ROLÊ

Talvez.

BREGUÉSIO

Talvez nenhuma?

LOKA DO ROLÊ

Também.

E isso é importante.

Porque eu não quero saber rápido.

Quero saber direito.

SILVAN

Mas você não está fazendo exatamente a mesma coisa?

LOKA DO ROLÊ

Estou.

E por isso eu também entro na cena.

Nem eu estou acima disso.

Nem o MPI.

Nem essa crônica.

Nem quem está ouvindo.

Eu também seleciono fragmentos.

Eu também escolho acontecimentos.

Eu também construo conexões.

Eu também interpreto.

Eu também produzo representação.

Eu também corro o risco de transformar fragmento em totalidade.

Não existe lugar absolutamente limpo fora da discursividade.

BREGUÉSIO

Então você também pode estar errada.

LOKA DO ROLÊ

Posso.

E isso não destrói a hipótese.

Pelo contrário.

Uma hipótese que não pode ser confrontada já começou a se comportar como dogma.

Eu apresento o discurso.

Você apresenta o seu.

A realidade apresenta o corpo.

O tempo apresenta o limite.

E a morte...

SILVAN

Está passeando.

LOKA DO ROLÊ

A morte só está passeando.

O resto somos nós tentando explicar o que acabou de acontecer.

Talvez a igualdade que o senso comum anuncia seja necessária.

Mas talvez ela não seja suficiente para compreender as relações concretas.

Porque igualdade não significa identidade.

Dignidade não significa previsibilidade.

Direito não significa desejo.

Semelhança humana não significa equivalência subjetiva.

E diferença não significa hierarquia.

Talvez eu precise do outro justamente porque ele não sou eu.

Talvez eu precise reconhecer que ele não cabe inteiro na representação que construo.

Talvez a traição seja tão dolorosa porque alguma coisa real pode ter acontecido ao mesmo tempo em que uma representação desabou.

Talvez algumas pessoas realmente mintam.

Talvez algumas relações realmente sejam traídas.

Talvez algumas acusações sejam injustas.

Talvez algumas sejam absolutamente justificadas.

Talvez a técnica esteja acelerando a transformação de acontecimentos em arquivos, arquivos em fragmentos, fragmentos em classificações e classificações em identidades.

Talvez.

Mas existe uma coisa que eu não quero perder:

O acontecimento não desaparece porque eu interpretei.

E a interpretação não vira acontecimento porque eu repeti.

Então eu paro.

Não porque acabou.

Mas porque já tem merda suficiente no chão.

E sexta-feira não precisa de mais uma certeza fabricada.

Talvez precise de uma pergunta que aguente permanecer aberta.

Qual representação foi traída?

E antes disso:

Quem decidiu que ela era verdadeira?

BREGUÉSIO

E se eu ainda não souber?

LOKA DO ROLÊ

Então ainda não sabe.

SILVAN

E se eu quiser uma resposta?

LOKA DO ROLÊ

Todo mundo quer.

É mais confortável.

BREGUÉSIO

E você não vai dar?

LOKA DO ROLÊ

Não.

Porque algumas perguntas ficam menores quando recebem uma resposta grande demais.

Eu sou a Loka do Rolê.

Não estou aqui para salvar ninguém.

Nem para condenar ninguém.

Estou aqui para olhar para o discurso, cutucar onde dói e perguntar:

Tá.

Mas onde esse caralho está acontecendo?

No corpo?

No bolso?

Na relação?

No medo?

Na memória?

Na tela?

Na narrativa?

Ou em tudo isso ao mesmo tempo?

SILVAN

E a resposta?

LOKA DO ROLÊ

Ainda está andando.

BREGUÉSIO

E você?

LOKA DO ROLÊ

Eu também.

A morte está passeando.

O corpo continua.

O discurso continua falando.

E nós continuamos tentando descobrir se aquilo que chamamos de verdade era acontecimento, era representação ou era só a história que conseguimos contar depois que o outro deixou de responder.

Até a próxima caminhada.


Sem conclusão.


Porque a realidade, infelizmente, não assinou contrato com a nossa necessidade de fechamento.

José Antônio Lucindo — Psicólogo CRP Ativo - Desemprego.


A Loka do Rolê é uma função narrativa do projeto Mais Perto da Ignorância, atravessando discursos, tensionando explicações prontas e devolvendo a investigação à materialidade da existência.


#mpi 

#aloka_do_role 

#mpimaispertodaignorancia


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A Carta Que Voltou Tarde Demais Palavras chaves; carta, resposta, Freud, psicanálise, supereu, mal-estar, sexualidade, norma social, desejo, moral, comentário público, redes sociais, algoritmo, visibilidade, intimidade, discurso midiático, transferência, ética da resposta, deslocamento simbólico, carta aberta, Loka do Rolê, fratura simbólica, crítica cultural, contemporaneidade, Caro Dr. Freud, capítulo ensaístico. (Resposta ao Dr. Freud na Era do Comentário Público) Caro Dr. Freud, Escrevo-lhe novamente, mas agora de forma mais precisa. Segundo alguns dados midiáticos recentemente difundidos, um jornalista de alta credibilidade foi interpelado publicamente por uma seguidora que lhe pediu que jamais tornasse pública sua suposta orientação sexual. A interpelação veio revestida de vergonha e oração, como se moral e cuidado fossem sinônimos. Não houve crime. Não houve escândalo. Houve discurso. A resposta do jornalista foi direta: delimitou fronteira, nomeou o cará...

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Respira! Não é desespero. É método. Você está certo numa coisa: se o eixo discursivo é mapeamento como técnica de administração de corpos, então IBM e o Holocausto (Edwin Black) não é detalhe — é estrutura. E ele precisa entrar não como comparação rasa, mas como operador histórico da discussão. Vamos reorganizar isso dentro do MPI, com coerência, densidade e todas as camadas que você vem construindo: Arbex, Bauman, Black, Zuboff, O’Neil, Freud, CID-11, DSM-5, Código de Ética, modernidade técnica, Estado brasileiro. Sem delírio. Sem futurologia. Sem prescrição. Só tensão histórica. MAPEAR A DOR É ORGANIZAR CORPOS (e o Brasil sabe fazer isso) Autor: José Antônio Lucindo da Silva Projeto: Mais Perto da Ignorância Palavras-chave: mapeamento, técnica, IBM, Barbacena, saúde mental, Estado, classificação, modernidade, Bauman, Arbex, Black, Zuboff, Freud, Brasil.  Resumo O Ministério da Saúde anuncia uma Pesquisa Nacional de Saúde Mental para mapear a po...

O diploma cansado, o algoritmo produtivo e o sujeito que continua acreditando na promessa

O diploma cansado, o algoritmo produtivo e o sujeito que continua acreditando na promessa Autor José Antônio Lucindo da Silva Projeto Mais Perto da Ignorância — MPI Palavras-chave; educação superior, inflação de diplomas, sociedade do cansaço, capitalismo de vigilância, disciplinamento do trabalho, angústia, absurdo, produtividade acadêmica Durante décadas, o ensino superior foi apresentado como o caminho mais seguro para mobilidade social. Estudar significava melhorar de vida, conquistar estabilidade e acessar posições mais valorizadas no mercado de trabalho. No entanto, a própria expansão massiva das universidades produziu um efeito paradoxal: quando milhões de pessoas passam a possuir diploma universitário, o valor diferencial dessa credencial diminui. Paralelamente, empresas ampliam sistemas de vigilância institucional, formalizam códigos de conduta e intensificam mecanismos de monitoramento do comportamento dos trabalhadores. Nesse cenário emerg...