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QUANDO A MORTE ENTRA NA LIVE E A RESPOSTA JÁ ESTÁ PRONTA / Crônica narrativa — Mais Perto da Ignorância

QUANDO A MORTE ENTRA NA LIVE E A RESPOSTA JÁ ESTÁ PRONTA

Crônica narrativa — Mais Perto da Ignorância



Tem uma coisa engraçada nas perguntas sobre a morte.

A gente pergunta.

E quase imediatamente alguém responde.

É impressionante.

Você mal terminou de abrir a boca e já apareceu alguém com uma resposta cuidadosamente embalada, etiquetada, lacrada e pronta para consumo.

Morte?

Deus.

Sofrimento?

Propósito.

Perda?

Reencontro.

Medo?

Fé.

Abismo?

Salvação.

Pronto.

Pode fechar a conversa.

O problema é que a pergunta continua ali.

E foi mais ou menos assim que começou a história.

Eu tinha construído um podcast.

Não um sermão.

Não uma profissão de fé.

Não uma tentativa de convencer alguém a acreditar ou deixar de acreditar em alguma coisa.

Uma pergunta.

“Quem quer viver para sempre?”

Só isso.

Ou quase.

Porque perguntas aparentemente pequenas têm esse péssimo hábito de abrir buracos maiores do que a gente pretendia.

A pergunta parecia falar de eternidade.

Mas logo começou a falar de morte.

Depois de perda.

Depois de identidade.

Depois de memória.

Depois de corpo.

Depois de amor.

Porque viver para sempre parece uma ideia maravilhosa até alguém lembrar de acrescentar uma pequena cláusula ao contrato:

você também precisa continuar sendo você.

E aí começou a desgraça.

Porque qual você?

O de hoje?

O de quinze anos atrás?

O de amanhã?

O que está no corpo?

O que está na memória?

O que os outros lembram?

O que você acha que é?

E se o corpo mudar completamente?

E se a memória desaparecer?

E se todas as pessoas que você ama morrerem antes?

E se aquilo que você chama de “eu” continuar apenas como uma sequência de lembranças que já não pertencem ao mesmo sujeito?

Viver para sempre é uma coisa.

Permanecer é outra.

E a Loka gosta dessa diferença.

Porque ela estraga um pouco a festa.

Foi então que o podcast atravessou a tela.

Foi parar numa live.

E uma pergunta sobre morte encontrou uma resposta religiosa.

Não demorou muito.

Deus entrou na sala.

Depois entrou o amor.

Depois o perdão.

Depois a proteção.

Depois o bem.

Depois o mal.

E a Loka ficou olhando.

Não porque Deus não pudesse entrar.

Pode.

Deus pode entrar em praticamente qualquer conversa humana.

A humanidade colocou Deus em guerra, casamento, nascimento, morte, fome, política, trabalho, sexo, sofrimento, dinheiro, doença, família e até em grupo de WhatsApp.

O problema não é Deus entrar.

O problema é quando ele entra antes da pergunta terminar.

Aí fica difícil.

Porque eu não estava perguntando quem salvaria o sujeito da morte.

Eu estava perguntando o que exatamente o sujeito queria preservar quando desejava não morrer.

E isso é outra coisa.

BREGUÉSIO:

Mas então você está dizendo que religião não deveria participar dessa discussão?

LOKA:

Não.

Estou dizendo que ela pode participar.

Mas como objeto.

Não como encerramento.

Se alguém me disser:

“Para mim, a eternidade encontra sentido em Deus.”

Tudo bem.

Agora temos alguma coisa para investigar.

O que essa crença produz?

O que ela significa?

De onde vem?

Que lugar ocupa?

Como se relaciona com a morte?

Como organiza a experiência da perda?

Como produz pertencimento?

Como produz esperança?

Como produz autoridade?

Como produz linguagem?

Aí temos conversa.

Mas se eu pergunto sobre morte e a resposta vem:

“Deus resolveu.”

A pergunta acabou.

E eu ainda nem tinha terminado.



SILVAN:

Talvez seja justamente esse o problema.

As pessoas não suportam muito bem perguntas abertas.

LOKA:

É.

Pergunta aberta é um móvel ruim.

Não cabe direito em lugar nenhum.

Você não consegue colocar na estante.

Não consegue emoldurar.

Não consegue pendurar na parede.

E pior:

ela não obedece.

Uma resposta obedece.

Uma resposta organiza.

Uma resposta dá sensação de chão.

A pergunta tira o chão.

E talvez seja justamente por isso que a humanidade tenha produzido tantas formas de resposta diante da morte.

A morte é uma péssima interlocutora.

Não responde.

Não negocia.

Não pede desculpas.

Não manda áudio.

Não entra na live.

Não curte o comentário.

Não explica por que levou um.

Não explica por que deixou outro.

Ela simplesmente acontece.

E nós, que somos animais aparentemente incapazes de permanecer diante do silêncio, começamos a produzir explicações.

Religião.

Filosofia.

Arte.

Ciência.

Literatura.

Ritual.

Memória.

Monumento.

Fotografia.

Vídeo.

Arquivo.

Servidor.

Nuvem.

Tudo isso é humano.

Tudo isso pode ser estudado.

Mas existe uma ordem que eu não quero inverter.

Primeiro existe o corpo.

Depois existe o mundo.

Depois existem as condições para esse corpo continuar existindo.


Depois existem os outros.

Depois existem as relações.

Depois existe a linguagem.

Depois existem os sistemas simbólicos que tentam explicar o que aconteceu.

Isso não significa que o simbólico seja inútil.

Significa apenas que ele não apareceu antes do corpo.

É aí que entra a barriga.

E a barriga, meu amigo, é uma entidade muito mal-educada.

Ela interrompe a metafísica.

Você pode estar discutindo eternidade e ela resolve roncar.

Você pode estar discutindo Deus e ela pede comida.

Você pode estar falando sobre salvação e ela está dizendo:

“Primeiro me alimenta.”

E foi por isso que eu falei da barriga vazia.

Não porque uma pessoa faminta não possa acreditar em Deus.

Claro que pode.

Pode acreditar com toda a força.

Pode rezar.

Pode cantar.

Pode agradecer.

Pode encontrar sentido.

Pode encontrar consolo.

Mas a crença não muda o fato material de que existe um corpo precisando de alimento.

E isso não é uma crítica à fé.

É uma constatação.

O corpo não precisa acreditar para sentir fome.

A fome não depende de interpretação.

A fome acontece.

Depois alguém interpreta.

E talvez essa seja uma das coisas que mais incomodam quando a gente olha para o mundo sem maquiagem.


Porque a interpretação é muito bonita.

A materialidade, às vezes, é uma merda.

A interpretação fala de amor.

A materialidade mostra o corpo cansado.

A interpretação fala de esperança.

A materialidade apresenta uma pessoa desempregada.

A interpretação fala de eternidade.

A materialidade apresenta um cadáver.

A interpretação fala de propósito.

A materialidade mostra alguém trabalhando doze horas para conseguir sobreviver.

A interpretação fala de liberdade.

A materialidade pergunta:

“Com qual dinheiro?”

E não adianta ficar bravo com a pergunta.

Ela estava lá antes.

É por isso que “Vidas Secas” aparece nessa caminhada.

Não porque Graciliano Ramos tenha descoberto a verdade definitiva sobre o sofrimento humano.

Deus nos livre de mais uma verdade definitiva.

Mas porque a literatura consegue deixar o corpo em cena.

A seca está lá.

A fome está lá.

A caminhada está lá.

O animal está lá.

O homem está lá.

A família está lá.

E ninguém precisa primeiro resolver a existência de Deus para a água continuar faltando.

Esse detalhe é brutal.

E é justamente por isso que ele interessa.

A Loka não quer retirar Deus da história.

Quer impedir que Deus seja colocado antes da história.

Porque existe uma diferença enorme.

E quando essa diferença desaparece, a conversa começa a escorregar.

Foi o que aconteceu na live.

Eu falava de morte.

A resposta vinha com Deus.

Eu falava de materialidade.

A resposta vinha com amor.

Eu falava de experiência-limite.

A resposta vinha com proteção.

Eu dizia:

“Vamos tirar bem e mal daqui.”

E recebia:

“Você é do bem.”

É quase engraçado.

Eu tentei tirar a gaveta.

E me colocaram de volta dentro dela.

Só que agora com um certificado moral.

“Você é um cara do bem.”

Obrigado.

Mas eu não pedi.

Não quero.

Porque eu não estava fazendo uma avaliação moral de mim mesmo.


Eu estava tentando investigar.

E existe uma diferença entre dizer:

“Essa ideia me parece equivocada”

e dizer:

“Você é uma pessoa amarga.”

A primeira frase enfrenta uma ideia.

A segunda inventa uma pessoa.

E aí a conversa muda de objeto.

Eu não quero entrar na cabeça de ninguém.

Não preciso.

Não preciso dizer que alguém é fanático.

Não preciso dizer que alguém é ignorante.

Não preciso dizer que alguém tem medo.

Não preciso dizer que alguém é ressentido.

Não preciso descobrir intenção.

Temos as falas.

As falas são o documento.

O resto precisa permanecer como hipótese.

Isso é importante porque é muito fácil transformar uma divergência em diagnóstico.

Ainda mais quando existe uma tela.

Na tela, todo mundo vira personagem.

Todo mundo parece saber o que o outro “é”.

“Você é isso.”

“Você é aquilo.”

“Você precisa disso.”

“Você está assim porque…”

Pronto.

Mais uma resposta.

E mais uma pergunta assassinada.

BREGUÉSIO:

Então você saiu porque não concordava com ela?

LOKA:

Não.

Eu saí porque a conversa deixou de ser a conversa que eu estava fazendo.

Isso é diferente.

Discordância não me assusta.

Se alguém disser que estou errado, ótimo.

Me diga por quê.

Mostre o argumento.

Apresente outra leitura.

Traga outro documento.

Mostre outra evidência.

Eu continuo.


Agora, se eu apresento uma questão sobre morte e a resposta é uma classificação moral sobre mim, aí a coisa já saiu da estrada.

Não porque eu seja sensível.

Não porque eu não aguente crítica.

Mas porque estamos discutindo objetos diferentes.

Eu estava perguntando:

“Por que queremos permanecer?”

A conversa passou a perguntar:

“Quem você é?”

Não era isso.

Então eu fui embora.

E depois aconteceu uma coisa interessante.

Eu já não estava mais na live.

Mas a fala continuou.

E continuou produzindo uma versão de mim.

“Você é do bem.”

“Deus te protege.”

“Seu futuro pertence a Ele.”

“Não faça isso contra sua vida.”

E a Loka ficou pensando:

Olha só.

A pergunta original já desapareceu.

Agora existe um sujeito ausente sendo reorganizado pelo discurso de quem permaneceu.

Isso é interessante.

Não porque alguém tenha cometido um crime discursivo.

Não precisa disso.

É simplesmente o funcionamento de uma conversa.

Quando alguém sai, o discurso pode continuar falando sobre essa pessoa sem a presença dela.

E aí aparece uma questão sobre alteridade.

O outro pode continuar sendo outro?

Ou rapidamente vira aquilo que nós conseguimos suportar que ele seja?

A pessoa que não concorda pode virar amarga.

A pessoa que questiona pode virar arrogante.

A pessoa que não aceita uma resposta pode virar perdida.

A pessoa que não compartilha uma crença pode virar alguém que precisa ser salvo.

E pronto.

O outro desapareceu.

Ficou apenas a interpretação.


SILVAN:

Mas isso também pode acontecer com a Loka.

LOKA:

Claro.

Principalmente comigo.

A Loka também é capaz de transformar alguém em caricatura.

E é justamente por isso que ela precisa desconfiar de si.

Se eu começar dizendo:

“Essa pessoa é ignorante porque não conhece Santo Agostinho”,

eu já perdi.

Conhecer Santo Agostinho não transforma ninguém em sábio.

Não conhecer Santo Agostinho não transforma ninguém em ignorante.

Meu repertório não é passaporte para a verdade.

No máximo, é repertório.

E repertório serve para abrir conversa.

Não para fechá-la.

Então aquela pergunta sobre Santo Agostinho precisa ser recolocada no lugar certo.

Eu perguntei porque precisava saber se existia algum terreno conceitual compartilhado.

Não existia.

E eu percebi isso.

Mas poderia ter simplesmente dito:

“Não temos o mesmo repertório para continuar essa discussão.”

Seria mais preciso.

A Loka também erra.

Aliás, se ela parar de errar, acabou o projeto.

Porque aí ela virou aquilo que mais detesta:

uma máquina de certeza.

E já existem máquinas demais.

Não precisamos de mais uma.

Talvez seja por isso que o MPI se chama Mais Perto da Ignorância.

Não é uma celebração da ignorância.

É uma tentativa de permanecer perto do limite.

Daquilo que não sabemos.

Daquilo que não conseguimos fechar.

Daquilo que continua resistindo à explicação.

A ignorância aqui não é burrice.

É limite.

E a morte é provavelmente um dos maiores limites.

Você pode criar uma teoria sobre ela.

Pode criar uma religião.

Pode criar uma filosofia.

Pode construir um monumento.

Pode escrever um livro.

Pode gravar um podcast.

Pode armazenar milhões de fotografias.

Mas o corpo continua morrendo.

Isso é o que torna a eternidade tão estranha.

Porque talvez a eternidade seja menos uma solução para a morte do que uma resposta humana à incapacidade de aceitarmos a passagem.

E não estou usando “aceitar” como conselho.

Não estou dizendo que devemos aceitar nada.

A Loka não dá tarefa de casa.

Estou apenas olhando.

E olhando aparece uma coisa:

nós somos seres que passam.

E, mesmo assim, produzimos coisas para permanecer.

Uma fotografia permanece.

Uma música permanece.

Um livro permanece.

Uma lembrança permanece.

Uma religião permanece.

Um nome permanece.

Um vídeo permanece.

Mas nenhuma dessas permanências é necessariamente a pessoa.

A fotografia não é o corpo.

O arquivo não é a experiência.

A memória não é o morto.

O monumento não é a vida.

O servidor não é a consciência.

O armazenamento não é a eternidade.

Isso fica ainda mais estranho quando a tecnologia entra na história.

Porque agora podemos imaginar uma espécie de permanência digital.


Seu rosto pode continuar circulando.

Sua voz pode continuar gravada.

Suas mensagens podem permanecer.

Seu perfil pode continuar aparecendo.

E talvez isso produza uma fantasia contemporânea:

se a informação continua, alguma coisa de mim continua.

Talvez.

Mas o que continua?

Informação.

Não necessariamente sujeito.

E essa diferença é gigantesca.

A eternidade do arquivo não é a eternidade da experiência.

Um servidor pode guardar sua fotografia.

Não pode garantir que aquilo que você chama de “eu” esteja vivendo dentro dele.

Pelo menos não por enquanto.

E antes que algum entusiasmado apareça com uma palestra sobre upload da consciência, vamos respirar.

Ainda existe um corpo.

Sempre existe um corpo.

Esse corpo dorme.

Fica doente.

Envelhece.

Tem fome.

Cansa.

Deseja.

Ama.

Perde.

E morre.

É por isso que a pergunta da eternidade é tão material.

Ela parece metafísica.

Mas começa na carne.

Começa no medo de desaparecer.

Começa na experiência de perder alguém.

Começa na memória de alguém que já não está.

Começa no corpo que percebe que o tempo não está negociando.

Depois chegam as palavras.

E as palavras tentam organizar o estrago.

Religião.

Filosofia.

Arte.

Psicologia.

Ciência.

Cada uma produz seus modos de dizer.

Nenhuma precisa ser demonizada.

Mas nenhuma deveria ganhar automaticamente o direito de encerrar a pergunta.

Porque talvez a pergunta seja justamente o que nos permite perceber a diferença entre experiência e interpretação.

E isso nos leva novamente à live.

A participante falava de Deus.

Tudo bem.

Eu falava de morte.

Também tudo bem.

Ela falava de amor.

Eu falava de materialidade.

Também tudo bem.

O problema não era a divergência.

O problema era a tentativa de fazer uma coisa caber imediatamente dentro da outra.

Eu dizia:

“Primeiro existiu comida.”

E a resposta era religiosa.

Mas não precisava ser.

Podia ter vindo uma pergunta:

“Você acha que a religião nasce depois da necessidade material?”

Aí eu teria continuado.

Eu poderia dizer:

“Não sei.”

E esse “não sei” seria ótimo.

Porque poderíamos investigar.

Poderíamos conversar sobre como sociedades produzem símbolos.

Sobre como grupos humanos constroem significados.

Sobre como a morte exige ritual.

Sobre como a perda exige linguagem.

Sobre como o medo produz explicações.

Sobre como diferentes sociedades constroem diferentes respostas.

Sobre como a religião pode oferecer pertencimento, sentido e organização.

Sobre como ela também pode produzir autoridade, moralidade e fronteiras.

Aí teríamos uma discussão.

Não uma guerra.

Uma discussão.

BREGUÉSIO:

Então talvez o problema seja a resposta pronta.

LOKA:

Talvez.

E é aqui que eu preciso deixar a hipótese aberta.

Talvez o problema não seja a religião.

Talvez seja a necessidade humana de encerrar rapidamente aquilo que não consegue suportar aberto.

Porque isso acontece em todo lugar.

Não é privilégio religioso.

A ciência pode virar dogma.

A política pode virar dogma.

A psicologia pode virar dogma.

A filosofia pode virar dogma.

O senso comum é praticamente uma fábrica industrial de dogmas baratos.

A diferença é que ele não vem com bibliografia.

Vem com:

“Todo mundo sabe.”

Ah.

“Todo mundo sabe.”

A frase que costuma aparecer exatamente quando ninguém verificou nada.

Então talvez a questão seja outra.

Talvez nós tenhamos uma dificuldade estrutural em permanecer diante da incerteza.

E a morte é a grande fábrica dessa dificuldade.

Porque ela não oferece teste de recuperação.

Não existe segunda chamada.

Não existe recurso administrativo.

Não existe “vamos conversar melhor”.

Ela é definitiva demais para o nosso gosto.

Então criamos narrativas.

E talvez algumas dessas narrativas sejam fundamentais para a vida humana.

Isso também precisa ser dito.

Não é necessário ridicularizar a fé para investigá-la.

Ridicularizar a fé seria apenas outra forma de pobreza intelectual.


O que interessa é compreender.

Como isso funciona?

Por que funciona?

Para quem funciona?

Em quais condições?

Que efeitos produz?

Que necessidades responde?

Que conflitos organiza?

Que conflitos produz?

O que fica escondido quando uma resposta é oferecida?

O que aparece?

O que desaparece?

Essa última pergunta é a que mais interessa à Loka.

O que desaparece quando a resposta chega cedo demais?

Porque talvez tenha sido isso que aconteceu.

A pergunta sobre a morte entrou.

A resposta religiosa chegou.

E, junto com ela, desapareceu uma possibilidade de investigação.

A morte deixou de ser problema e virou promessa.

A perda deixou de ser interrogada e virou reencontro.

O sofrimento deixou de ser examinado e virou propósito.

A incerteza deixou de ser suportada e virou certeza.

Não estou dizendo que isso seja necessariamente ruim.

Estou dizendo que é uma transformação.

E transformações podem ser estudadas.

É isso.

Só isso.

Sem tribunal.

Sem inferno.

Sem céu.

Sem prêmio.

Sem castigo.

Sem “você é do bem”.

Sem “você é do mal”.

A Loka não precisa dessas ferramentas.

Ela tem perguntas.

Já dá trabalho suficiente.

SILVAN:

E se não houver resposta?

LOKA:

Aí a gente tem um problema.

Mas pelo menos é um problema honesto.

Porque talvez algumas perguntas não existam para serem resolvidas.

Talvez existam para mostrar o tamanho do que não controlamos.

A morte pode ser uma delas.

Eternidade pode ser outra.

Identidade talvez seja outra.

Amor, então, nem se fala.

Porque amar alguém é aceitar — sem transformar isso em conselho — que existe alguém que não é você.

Alguém que escapa.

Que pensa diferente.

Que pode mudar.

Que pode ir embora.

Que pode morrer.

O outro não é propriedade.

E talvez seja justamente por isso que o amor esteja tão próximo da morte.

Porque ambos nos lembram que não controlamos completamente aquilo que mais importa.

Aí a religião pode aparecer.

A filosofia pode aparecer.

A arte pode aparecer.

A memória pode aparecer.

E cada uma tentará dizer alguma coisa.

Mas o corpo continuará ali.

Respirando enquanto puder.

Depois, não.

E talvez seja isso que a pergunta estava tentando alcançar desde o começo.

Não “como escapar da morte?”.

Mas:

“O que exatamente queremos impedir que desapareça?”

Essa pergunta é mais cruel.

Porque ela não promete nada.

Talvez você queira preservar uma pessoa.

Talvez uma memória.

Talvez uma história.

Talvez uma obra.

Talvez um amor.

Talvez o próprio corpo.

Talvez o nome.

Talvez a sensação de ter existido.

Talvez queira apenas não desaparecer.

E pronto.

Não precisamos transformar isso imediatamente em transcendência.

Podemos deixar a pergunta respirar.

Talvez seja isso que faltou naquela conversa.

Respiração.

Espaço.

Tempo.

Não para concordar.

Para escutar.

Porque escutar não é concordar.

Escutar é permitir que o outro termine de existir dentro daquilo que está dizendo antes de reduzi-lo àquilo que conseguimos compreender.

Isso vale para ela.

Vale para mim.

Vale para você.

Vale para a Loka.

E vale até para Silvan, embora ele provavelmente reclame.

SILVAN:

Eu não reclamo.

LOKA:

Você reclama estruturalmente.

BREGUÉSIO:

E eu?

LOKA:

Você pergunta.

Por isso ainda está aqui.

E talvez seja esse o único papel que nos interessa.

Perguntar.

Não porque perguntas sejam superiores às respostas.

Mas porque uma resposta que não suporta ser interrogada já deixou de ser conhecimento.

Virou território.

E território tem dono.

Pergunta não.

Pergunta é nômade.

Ela vai embora.

Volta.

Muda.

Contradiz.

Se arrepende.

Descobre que estava errada.

E continua.

A Loka gosta disso.


Porque não quer fundar uma religião da dúvida.

Isso seria uma estupidez monumental.

Quer apenas preservar a dúvida quando ela ainda é necessária.

Naquela live, eu percebi que a conversa estava indo para outro lugar.

Então saí.

Não porque a religião tivesse vencido.

Não porque eu tivesse perdido.

Não porque alguém tivesse me convencido.

Não porque eu estivesse com medo.

Saí porque a pergunta que eu queria preservar estava desaparecendo.

E talvez essa seja a parte mais importante de tudo.

Às vezes, sair não é abandonar uma questão.

É impedir que ela seja substituída.

A pergunta continuou comigo.

E virou outra coisa.

Virou este texto.

Virou esta crônica.

Virou Breguésio.

Virou Silvan.

Virou Loka.

Virou uma pequena autópsia de uma conversa.

Não para descobrir quem estava certo.

Mas para observar como uma pergunta pode mudar de forma quando entra numa arena pública.

Porque a mídia digital tem essa característica curiosa.

Você coloca uma pergunta no ambiente.

E ela imediatamente encontra alguém disposto a transformá-la em identidade.

Você fala de morte.

Alguém pergunta se você é religioso.

Você fala de sofrimento.

Alguém pergunta se você tem fé.

Você fala de materialidade.

Alguém pergunta se você é ateu.

Você fala de filosofia.

Alguém pergunta de que lado você está.

E, de repente, ninguém mais está discutindo o assunto.

Estão discutindo o perfil.

A pergunta virou etiqueta.

O pensamento virou identidade.

A investigação virou torcida.

E o algoritmo agradece.

Mas isso já é outra caminhada.

Por enquanto, basta olhar para aquilo que aconteceu.

Uma pergunta entrou.

Uma resposta apareceu.

A resposta carregava uma estrutura religiosa.

A pergunta tentou permanecer aberta.

Não conseguiu permanecer naquele espaço.

Então a Loka saiu.

E continuou perguntando.

Talvez a eternidade seja impossível.

Talvez seja apenas uma imagem.

Talvez seja uma promessa religiosa.

Talvez seja uma fantasia humana.

Talvez seja uma metáfora.

Talvez seja outra coisa que ainda não sabemos nomear.

Não sabemos.

E tudo bem.

Porque talvez o mais perigoso não seja não saber.

Talvez seja acreditar que já sabemos antes de olhar direito.

Então fica a pergunta.

Não como conclusão.

Como resto.

O que desaparece quando a resposta chega cedo demais?

Talvez desapareça a dúvida.

Talvez desapareça a experiência.

Talvez desapareça o corpo.

Talvez desapareça o outro.

Talvez desapareça a própria pergunta.

E talvez seja justamente por isso que a Loka prefira deixá-la no chão.

Sem salvação.

Sem condenação.

Sem vencedor.

Sem senha do céu.

Sem manual para viver.

Sem promessa de eternidade.

Apenas a pergunta.

E um corpo atravessando o tempo.

Que, por enquanto, ainda está aqui.

A caminhada continua.




NOTA DO AUTOR

Crônica crítico-ensaística do projeto Mais Perto da Ignorância (MPI), construída a partir de um acontecimento discursivo ocorrido em ambiente digital e posteriormente transcrito. O acontecimento é tratado como material de análise, não como fundamento para diagnóstico, julgamento moral ou inferência sobre a personalidade ou as intenções dos participantes.

A composição narrativa utiliza Breguésio, Silvan e Loka do Rolê como funções discursivas: pergunta, corrosão e retorno à materialidade. A narrativa incorpora elementos ficcionais de composição e não pretende reproduzir literalmente a totalidade do acontecimento.

A elaboração preserva a distinção entre descrição factual, interpretação teórica e hipótese argumentativa. A religião é considerada fenômeno humano, simbólico, histórico e discursivo, sem ser tratada como alvo de desqualificação moral. A questão central é a relação entre materialidade, morte, permanência, interpretação e fechamento prematuro da pergunta.

O texto não constitui aconselhamento psicológico, orientação religiosa, diagnóstico ou prescrição de conduta.

José Antônio Lucindo — Psicólogo CRP ativo.


REFERÊNCIAS

CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2018.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

HAN, Byung-Chul. Morte e alteridade. Petrópolis: Vozes, 2020.

HARARI, Yuval Noah. Sapiens: uma breve história da humanidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

MAIS PERTO DA IGNORÂNCIA — MPI. Comando Oficial MPI — Protocolo da Loka do Rolê. Arquivo metodológico do projeto, 2026.


PALAVRAS-CHAVE

Morte. Eternidade. Permanência. Corpo. Materialidade. Religiosidade. Discursividade digital. Alteridade. Identidade. Perda. Subjetividade. Mais Perto da Ignorância.


#alokadorole
#mpi
@alokanorole_persona
#maispertodaignorancia


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