A VIDA DEPOIS DA MORTE
Quando o passado não consegue mais virar história
Artigo crônico-ensaístico — Mais Perto da Ignorância
Resumo
Este ensaio parte de um acontecimento particular de morte que, anos depois, retorna à circulação pública por meio de novas notícias, reativação investigativa e produção audiovisual. O acontecimento não é utilizado para determinar a causa da morte, estabelecer diagnósticos retrospectivos ou representar a totalidade da população, da mídia ou das plataformas digitais. Ele funciona como documento situado para tensionar uma operação discursiva possível: a transformação de uma vida interrompida em matéria continuamente disponível para novas interpretações. A hipótese do Mais Perto da Ignorância (MPI) é que, sob condições contemporâneas de circulação digital, a permanência técnica de informações sobre uma pessoa pode não equivaler à preservação de sua historicidade ou de sua alteridade. O passado pode permanecer disponível, reproduzível e reativável sem adquirir a distância necessária para tornar-se história. A investigação articula materialidade, condições sociais, técnica e discurso, dialogando com Freud, Marx, Bauman, Byung-Chul Han, André Green, Kierkegaard, Camus, Cioran, Zuboff, Srnicek, Foucault e referências já desenvolvidas no arquivo do próprio MPI. A própria elaboração é incluída no campo de observação: ao transformar um acontecimento em objeto de reflexão, o pesquisador também participa da operação discursiva que pretende tensionar.
Palavras-chave: morte; pós-evento; historicidade; discursividade digital; alteridade; memória; circulação; materialidade; técnica; mídia; Psicologia; MPI.
1. EU CHEGUEI DEPOIS DA MORTE
Eu cheguei tarde.
Não porque estivesse atrasada para uma notícia. A notícia é que chegou de novo.
A morte já tinha acontecido.
Esse detalhe inconveniente parece pequeno, mas muda quase tudo.
Quando uma morte acontece, existe um acontecimento material. Existe um corpo que deixa de viver. Existe uma ausência que não é metáfora. Existem pessoas, instituições, documentos, investigação, sofrimento, silêncio, perguntas. Existe aquilo que aconteceu no mundo antes que alguém consiga transformá-lo em narrativa.
Depois começam os discursos.
E eles não chegam todos ao mesmo tempo.
Alguns chegam imediatamente. Outros aparecem meses depois. Alguns desaparecem. Outros permanecem arquivados. Alguns voltam anos depois. Uma informação reaparece. Um documento é retomado. Uma investigação volta ao noticiário. Uma produção audiovisual anuncia que aquela trajetória será novamente contada.
E eu, a Loka do Rolê, fico olhando.
Não para descobrir o que aconteceu dentro da cabeça de alguém.
Não tenho esse acesso.
Não para decidir se uma morte foi isto ou aquilo.
Também não tenho esse direito epistemológico.
Eu cheguei depois.
E justamente por ter chegado depois, comecei a olhar para uma coisa diferente.
O acontecimento terminou.
Mas a discursividade continuou.
No caso que reativou esta reflexão, uma morte ocorrida em dezembro de 2023 voltou ao circuito público em setembro de 2026. Notícias recentes registraram o desenvolvimento de uma série documental sobre a vida e a morte de um dos nomes da primeira geração de criadores de conteúdo digital no Brasil, incluindo acontecimentos anteriores à morte e os desdobramentos investigativos do caso.
Não estou dizendo que isso representa toda a população.
Não estou dizendo que representa todas as pessoas interessadas no caso.
Não estou dizendo que a internet inteira pensa alguma coisa.
Nem sequer estou dizendo que a circulação observada seja majoritária.
Isso seria maior do que os dados permitem.
Estou dizendo apenas que existe uma reativação discursiva observável.
E que essa reativação permite uma pergunta.
Talvez uma pergunta mais importante do que aquela que está circulando.
Porque a pergunta que domina a superfície é:
o que realmente aconteceu?
A pergunta que me interessa é outra:
O que acontece com uma vida quando a sua morte passa a funcionar como princípio organizador da leitura de tudo aquilo que veio antes?
Pronto.
Agora a desgraça ficou metodológica.
2. ANTES DA TEORIA, UM CORPO
O MPI tem uma mania desagradável.
Ele insiste em começar pelo chão.
Corpo.
Condições materiais.
Organização social.
Técnica.
Discurso.
É uma ordem pouco elegante para quem gosta de começar por conceitos.
Mas a realidade tem esse péssimo hábito de existir antes da interpretação.
Então vamos começar pelo que podemos afirmar.
Uma pessoa morreu.
Não sabemos, a partir da circulação midiática observada, tudo aquilo que seria necessário para reconstruir integralmente a sua vida, seu sofrimento, suas relações, suas decisões, suas circunstâncias ou sua morte.
E não precisamos fingir que sabemos.
Essa suspensão não é fraqueza.
É método.
O Ministério da Saúde reconhece o suicídio como fenômeno complexo, multifacetado e de múltiplas determinações. O próprio enquadramento institucional já impede que uma morte dessa natureza seja reduzida a uma causa única ou a uma explicação simples.
Portanto, quando aparece uma narrativa retrospectiva que parece explicar tudo por uma única linha causal, alguma coisa precisa ser interrompida.
Calma.
O corpo veio primeiro.
Depois a história.
Depois o documento.
Depois a interpretação.
Depois a hipótese.
E a hipótese continua sendo hipótese.
Isso vale inclusive para mim.
Eu não estou autorizada a entrar na cabeça de ninguém.
Não existe acesso privilegiado à subjetividade de uma pessoa morta.
Não existe entrevista póstuma capaz de recuperar integralmente aquilo que ela teria dito diante das interpretações atuais.
Não existe algoritmo capaz de produzir uma resposta daquele que já não pode responder.
Existem arquivos.
Existem documentos.
Existem registros.
Existem falas antigas.
Existem fotografias.
Existem vídeos.
Existem testemunhos.
Mas nenhum arquivo é a pessoa.
Esse parece ser um detalhe básico.
No ambiente digital, talvez não seja.
3. O MAL-ESTAR E A MATERIALIDADE QUE NÃO PEDE PERMISSÃO
Freud, em O mal-estar na civilização, não nos fornece uma explicação para esta morte.
E ainda bem.
Seria uma violência teórica transformar Freud em perito de um acontecimento ao qual ele não teve acesso.
O que interessa é outra coisa.
Freud recoloca o humano diante das tensões entre corpo, mundo externo e relações com os outros. A civilização organiza essas tensões; não elimina a condição material de um organismo submetido ao tempo, à necessidade, ao conflito e ao limite.
É aqui que a ironia aparece.
Nós conseguimos produzir uma quantidade gigantesca de discurso sobre uma morte.
Mas nenhum discurso posterior modifica o fato material de que uma pessoa morreu.
Podemos alterar a interpretação.
Podemos acrescentar documentos.
Podemos rever hipóteses.
Podemos modificar o enquadramento jornalístico.
Podemos produzir documentários.
Podemos reorganizar a biografia.
Mas não podemos reabrir a possibilidade material daquela vida continuar produzindo acontecimentos.
E isso importa.
Porque uma vida interrompida não perde somente aquilo que já foi vivido.
Perde-se também, materialmente, tudo aquilo que poderia ter acontecido e que jamais poderá ser conhecido.
Não como romantização.
Não como idealização.
Como limite epistemológico.
A morte encerra uma dimensão de possibilidade que nenhuma narrativa posterior consegue reconstruir integralmente.
E talvez seja justamente aí que o passado comece a ficar perigoso.
Porque aquilo que não pode mais responder pode ser interpretado quase indefinidamente.
4. O PASSADO DESCOBRE QUE PODE VOLTAR
Eu aprendi uma coisa engraçada na internet:
o passado nunca precisa estar presente para continuar disponível.
Uma entrevista antiga pode reaparecer.
Uma fotografia pode voltar.
Um vídeo pode ser recortado.
Uma frase pode ser recuperada.
Uma acusação pode retornar.
Uma investigação pode ser reaberta.
Uma nova produção pode reorganizar os acontecimentos.
E, de repente, aquilo que parecia passado retorna como presente.
Não necessariamente porque alguém esteja mentindo.
Essa distinção é fundamental.
A retrospectividade não precisa falsificar o passado para reorganizar seu significado.
Basta mudar o presente a partir do qual ele é observado.
É aí que uma fala antiga pode ganhar outro peso.
Um comportamento anterior pode parecer indício.
Uma relação passada pode parecer causa.
Um episódio pode ser reinterpretado como antecipação.
Uma característica pode ser reorganizada como sinal.
E surge uma espécie de ilusão narrativa:
a sensação de que a vida sempre esteve caminhando para aquele final.
Mas não sabemos disso.
Sabemos o final.
E, por sabermos o final, reorganizamos o começo.
Essa diferença é gigantesca.
O conhecimento retrospectivo produz coerência.
Coerência, entretanto, não é causalidade.
Uma narrativa pode ser muito convincente e ainda assim não demonstrar aquilo que afirma.
É aqui que o MPI precisa manter a porta aberta.
Não estamos procurando a explicação definitiva.
Estamos observando a produção de explicações.
5. A VIDA VIRA ARQUIVO
No arquivo do próprio MPI, essa pergunta já vinha aparecendo por outros caminhos.
Em A Ilusão Digital e o Corpo que Apodrece, o problema estava colocado a partir da tentativa contemporânea de abstrair o corpo e acelerar a experiência. O texto tensionava a distância entre a materialidade corporal e a velocidade das formas digitais de circulação.
Em A Mentira das Duas Vidas, aparecia a dissociação entre vida material e vida discursiva mediada pela tecnologia, com a questão da ausência do outro e da transformação da experiência em objeto discursivo.
Em Não há escuta: o algoritmo entrevistador, a questão avançava para a transformação do sujeito em dado e para a tradução do discurso em métricas.
E em Alfabetos de Silicone, o problema se deslocava para a aceleração, a terceirização da dúvida e a dificuldade de transformar informação em elaboração histórica.
Agora essas linhas se encontram em outro lugar.
Não mais diante de alguém vivo tentando ser ouvido.
Mas diante de alguém que morreu e cuja informação continua disponível.
A pergunta muda:
o que acontece quando a vida material termina, mas a vida discursiva continua?
Eu não estou falando de alma digital.
Não estou falando de consciência armazenada.
Não estou falando de imortalidade tecnológica.
Isso seria mistificação.
Estou falando de arquivo.
De informação.
De circulação.
De possibilidade de reativação.
A pessoa não continua existindo porque seus vídeos existem.
Os vídeos existem porque foram produzidos enquanto aquela pessoa existia.
A diferença parece óbvia.
Mas a cultura digital permite que a segunda frase seja facilmente esquecida.
O arquivo começa a ocupar o lugar da presença.
E o arquivo pode ser manipulado, recontextualizado, classificado, recortado, recomendado e novamente inserido no fluxo.
Então aparece uma diferença que considero central:
preservação da informação não é preservação da alteridade.
6. HAN E O PASSADO SEM DISTÂNCIA
Byung-Chul Han nos ajuda a pensar o problema do tempo, da informação, da narrativa e da dissolução da experiência.
Mas não quero usar Han para dizer simplesmente que “a internet é ruim”.
Isso seria uma caricatura.
A questão é mais precisa.
A circulação digital produz condições técnicas nas quais o passado pode permanecer disponível em uma escala e velocidade que alteram nossa relação com ele.
Uma informação de 2023 pode voltar a circular em 2026 sem precisar esperar que uma geração inteira se reorganize em torno dela.
Um arquivo antigo pode ser atualizado pela necessidade narrativa do presente.
A distância histórica pode ser encurtada.
E aqui aparece uma hipótese que eu chamaria de historicidade comprimida.
Não significa que o acontecimento deixou de pertencer ao passado.
Ele continua pertencendo.
Significa que sua disponibilidade permanente pode reduzir a distância necessária para que ele seja elaborado como passado.
O acontecimento continua lá.
Mas não necessariamente adquire duração histórica.
Fica disponível para reativação.
Essa é a diferença.
Arquivo não é memória.
Memória não é historicidade.
Circulação não é elaboração.
Visibilidade não é permanência.
E repetição não é necessariamente lembrança.
Talvez o passado possa ser preservado tecnicamente enquanto perde, progressivamente, a possibilidade de se tornar aquilo que costumamos chamar de história.
7. MARX ENTRA PELA PORTA DOS FUNDOS
Eu sei.
A essa altura alguém já deve estar preparando uma explicação puramente filosófica.
Então Marx entra pela porta dos fundos e estraga a festa.
Porque não existe circulação digital no vazio.
Existem plataformas.
Existem infraestruturas.
Existem empresas.
Existem trabalhadores.
Existem modelos econômicos.
Existem métricas.
Existe atenção.
Existe publicidade.
Existe produção de conteúdo.
Existe capital.
Existe uma economia que transforma circulação em valor.
Zuboff permite tensionar a questão do regime de dados e da extração de informação.
Srnicek ajuda a observar a centralidade das plataformas na organização econômica contemporânea.
E a pergunta muda novamente.
Não é apenas:
por que as pessoas continuam falando sobre isso?
Mas também:
quais condições técnicas e econômicas permitem que aquilo continue disponível para ser falado?
Isso não significa que toda reativação seja comercial.
Não significa que toda pessoa que compartilha alguma coisa esteja pensando em dinheiro.
Não significa que exista uma conspiração de plataforma.
Isso seria apenas trocar uma simplificação por outra.
Significa que o acontecimento circula dentro de uma infraestrutura que possui condições materiais próprias.
O passado não circula sozinho.
Ele circula porque existem dispositivos capazes de armazená-lo, indexá-lo, encontrá-lo e redistribuí-lo.
A morte aconteceu uma vez.
A circulação pode acontecer milhares.
E são acontecimentos diferentes.
8. A MORTE COMO PRODUTORA DE NOVOS PRESENTES
Talvez aqui esteja o paradoxo mais estranho.
A morte encerra uma vida.
Mas pode produzir novos presentes discursivos.
Uma nova notícia.
Um novo laudo.
Uma nova interpretação.
Uma nova entrevista.
Uma nova série.
Um novo comentário.
Uma nova disputa.
Uma nova reconstrução.
A vida não está acontecendo novamente.
O discurso sobre a vida está acontecendo novamente.
Essa distinção precisa permanecer intacta.
Porque, se não permanecer, confundimos o acontecimento com sua representação.
E é justamente aí que o morto começa a desaparecer.
Parece absurdo.
Mas pense comigo.
Quanto mais se fala sobre aquilo que a pessoa foi, mais facilmente ela pode deixar de aparecer como alguém contingente, contraditório, incompleto, imprevisível e irredutível.
Ela passa a aparecer como:
o influenciador;
a vítima;
o acusado;
o símbolo;
o caso;
o personagem;
o diagnóstico;
a controvérsia;
a investigação;
o documentário.
Uma existência inteira começa a caber numa função narrativa.
E isso não precisa ser uma decisão consciente de ninguém.
É uma operação discursiva.
O indivíduo deixa de ser tratado como alguém e começa a funcionar como alguma coisa.
Essa é a diferença que me interessa.
Não afirmo que a pessoa “deixou de ser pessoa”.
Ela não deixou.
O que pode mudar é a posição que ocupa dentro de determinada discursividade.
E essa posição pode ser reduzida.
9. GREEN E A AUSÊNCIA QUE NÃO RESPONDE
André Green entra aqui de maneira quase inevitável.
A ausência não é simplesmente um espaço vazio.
Ela reorganiza a relação com aquilo que já não está presente.
Quando alguém está vivo, existe a possibilidade de resposta.
Pode negar.
Pode corrigir.
Pode contradizer.
Pode mudar de opinião.
Pode dizer:
“não foi isso”.
Depois da morte, essa possibilidade desaparece.
Restam documentos.
E os documentos são mudos.
Podem ser interpretados.
Não podem responder à interpretação.
É uma assimetria radical.
Por isso, quanto mais uma narrativa se constrói sobre uma pessoa morta, maior deveria ser nossa atenção àquilo que ela não pode mais contestar.
Não porque devemos silenciar a discussão.
Mas porque precisamos reconhecer a assimetria.
O morto não está participando do debate.
Os vivos estão.
E os vivos podem transformar a ausência em matéria discursiva.
10. O PROBLEMA DA PALAVRA “SUICÍDIO”
Aqui eu preciso diminuir a velocidade.
Porque existe uma palavra que não pode ser tratada como qualquer outra.
Suicídio.
Não porque devamos escondê-la.
Mas porque o modo como ela é usada possui consequências.
O CFP e os Conselhos Regionais já advertiram que a exposição midiática de casos de suicídio pode produzir efeitos prejudiciais e recomendaram cuidado específico na comunicação, incluindo evitar sensacionalismo, glamourização, julgamentos morais, simplificação da motivação e divulgação de métodos.
Isso não significa que o assunto deva ser apagado.
Significa que a comunicação sobre ele precisa carregar responsabilidade proporcional à complexidade do fenômeno.
Portanto, neste artigo, a palavra aparece como categoria necessária para identificar uma das formas pelas quais o acontecimento foi enquadrado publicamente.
Não aparece como espetáculo.
Não aparece como identificação.
Não aparece como método.
Não aparece como explicação psicológica retrospectiva.
Não aparece como julgamento.
Não aparece como romantização.
E não aparece como certeza quando o material disponível sustenta apenas uma hipótese ou um enquadramento investigativo.
O Ministério da Saúde também ressalta que não existe uma receita simples para identificar risco ou explicar o fenômeno, justamente porque seus determinantes são múltiplos.
Então não.
A Loka não vai entrar na cabeça de ninguém.
Nem na de quem morreu.
Nem na de quem investigou.
Nem na de quem publicou.
Nem na de quem comentou.
Nem na de quem assiste.
A Loka fica do lado de fora.
E, estando do lado de fora, admite que não sabe.
11. O DOCUMENTÁRIO NÃO É O PROBLEMA
Também não quero transformar a produção audiovisual anunciada em vilã.
Seria fácil.
Uma plataforma anuncia uma série sobre uma vida e uma morte.
Pronto.
“Olha aí a indústria do espetáculo.”
Não.
Calma.
A produção documental pode ter valor jornalístico, histórico, cultural e social.
Pode inclusive reunir documentos, testemunhos e informações que ajudem a ampliar a compreensão pública sobre uma trajetória.
O problema que estamos tensionando é outro.
O que acontece quando uma vida volta a ser narrada depois de sua interrupção material?
O documentário é uma das formas contemporâneas dessa reativação.
Não é sua causa necessária.
Não é seu culpado.
Não é prova de exploração.
É um novo dispositivo de circulação.
A notícia atual registra que a produção pretende abordar a trajetória do criador, os acontecimentos anteriores à morte e os desdobramentos da investigação.
Isso é o que podemos afirmar.
O restante pertence à hipótese.
E hipótese é aquilo que ainda não tem o direito de fingir que virou fato.
12. O PARADOXO: EU TAMBÉM ESTOU FAZENDO ISSO
Agora chegamos à parte em que eu perco o direito de ficar confortável.
Porque eu também estou usando esse acontecimento.
Estou selecionando.
Estou recortando.
Estou relacionando.
Estou escrevendo.
Estou dando novo significado.
Estou transformando uma morte particular em matéria para pensar uma estrutura.
Então quem sou eu para reclamar da discursividade?
Pois é.
A pergunta é essa.
Eu não estou fora.
O MPI não está fora.
Este texto também circula.
Este texto também transforma uma vida em documento.
Este texto também produz uma representação.
Este texto também participa daquilo que pretende tensionar.
E talvez essa seja a condição mais honesta da investigação.
Não existe neutralidade absoluta produzida pela simples declaração de que somos pesquisadores.
Existe responsabilidade sobre o modo como entramos no objeto.
Por isso não digo:
“a mídia faz isso”.
Digo:
determinadas formas de circulação midiática podem produzir essa operação.
Não digo:
“as pessoas pensam assim”.
Digo:
determinados fragmentos discursivos observáveis permitem formular essa hipótese.
Não digo:
“a internet esqueceu a pessoa”.
Digo:
é possível que a circulação permanente de informações produza uma forma particular de presença discursiva na qual a vida concreta seja progressivamente subordinada às necessidades narrativas do presente.
Não digo:
“esse caso representa todos”.
Digo:
este acontecimento particular permite tensionar uma possibilidade estrutural.
Essa diferença é o que impede a hipótese de virar sentença.
13. NÃO É CRÍTICA. É TENSÃO.
Preciso corrigir uma palavra que usamos anteriormente.
Não estamos fazendo uma crítica da discursividade no sentido de nos colocarmos diante dela como quem descobriu a verdade.
Estamos tensionando.
Tensionar é outra coisa.
É colocar uma afirmação sob pressão.
É perguntar o que ela não consegue explicar.
É observar o que fica de fora.
É produzir atrito entre o acontecimento e a narrativa.
É perguntar se aquilo que parece memória é apenas disponibilidade.
Se aquilo que parece explicação é apenas coerência retrospectiva.
Se aquilo que parece permanência é apenas circulação.
Se aquilo que parece presença é apenas arquivo.
E, principalmente:
se aquilo que continua falando sobre uma pessoa ainda permite que ela apareça como pessoa ou apenas como função discursiva.
Essa última pergunta é terrível porque não tem uma resposta simples.
E ainda bem.
14. FOUCAULT E O DIREITO DE NOMEAR
Foucault ajuda a deslocar a atenção da verdade isolada para os regimes que produzem condições de dizibilidade.
Quem pode falar?
Quem pode classificar?
Que documento ganha autoridade?
Que narrativa se torna aceitável?
Que categoria organiza a leitura?
Que instituição legitima determinado enunciado?
Não se trata de afirmar que toda verdade é falsa porque é produzida por instituições.
Isso seria uma caricatura.
Trata-se de reconhecer que o conhecimento não circula sem formas de organização.
Uma morte passa por investigação.
A investigação passa por documentos.
Os documentos passam por instituições.
As instituições produzem registros.
A imprensa seleciona acontecimentos.
As plataformas redistribuem conteúdos.
Os usuários comentam.
Os pesquisadores interpretam.
E assim a morte deixa de ser apenas um acontecimento.
Ela se torna uma cadeia documental.
Depois, uma cadeia discursiva.
E depois uma cadeia de circulação.
O corpo, entretanto, não acompanha essa multiplicação.
Ele permanece no início da cadeia.
15. BAUMAN E A VIDA QUE NÃO CONSEGUE DESCANSAR
Bauman ajuda a pensar a fragilidade das formas contemporâneas de permanência.
Tudo pode retornar.
Tudo pode ser substituído.
Tudo pode ser reativado.
Tudo pode perder relevância.
E depois voltar.
Isso produz uma temporalidade estranha.
O passado não desaparece.
Ele fica em espera.
Até que alguma coisa do presente o encontre.
Então aquilo que estava arquivado volta a funcionar.
É por isso que prefiro falar em relevância residual do que afirmar que determinada notícia “continua relevante para a sociedade”.
Não sabemos disso.
Não temos uma medição total da sociedade.
Podemos observar uma circulação localizada.
Podemos observar uma reativação midiática.
Podemos observar interesse renovado.
E podemos levantar a hipótese de que determinados acontecimentos permanecem tecnicamente disponíveis para novas apropriações narrativas.
Mais do que isso seria exagero.
16. A HISTÓRIA QUE NÃO CONSEGUE FICAR NO PASSADO
Talvez seja este o centro de tudo.
Eu não acho que o problema contemporâneo seja o desaparecimento do passado.
Talvez seja justamente a dificuldade de deixá-lo adquirir distância.
Um acontecimento precisa ser lembrado.
Mas talvez também precise poder tornar-se passado.
Existe uma diferença entre lembrar alguma coisa e mantê-la continuamente disponível para reativação.
O arquivo conserva.
A história elabora.
O algoritmo encontra.
A memória reorganiza.
A circulação repete.
A experiência transforma.
Não são a mesma coisa.
Então talvez o passado possa ser destruído de uma maneira diferente daquela que imaginávamos.
Não necessariamente apagando-o.
Mas impedindo que ele adquira distância suficiente para se tornar história.
É uma hipótese.
Não uma conclusão.
E talvez possa ser formulada assim:
Talvez o passado não seja destruído quando desaparece. Talvez seja destruído quando conseguimos mantê-lo eternamente circulando sem jamais conseguir deixá-lo adquirir distância suficiente para se tornar história.
Eu não sei se isso acontece.
É justamente por isso que estou escrevendo.
17. CAMUS, KIERKEGAARD E O INCÔMODO DE NÃO SABER
Camus não precisa transformar a morte em espetáculo filosófico.
Kierkegaard não precisa transformar a angústia em diagnóstico.
Cioran não precisa transformar o fim em estética.
Eles podem funcionar como testemunhas do limite.
A existência não vem acompanhada de uma explicação final.
E a morte não entrega automaticamente o sentido da vida que terminou.
Esse ponto parece simples.
Mas a discursividade retrospectiva possui uma fome enorme por fechamento.
Queremos saber.
Queremos encaixar.
Queremos organizar.
Queremos uma história que faça sentido.
O problema é que uma vida real raramente é uma história pronta.
Ela é contraditória.
Tem desvios.
Tem contingência.
Tem fracasso.
Tem banalidade.
Tem acontecimentos que não conduzem a lugar nenhum.
Tem possibilidades que jamais se realizam.
Quando a vida termina, entretanto, existe uma tentação narrativa:
organizar tudo aquilo que veio antes como preparação para o final.
É aqui que a narrativa pode apagar a contingência.
E uma vida humana é profundamente contingente.
18. O QUE ACONTECE QUANDO ALGUÉM DEIXA DE SER QUEM ERA?
Talvez essa seja a pergunta mais estranha que encontrei.
Não:
“Quem era essa pessoa?”
Mas:
O que acontece quando alguém que foi alguém passa a circular principalmente como aquilo que o discurso precisa que ele seja?
Ele pode ser lembrado como símbolo.
Como vítima.
Como culpado.
Como pioneiro.
Como fracasso.
Como exemplo.
Como alerta.
Como caso.
Como conteúdo.
Mas nenhuma dessas categorias esgota uma existência.
A pessoa foi muito mais do que aquilo que a circulação posterior consegue utilizar.
E aqui a palavra “utilizar” não precisa significar exploração consciente.
Uma narrativa pode utilizar uma vida simplesmente porque precisa de uma vida para tornar visível alguma questão.
É assim que os discursos funcionam.
Precisam de acontecimentos.
Precisam de rostos.
Precisam de histórias.
Precisam de casos.
O problema é que, quando o acontecimento se transforma em função, a pessoa pode desaparecer atrás da função.
E a morte pode permanecer.
19. A MORTE PERMANECE PRODUTIVA
Existe uma frase que me incomoda:
a vida desaparece enquanto a morte permanece produtiva.
Não estou dizendo que a morte seja produtiva economicamente em todos os casos.
Nem que alguém esteja necessariamente lucrando.
Estou falando de produtividade discursiva.
A vida deixou de produzir novos acontecimentos porque foi interrompida.
A morte, entretanto, pode continuar produzindo:
notícias;
investigações;
documentários;
debates;
interpretações;
memórias;
disputas;
hipóteses;
comentários.
É quase uma inversão temporal.
A vida acabou.
A interpretação continua.
E quanto mais a interpretação continua, maior é o risco de confundirmos a permanência do discurso com a permanência da pessoa.
Não.
A pessoa não voltou.
O discurso voltou.
Essa frase deveria ficar grudada na porta.
20. E SE NÓS ESTIVERMOS ERRADOS?
Talvez a hipótese esteja errada.
Talvez a circulação atual seja simplesmente uma forma legítima de memória.
Talvez novas investigações produzam conhecimento histórico relevante.
Talvez uma obra documental consiga ampliar a compreensão sem reduzir a pessoa.
Talvez a repetição seja justamente uma forma de impedir o esquecimento.
Talvez a história precise mesmo retornar.
Tudo isso é possível.
E é justamente por isso que a hipótese precisa permanecer tensionada.
O MPI não pode entrar em cena já sabendo o resultado.
Se entrar, não está investigando.
Está ilustrando uma conclusão.
E eu não quero ilustrar.
Quero colocar pressão.
Então a pergunta permanece aberta:
quando um acontecimento retorna, estamos diante de memória, de circulação, de elaboração histórica ou de uma combinação que ainda não sabemos distinguir?
Não sabemos.
Ainda.
21. A NOSSA PRÓPRIA MATERIALIDADE
Existe outra ironia.
Nós também somos corpos.
Eu escrevo.
Você lê.
A plataforma armazena.
O texto circula.
Talvez alguém encontre este artigo daqui a três anos.
Talvez ninguém encontre.
Talvez seja recomendado.
Talvez seja esquecido.
Talvez seja recortado.
Talvez uma frase seja retirada daqui e colocada em outro contexto.
Talvez o texto sobreviva ao momento que o produziu.
Então eu também estou produzindo arquivo.
Eu também estou participando daquilo que descrevo.
E isso significa que a crítica — não, a tensão — não pode ser uma posição moral superior.
Não existe um lugar completamente limpo de onde observar a sujeira.
Nós estamos dentro dela.
Eu estou dentro dela.
O MPI está dentro dela.
Este texto está dentro dela.
E talvez o máximo que possamos fazer seja reconhecer a operação enquanto ela acontece.
22. UMA NOVA PRERROGATIVA DO MPI
Diante disso, proponho que este artigo deixe uma prerrogativa metodológica para os próximos trabalhos do projeto:
PRERROGATIVA DO PÓS-EVENTO
Quando um acontecimento envolvendo morte for posteriormente reativado pela discursividade contemporânea, o MPI não tomará a morte como espetáculo nem a pessoa como explicação de uma teoria. O acontecimento será tratado como documento material particular para tensionar as operações retrospectivas, técnicas, econômicas e discursivas que podem reorganizar uma vida depois que ela já não pode responder por si mesma.
A análise deverá distinguir acontecimento, documento, interpretação e hipótese; não converter alegações em fatos; não estabelecer causalidade sem evidência; não produzir diagnóstico retrospectivo; não romantizar, idealizar ou moralizar a morte; não divulgar métodos; e não transformar sofrimento em dispositivo de atração.
A própria produção do MPI será reconhecida como parte da discursividade observada.
Nós também estamos dentro do acontecimento discursivo que pretendemos tensionar.
Essa última frase é importante.
Porque ela impede a arrogância epistemológica.
23. CONCLUSÃO SEM REDENÇÃO
Eu comecei dizendo:
uma pessoa morreu.
E termino dizendo a mesma coisa.
Porque nenhuma quantidade de teoria deve ser capaz de apagar isso.
Freud não apaga.
Marx não apaga.
Han não apaga.
Green não apaga.
Foucault não apaga.
A plataforma não apaga.
O documentário não apaga.
A notícia não apaga.
O algoritmo não apaga.
Este texto também não deveria apagar.
O que muda é aquilo que fazemos depois do acontecimento.
Podemos transformar a morte em espetáculo.
Podemos transformar a pessoa em símbolo.
Podemos transformar a vida em explicação.
Podemos transformar o arquivo em presença.
Podemos transformar coerência retrospectiva em causalidade.
Podemos transformar hipótese em certeza.
Ou podemos parar um pouco antes.
Não para encontrar uma resposta redentora.
Não para descobrir o segredo escondido atrás da morte.
Não para decidir definitivamente quem estava certo.
Mas para perceber que uma vida interrompida não se torna propriedade narrativa de quem continua vivo.
O acontecimento aconteceu.
O corpo esteve aqui.
Depois veio a ausência.
Depois vieram os documentos.
Depois vieram as interpretações.
Depois veio a circulação.
E talvez agora esteja acontecendo uma coisa que ainda não sabemos nomear.
Talvez uma vida possa permanecer disponível como informação enquanto perde, pouco a pouco, sua alteridade.
Talvez o passado possa permanecer visível sem conseguir adquirir distância.
Talvez a repetição possa produzir presença sem produzir história.
Talvez a morte possa continuar circulando enquanto a pessoa desaparece atrás das funções que o discurso precisa atribuir a ela.
E talvez nós mesmos, ao escrever sobre isso, estejamos fazendo exatamente aquilo que estamos tentando compreender.
Paradoxal?
Sim.
Resolvido?
Não.
Ainda bem.
Porque o MPI não está aqui para resolver.
Está aqui para tensionar.
E a pergunta continua no chão, onde começou:
O que uma sociedade está fazendo com uma vida quando precisa continuar decidindo o que sua morte significa?
Eu não sei.
Você também não sabe.
E talvez essa seja, por enquanto, a parte mais honesta da história.
NOTA ÉTICA E METODOLÓGICA
Este conteúdo possui caráter crítico-ensaístico e informativo. Não constitui aconselhamento psicológico, diagnóstico ou orientação terapêutica.
A utilização da palavra “suicídio” neste texto ocorre exclusivamente no contexto de discussão crítica e documental sobre formas de enquadramento discursivo de mortes noticiadas publicamente. O texto não descreve métodos, não realiza diagnóstico retrospectivo, não atribui estados mentais a pessoas específicas, não estabelece causalidade sem evidência e não pretende romantizar, idealizar, culpabilizar ou espetacularizar o fenômeno.
O Conselho Federal de Psicologia e os Conselhos Regionais de Psicologia recomendam cuidados específicos na divulgação de casos de suicídio, incluindo evitar sensacionalismo, glamourização, julgamentos morais, simplificações causais e exposição de métodos.
O Ministério da Saúde igualmente reconhece o fenômeno como complexo e multifatorial e estabelece diretrizes de comunicação e prevenção no campo das políticas públicas.
O presente artigo não pretende falar pela totalidade da população, dos usuários de plataformas digitais, dos meios de comunicação ou das pessoas envolvidas nos acontecimentos aqui utilizados como documento. A formulação apresentada é uma hipótese provocativa, situada e provisória, construída a partir da observação da reativação midiática de um acontecimento particular.
NOTA DO AUTOR
Este ensaio integra o projeto Mais Perto da Ignorância (MPI) e utiliza acontecimentos públicos como documentos situados para tensionar formas contemporâneas de discursividade.
O texto não pretende oferecer uma explicação definitiva para uma morte específica. O acontecimento utilizado como superfície empírica não é tomado como representação da totalidade da sociedade, da internet ou de qualquer grupo populacional.
A investigação parte da seguinte ordem material:
Corpo → Condições materiais → Organização social → Técnica → Discurso.
A hipótese permanece revisável.
O próprio autor reconhece sua implicação na discursividade que observa: ao escrever sobre um acontecimento, também o reinsere no circuito de produção de sentidos.
Essa condição não é eliminada.
É assumida como parte do problema.
REFERÊNCIAS DO ARQUIVO DO MPI
A LOKA DO ROLÊ VISITA OS MORTOS: UM PASSEIO PELO TIKTOK, PELO TER, PELO SER E PELA ATENÇÃO QUE NÃO TEM TEMPO PARA EXISTIR
https://maispertodaignorancia.blogspot.com/2026/08/perto-da-ignorancia-loka-do-role-visita.html
QUANDO A MORTE ENTRA NA LIVE E A RESPOSTA JÁ ESTÁ PRONTA
https://maispertodaignorancia.blogspot.com/2026/09/quando-morte-entra-na-live-e-resposta.html
QUANDO A CONVERSA SE TORNA UM PROBLEMA
https://maispertodaignorancia.blogspot.com/
A MENTIRA DAS DUAS VIDAS: SUBJETIVIDADE, OBJETO E A AUSÊNCIA DO OUTRO
https://maispertodaignorancia.blogspot.com/2025/04/
NÃO HÁ ESCUTA: O ALGORITMO ENTREVISTADOR
https://maispertodaignorancia.blogspot.com/2025/10/
ALFABETOS DE SILICONE: ENSAIO SOBRE O NOVO ANALFABETISMO DIGITAL
https://maispertodaignorancia.blogspot.com/2025/06/alfabetos-de-silicone-ensaio-sobre-o.html
A ILUSÃO DIGITAL E O CORPO QUE APODRECE: UMA REFLEXÃO MATERIALISTA EM TEMPOS DE ACELERAÇÃO DISCURSIVA
https://maispertodaignorancia.blogspot.com/search?updated-max=2025-02-21T18%3A07%3A00-08%3A00
REFERÊNCIAS TEÓRICAS
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GREEN, André. A loucura privada: psicanálise dos casos-limite. São Paulo: Escuta, 2017.
HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
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HAN, Byung-Chul. Morte e alteridade. Petrópolis: Vozes, 2020.
KIERKEGAARD, Søren. O conceito de angústia. Petrópolis: Vozes, 2010.
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REFERÊNCIAS INSTITUCIONAIS E DOCUMENTAIS
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https://site.cfp.org.br/exposicao-na-midia-de-casos-de-suicidio-pode-ter-efeitos-prejudiciais-a-saude-mental-da-populacao/
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP.
https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2022/05/WEB_29535_Codigo_de_etica_da_profissao_14.04.pdf
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Nota Técnica nº 1/2022/SOE/PLENÁRIA: Nota Técnica sobre Uso Profissional das Redes Sociais: Publicidade e Cuidados Éticos. Brasília: CFP, 2022.
https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2022/06/SEI_CFP-0612475-Nota-Tecnica.pdf
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Suicídio (Prevenção). Brasília: Ministério da Saúde.
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/suicidio-prevencao/suicidio-prevencao
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Ações do Ministério da Saúde — Suicídio (Prevenção). Brasília: Ministério da Saúde.
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/suicidio-prevencao/acoes-do-ministerio-da-saude
BIBLIOTECA VIRTUAL EM SAÚDE — MINISTÉRIO DA SAÚDE. “Mudar a comunicação. Começar a conversa”: 10/9 — Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio.
https://bvsms.saude.gov.br/mudar-a-comunicacao-comecar-a-conversa-10-9-dia-mundial-de-prevencao-ao-suicidio/
UOL/SPLASH. HBO Max anuncia série documental sobre morte de PC Siqueira. 3 set. 2026.
https://www.uol.com.br/splash/noticias/2026/09/03/hbo-max-anuncia-serie-documental-sobre-morte-do-youtuber-pc-siqueira.ghtm
QUALIFICAÇÃO DO AUTOR
José Antônio Lucindo — Psicólogo CRP Ativo.
Projeto Mais Perto da Ignorância — MPI
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PALAVRAS-CHAVE PARA INDEXAÇÃO
morte; pós-evento; vida depois da morte; historicidade; historicidade comprimida; presença sem duração; discursividade digital; discurso midiático; circulação digital; memória; arquivo; alteridade; materialidade; corpo; técnica; informação; retrospectividade; narrativa retrospectiva; morte e mídia; suicídio e comunicação; comunicação responsável; Psicologia e mídia; ética profissional; Conselho Federal de Psicologia; sofrimento; sociedade digital; plataformas digitais; economia da atenção; algoritmo; subjetividade; Mais Perto da Ignorância; MPI; Loka do Rolê; escuta; ausência; vida discursiva; vida material; memória digital; arquivo digital; pós-evento; tensão discursiva
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