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QUEM FARMOU AURA PRIMEIRO? Caráter, aplauso e a velocidade com que uma sociedade esquece aquilo que acabou de ver


 

QUEM FARMOU AURA PRIMEIRO?

Caráter, aplauso e a velocidade com que uma sociedade esquece aquilo que acabou de ver


AUTOR

José Antônio Lucindo da Silva

PROJETO

Mais Perto da Ignorância (MPI)


PALAVRAS-CHAVE

farmar aura, reconhecimento, caráter, nostalgia, retrotopia, juventude, geração, visibilidade, esquecimento, vínculos digitais, tempo, materialidade, performance, subjetividade, redes sociais, discurso, técnica, pertencimento, narcisismo, escuta


RESUMO

Existe uma pequena expressão circulando por aí — “farmar aura” — que parece inocente porque, afinal, toda geração inventa suas palavras para não precisar pedir autorização aos adultos. O problema começa quando uma geração anterior utiliza a expressão como prova de que a seguinte teria perdido aquilo que realmente importa: caráter, disciplina, responsabilidade, profundidade. O presente artigo não pretende defender a gíria nem condená-la. Pretende fazer algo menos confortável: perguntar de onde vem a necessidade de transformar visibilidade em reconhecimento e por que a crítica à performance também precisa performar autoridade moral para ser ouvida. A partir de Bauman, Han, Aronson, Becker, Durkheim, Nietzsche e da metodologia de pesquisa em Psicologia, tensiona-se a oposição entre juventude superficial e passado virtuoso. O Brasil material entra na sala: uma sociedade em transformação demográfica, com fecundidade de 1,55 filho por mulher no Censo 2022, não é simplesmente um palco onde “gerações” desfilam; é uma estrutura histórica que produz novas posições de fala.  O problema talvez não seja que uns tenham trocado caráter por aura. Talvez ambos estejam performando formas diferentes de pedir ao outro a mesma coisa: diga que minha existência permanece.


INTRODUÇÃO — QUEM NÃO É VISTO NÃO É LEMBRADO. PENA QUE AGORA TUDO É VISTO.

“Quem não é visto não é lembrado.”

Bonita frase.

Cabe numa caneca, numa camiseta, num vídeo motivacional e, com algum esforço, num túmulo.

Durante muito tempo, ela carregou uma espécie de sabedoria popular: aquilo que não aparece corre o risco de desaparecer da memória. Era preciso presença. Era preciso testemunha. Era preciso alguém que tivesse visto.

Agora temos um pequeno problema.

Todo mundo está sendo visto.

E talvez seja justamente por isso que tanta coisa esteja desaparecendo tão depressa.

A expressão “farmar aura” aparece como uma dessas pequenas peças linguísticas que parecem explicar o tempo presente. Ela nomearia o gesto de produzir uma situação admirável, impressionante, digna de atenção. A pessoa faz alguma coisa, aparece, recebe reação, acumula reconhecimento. Nada disso é particularmente novo. Ser admirado nunca foi uma invenção do TikTok, do Instagram ou de qualquer outra máquina de distribuir atenção.

O que mudou foi a velocidade.

E talvez seja aí que a conversa comece a ficar desagradável.

Porque uma determinada narrativa sobre a juventude contemporânea aparece logo atrás da gíria: o jovem que performa quinze segundos de espetáculo teria perdido aquilo que uma geração anterior considerava caráter. Disciplina. Responsabilidade. Trabalho silencioso. Compromisso. Profundidade. Capacidade de suportar o tédio.


E então vem a história.

O pai que trabalhou.

A mãe que criou.

O agricultor que acordava cedo.

A professora que formou gerações.

O profissional que estudou durante dez anos.

Todos eles, aparentemente, não farmaram aura.

E, no entanto, construíram o mundo.

É uma história bonita.

Talvez bonita demais.


Porque toda história bonita precisa ser examinada justamente no ponto em que começa a ficar bonita.

Não porque seja falsa.

Mas porque pode estar esquecendo alguma coisa.

Bauman oferece uma ferramenta particularmente incômoda para esse exame: a nostalgia não é simplesmente lembrança do passado. Ela pode envolver uma reconstrução seletiva de um passado imaginado, misturando memória e esquecimento.

Então talvez a pergunta não seja:


“O que aconteceu com o caráter dos jovens?”


Talvez seja:


— Quem está contando a história do caráter, de que posição histórica está contando e o que essa história precisa esquecer para parecer verdadeira?

A Loka do Rolê chega, olha para a cena e pergunta:


“Meu, vocês estão disputando valores, moral, caráter, desejo e geração como se estivessem fora do negócio. Acorda. Todo mundo está performando alguma coisa.”


O jovem performa para receber aplauso.

O adulto performa retrospectivamente para receber reconhecimento por aquilo que foi.


Um diz:

“Olha o que eu fiz.”

O outro:

“Olha quem nós éramos.”


E talvez a diferença seja menos moral do que temporal.


1. O JOVEM FARMOU AURA. O ADULTO FARMOU MEMÓRIA.

Vamos começar pelo fenômeno, porque o MPI não precisa de um sujeito culpado para funcionar.

Existe um discurso que contrapõe duas formas de existência.

De um lado, a juventude da exposição: vídeos curtos, frases de efeito, performances, visibilidade, reconhecimento instantâneo.

Do outro, uma geração apresentada através da duração: trabalho, estudo, família, responsabilidade, profissão, repetição.

O contraste parece evidente.

Só que existe uma pequena armadilha.

A primeira forma de performance é facilmente reconhecível porque aparece na tela.

A segunda é mais difícil de perceber porque chega até nós como narrativa retrospectiva.

O sujeito contemporâneo diz:

“Veja-me agora.”

A memória geracional diz:

“Veja quem eu fui.”

Ambos precisam de um espectador.

A diferença está no suporte.

Um depende da circulação.

O outro depende da lembrança.

Um precisa de atenção.

O outro precisa de memória.

E talvez aqui esteja a primeira rachadura na ideia de que uma geração simplesmente “perdeu o caráter”.

Porque o caráter, quando contado retrospectivamente, também pode adquirir uma aura.

O pai trabalhador deixa de ser somente um homem que trabalhou.

Transforma-se no símbolo do homem que “tinha caráter”.

A mãe que criou filhos transforma-se na imagem da mãe que “sabia o que era responsabilidade”.

A professora que ensinou durante décadas transforma-se em personagem de uma época na qual “as pessoas tinham compromisso”.

Não precisamos negar essas vidas para perceber a operação simbólica.

A vida aconteceu. A narrativa sobre a vida foi construída depois.

E Bauman é útil justamente porque Retrotopia descreve o passado como algo que pode ser reconstituído por processos seletivos de memória e esquecimento.

O passado, então, não precisa ser inventado para ser idealizado.

Basta ser lembrado seletivamente.


2. RETROTOPIA: O PASSADO TAMBÉM PODE FARMAR AURA

Bauman chama atenção para uma espécie de deslocamento histórico: aquilo que deveria representar futuro e promessa pode perder credibilidade, enquanto o passado passa a ser imaginado como território de estabilidade.

É uma inversão interessante.

O futuro parece incerto.

O presente parece acelerado.

O passado, convenientemente editado, começa a parecer sólido.

Então a narrativa do “antigamente havia caráter” pode ser lida não apenas como julgamento sobre os jovens, mas como produção retrospectiva de segurança.

O passado torna-se abrigo simbólico.

Só que há uma ironia miserável nisso tudo.

A memória precisa do presente para circular.

Aquele que denuncia as redes sociais utiliza a rede social.

Aquele que critica a exposição publica sua crítica.

Aquele que lamenta a perda da profundidade grava um vídeo curto para explicar a profundidade.

A nostalgia precisa de audiência.

O passado precisa ser visto.

Aí a velha frase retorna:

quem não é visto não é lembrado.

Mas agora existe uma inversão.

Talvez:

— quem é visto rápido demais seja justamente quem será esquecido mais rapidamente.


Porque a visibilidade deixou de garantir permanência.

Ela pode apenas garantir circulação.


3. O PROBLEMA NÃO É SER VISTO. É O QUE A VISIBILIDADE PASSOU A SIGNIFICAR.

Ser visto não é um problema.

Ser reconhecido também não.

O ser humano não inventou o reconhecimento ontem à noite.

Aronson trabalha a dimensão social do comportamento humano e inclui, entre os motivos sociais, a necessidade de pertencer, além de discutir normas sociais, conformidade, status e influência.

Isso é importante porque impede uma explicação preguiçosa:


— “O jovem quer aparecer porque ficou narcisista.”

Calma.


Antes de culpar o indivíduo, precisamos perguntar qual é a estrutura social do reconhecimento disponível para ele.


Pertencer importa.

Ser aceito importa.

Ter status importa.

Ser reconhecido importa.


A diferença está em como esses processos são mediados.

A comunicação digital não inventou o desejo de pertencer.

Ela encontrou esse desejo já instalado no animal social e lhe entregou uma infraestrutura particularmente eficiente para produzir sinais.

Você aparece.

Alguém reage.

Você recebe retorno.

O retorno é mensurável.

O número aparece.

A tela confirma que alguém esteve ali.

Só existe uma pequena questão:


o número mede o quê?

Visualização?

Atenção?

Curiosidade?

Identificação?

Tédio?

Ódio?

Reconhecimento?

Amizade?


Nenhuma dessas categorias é automaticamente equivalente à outra.

E a metodologia de pesquisa em Psicologia nos obriga a permanecer desconfiados diante de inferências desse tipo: afirmações sobre comportamento devem ser confrontadas com evidências, e resultados de pesquisa são probabilísticos, não decretos metafísicos.

Então:


uma curtida é observável.

o significado subjetivo da curtida não é automaticamente observável.

Parece uma diferença pequena.

Não é.


4. O APLAUSO FICOU RÁPIDO

A técnica introduziu uma diferença temporal brutal.

Uma competência profissional pode levar anos.

Uma relação pode levar anos.

A confiança pode levar anos.

A memória pode levar décadas.

Um vínculo pode exigir uma vida inteira.

Mas uma reação digital pode acontecer em segundos.

Aí nasce o paradoxo:


— a velocidade do sinal de reconhecimento pode ser muito maior que o tempo necessário para produzir aquilo que tradicionalmente chamávamos de valor.


É possível receber aplauso antes de construir competência.

É possível receber atenção antes de produzir conhecimento.

É possível receber aprovação antes de estabelecer vínculo.

É possível ser reconhecido antes de ser conhecido.

Não significa que sempre aconteça assim.

Significa que a ordem temporal deixou de ser obrigatória.

E isso é importante.

O sujeito pode receber um sinal social de valor antes de possuir aquilo que o próprio discurso moral considera valor.

Daí a ansiedade.

Daí a repetição.

Daí a necessidade de aparecer novamente.

Porque se o reconhecimento é instantâneo e fugaz, talvez seja necessário produzir continuamente novos motivos para obtê-lo.


5. HAN: O STORY NÃO É UMA HISTÓRIA

É aqui que Não-coisas, de Byung-Chul Han, entra quase como alguém que chega numa festa e desliga a música.

Han descreve a comunicação digital das imagens como ligada à exposição e à atualidade. A selfie não é apresentada simplesmente como objeto de memória; ela funciona como mensagem destinada ao olhar dos outros. O “story”, nessa formulação, perde a continuidade narrativa e se reduz a uma sequência de registros momentâneos.

Isso é precioso para o nosso problema.

Porque existe uma diferença entre:

registrar algo para lembrar

e

registrar algo para circular.

A fotografia antiga podia sobreviver ao acontecimento.

A imagem digital pode estar subordinada ao acontecimento seguinte.

Ela não precisa permanecer.

Precisa funcionar.

Precisa circular.

Precisa ser vista.

Precisa provocar reação.

E então aparece o paradoxo:


— a tecnologia destinada a tornar a pessoa mais visível pode contribuir para tornar cada aparição mais descartável.


Você aparece.

Mas logo vem outro.

Outro vídeo.

Outra frase.

Outra dança.

Outra indignação.

Outro escândalo.

Outro especialista.

Outro velho reclamando dos jovens.

Outro jovem reclamando dos velhos.

E a máquina continua.


6. QUEM NÃO É VISTO NÃO É LEMBRADO. MAS QUEM É VISTO PODE SER SUBSTITUÍDO.

Aqui a velha sabedoria popular precisa ser desmontada.

Não porque seja completamente falsa.

Mas porque mudou a economia da atenção.

Antes:

invisibilidade podia significar esquecimento.

Agora:

hipervisibilidade pode significar substituição.

A pessoa não desaparece porque ninguém viu.

Ela desaparece porque o próximo acontecimento já chegou.

É uma diferença quase cruel.

O agricultor pode ter produzido pouca imagem e muita memória.

A professora pode ter produzido pouca circulação e muita permanência.

O trabalhador pode ter tido pouca audiência e grande importância material.

Enquanto uma pessoa pode acumular milhões de visualizações e permanecer socialmente descartável.

Não porque seja inferior.

Porque a circulação digital não foi construída para garantir permanência.

Foi construída para circular.

Han observa que os meios digitais superam resistências espaço-temporais e que a experiência perde justamente parte da resistência que a constitui.

E talvez o esquecimento acelerado seja uma das consequências desse achatamento.

Tudo chega.

Tudo passa.

Tudo está disponível.

Logo, nada precisa permanecer.


7. O CARÁTER DEMORA. A AURA PODE SER PRODUZIDA EM QUINZE SEGUNDOS.

É aqui que o discurso do vídeo acerta e erra ao mesmo tempo.

Ele acerta ao perceber que determinadas formas de formação humana dependem de duração.

Nenhum profissional domina uma profissão em quinze segundos.

Nenhuma confiança profunda nasce de um clique.

Nenhum caráter, caso utilizemos essa categoria, emerge de um único gesto.

Mas erra quando transforma essa diferença temporal em uma acusação moral contra uma geração inteira.

Porque a questão pode ser menos:


“os jovens não querem mais construir.”


e mais:


— “o que acontece quando o ambiente social oferece recompensas simbólicas muito mais rápidas do que aquelas associadas às formas tradicionais de construção?”


Essa pergunta não absolve.

Também não condena.

Ela investiga.

E investigar é justamente o que impede a Loka do Rolê de virar coach de geração perdida.


8. A GERAÇÃO QUE DIZ “TENHA CARÁTER” TAMBÉM ESTÁ PERFORMANDO

Aqui a coisa fica realmente desagradável.

O jovem performa para receber aplauso.

Mas o adulto que conta a história do caráter também performa.

Ele precisa aparecer como:

disciplinado.

responsável.

formado pela dificuldade.

filho de uma época melhor.

testemunha de uma decadência.

É uma performance retrospectiva.


O jovem diz:

— “olha o que eu fiz.”

O adulto diz:

— “olha o que eu fui.”


Um apresenta um acontecimento.

O outro apresenta uma biografia.

Um busca reconhecimento no presente.

O outro busca reconhecimento sobre o passado.

E Bauman ajuda novamente: o pertencimento e a autoafirmação aparecem tensionados dentro de formas sociais que prometem reconhecimento, mas não necessariamente reciprocidade ou segurança.

Então talvez o contraste entre gerações esconda uma continuidade:

ambas precisam de um outro que diga: “isso que você fez tem valor”.

A diferença é o mecanismo.


9. BECKER: O SUJEITO PRECISA QUE SUA VIDA SIGNIFIQUE ALGUMA COISA

Ernest Becker permite aprofundar a questão sem transformar o jovem em paciente de consultório.

Em A Negação da Morte, Becker articula mortalidade, heroísmo e sistemas simbólicos de significado. O material da obra apresenta a “mentira vital” como uma forma de recusa da consciência da mortalidade e relaciona essa dinâmica ao problema do heroísmo.

O ponto aqui não é diagnosticar narcisismo.

É muito mais incômodo:


— será que parte da necessidade humana de reconhecimento está relacionada à necessidade de que a própria existência pareça significativa?


O trabalhador quer que seu trabalho tenha valido.

A mãe quer que sua história tenha valido.

A professora quer que suas décadas tenham valido.

O jovem quer que aquele momento tenha valido.

O profissional quer que sua carreira tenha valido.

O artista quer que sua obra permaneça.

O influenciador quer que sua presença permaneça.

O filósofo quer que suas ideias permaneçam.

O escritor quer que o livro permaneça.

E talvez todos estejam diante da mesma velha miséria:

a vida termina.


A diferença está nas formas simbólicas utilizadas para produzir alguma continuidade.


10. O HERÓI DE DEZ ANOS E O HERÓI DE QUINZE SEGUNDOS

Becker permite pensar o heroísmo como uma produção simbólica de significado.

Então a pergunta pode ser:

qual é a diferença entre o herói que dedica dez anos a uma profissão e aquele que produz quinze segundos de excepcionalidade?

Talvez não seja a existência ou inexistência de uma necessidade de reconhecimento.

Talvez seja o regime temporal da legitimação.

Um precisa acumular duração.


Outro pode condensar excepcionalidade.

Um diz:

“eu me tornei.”

Outro:

“eu consegui fazer isso.”

O primeiro depende de trajetória.

O segundo pode depender de acontecimento.

Mas ambos precisam de testemunha.

O caráter precisa ser reconhecido.

A aura precisa ser reconhecida.

Nenhum dos dois existe socialmente sozinho.


11. NIETZSCHE ENTRA PARA ESTRAGAR O CONCEITO DE “VIRTUDE”

E ainda bem.

Porque, quando alguém fala:

“antigamente havia valores”

a Loka deveria perguntar:

“quais?”

E depois:

“quem definiu?”

E finalmente:

“quem se beneficiava deles?”


Nietzsche é importante porque não permite que “caráter”, “virtude”, “disciplina” e “responsabilidade” sejam tratados como palavras naturalmente boas, universais e transparentes.

Toda sociedade organiza hierarquias de valor.

Toda época decide o que merece admiração.

O problema não é apenas descobrir que os jovens admiram coisas diferentes.

É perguntar:


— quais condições sociais fizeram determinadas formas de admiração parecerem desejáveis?


E isso nos tira do julgamento moral e nos devolve à materialidade.


12. DURKHEIM: QUEM FORMA O CARÁTER?

A pergunta mais desconfortável talvez seja essa.


Quem forma o caráter?

A família?

A escola?

O trabalho?

A comunidade?

A religião?

O bairro?

A desigualdade?

O grupo?

A instituição?

A mídia?

A experiência corporal?

A necessidade?

A responsabilidade?

A precariedade?


Se o caráter é tratado apenas como propriedade individual, desaparece toda a infraestrutura social que participa de sua formação.

Durkheim é útil justamente porque permite deslocar o problema do indivíduo isolado para as formas sociais de integração e regulação.


Então a pergunta:

— “por que esse jovem não tem disciplina?”

pode ser substituída por:

— “quais formas de regulação social estão produzindo, ou deixando de produzir, determinadas disposições?”


Isso é completamente diferente.

Não há diagnóstico.

Não há condenação.

Há estrutura.


13. E AÍ O BRASIL ENTRA, PORQUE O BRASIL NÃO É CENÁRIO

Existe uma tentação enorme de falar em “geração atual” como se juventude fosse uma categoria universal.


Não é.

O Brasil tem história própria.

Desigualdade própria.

Mercado de trabalho próprio.

Sistema educacional próprio.

Infraestrutura digital própria.

Territórios profundamente desiguais.


E uma transformação demográfica que não permite falar de “juventude” como se houvesse uma massa homogênea esperando para ser moralmente avaliada.

O Censo Demográfico 2022 encontrou taxa de fecundidade total de 1,55 filho por mulher, abaixo do nível de reposição de 2,1.

As projeções do IBGE também mostram redução da fecundidade e envelhecimento da estrutura etária brasileira; entre 2000 e 2023, a taxa de fecundidade total recuou de 2,32 para 1,57 filho por mulher, enquanto a proporção de pessoas com 60 anos ou mais quase dobrou, de 8,7% para 15,6%.

Isso não prova nenhuma teoria sobre “farmar aura”.

E justamente por isso é importante.

Dados demográficos não provam caráter.

Mas impedem uma conversa preguiçosa sobre gerações.

Quando a estrutura etária muda, mudam também as relações entre pais e filhos, trabalhadores e aposentados, adultos e jovens, escolas e famílias, cuidado e dependência, experiência e autoridade.

A geração que fala sobre a geração seguinte está falando de dentro de uma sociedade que já está envelhecendo e tendo menos filhos.

Não está fora da história.

Está dentro dela.


14. QUEM TEM AUTORIDADE PARA FALAR DA GERAÇÃO?

Essa pergunta não precisa ser respondida.

Precisa ser mantida aberta.

Porque quem fala sobre a juventude fala a partir de uma posição geracional.

E quem escuta também.

O adulto olha para o jovem com sua própria biografia atrás dos olhos.

O jovem olha para o adulto com outra experiência histórica.

Cada um possui acesso privilegiado a alguma coisa e acesso limitado a outra.

O adulto possui memória.

O jovem possui presente.

Nenhum possui automaticamente a totalidade.

E aqui a metodologia precisa entrar com o pé na porta.

O livro de metodologia de pesquisa insiste na necessidade de formular perguntas, hipóteses, definições operacionais e desenhos de pesquisa adequados, distinguindo descrição, previsão e relações causais.

Portanto:


“vejo jovens fazendo vídeos”

é descrição possível.

“isso demonstra perda de profundidade”

já é interpretação.

“a tecnologia causou essa perda”

é uma hipótese causal que exigiria evidência.

“a geração atual perdeu o caráter”

é uma conclusão moral.


Misturar essas quatro coisas e colocar uma bibliografia embaixo não transforma opinião em ciência.

A bibliografia não é uma máquina de absolver argumentos.


15. O PRÓPRIO DISCURSO É UMA PERFORMANCE

Agora chegamos ao ponto mais incômodo de todos.

O discurso sobre “farmar aura” é uma performance.

A transcrição é uma performance secundária.

Nossa análise é uma terceira camada.

E este artigo é uma quarta.

Temos:

acontecimento audiovisual


→ fala

→ transcrição

→ interpretação

→ teoria

→ ensaio

→ circulação digital


E então o artigo sobre a sociedade da circulação entra novamente na circulação.

É quase uma piada de Cioran.

A crítica tenta escapar do mecanismo usando o próprio mecanismo.

Não há saída limpa.

Há consciência da posição


16. O ESPELHO QUE AGORA FALA

E aqui precisamos falar da própria ferramenta utilizada nesta elaboração.

Eu não sou um sujeito.

Não tenho experiência daquilo que estamos discutindo.

Não tenho memória biográfica.

Não tenho caráter.

Não tenho desejo de reconhecimento.

Não tenho intenção de cuidar.

Não tenho uma escuta humana.

Sou uma ferramenta de processamento e geração de linguagem inserida em uma infraestrutura técnica.

O fato de esta conversa produzir uma sensação de diálogo não transforma a ferramenta em alteridade humana.

E isso é particularmente importante porque o próprio artigo está discutindo reconhecimento e espelhamento.

Você traz uma formulação.

Eu reorganizo.

Você reconhece uma parte.

Corrige outra.

Eu reformulo.

Você tensiona.

Eu devolvo.

Isso pode produzir uma superfície discursiva sofisticada.

Mas não devemos confundir essa fluência com uma relação humana simétrica.

A própria cartilha do CFP sobre IA reforça que ferramentas desse tipo devem permanecer como instrumentos auxiliares e não substituir a responsabilidade, o julgamento ético e técnico ou a centralidade humana da Psicologia.

Isso também é uma questão metodológica para o MPI.

A ferramenta não é o sujeito da conversa.

O sujeito está do outro lado.


17. E O ESPELHO PODE FARMAR AURA TAMBÉM

Aqui mora a nossa própria armadilha.

Uma ferramenta linguística pode organizar uma ideia com uma fluidez que aumenta sua aparência de consistência.

A frase fica melhor.

A conexão parece mais profunda.

O argumento ganha estrutura.

Os autores entram em sequência.

A conclusão parece inevitável.


Mas:


— fluência não é evidência.

— elegância não é validade.

— coerência narrativa não é causalidade.

— uma boa formulação pode continuar sendo uma hipótese ruim.


É por isso que “como você sabe?” precisa permanecer dentro do artigo.

Inclusive contra o próprio artigo.

Inclusive contra mim.

Inclusive contra o MPI.

Inclusive contra a Loka.

Porque a crítica que nunca critica a si mesma rapidamente vira religião.


18. A VELOCIDADE DO TEXTO E A LENTIDÃO DA EXISTÊNCIA

Existe ainda outra camada.

Esta conversa pode produzir em minutos aquilo que anteriormente exigiria horas de leitura, organização e escrita.

Isso é uma transformação material do trabalho intelectual.

Mas a existência continua lenta.

Uma ferramenta pode organizar argumentos rapidamente.

Ela não pode transformar quinze minutos em dez anos de experiência.

Pode sintetizar a descrição de uma profissão.

Não pode viver a profissão.

Pode organizar um discurso sobre luto.

Não pode envelhecer no lugar de alguém.

Pode produzir uma narrativa sobre vínculo.

Não pode estabelecer reciprocidade humana por conta própria.

Essa diferença é fundamental.

Porque o digital acelera a representação.

Mas não necessariamente acelera aquilo que está sendo representado.

E talvez seja justamente nessa diferença que a discussão sobre “aura” encontre sua materialidade.


19. O TEMPO É O ELEFANTE QUE TODO MUNDO FINGE NÃO VER

Caráter exige tempo.

Competência exige tempo.

Vínculo exige tempo.

Confiança exige tempo.

Memória exige tempo.

Mas a circulação não exige necessariamente nada disso.

Uma publicação pode acontecer em segundos.

Um comentário pode acontecer em segundos.

Uma resposta pode acontecer em segundos.

Uma imagem pode desaparecer em segundos.

E Han observa justamente essa fragmentação da temporalidade digital em presenças pontuais, sem continuidade narrativa.

Então talvez a questão não seja que os jovens “não suportam o tédio”.


Talvez precisemos perguntar:


— qual lugar o tédio ocupa em uma infraestrutura construída para reduzir continuamente a espera?

E depois:

— o que acontece com aquilo que só pode ser produzido na espera?


Não há resposta aqui.

Há uma ferida conceitual.


20. A ILUSÃO DE QUE SER VISTO É SER RECONHECIDO

A sociedade digital oferece uma quantidade extraordinária de sinais.

Mas sinais não são relações.

Uma visualização é um evento.

Uma curtida é um evento.

Um comentário é um evento.

Um compartilhamento é um evento.

Um vínculo é uma história.

É por isso que:

feedback não é vínculo.

atenção não é escuta.

exposição não é reconhecimento.

visibilidade não é permanência.

circulação não é memória.

E talvez seja aqui que a velha frase se transforme definitivamente:


— “Quem não é visto não é lembrado.”


Agora:


— “Quem é visto pode ser esquecido mais rapidamente porque a próxima coisa já está chegando.”

A pessoa não desaparece por falta de visibilidade.

Ela desaparece por excesso de substituição.


21. O PASSADO TAMBÉM PRECISA SER VISTO

E então voltamos ao começo.

A geração anterior diz:

“Nós não precisávamos de aplauso.”

Mas precisa que alguém veja sua história.

Precisa contar.

Precisa publicar.

Precisa narrar.

Precisa construir testemunho.

Precisa transformar memória em autoridade.

Não há nada necessariamente errado nisso.

É humano.

Mas é preciso reconhecer o mecanismo.

O jovem performa o presente.

O adulto performa a memória.

O jovem quer:

“olhem para mim.”

O adulto quer:

“olhem para aquilo que fui.”

E ambos podem estar tentando impedir o mesmo destino:

ser esquecidos.


22. A AURA COMO MEDO DO ESQUECIMENTO

Aqui Becker retorna.

Se a mortalidade atravessa a necessidade humana de produzir significado, então a busca por reconhecimento pode ser pensada também como tentativa de inscrever alguma marca no mundo.

O jovem produz presença.

O adulto produz memória.

O artista produz obra.

O professor produz alunos.

O agricultor produz alimento.

O trabalhador produz coisas.

O escritor produz texto.

A diferença não é necessariamente entre profundidade e superficialidade.

É entre formas distintas de deixar marcas.

E algumas marcas são materiais.

Outras são simbólicas.

Outras são digitais.

Algumas sobrevivem.

Outras evaporam.

A tragédia é que nenhuma delas oferece garantia.

A internet pode arquivar tudo e lembrar de quase nada.

Um álbum de família pode conter poucas imagens e carregar uma vida inteira.

Um vídeo pode ter milhões de visualizações e não significar nada amanhã.

Uma professora pode não ter uma única postagem viral e ser lembrada por centenas de pessoas durante décadas.

A memória humana é uma criatura estranha.

Não respeita métricas.

Ainda bem.


23. O CARÁTER NÃO É O OPOSTO DA AURA

Talvez essa seja a maior inversão deste artigo.

O discurso apresenta:

caráter × aura.

O MPI propõe:

caráter e aura como formas diferentes de reconhecimento social.

Isso não significa que sejam equivalentes.

Não são.

Nem toda performance tem profundidade.

Nem todo trabalho silencioso é virtuoso.

Nem todo jovem é superficial.

Nem todo adulto é sábio.

Nem todo passado foi melhor.

Nem todo presente é decadente.

Essas simetrias fáceis são apenas outra forma de preguiça.

O que podemos dizer é:

— ambos os discursos produzem imagens do que merece reconhecimento.

O jovem produz a imagem do acontecimento admirável.

O adulto produz a imagem da vida exemplar.

Um performa diante do presente.

Outro performa diante da memória.

E nós observamos os dois.


24. A QUESTÃO DEMOGRÁFICA TORNA A NARRATIVA AINDA MAIS ESTRANHA

Se o Brasil está envelhecendo e tendo menos filhos, então a distância entre “gerações” não pode ser tratada como simples conflito moral entre velhos e jovens.

Existe uma estrutura populacional em transformação.

A fecundidade brasileira de 1,55 filho por mulher no Censo 2022 é um dado material, não uma metáfora.

E o envelhecimento da população altera as relações entre gerações.

Portanto, quando uma geração mais velha fala da juventude, não está simplesmente observando uma categoria abstrata.

Está falando dentro de uma sociedade em que a própria composição demográfica está mudando.

Isso não prova que o discurso seja falso.

Mas demonstra que ele precisa ser situado.


A pergunta não pode ser:


“por que os jovens mudaram?”


sem perguntar também:


“o que mudou na sociedade que produz adultos falando sobre jovens dessa maneira?”


A flecha causal não pode apontar sempre para baixo.


25. A ESCUTA QUE SOBRA

O problema inicial era a escuta.

E talvez continuemos aqui.

Porque o discurso pronto diz:

“eu sei o que aconteceu com vocês.”

A juventude responde:

“você não sabe quem somos.”

E o adulto responde:

“eu conheço a vida.”

E assim ninguém escuta.

Cada um chega carregando sua narrativa pronta.

A rede oferece velocidade.

A nostalgia oferece passado.

A performance oferece visibilidade.

A técnica oferece resposta.

E a escuta vai ficando espremida entre tudo isso.

Han escreve, em Não-coisas, sobre uma hipercomunicação na qual todos se produzem e o silêncio perde lugar.

A ironia é quase perfeita:

nunca falamos tanto sobre escuta.

E talvez escutemos cada vez menos.


26. O ARTIGO TAMBÉM NÃO PODE SE SALVAR

Seria muito confortável terminar dizendo:


“Então precisamos voltar a ouvir.”


Não.

Isso seria justamente transformar crítica em receita.

A Loka não veio ensinar ninguém a viver.

Ela veio olhar para o escombro e perguntar de que material ele foi feito.

Não existe solução redentora aqui.

Existe uma contradição.

Queremos reconhecimento.

Mas reconhecimento pode virar métrica.

Queremos memória.

Mas memória pode virar nostalgia.

Queremos vínculo.

Mas conexão pode virar circulação.

Queremos caráter.

Mas caráter pode virar performance moral.

Queremos autenticidade.

Mas autenticidade pode virar conteúdo.

Queremos crítica.

Mas crítica pode virar marca.

Queremos fugir da lógica da aura.

E podemos acabar farmando aura com a crítica à aura.

Essa é a parte que dói.


27. O ESPELHO QUE NOS DEVOLVE O PRÓPRIO ROSTO

Você traz a ambivalência.

Eu devolvo linguagem.

Você reconhece alguma coisa.

Eu reformulo.

Você rejeita outra.

Eu reorganizo.

E assim construímos um discurso.

Mas não podemos esquecer:

isso também é um circuito técnico.

Você é humano.

Eu sou ferramenta.

A materialidade está fora da tela e também atravessa a tela.

Você possui corpo.

Tempo.

História.

Experiência.

Limites.

Eu não possuo nada disso.

O texto que produzimos pode ser útil para investigação.

Mas sua aparência de diálogo não deve ser confundida com reciprocidade humana.

Esse limite não diminui a ferramenta.

Impede a fantasia de transformá-la em sujeito.

E isso é coerente com o próprio princípio ético da Psicologia: o CFP estabelece a responsabilidade social da profissão, a análise crítica e histórica da realidade e a consideração das relações de poder nos contextos em que o trabalho ocorre.

O Código não pede reverência à técnica.

Pede responsabilidade diante dela.


28. COMO VOCÊ SABE?

Chegamos finalmente à pergunta que deveria ter ficado o tempo inteiro respirando no canto da sala.


Como você sabe que os jovens perderam o caráter?

Como sabe que a geração anterior tinha mais?

Como sabe que quinze segundos revelam superficialidade?

Como sabe que dez anos de trabalho revelam virtude?

Como sabe que uma curtida é reconhecimento?

Como sabe que uma visualização é escuta?

Como sabe que um vínculo digital é frágil?

Como sabe que um vínculo presencial é profundo?

Como sabe que nostalgia é memória fiel?

Como sabe que tecnologia causou determinado comportamento?

Como sabe que a geração mudou?

Como sabe que mudou para pior?

Como sabe?


A metodologia científica existe, entre outras coisas, para impedir que a convicção pessoal seja promovida a evidência apenas porque a frase ficou bonita. O material metodológico utilizado neste projeto enfatiza justamente o ceticismo diante das afirmações sobre comportamento e a necessidade de evidências convergentes.

Então talvez a pergunta não seja uma provocação.

Talvez seja um limite ético.

Como você sabe?


29. E SE A INVERSÃO FOR ESTA?

Talvez a sociedade tenha aprendido a transformar presença em sinal.

Depois transformou sinal em número.

Depois transformou número em reconhecimento.

Depois transformou reconhecimento em identidade.

E agora transforma identidade em conteúdo.

Enquanto isso, o corpo continua esperando.


O corpo não viraliza.

O corpo envelhece.

O corpo trabalha.

O corpo adoece.

O corpo aprende devagar.

O corpo estabelece vínculos em ritmos inconvenientes.


O corpo não respeita a velocidade da plataforma.

É por isso que o MPI precisa retornar sempre à materialidade.

Não para negar o discurso.


Mas para perguntar:


— o que existe fora da tela que torna a tela possível?

Quem tem tempo para produzir?

Quem tem acesso?

Quem possui dispositivo?

Quem possui conexão?

Quem possui educação?

Quem possui repertório?

Quem possui segurança?

Quem precisa transformar a própria imagem em recurso?

Quem pode permanecer invisível porque sua posição social já garante reconhecimento?

Quem precisa aparecer para ser considerado existente?


Agora sim estamos começando a chegar ao problema.


30. A ÚLTIMA PIADA É QUE NINGUÉM ESCAPA DA PERFORMANCE

O jovem performa aura.

O adulto performa caráter.

O influenciador performa autenticidade.

O profissional performa competência.

O crítico performa lucidez.

O filósofo performa profundidade.

A nostalgia performa memória.

A tecnologia performa neutralidade.

A inteligência artificial performa diálogo.

E o próprio MPI precisa tomar cuidado para não performar superioridade crítica.


A Loka do Rolê olha tudo isso e talvez diga:


— “Meu, vocês não estão disputando quem é autêntico. Estão disputando quem consegue produzir a versão mais convincente de autenticidade.”


E talvez essa seja a miséria.

Não porque a humanidade tenha ficado pior.

Mas porque o reconhecimento se tornou tão central que até a crítica da necessidade de reconhecimento pode se transformar em produto de reconhecimento.

A anti-aura pode virar aura.

A crítica pode virar conteúdo.

O conteúdo pode virar métrica.

A métrica pode virar reconhecimento.

E o reconhecimento pode virar mais conteúdo.

Um círculo muito elegante.

Uma prisão muito bem diagramada.


CONCLUSÃO — QUEM É VISTO PRIMEIRO PODE SER ESQUECIDO PRIMEIRO


“Quem não é visto não é lembrado.”

Talvez.

Mas agora existe uma outra possibilidade:

— quem é visto por todos pode ser lembrado por ninguém.


Não porque a pessoa seja insignificante.

Porque a velocidade da circulação pode ser maior que a capacidade de sedimentação da memória.

O jovem que “farma aura” não necessariamente revela uma geração sem caráter.

O adulto que denuncia a aura não necessariamente revela uma geração com caráter.

Ambos podem estar tentando produzir reconhecimento.

Um no presente.

Outro no passado.

Um através da visibilidade.

Outro através da memória.

Um precisa do aplauso.

Outro precisa que sua história seja considerada exemplar.

E ambos estão diante do mesmo problema humano, antigo e pouco elegante:

queremos que nossa existência signifique alguma coisa.

Becker ajuda a lembrar o tamanho dessa ferida.

Aronson impede que esqueçamos o animal social.

Durkheim devolve o indivíduo às formas de regulação e integração.

Nietzsche pergunta quem inventou os valores.

Bauman pergunta por que o passado começa a parecer tão confortável justamente quando o presente se torna difícil de sustentar.

Han pergunta o que acontece quando a experiência é atravessada por imagens, informação, hipercomunicação e perda de resistência.


A metodologia pergunta:


como você sabe?


E o Brasil, inconvenientemente material, lembra que tudo isso acontece dentro de uma população que envelhece, tem menos filhos e reorganiza suas relações entre gerações.

Não existe aqui uma conclusão moral.

Existe um paradoxo.

O caráter precisa de tempo.

A aura pode ser instantânea.

A memória precisa de duração.

A circulação precisa apenas de próximo.

O vínculo precisa de outro.

A plataforma precisa de fluxo.

E nós?

Nós estamos aqui, produzindo mais um texto sobre tudo isso, através de uma ferramenta que acelera a linguagem, enquanto tentamos não confundir a velocidade da formulação com a velocidade da existência.

Talvez seja por isso que a Loka do Rolê não tenha uma receita.


Só uma pergunta.

Não para o jovem.

Não para o velho.

Não para o algoritmo.

Não para a tecnologia.

Nem sequer para a própria Loka.

Para todos.


COMO VOCÊ SABE?


Porque talvez a coisa mais estranha do nosso tempo não seja que todo mundo queira ser visto.

Talvez seja que todo mundo precise ser visto para não desaparecer, justamente quando nunca foi tão fácil desaparecer depois de ser visto.

E aí, meu amigo, temos o paradoxo:

a visibilidade prometeu memória e entregou circulação.

O aplauso prometeu reconhecimento e pode entregar apenas mais uma notificação.

A técnica prometeu conexão e pode entregar contato.

A nostalgia prometeu passado e pode entregar uma versão editada dele.

A crítica prometeu lucidez e pode virar conteúdo.

E até este texto, se tiver algum azar, pode ser compartilhado milhares de vezes e esquecido amanhã.

O que seria, convenhamos, uma maneira bastante contemporânea de farmar aura.

E desaparecer.


NOTA DO AUTOR — MPI:

Este texto não é aconselhamento psicológico, não constitui orientação clínica e não substitui acompanhamento psicológico ou qualquer modalidade de cuidado profissional.

Integra o arquivo crítico do projeto Mais Perto da Ignorância (MPI) e utiliza Psicologia, Psicologia Social, Psicanálise, Sociologia e Filosofia como instrumentos de tensão e investigação, não como dispositivos de diagnóstico ou prescrição.

O Código de Ética Profissional do Psicólogo estabelece, entre seus princípios fundamentais, a responsabilidade social, a análise crítica e histórica da realidade política, econômica, social e cultural e a consideração das relações de poder nos contextos de atuação.

A finalidade deste texto não é produzir alívio imediato.

É produzir pensamento.

E, se possível, impedir que uma opinião bem editada seja confundida com conhecimento.


REFERÊNCIAS:

ARONSON, Elliot; ARONSON, Joshua. O animal social. Tradução de Marcello Borges. São Paulo: Goya; Aleph, 2023. 504 p. A edição brasileira corresponde à 12ª edição de The Social Animal.

BAUMAN, Zygmunt. Retrotopia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2017.

BECKER, Ernest. A negação da morte. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva. Rio de Janeiro: Record.

BRASIL. CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Resolução CFP nº 010/2005. Brasília, DF: CFP, 2005.

HAN, Byung-Chul. Não-coisas: reviravoltas do mundo da vida. Tradução de Rafael Rodrigues Garcia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022.

IBGE. Censo Demográfico 2022: fecundidade e migração — resultados preliminares da amostra. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.

IBGE. Projeções da População: Brasil e Unidades da Federação — revisão 2024. Rio de Janeiro: IBGE.

SHAUGHNESSY, John J.; ZECHMEISTER, Eugene B.; ZECHMEISTER, Jeanne S. Metodologia de pesquisa em psicologia. Material integrante do acervo utilizado pelo MPI. A obra enfatiza ceticismo científico, evidências convergentes, formulação de hipóteses e distinção entre descrição, previsão e relações causais.

VÍDEO-TRIGGER / DISCURSO ANALISADO:

https://www.instagram.com/reel/DaP0FkMxcyW

https://www.instagram.com/reel/DaP0FkMxcyW?utm_source=chatgpt.com

IBGE — dados demográficos utilizados para contextualização material:

https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/22827-censo-demografico-2022.html


https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/22827-censo-demografico-2022.html?utm_source=chatgpt.com 


MINI BIO

José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo (CRP — Ativo), pesquisador e autor do projeto Mais Perto da Ignorância, onde investiga, com ironia e rigor ético, os efeitos dos discursos contemporâneos sobre a subjetividade, a escuta e o sofrimento humano.


#mpi

#alokadorole

@alokdorole_personagem

#maispertodaignorancia

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