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QUANDO A FOME VIRA “SENSAÇÃO”

QUANDO A FOME VIRA “SENSAÇÃO”



Corpo, materialidade e a pequena frase que tenta explicar uma realidade inteira

Este episódio do Caminhadas da Ignorância investiga o que acontece quando uma experiência material — fome, preço, dívida, trabalho, cansaço e falta de margem — é reduzida à palavra “sensação”. A Loka do Rolê atravessa corpo, condições materiais e discursividade digital para tensionar uma pergunta simples: o que aconteceu antes que essa sensação aparecesse?
Assista ao podcast:



Resumo

Uma transcrição curta circula no ambiente digital afirmando, em síntese, que os preços não teriam necessariamente aumentado na proporção percebida pelo consumidor e que parte da experiência de aperto econômico seria uma “sensação”, relacionada ao endividamento. O problema parece pequeno. Uma frase entre tantas outras. Mas é justamente nessa pequena operação discursiva que o fenômeno se torna interessante: o que acontece quando uma experiência individual é nomeada como sensação e, depois, essa mesma palavra passa a funcionar como explicação da realidade que a produziu?

Este artigo investiga essa questão a partir do protocolo do Mais Perto da Ignorância (MPI), partindo do corpo e das condições materiais antes de chegar ao discurso. O caso das Casas Bahia é utilizado como documento de investigação, não como prova de uma tese sobre a economia brasileira. São confrontados dados do IBGE, Banco Central e outras fontes públicas sobre inflação, trabalho, renda, endividamento e varejo. A análise também aproxima a questão de Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han, e de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, sem transformar nenhum dos autores em autoridade definitiva. A hipótese permanece aberta: talvez a chamada “sensação” econômica não seja simplesmente uma distorção subjetiva da realidade, mas a forma pela qual condições materiais alcançam o corpo e posteriormente são reorganizadas pela discursividade digital.


Introdução: antes da sensação, existe um corpo

Há frases que parecem pequenas demais para merecer investigação.

Esta é uma delas:

– “É só uma sensação.”

A frase poderia desaparecer rapidamente no fluxo de vídeos curtos, comentários, memes, notícias e opiniões que compõem a paisagem digital contemporânea. Mas alguma coisa nela incomoda.

Não necessariamente porque seja verdadeira ou falsa.

O incômodo começa antes.

Começa na pergunta sobre o que precisou acontecer para que uma experiência fosse chamada de sensação.

A transcrição que desencadeou esta investigação parte de uma afirmação econômica: os preços não estariam necessariamente mais altos na proporção percebida pelo brasileiro; haveria uma percepção de aumento, acompanhada pelo endividamento e pela dificuldade de consumo. Em outro momento, o discurso recorre ao caso das Casas Bahia como exemplo de uma suposta deterioração econômica.

A investigação poderia terminar rapidamente.

Seria possível escolher um lado.

Dizer que a fala está errada porque os preços aumentaram.

Ou dizer que ela está correta porque a inflação desacelerou.

Ou ainda escolher um terceiro caminho e transformar o fechamento de lojas em prova de uma crise econômica generalizada.

Nenhum desses movimentos interessa ao MPI.

Porque todos eles correm o risco de responder antes de perguntar.

O protocolo do projeto estabelece que toda hipótese deve ser tensionada por acontecimentos, documentos, pesquisas, observações e novas condições históricas. A hipótese não existe para ser preservada. Existe para ser colocada em risco. 

E o princípio da tensão residual acrescenta uma exigência ainda mais incômoda: uma explicação que elimina completamente as tensões do fenômeno provavelmente deixou de descrever o real para começar a impor uma interpretação. 

Então é preciso voltar.

Antes da sensação.

Antes da notícia.

Antes do comentário.

Antes da explicação.

Ao corpo.



1. A pergunta precisa ser deslocada

A primeira pergunta parece óbvia:

– “O brasileiro está sentindo que os preços aumentaram?”

Mas ela já contém uma decisão metodológica.

Ela coloca o problema dentro da experiência subjetiva.

O brasileiro está sentindo.

O brasileiro está percebendo.

O brasileiro está interpretando.

E, portanto, podemos começar a procurar um erro na percepção.

Mas o MPI dispõe de uma pergunta anterior:

– Quem definiu que o problema era a sensação?

Essa é a pergunta do Teste Kobayashi Maru: a própria definição do problema também é um objeto de investigação. 

Podemos reformular.

Em vez de perguntar:

– “Por que as pessoas têm a sensação de que tudo ficou mais caro?”

perguntamos:

– “Quais condições materiais podem produzir a experiência de que o custo da existência aumentou?”

E ainda:

– “Por que essa experiência passa a ser posteriormente nomeada como ‘sensação’?”

A diferença é enorme.

Na primeira formulação, investigamos o sujeito.

Na segunda, investigamos a relação entre sujeito e mundo.

Na terceira, investigamos também o discurso que interpreta essa relação.

É nesse deslocamento que o problema começa a ficar interessante.



2. Inflação menor não significa preço menor

Existe uma parte da transcrição que precisa ser tratada com cuidado.

A inflação pode desacelerar.

E isso é diferente de dizer que os preços retornaram ao ponto anterior.

A lógica é elementar, embora o discurso cotidiano frequentemente a comprima.

Se determinado produto custa R$ 10 e passa a custar R$ 12, ocorreu uma elevação de preço.

Se posteriormente passa a custar R$ 11,80, houve uma desaceleração ou redução em relação ao pico, dependendo do período e do produto.

Mas ele não voltou a custar R$ 10.

Portanto, inflação menor não significa necessariamente preços menores.

Essa distinção é fundamental para o nosso problema porque a experiência cotidiana não é construída apenas pela velocidade de variação do índice.

O indivíduo encontra preços concretos.

Compra alimentos concretos.

Paga contas concretas.

Usa transporte concreto.

Compra medicamentos concretos.

E depois precisa descobrir quanto dinheiro sobrou.

O índice de preços é uma medida agregada.

A vida econômica é experimentada em despesas particulares.

O IBGE registra justamente essa diversidade ao decompor a inflação por grupos de produtos e serviços. A leitura de um índice agregado não elimina as diferenças entre alimentação, habitação, transporte, saúde, educação, comunicação e outras despesas. O próprio IPCA é construído a partir de uma cesta ponderada de consumo. 

Portanto, dizer que uma pessoa “está apenas sentindo” que a vida ficou mais cara exige muito mais demonstração do que simplesmente apresentar uma taxa de inflação corrente.

É necessário investigar o que essa pessoa compra, quanto ganha, quanto deve, quanto paga e quanto sobra.


3. A renda também não conta toda a história

Aqui surge outro problema.

Os indicadores de mercado de trabalho de 2026 não sustentam uma narrativa simples de colapso.

No trimestre encerrado em junho, a taxa de desocupação chegou a 5,4%, com aproximadamente 103,1 milhões de pessoas ocupadas. O rendimento real habitual também apresentou crescimento em relação ao ano anterior. 

Isso é importante.

Porque seria igualmente equivocado construir a narrativa:

– “O brasileiro está sofrendo porque não existe emprego.”

Os dados não permitem essa generalização.

Mas também não podemos cometer o erro inverso:

– “Como o desemprego está baixo e o rendimento médio aumentou, a experiência de aperto econômico é apenas psicológica.”

Não.

O mercado de trabalho é heterogêneo.

A taxa de desemprego é uma medida agregada.

O rendimento médio é uma média.

As condições concretas de trabalho variam.

A informalidade continua relevante. No trimestre encerrado em abril, por exemplo, o IBGE registrava taxa de informalidade de 37,2%, equivalente a aproximadamente 38,1 milhões de trabalhadores informais. 

Isso não autoriza concluir que a informalidade seja, isoladamente, a causa da experiência de insegurança econômica.

Mas impede uma leitura simplista de que “emprego” seja uma condição homogênea.

Ter trabalho não significa necessariamente ter previsibilidade.

Ter renda não significa necessariamente ter margem.

Ter rendimento real maior não significa necessariamente possuir dinheiro livre depois das obrigações.

E é aqui que a palavra sobra começa a importar.


4. Quanto sobra depois que a vida acontece?

Essa talvez seja a pergunta mais importante que surgiu durante toda a investigação.

Não:

– “Quanto o brasileiro ganha?”

Mas:

– “Quanto sobra depois que o brasileiro paga para continuar existindo?”

O problema é que os grandes indicadores econômicos não respondem diretamente a essa pergunta para cada indivíduo.

O IBGE possui uma fonte particularmente importante para aproximar essa questão: a Pesquisa de Orçamentos Familiares.

Na POF 2017–2018, o IBGE identificou algo que deveria impedir qualquer utilização superficial da palavra “sensação”.

Entre os 10% da população com menores rendimentos, a renda disponível per capita era de R$ 244,60, enquanto a renda mínima que essas pessoas declaravam necessária para chegar ao fim do mês era de R$ 470,29.

Ou seja: naquele grupo, a renda considerada necessária era quase o dobro da renda disponível. 

Isso merece ser lido lentamente.

O IBGE não está dizendo:

– “essas pessoas sentiram que eram pobres.”

Está registrando duas coisas diferentes:

uma condição de renda disponível

e

uma avaliação subjetiva sobre o que seria necessário para chegar ao fim do mês.

Aqui, pela primeira vez, a subjetividade não aparece como inimiga da materialidade.

Ela aparece dentro de uma pesquisa sobre a materialidade.

A própria avaliação subjetiva se torna um dado.

Esse é um ponto metodológico muito importante.

A sensação não é automaticamente realidade.

Mas também não é automaticamente ilusão.

Ela pode ser uma variável da relação entre sujeito e condições de existência.


5. Trinta por cento não estavam simplesmente “imaginando”

A mesma POF encontrou que aproximadamente 30% da população com menores rendimentos vivia, naquele período, com menos do que considerava necessário para chegar ao fim do mês. 

Isso não significa que possamos transportar esses números diretamente para 2026.

E esse cuidado precisa permanecer explícito.

A POF 2017–2018 não é uma fotografia de agosto de 2026.

Não devemos corrigir seus valores monetários mecanicamente e fingir que obtivemos a realidade atual.

O que podemos fazer é reconhecer a importância metodológica da pesquisa:

ela demonstrou empiricamente que renda disponível e renda percebida como necessária podem divergir de maneira substantiva.

A experiência de falta, portanto, pode possuir uma dimensão subjetiva sem ser produzida exclusivamente por processos subjetivos.

É exatamente aqui que o discurso “é só sensação” começa a falhar como explicação.

Porque uma sensação pode estar equivocada.

Mas uma sensação também pode estar respondendo a uma diferença material real.


6. O endividamento muda a equação

Agora entra o Banco Central.

O Relatório de Política Monetária de junho de 2026 registrou endividamento das famílias de 49,8% da renda anual em março e comprometimento de renda de 29,3%. O próprio Banco Central observa que esses indicadores permaneciam elevados. 

Aqui aparece uma distinção que o cotidiano conhece muito bem, mas os discursos econômicos frequentemente comprimem:

– renda não é dinheiro disponível.

E dinheiro disponível não é necessariamente:

– dinheiro livre.

Uma pessoa pode receber seu salário.

Mas uma parte desse salário pode já estar comprometida com parcelas.

Outra parte vai para moradia.

Outra para alimentação.

Outra para transporte.

Outra para saúde.

Outra para educação.

Outra para energia.

E aquilo que resta precisa sustentar o restante da existência.

O indivíduo não experimenta:

– “29,3% de comprometimento de renda.”

Ele experimenta:

– “Tenho uma parcela para pagar.”

Ou:

– “Meu cartão veio alto.”


Ou:

– “Se acontecer alguma coisa neste mês, não sei como vou fazer.”


A estatística e a experiência não são a mesma coisa.

Mas uma pode ajudar a explicar a outra.


7. O crédito: quando comprar não significa necessariamente ter dinheiro

É aqui que as Casas Bahia entram de maneira particularmente interessante.

Durante décadas, a empresa construiu uma identidade comercial associada ao acesso ao consumo por meio de crédito e parcelamento.

Isso é importante porque o crédito produz uma transformação temporal.

O consumidor não precisa possuir hoje toda a renda correspondente ao preço da mercadoria.

Ele pode transformar parte da renda futura em capacidade de consumo presente.

É possível comprar hoje e pagar depois.

O objeto chega antes.

O pagamento continua.

Essa diferença não é pequena.

Ela cria uma experiência particular:

– “Eu consigo comprar.”

Mas não necessariamente significa:

–“Eu tenho dinheiro suficiente para comprar.”

Essa distinção permite compreender melhor o que chamamos anteriormente de sensação de poder aquisitivo.

Não utilizamos essa expressão como conceito econômico estabelecido.

Ela é uma hipótese descritiva:

– o crédito pode ampliar a capacidade imediata de acesso ao consumo sem que exista aumento equivalente da renda disponível.

Não há nada de misterioso nisso.

É uma operação temporal.

A renda futura é comprometida para permitir consumo presente.

E o sistema funciona enquanto a capacidade futura de pagamento permanece suficientemente estável.

Quando essa capacidade se deteriora, o mesmo mecanismo que ampliou o acesso pode se converter em comprometimento.

É aí que crédito e sensação de poder de compra podem se transformar em dívida e sensação de falta.


8. Casas Bahia: o acontecimento não prova o que os comentários querem provar

Em agosto de 2026, o Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial, apresentando passivo de aproximadamente R$ 17,3 bilhões. O processo ocorre em meio a um plano de reestruturação que inclui fechamento de 298 lojas e redução da operação. 

Isso é acontecimento material.

Não é sensação.

A empresa existe.

As lojas existem.

Os trabalhadores existem.

As dívidas existem.

A recuperação judicial existe.

Mas daqui não se pode concluir automaticamente:

– “A economia brasileira está quebrada.”

Essa conclusão seria um salto.

A própria crise da companhia envolve uma combinação de fatores: juros, restrição de crédito, custos, estrutura operacional, dívida, decisões empresariais e problemas de gestão. Especialistas ouvidos pela imprensa também apontaram fatores internos da companhia e o atraso em processos de modernização. 

E existe um dado particularmente importante.

O varejo brasileiro não desapareceu.

Em maio de 2026, o IBGE registrou crescimento de 0,1% no comércio varejista na comparação mensal e de 1,7% no acumulado do ano. Dentro do grupo de móveis e eletrodomésticos, o volume cresceu 3,0% no acumulado do ano e 3,8% em 12 meses. Entre os eletrodomésticos, o crescimento foi de 5,5% no ano e 7,0% em 12 meses. 

Isso é um problema para qualquer narrativa simples.

Casas Bahia em crise não significa que o brasileiro deixou de comprar eletrodomésticos.

O consumo continua.

O que pode estar mudando é:

quem vende;

onde vende;

como vende;

como financia;

quanto custa vender;

quanto custa manter lojas;

como funciona a logística;

como a tecnologia reorganiza o comércio.

A crise de uma empresa não é automaticamente a crise de todo o circuito econômico.


9. A loja fecha, mas o desejo de consumo permanece

É nesse ponto que os comentários digitais que acompanhamos se tornam documentos interessantes.

Alguns usuários dizem que compram pela Internet.

Outros atribuem o fechamento das lojas ao crescimento do comércio eletrônico.

Outros mencionam Mercado Livre, Amazon ou Shopee.

Outros responsabilizam governo.

Outros responsabilizam a própria administração da empresa.

Outros dizem que é “só sensação”.

Nenhum comentário isolado representa a população brasileira.

Não temos uma amostra probabilística.

Não sabemos a distribuição de perfis dos comentaristas.

Não sabemos o efeito do algoritmo na seleção daquilo que aparece mais.

Não podemos transformar comentário em pesquisa de opinião.

Mas podemos tratá-los como rastros discursivos.

E esses rastros revelam uma coisa:

o mesmo acontecimento material está sendo utilizado para produzir explicações diferentes.

A loja fecha.

A explicação se multiplica.


10. O digital não produz necessariamente o acontecimento

Aqui precisamos evitar outro erro.

Seria tentador afirmar:

– “As redes sociais produzem a sensação econômica.”

Não temos evidência para isso.

O mais prudente é dizer:

– as redes sociais oferecem um espaço no qual experiências econômicas podem ser nomeadas, disputadas, amplificadas e reorganizadas discursivamente.

Isso é diferente.

O sujeito pode chegar ao ambiente digital já preocupado.

Já endividado.

Já cansado.

Já percebendo que o dinheiro não está dando.

A plataforma não precisa ter criado essas condições.

Ela pode oferecer uma gramática para interpretá-las.

E então aparecem:

– “A culpa é do governo.”


–“A culpa é da empresa.”


– “É a Internet.”


– “É o capitalismo.”


– “É o endividamento.”


–“A economia está voando.”


– “A economia está quebrada.”


– “É só sensação.”

O ambiente digital transforma a experiência em disputa de significados.


11. O pequeno discurso contra a população inteira

Aqui precisamos recolocar a dimensão do recorte.

A transcrição é pequena.

Ela não é “o Brasil”.

Ela não é “a população”.

Ela não é “a maioria”.

Ela é um fragmento.

Mas o fragmento pode ser metodologicamente interessante porque mostra uma operação discursiva.

E talvez essa seja a forma correta de lidar com discursos digitais.

Não perguntar:

– “Isso representa todos?”

Quase nunca representa.

Perguntar:

– “Que operação discursiva este fragmento torna visível?”


Neste caso:

– uma experiência econômica pode ser deslocada para o campo da sensação.


E, quando isso acontece, uma pergunta surge:

– o que deixa de ser investigado?


12. A sensação pode ser real sem ser explicação suficiente

Esse talvez seja o ponto mais importante de todo o artigo.

Precisamos abandonar a falsa oposição:

sensação versus realidade.

Uma sensação é uma experiência.

A realidade material é uma condição.

As duas coisas podem coexistir.

Uma pessoa pode sentir medo de perder o emprego.

Esse medo não prova que ela perderá o emprego.

Mas também não significa que o medo surgiu do nada.

Ela pode trabalhar em um setor instável.

Pode estar endividada.

Pode não ter reserva.

Pode sustentar outras pessoas.

Pode depender daquele salário para pagar medicamentos.

A experiência subjetiva não é uma fotografia objetiva do futuro.

Mas ela está situada em condições concretas.

Portanto:

– não devemos transformar sensação em prova.


Mas também:

– não devemos transformar sensação em desmentido.


13. A fome é o teste de resistência

É aqui que a Loka do Rolê provavelmente faria a pergunta mais simples.

– “A sensação de fome é só sensação?”


A pergunta parece ridícula.

Porque o corpo está ali.

O organismo precisa de energia.

A fome possui uma dimensão fisiológica.

Mas a história não termina no organismo.

É preciso perguntar:

Quem tem comida?

Quem consegue comprar?

Quanto custa?

Onde está o alimento?

Quanto tempo a pessoa tem para cozinhar?

Quanto tempo ela passa trabalhando?

Quanto custa o transporte até o supermercado?

Quanto custa o gás?

Quanto custa morar?

Quanto custa armazenar?

Quanto custa comer fora?

Quanto tempo existe entre receber e precisar pagar?

A fome começa no corpo.

Mas sua distribuição social não é produzida apenas pelo corpo.

É aí que o eixo psicobiossocial se torna efetivamente material.


14. Vidas Secas: quando o corpo sabe antes da teoria

É impossível não lembrar de Graciliano Ramos.

Em Vidas Secas, a fome não aparece como uma tese sobre percepção.

Ela aparece como condição de existência.

A seca não é uma metáfora motivacional.

É território.

A fome não é uma crença.

É corpo.

A falta de recursos não é uma “mentalidade de escassez”.

É uma condição material.

Fabiano não precisa consultar uma rede social para saber que alguma coisa está errada.

O corpo registra.

A sede registra.

A fome registra.

O cansaço registra.

O animal registra.

A paisagem registra.

O romance permite enxergar uma coisa que a discursividade contemporânea frequentemente tenta ocultar: há condições que chegam ao corpo antes que consigamos transformá-las em discurso.

Essa é uma aproximação literária, não uma equivalência histórica.

Não estamos dizendo que o Brasil de Fabiano é o Brasil de 2026.

Seria absurdo.

Estamos colocando os dois diante da mesma pergunta metodológica:

> até que ponto uma experiência corporal pode ser separada das condições materiais que a produziram?


15. E então Han retorna

Byung-Chul Han ajuda a deslocar a investigação para outro ponto.

Em Sociedade do Cansaço, o problema não é simplesmente trabalhar muito.

É uma organização social em que o desempenho, a produtividade e a autoexploração passam a ocupar lugar central.

Mas o MPI precisa impedir que Han seja utilizado como explicação universal.

Não basta dizer:

– “O sujeito está cansado porque vive na sociedade do cansaço.”


Isso é abstrato demais.

Precisamos perguntar:

quanto ele trabalha?

quanto tempo perde no transporte?

quanto dorme?

quanto recebe?

quanto está endividado?

quanto tempo possui para comer?

quanto tempo possui para cuidar de alguém?

quanto tempo possui para não fazer nada?

A tese filosófica encontra o corpo.

É nesse encontro que ela pode permanecer útil.

Ou ser abandonada.

O princípio dos “Cadáveres Discursivos” do MPI estabelece justamente isso: autores não ocupam posição privilegiada. Freud, Marx, Han, Cioran, Kierkegaard, Green e outros entram na investigação como interlocutores históricos, não como autoridades que encerram o acontecimento. O acontecimento possui precedência sobre o autor. 

Han não explica o brasileiro.

O brasileiro obriga Han a ser interrogado.


16. O tempo também é dinheiro, mas não apenas

Talvez uma das coisas mais apagadas nessa discussão seja o tempo.

A pessoa não paga apenas com dinheiro.

Paga com tempo.

Tempo de trabalho.

Tempo de deslocamento.

Tempo de espera.

Tempo de cuidado.

Tempo de sono.

Tempo para comprar.

Tempo para cozinhar.

Tempo para procurar preço.

Tempo para pagar dívida.

Tempo para recuperar o corpo.

Quando o orçamento aperta, a organização do tempo também pode se modificar.

Uma compra mais barata pode exigir mais deslocamento.

Um alimento mais barato pode exigir mais tempo de preparação.

Um serviço público pode reduzir uma despesa financeira e aumentar o tempo de espera.

Uma compra online pode reduzir deslocamento e transferir parte do trabalho para o consumidor: pesquisar, comparar, escolher, acompanhar entrega, resolver devolução.

Portanto, o custo da existência não cabe integralmente numa etiqueta de preço.

E isso é importante porque a palavra “sensação” pode apagar justamente esses custos invisíveis.


17. A Casas Bahia como documento de transformação

É por isso que a Casas Bahia não deve ser tratada apenas como exemplo de “crise”.

Ela funciona melhor como documento de uma transformação.

Historicamente, a empresa esteve associada ao consumo popular e ao crédito.

Agora enfrenta uma reestruturação profunda, enquanto o comércio eletrônico e outras formas de venda modificam a organização do varejo.

O problema deixa de ser apenas:

– “A pessoa ainda compra?”


E passa a ser:

– “Como a pessoa compra?”


Depois:

– “Como ela financia?”


Depois:

– “Quem controla essa operação?”


Depois:

– “Que trabalhos desaparecem?”



E:

– “Que trabalhos aparecem?”


E:

– “O que acontece com o território quando a loja desaparece?”


E finalmente:

– “O que acontece com o corpo quando a experiência de consumo é deslocada para uma interface?”


Não porque a tecnologia seja um sujeito.

Ela não é.

O princípio da parcimônia material exige justamente que não atribuamos intenção, vontade ou consciência a sistemas técnicos sem demonstração. A técnica continua sendo técnica; o discurso pode transformá-la simbolicamente em sujeito. 

Portanto, não foi “a Internet” que decidiu acabar com as lojas.

Existem empresas, decisões administrativas, custos, tecnologias, consumidores, plataformas, infraestrutura logística, crédito e formas de organização econômica.

A técnica é parte do circuito.

Não é seu personagem.


18. O paradoxo do poder de compra

Retornemos ao crediário.

A pessoa possui pouca renda disponível.

Mas consegue parcelar.

Compra.

Experimenta acesso.

Pode sentir:

– “Eu consigo.”


Depois as parcelas chegam.

A renda futura já possui destino.

O dinheiro disponível diminui.

Pode surgir:

– “Não estou conseguindo.”


Não precisamos transformar isso numa teoria psicológica fechada.

Basta reconhecer uma estrutura econômica simples:

o crédito desloca o pagamento no tempo.

E essa temporalização pode ser experimentada subjetivamente.

O consumo presente pode coexistir com comprometimento futuro.

Por isso, a expansão do consumo não é automaticamente sinônimo de aumento proporcional do poder aquisitivo.

E a restrição do consumo não é automaticamente prova de desaparecimento do desejo.

Entre as duas coisas existe o crédito.

Existe a renda.

Existe a dívida.

Existe o preço.

Existe o tempo.


19. A contradição que os dados preservam

É justamente por isso que os indicadores de 2026 são tão interessantes.

Temos um mercado de trabalho relativamente forte.

Temos crescimento real do rendimento.

Temos varejo ainda crescendo em determinados segmentos.

Temos eletrodomésticos com crescimento relevante.

E, simultaneamente, temos endividamento elevado e comprometimento de renda elevado.

Temos uma grande varejista entrando em recuperação judicial.

Não existe contradição necessária nisso.

Existe complexidade.

Uma economia pode produzir crescimento agregado e, simultaneamente, produzir experiências muito diferentes entre grupos sociais.

Uma empresa pode entrar em crise enquanto seu setor ainda vende.

A inflação pode desacelerar enquanto o nível de preços permanece alto.

A renda média pode crescer enquanto parte da população continua com margem estreita.

O emprego pode crescer enquanto persistem informalidade e desigualdades.

O crédito pode ampliar consumo enquanto aumenta o comprometimento futuro.

A realidade não é obrigada a caber numa frase de quinze segundos.

Talvez esse seja justamente o problema.


13. A fome é o teste de resistência

É aqui que a Loka do Rolê provavelmente faria a pergunta mais simples.

– “A sensação de fome é só sensação?”


A pergunta parece ridícula.

Porque o corpo está ali.

O organismo precisa de energia.

A fome possui uma dimensão fisiológica.

Mas a história não termina no organismo.

É preciso perguntar:

Quem tem comida?

Quem consegue comprar?

Quanto custa?

Onde está o alimento?

Quanto tempo a pessoa tem para cozinhar?

Quanto tempo ela passa trabalhando?

Quanto custa o transporte até o supermercado?

Quanto custa o gás?

Quanto custa morar?

Quanto custa armazenar?

Quanto custa comer fora?

Quanto tempo existe entre receber e precisar pagar?

A fome começa no corpo.

Mas sua distribuição social não é produzida apenas pelo corpo.

É aí que o eixo psicobiossocial se torna efetivamente material.


14. Vidas Secas: quando o corpo sabe antes da teoria

É impossível não lembrar de Graciliano Ramos.

Em Vidas Secas, a fome não aparece como uma tese sobre percepção.

Ela aparece como condição de existência.

A seca não é uma metáfora motivacional.

É território.

A fome não é uma crença.

É corpo.

A falta de recursos não é uma “mentalidade de escassez”.

É uma condição material.

Fabiano não precisa consultar uma rede social para saber que alguma coisa está errada.

O corpo registra.

A sede registra.

A fome registra.

O cansaço registra.

O animal registra.

A paisagem registra.

O romance permite enxergar uma coisa que a discursividade contemporânea frequentemente tenta ocultar: há condições que chegam ao corpo antes que consigamos transformá-las em discurso.

Essa é uma aproximação literária, não uma equivalência histórica.

Não estamos dizendo que o Brasil de Fabiano é o Brasil de 2026.

Seria absurdo.

Estamos colocando os dois diante da mesma pergunta metodológica:

– até que ponto uma experiência corporal pode ser separada das condições materiais que a produziram?


15. E então Han retorna

Byung-Chul Han ajuda a deslocar a investigação para outro ponto.

Em Sociedade do Cansaço, o problema não é simplesmente trabalhar muito.

É uma organização social em que o desempenho, a produtividade e a autoexploração passam a ocupar lugar central.

Mas o MPI precisa impedir que Han seja utilizado como explicação universal.

Não basta dizer:

– “O sujeito está cansado porque vive na sociedade do cansaço.”


Isso é abstrato demais.

Precisamos perguntar:

quanto ele trabalha?

quanto tempo perde no transporte?

quanto dorme?

quanto recebe?

quanto está endividado?

quanto tempo possui para comer?

quanto tempo possui para cuidar de alguém?

quanto tempo possui para não fazer nada?

A tese filosófica encontra o corpo.

É nesse encontro que ela pode permanecer útil.

Ou ser abandonada.

O princípio dos “Cadáveres Discursivos” do MPI estabelece justamente isso: autores não ocupam posição privilegiada. Freud, Marx, Han, Cioran, Kierkegaard, Green e outros entram na investigação como interlocutores históricos, não como autoridades que encerram o acontecimento. O acontecimento possui precedência sobre o autor. 

Han não explica o brasileiro.

O brasileiro obriga Han a ser interrogado.


16. O tempo também é dinheiro, mas não apenas

Talvez uma das coisas mais apagadas nessa discussão seja o tempo.

A pessoa não paga apenas com dinheiro.

Paga com tempo.

Tempo de trabalho.

Tempo de deslocamento.

Tempo de espera.

Tempo de cuidado.

Tempo de sono.

Tempo para comprar.

Tempo para cozinhar.

Tempo para procurar preço.

Tempo para pagar dívida.

Tempo para recuperar o corpo.

Quando o orçamento aperta, a organização do tempo também pode se modificar.

Uma compra mais barata pode exigir mais deslocamento.

Um alimento mais barato pode exigir mais tempo de preparação.

Um serviço público pode reduzir uma despesa financeira e aumentar o tempo de espera.

Uma compra online pode reduzir deslocamento e transferir parte do trabalho para o consumidor: pesquisar, comparar, escolher, acompanhar entrega, resolver devolução.

Portanto, o custo da existência não cabe integralmente numa etiqueta de preço.

E isso é importante porque a palavra “sensação” pode apagar justamente esses custos invisíveis.


17. A Casas Bahia como documento de transformação

É por isso que a Casas Bahia não deve ser tratada apenas como exemplo de “crise”.

Ela funciona melhor como documento de uma transformação.

Historicamente, a empresa esteve associada ao consumo popular e ao crédito.

Agora enfrenta uma reestruturação profunda, enquanto o comércio eletrônico e outras formas de venda modificam a organização do varejo.

O problema deixa de ser apenas:

– “A pessoa ainda compra?”


E passa a ser:

– “Como a pessoa compra?”


Depois:

– “Como ela financia?”


Depois:

– “Quem controla essa operação?”


Depois:

– “Que trabalhos desaparecem?”


E:

– “Que trabalhos aparecem?”


E:

– “O que acontece com o território quando a loja desaparece?”


E finalmente:

– “O que acontece com o corpo quando a experiência de consumo é deslocada para uma interface?”


Não porque a tecnologia seja um sujeito.

Ela não é.

O princípio da parcimônia material exige justamente que não atribuamos intenção, vontade ou consciência a sistemas técnicos sem demonstração. A técnica continua sendo técnica; o discurso pode transformá-la simbolicamente em sujeito. 

Portanto, não foi “a Internet” que decidiu acabar com as lojas.

Existem empresas, decisões administrativas, custos, tecnologias, consumidores, plataformas, infraestrutura logística, crédito e formas de organização econômica.

A técnica é parte do circuito.

Não é seu personagem.


18. O paradoxo do poder de compra

Retornemos ao crediário.

A pessoa possui pouca renda disponível.

Mas consegue parcelar.

Compra.

Experimenta acesso.

Pode sentir:

– “Eu consigo.”


Depois as parcelas chegam.

A renda futura já possui destino.

O dinheiro disponível diminui.

Pode surgir:

– “Não estou conseguindo.”


Não precisamos transformar isso numa teoria psicológica fechada.

Basta reconhecer uma estrutura econômica simples:

o crédito desloca o pagamento no tempo.

E essa temporalização pode ser experimentada subjetivamente.

O consumo presente pode coexistir com comprometimento futuro.

Por isso, a expansão do consumo não é automaticamente sinônimo de aumento proporcional do poder aquisitivo.

E a restrição do consumo não é automaticamente prova de desaparecimento do desejo.

Entre as duas coisas existe o crédito.

Existe a renda.

Existe a dívida.

Existe o preço.

Existe o tempo.


19. A contradição que os dados preservam

É justamente por isso que os indicadores de 2026 são tão interessantes.

Temos um mercado de trabalho relativamente forte.

Temos crescimento real do rendimento.

Temos varejo ainda crescendo em determinados segmentos.

Temos eletrodomésticos com crescimento relevante.

E, simultaneamente, temos endividamento elevado e comprometimento de renda elevado.

Temos uma grande varejista entrando em recuperação judicial.

Não existe contradição necessária nisso.

Existe complexidade.

Uma economia pode produzir crescimento agregado e, simultaneamente, produzir experiências muito diferentes entre grupos sociais.

Uma empresa pode entrar em crise enquanto seu setor ainda vende.

A inflação pode desacelerar enquanto o nível de preços permanece alto.

A renda média pode crescer enquanto parte da população continua com margem estreita.

O emprego pode crescer enquanto persistem informalidade e desigualdades.

O crédito pode ampliar consumo enquanto aumenta o comprometimento futuro.

A realidade não é obrigada a caber numa frase de quinze segundos.

Talvez esse seja justamente o problema.


20. A discursividade digital quer velocidade

O ambiente digital recompensa a compressão.

Uma explicação precisa caber.

Uma frase precisa vencer.

Um comentário precisa responder.

Um vídeo precisa concluir.

A complexidade não possui necessariamente a mesma velocidade de circulação.

“É o governo.”

“É a Internet.”

“É o capitalismo.”

“É a sensação.”

“É a crise.”

“Está tudo bem.”

Cada uma dessas frases reduz dezenas de variáveis a uma unidade discursiva.

Não precisamos afirmar que isso seja necessariamente manipulação.

Pode ser apenas a forma pela qual a comunicação digital organiza a atenção.

Mas o efeito metodológico é importante:

– quanto mais curta a explicação, maior a necessidade de investigar aquilo que ela precisou retirar do quadro para funcionar.


21. O que a palavra “sensação” pode apagar

Quando dizemos:

– “é só sensação”,


podemos apagar o preço.

Podemos apagar a dívida.

Podemos apagar a renda.

Podemos apagar o tempo.

Podemos apagar o trabalho.

Podemos apagar o território.

Podemos apagar a fome.

Podemos apagar o corpo.

E, paradoxalmente, podemos transformar uma experiência social em uma propriedade psicológica individual.

A pessoa deixa de ser alguém situado em condições econômicas específicas.

Passa a ser alguém que:

– “está sentindo errado.”


Esse deslocamento precisa ser investigado.

Não porque toda percepção seja correta.

Mas porque a desqualificação da percepção também é uma operação discursiva.


22. O contrário também precisa ser recusado

Existe uma armadilha simétrica.

Depois de criticar a expressão “é só sensação”, poderíamos concluir:

 “Então tudo que a pessoa sente é verdade.”


Também não.

Isso destruiria o próprio rigor do MPI.

Uma pessoa pode interpretar incorretamente uma mudança de preço.

Pode comparar produtos diferentes.

Pode lembrar seletivamente de preços passados.

Pode sofrer influência de notícias.

Pode estar mais atenta a determinados custos.

Pode generalizar uma experiência particular.

Pode atribuir causalidade onde existe apenas correlação.

Pode interpretar uma empresa em crise como prova da crise de todo o país.

Tudo isso é possível.

A sensação precisa ser investigada.

Não canonizada.

Esse é o lugar da pesquisa.


23. A materialidade também precisa ser interrogada

O dado não é uma divindade.

Um índice também é uma construção metodológica.

Uma média também seleciona.

Uma cesta também possui pesos.

Uma categoria estatística também possui critérios.

Uma pesquisa possui desenho amostral.

Uma base possui limites.

Por isso o MPI não substitui:

– “sensação”


por:

– “dado”.


Ele coloca os dois em relação.

Qual dado?

Medido como?

Em que período?

Para quem?

Em qual escala?

O que ele consegue mostrar?

O que ele não mostra?

Essa é a diferença entre investigação e disputa de narrativas.


24. O corpo continua sendo o teste final

Depois de todos os gráficos, índices e discursos, precisamos retornar à pergunta do protocolo:

– O corpo confirma aquilo que o discurso afirma?


Se alguém diz:

– “Está tudo bem.”


precisamos perguntar:

para quem?

Se alguém diz:

– “Está tudo ruim.”


perguntamos:

onde? em que dimensão?

Se alguém diz:

– “É só sensação.”


perguntamos:

qual condição material antecedeu essa sensação?

E se alguém diz:

– “Os dados mostram que está tudo bem.”


perguntamos:

quais dados?

O corpo não substitui a estatística.

A estatística não substitui o corpo.

O discurso não substitui nenhum dos dois.


25. A Loka do Rolê chega atrasada, como sempre

Ela olha para tudo.

Olha para o IPCA.

Olha para o Banco Central.

Olha para o IBGE.

Olha para as Casas Bahia.

Olha para os comentários.

Olha para o sujeito que diz:

– “É só sensação.”


E fala:

– “Meu amor...”


Pausa.

– “Não é que ele é pequeno.”


– “É a sensação.”


Pausa novamente.

– “Tá.”


– “Então me mostra quanto sobra.”


Silêncio.

Porque essa pergunta é muito menos engraçada do que parece.

Quanto sobra depois do aluguel?

Quanto sobra depois do mercado?

Quanto sobra depois do transporte?

Quanto sobra depois da dívida?

Quanto sobra depois do remédio?

Quanto sobra depois de trabalhar?

Quanto sobra depois de dormir pouco?

Quanto sobra depois de cuidar de alguém?

Quanto sobra do corpo?

Quanto sobra do tempo?

E então talvez ela complete:

– “Porque talvez o problema não seja o tamanho do dinheiro.”


– “Talvez seja o tamanho da vida que esse dinheiro precisa pagar.”


26. E Graciliano Ramos permanece no fundo da cena

Em Vidas Secas, não existe espaço para muita maquiagem discursiva.

A fome é fome.

A seca é seca.

O corpo está cansado.

O animal também sofre.

O trabalho não produz automaticamente emancipação.

A linguagem não consegue simplesmente resolver aquilo que a realidade material impõe.

Não devemos transformar o romance em relatório econômico.

Não é isso.

Mas a literatura produz uma espécie de teste de resistência para a nossa linguagem contemporânea.

Diante de Fabiano, a frase:

– “é só sensação”


fica quase indecente.

Porque sabemos que a sensação de fome possui um corpo.

E sabemos que aquele corpo está inserido em uma estrutura.

É justamente essa passagem que o MPI pretende preservar:

da sensação para o corpo;
do corpo para as condições materiais;
das condições materiais para a organização social;
da organização social para a técnica;
da técnica para o discurso;
e do discurso de volta ao sujeito.

Não para fechar o circuito.

Para descobrir onde ele falha.


27. A sociedade do cansaço encontra a vida concreta

Han permite outra pergunta:

Se a sociedade exige desempenho permanente, quem paga pelo desempenho?

O corpo.

Mas novamente:

não existe “o corpo” abstrato.

Existe o corpo de alguém.

Alguém que trabalha.

Que come.

Que dorme.

Que se desloca.

Que cuida.

Que envelhece.

Que adoece.

Que precisa continuar funcionando.

É aí que a crítica à performance precisa ser materializada.

A exigência de adaptação não pode ser tratada como virtude moral universal.

Nem todo mundo dispõe dos mesmos recursos para adaptar-se.

E mesmo quando dispõe, o custo da adaptação pode ser corporal.

Pode ser temporal.

Pode ser econômico.

Pode ser psíquico.

O MPI não pergunta:

–“Como se adaptar melhor?”


Essa seria outra conversa.

Pergunta:

– “Que estrutura está exigindo adaptação, de quem, a que custo e por quanto tempo?”


28. O problema não é a tecnologia

Também não precisamos transformar as Casas Bahia em símbolo de uma guerra contra a tecnologia.

Seria uma conclusão pobre.

O comércio digital pode reduzir determinados custos.

Pode ampliar acesso.

Pode alterar preços.

Pode facilitar comparação.

Pode diminuir deslocamentos.

Pode criar novos empregos.

Pode destruir outros.

Pode reorganizar cadeias logísticas.

Pode concentrar poder em plataformas.

Pode alterar relações de trabalho.

Pode transformar a experiência de compra.

Nada disso é automaticamente bom ou ruim.

A pergunta do MPI é:

– quais relações materiais são reorganizadas pela técnica?


Quem ganha?

Quem perde?

Quem trabalha mais?

Quem trabalha menos?

Quem controla os dados?

Quem controla a infraestrutura?

Quem assume os custos?

Quem captura o valor?

O dispositivo técnico não é o fim da investigação.

É uma camada.


29. A hipótese provisória

Depois de todo o percurso, a hipótese precisa permanecer aberta.

Não podemos afirmar que a expressão “é só sensação” seja deliberadamente uma estratégia de manipulação.

Não temos evidência suficiente para isso.

Também não podemos afirmar que toda sensação de aumento de preços corresponda diretamente a uma variação objetiva maior do que a registrada pelos índices.

Não temos essa conclusão.

O que podemos sustentar é algo mais específico:

– A experiência de aperto econômico não pode ser analisada adequadamente apenas pela categoria de sensação, porque essa experiência emerge da relação entre condições materiais, corpo, renda, preços, crédito, dívida, trabalho, tempo e organização social.


E podemos acrescentar:

– A discursividade digital pode posteriormente reorganizar essa experiência por meio de explicações concorrentes, transformando uma condição material complexa em narrativas condensadas como “crise”, “governo”, “Internet”, “endividamento”, “consumo” ou “sensação”.


Essa hipótese permanece aberta.

E precisa permanecer.


30. O que ainda não sabemos

Não sabemos, a partir desta investigação, quanto da percepção contemporânea de aumento do custo de vida corresponde a quais componentes específicos da cesta de cada faixa de renda.

Não sabemos, ainda, com dados completos e contemporâneos, quanto sobra efetivamente para cada faixa de renda depois das despesas essenciais e do serviço da dívida.

Não podemos usar a POF 2017–2018 como fotografia de 2026.

Não podemos transformar os comentários das redes sociais em pesquisa de opinião.

Não podemos usar a recuperação judicial da Casas Bahia como indicador suficiente da economia brasileira.

Não podemos usar a taxa de inflação agregada para explicar sozinha a experiência econômica de cada família.

E não podemos transformar sofrimento econômico em diagnóstico psicológico.

Esses limites não enfraquecem a investigação.

Eles fazem parte dela.

O princípio da tensão residual existe justamente para impedir que a hipótese seja fechada antes que as tensões tenham sido suficientemente examinadas. 


31. O que sabemos melhor agora

Sabemos que inflação desacelerada não significa necessariamente retorno dos preços aos níveis anteriores.

Sabemos que o mercado de trabalho brasileiro apresenta, em 2026, indicadores relativamente fortes de ocupação e rendimento.

Sabemos que o Banco Central registra níveis elevados de endividamento e comprometimento de renda das famílias.

Sabemos que a POF demonstrou, historicamente, uma diferença importante entre renda disponível e renda considerada necessária, especialmente nos estratos de menor rendimento.

Sabemos que o varejo continua apresentando crescimento em determinados segmentos, inclusive móveis e eletrodomésticos.

Sabemos que a Casas Bahia enfrenta uma crise empresarial grave e entrou em recuperação judicial.

Sabemos que acontecimentos como esse entram no ambiente digital e passam a receber explicações muito diferentes.

E sabemos que nenhuma dessas informações, isoladamente, explica toda a experiência econômica brasileira.

Talvez isso seja o máximo que os dados permitem afirmar neste momento.

E é bastante.


32. A pequena frase que abriu tudo

Voltamos, então, para a frase inicial:

– “É só sensação.”


Agora ela parece diferente.

Não porque tenhamos provado que seja mentira.

Mas porque conseguimos mostrar que ela não é suficiente como explicação.

Uma sensação pode existir.

Pode ser equivocada.

Pode ser precisa.

Pode ser parcial.

Pode ser produzida por uma combinação de fatores.

Pode ser reforçada por discursos.

Pode ser reinterpretada pelas redes.

Pode ser usada politicamente.

Pode ser corrigida por dados.

Pode também revelar aquilo que os dados agregados não capturam diretamente.

Mas não pode encerrar a investigação.

Porque a sensação não é o começo.

E tampouco é o fim.


Conclusão sem redenção: a loja fechou antes da legenda

Talvez seja possível resumir toda esta investigação em uma única frase:

– A loja fechou antes da legenda.


Antes que alguém dissesse:

– “é a crise.”


Antes que outro dissesse:

– “é a Internet.”


Antes que outro dissesse:

– “é o governo.”


Antes que outro dissesse:

– “é a sensação.”


Havia uma loja.

Havia trabalhadores.

Havia crédito.

Havia consumidores.

Havia mercadoria.

Havia dívida.

Havia aluguel.

Havia logística.

Havia um modelo empresarial.

Havia uma história.

Depois veio a interpretação.

É esse intervalo que interessa.

Porque a realidade não chega ao discurso como uma coisa pura.

Ela chega através de corpos.

De contas.

De horários.

De salários.

De dívidas.

De filas.

De compras.

De deslocamentos.

De cansaço.

De fome.

E só depois ganha palavras.

O problema começa quando a palavra passa a funcionar como substituta daquilo que deveria explicar.

Talvez seja isso que a pequena transcrição revela.

Não que toda sensação seja verdadeira.

Não que todo dado seja suficiente.

Não que a economia esteja necessariamente bem.

Não que esteja necessariamente mal.

Mas que existe uma disputa permanente pela definição daquilo que acontece.

E, nessa disputa, “sensação” pode ser uma descrição legítima da experiência subjetiva.

Mas também pode se transformar em uma forma de deslocar a pergunta.

Em vez de perguntar:

– “O que está acontecendo com esse corpo?”


pergunta-se:

– “Por que ele está sentindo assim?”


Em vez de investigar:

– “O que aconteceu com a renda disponível?”


investiga-se:

– “Por que ele acha que o dinheiro não dá?”


Em vez de perguntar:

– “Quanto custa continuar vivendo?”


pergunta-se:

– “Será que é apenas percepção?”


É aqui que a materialidade desaparece.

E talvez seja justamente por isso que o MPI precise voltar sempre a ela.

Não porque o corpo possua a última palavra.

Não porque a estatística possua a última palavra.

Não porque Marx, Freud, Han ou Graciliano Ramos possuam a última palavra.

Nenhum deles possui.

O acontecimento continua sendo maior que o discurso que tenta encerrá-lo.

A hipótese continua provisória.

A investigação continua aberta.

E a pergunta permanece:

– Quem definiu que o problema era a sensação do brasileiro — e não aquilo que aconteceu antes que ele sentisse?


Talvez a resposta ainda não esteja disponível.

E tudo bem.

Mais Perto da Ignorância não é chegar à resposta antes do fenômeno.

É permanecer tempo suficiente diante dele para descobrir onde a nossa primeira explicação começa a falhar.


Referências teóricas

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Relatório de Política Monetária: junho de 2026. Brasília, DF: Banco Central do Brasil, 2026.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Penguin-Companhia das Letras, 2011.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

MARX, Karl. Prefácio à contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Expressão Popular, edições diversas.

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, edições diversas.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.

SHaughnessy, John J.; ZECHMEISTER, Eugene B.; ZECHMEISTER, Jeanne S. Metodologia de pesquisa em psicologia. 9. ed. Porto Alegre: AMGH, 2012.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Resolução CFP nº 010/2005. Brasília, DF: CFP, 2005.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Inteligência artificial na Psicologia: guia para uma prática ética e responsável. Brasília, DF: CFP.

IBGE. Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018: perfil das despesas no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE.


Referências documentais e links utilizados

IBGE — IPCA e índices de preços

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/45832-em-janeiro-ipca-fica-em-0-33

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/45832-em-janeiro-ipca-fica-em-0-33?utm_source=chatgpt.com


IBGE — PNAD Contínua: mercado de trabalho

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-de-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/46890-com-taxa-de-5-8-desemprego-cresce-no-trimestre-encerrado-em-abril

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IBGE — PNAD Contínua: rendimento e informalidade

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/46888-pnad-continua-taxa-de-desocupacao-e-de-5-8-e-taxa-de-subutilizacao-e-de-13-8-no-trimestre-encerrado-em-abril

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/46888-pnad-continua-taxa-de-desocupacao-e-de-5-8-e-taxa-de-subutilizacao-e-de-13-8-no-trimestre-encerrado-em-abril?utm_source=chatgpt.com

Banco Central do Brasil — Relatório de Política Monetária, junho de 2026

https://www.bcb.gov.br/content/ri/relatorioinflacao/202606/rpm202606p.pdf

https://www.bcb.gov.br/content/ri/relatorioinflacao/202606/rpm202606p.pdf?utm_source=chatgpt.com

IBGE — Em maio, vendas no varejo variam 0,1%

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/47585-em-maio-vendas-no-varejo-variam-0-1-1

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/47585-em-maio-vendas-no-varejo-variam-0-1-1?utm_source=chatgpt.com

IBGE — POF 2017-2018: renda disponível e renda mínima

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/29490-pof-2017-2018-cerca-de-da-renda-disponivel-das-familias-brasileiras-e-nao-monetaria

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/29490-pof-2017-2018-cerca-de-da-renda-disponivel-das-familias-brasileiras-e-nao-monetaria?utm_source=chatgpt.com

IBGE — 30% da população com menores rendimentos vivem com menos que o necessário

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/29491-30-da-populacao-com-menores-rendimentos-vivem-com-menos-que-o-necessario

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/29491-30-da-populacao-com-menores-rendimentos-vivem-com-menos-que-o-necessario?utm_source=chatgpt.com

IBGE — Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018

https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/saude/24786-pof-2017-2018.html

https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/saude/24786-pof-2017-2018.html?utm_source=chatgpt.com

Casas Bahia — pedido de recuperação judicial

https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2026/08/17/casas-bahia-entra-em-recuperacao-judicial-para-renegociar-dividas.ghtm

https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2026/08/17/casas-bahia-entra-em-recuperacao-judicial-para-renegociar-dividas.ghtm?utm_source=chatgpt.com

Casas Bahia — crise, fechamento de lojas e modernização

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painelsa/2026/08/briga-familiar-atrasou-modernizacao-das-casas-bahia-e-contribuiu-com-a-crise-do-grupo-diz-especialista.shtml

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Casas Bahia — impacto sobre fornecedores

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/08/fornecedora-da-casas-bahia-positivo-diz-que-exposicao-ao-grupo-e-coberta-por-seguro-e-limitada.shtml

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/08/fornecedora-da-casas-bahia-positivo-diz-que-exposicao-ao-grupo-e-coberta-por-seguro-e-limitada.shtml?utm_source=chatgpt.com


Nota metodológica

Este texto não pretende transformar a transcrição analisada em representação da população brasileira. A transcrição e os comentários utilizados na investigação constituem material discursivo localizado. Os dados oficiais são utilizados para tensionar as afirmações e não para provar antecipadamente uma conclusão.

Os dados da POF 2017–2018 foram deliberadamente tratados como base histórica, não como fotografia econômica de 2026. A ausência de dados contemporâneos completos sobre orçamento doméstico foi mantida como limitação metodológica, em vez de preenchida por estimativas inventadas.

Da mesma forma, a recuperação judicial das Casas Bahia é tratada como acontecimento empresarial concreto, mas não como indicador suficiente da situação econômica nacional.

Essa distinção entre documento, dado, interpretação e hipótese é parte do próprio protocolo do MPI. O projeto estabelece que o fenômeno deve permanecer aberto à revisão e que nenhuma hipótese deve sobreviver apenas porque parece coerente.


Mini-bio

José Antônio Lucindo — Psicólogo CRP 06/172551

Autor do projeto Mais Perto da Ignorância (MPI) e da persona discursiva A Loka do Rolê.


Palavras-chave;

sensação; custo de vida; inflação; renda; endividamento; crédito; consumo; Casas Bahia; varejo; trabalho; corpo; subjetividade; psicobiossocial; discursividade digital; tecnologia; sociedade do cansaço; Vidas Secas; materialidade; Mais Perto da Ignorância.


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#mpimaispertodaignorancia
#maispertodaignorancia

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