Avançar para o conteúdo principal

A LOKA DO ROLÊ VISITA OS MORTOS: UM PASSEIO PELO TIKTOK, PELO TER, PELO SER E PELA ATENÇÃO QUE NÃO TEM TEMPO PARA EXISTIR




A LOKA DO ROLÊ VISITA OS MORTOS: UM PASSEIO PELO TIKTOK, PELO TER, PELO SER E PELA ATENÇÃO QUE NÃO TEM TEMPO PARA EXISTIR

Artigo crônico-ensaístico

Resumo

Este artigo nasce de uma observação exploratória realizada em transmissões ao vivo de uma plataforma digital de vídeos curtos, posteriormente identificada como TikTok. O acontecimento inicial não é tomado como representação da totalidade da plataforma, nem como evidência suficiente para generalizações sobre homens, mulheres, relacionamentos ou comportamento humano. Trata-se de uma experiência de observação situada, cuja finalidade é interrogar a forma assumida pelo discurso quando inserido em um ambiente caracterizado por circulação acelerada, fragmentação, classificação, performance e mecanismos algorítmicos de distribuição. A investigação parte da experiência auditiva do observador, mas suspende a própria percepção individual como critério de avaliação universal. O eixo de análise desloca-se, então, da intenção dos participantes para aquilo que pode ser observado na materialidade discursiva: uma pergunta sobre relacionamentos que progressivamente se dissolve em classificações morais, disputas identitárias e performances de gênero. A partir do princípio da parcimônia material do MPI, são tensionadas as relações entre corpo, condições materiais, organização social, técnica, discurso e discursividade digital. O texto também problematiza a chamada “atenção” produzida pelas plataformas, distinguindo exposição, engajamento e permanência. Ao final, propõe-se uma hipótese provisória: talvez a velocidade técnica não esteja apenas acelerando a circulação dos discursos, mas reduzindo o intervalo necessário para que uma pergunta permaneça tempo suficiente diante da própria materialidade que pretendia investigar.

Palavras-chave: discursividade digital; TikTok; atenção; algoritmo; relacionamento; desejo; demanda; materialidade; técnica; discurso; MPI; Loka do Rolê.



1. ANTES DE COMEÇAR, VAMOS COMBINAR UMA COISA

A Loka do Rolê resolveu visitar os mortos.

Não, calma.

Não estou falando de cadáver humano. Ainda não.

Estou falando de uma coisa talvez muito mais interessante: cadáver discursivo.

Aqueles discursos que aparecem, gritam, fazem pose, recebem atenção, são classificados, comentados, compartilhados, brigam por cinco minutos e, depois, desaparecem no buraco negro do próximo vídeo.

Aí eu pensei:

“Bom... já que eu gosto de mexer com coisa morta, deixa eu dar uma volta nesse tal de TikTok.”

E fui.

Sem pesquisa de campo no sentido clássico.

Sem pretensão de amostragem.

Sem achar que meia dúzia de lives constitui uma sociologia do planeta.

E, principalmente, sem pegar a fala de ninguém para transformar em diagnóstico de ninguém.

O que existiu foi uma experiência de observação.

Eu entrei.

Fui educado.

Fui recebido.

Observei.

Ouvi.

Cronometrei minhas próprias falas.

Percebi a duração das conversas.

Percebi os deslocamentos.

Percebi o momento em que uma pergunta desaparecia.

E foi aí que começou a ficar interessante.

Porque a pergunta não necessariamente era ruim.

O problema parecia estar no que acontecia depois que ela era feita.

E aqui precisamos parar.

Porque o MPI não permite que a gente comece pela teoria só porque a teoria está bonita na estante.

O Manual é bastante direto: nenhuma investigação começa pelo autor, pela conclusão ou pela teoria. Ela começa por um acontecimento observável. 

Então o acontecimento é simples:

uma experiência de observação em transmissões ao vivo, na qual uma pergunta sobre relacionamento foi progressivamente deslocada para outras formas de discurso.

Só isso.

Por enquanto.

Já é bastante.



2. A LOKA ENTROU NA LIVE E DESCOBRIU QUE A PERGUNTA TINHA MORRIDO

A pergunta era mais ou menos aquela coisa que parece simples até alguém tentar responder:

“O que você procura em uma mulher para construir um relacionamento?”

Pronto.

Parece fácil.

Tem gente que responde dinheiro.

Tem gente que responde beleza.

Tem gente que responde caráter.

Tem gente que responde companheirismo.

Tem gente que responde “olhar”.

Tem gente que responde “fidelidade”.

Tem gente que responde “que seja uma boa pessoa”.

E tem sempre alguém que aparece para dizer que o problema são as mulheres.

Ou os homens.

Ou o feminismo.

Ou o machismo.

Ou a geração atual.

Ou a geração passada.

Ou a falta de valores.

E, quando você percebe...

cadê a pergunta?

Sumiu.

Foi embora.

Pegou um ônibus.

Está em outro bairro.

A pergunta sobre relacionamento, que deveria produzir alguma elaboração sobre a relação entre duas pessoas, transforma-se em uma sucessão de classificações.

“Você é machista.”

“Você é feminista.”

“Ela é interesseira.”

“Ele é vagabundo.”

“Ela quer dinheiro.”

“Ele quer mulher bonita.”

E pronto.

Temos um espetáculo.

Só falta vender ingresso.

Mas aqui está a parte que interessa:

não estou dizendo que essas pessoas são isso.

Estou dizendo que essas categorias apareceram no discurso observado.

É uma diferença enorme.

A primeira frase seria uma atribuição sobre pessoas.

A segunda é uma observação sobre o material discursivo.

O MPI exige justamente essa honestidade metodológica: afirmar somente aquilo que os documentos permitem afirmar e reconhecer quando há indícios, hipóteses ou insuficiência documental. 

Então a Loka não sabe quem aquelas pessoas são.

Ela sabe o que ouviu.

E isso já é suficientemente perturbador.


3. QUANDO O OUTRO PRECISA TER ALGUMA COISA

Vamos voltar para a pergunta.

“Que homem você procura?”

“Que mulher você procura?”

E aqui aparece uma palavrinha inocente.

Ter.

Tem que ter isso.

Tem que ter aquilo.

Tem que ganhar tanto.

Tem que ser bonita.

Tem que ser trabalhador.

Tem que ser provedor.

Tem que ter dentes.

Tem que ter olhar.

Tem que ter caráter.

Tem que ter determinada idade.

Tem que ter determinada estrutura.

E eu fico olhando.

“Tá bom, meu irmão.”

Mas deixa eu perguntar uma coisa:

o que acontece com o outro depois que você termina de montar a lista?

Porque você já não está diante de uma pessoa.

Está diante de um conjunto de atributos.

E isso é interessante porque o outro começa a existir discursivamente como uma espécie de catálogo.

Tem isso?

Serve.

Não tem?

Próximo.

Aí a Loka olha para aquilo e pensa:

“Porra, isso aqui é relacionamento ou seleção de produto?”

Calma.

Não vamos concluir.

Pode ser apenas a forma de expressão daquele ambiente.

Mas a pergunta merece permanecer.

Porque existe uma diferença entre dizer:

 “Quero conhecer alguém.”

e dizer:

 “Quero alguém que tenha determinadas características para atender determinada expectativa.”


A primeira formulação deixa espaço para o encontro.

A segunda começa a organizar o encontro antes que ele aconteça.

E é justamente aí que aparece uma das tensões que atravessaram nossa conversa: quando o atributo deixa de ser apenas uma característica do outro e passa a funcionar como promessa de alguma coisa que o próprio sujeito espera receber.

Não sabemos se isso ocorre efetivamente na vida concreta daqueles participantes.

Não temos dados para isso.

Mas o discurso permite levantar a pergunta.

E a pergunta é mais interessante do que uma resposta pronta.



4. O PROBLEMA É QUE O OUTRO CONTINUA SENDO OUTRO

Aí vem a parte desagradável.

Você pode montar a lista inteira.

Pode fazer a planilha.

Pode colocar coluna.

Pode colocar filtro.

Pode colocar “homem ideal” e “mulher ideal”.

Pode até criar uma tabela dinâmica do amor.

O outro continua sendo outro.

E isso é um problema.

Porque a pessoa real não chega com a etiqueta:

> “Olá, sou exatamente aquilo que você imaginou.”



Ela chega com o que você não sabe.

Com aquilo que você não previu.

Com contradições.

Com hábitos.

Com corpo.

Com história.

Com necessidades.

Com limitações.

Com desejos que você não conhece.

E aí a materialidade começa a fazer uma coisa muito inconveniente:

ela desobedece ao discurso.

O discurso quer previsibilidade.

A existência entrega diferença.

E talvez seja exatamente por isso que a relação seja uma coisa tão complicada.

Não porque duas pessoas sejam iguais.

Mas justamente porque não são.

O problema metodológico aparece quando nós confundimos a representação que fazemos do outro com o próprio outro.

A representação é manejável.

O outro não.

A representação cabe numa frase.

O outro não.

A representação pode ser selecionada.

O outro pode contrariá-la.

E aqui a pergunta original começa a ficar mais interessante:

quando aquilo que justificava a aproximação deixa de produzir a satisfação esperada, o que acontece com a relação?

A nossa investigação não responde isso ainda.

Mas observamos uma possibilidade no discurso: aparece o ressentimento, a acusação, a classificação, o rebaixamento moral.

E quanto maior o rebaixamento moral, mais pobre parece ficar a elaboração.

Não porque as pessoas sejam pobres intelectualmente.

Mas porque o próprio discurso fica ocupado demais tentando determinar quem é o culpado para continuar investigando o que estava sendo discutido.


5. O GRANDE ESPETÁCULO DO “VOCÊ É”

É aqui que a coisa começa a ficar engraçada.

Você pergunta:

“Como construir uma relação?”

E alguém responde:

“Você é machista.”

Outra pessoa:

“Você é feminista.”

Outra:

“Você é interesseira.”

Outra:

“Você é vagabundo.”

A pergunta inicial?

Morta.

Enterrada.

Com certidão de óbito discursiva.

E ninguém foi obrigado a ser agressivo.

Isso é importante.

O fenômeno não precisa ser uma briga física para existir conflito.

Pode ser uma sucessão perfeitamente civilizada de classificações.

E isso talvez seja ainda mais interessante.

Porque a civilidade superficial não garante diálogo.

Duas pessoas podem falar educadamente e, ainda assim, não escutar uma à outra.

A pergunta pode continuar aberta enquanto as respostas se acumulam.

É possível ter cinquenta pessoas falando e nenhuma delas estar respondendo àquilo que a primeira perguntou.

Isso acontece também fora da internet, evidentemente.

A plataforma não inventou o ser humano.

Nem poderia.

Mas ela oferece um ambiente técnico específico para que determinados modos de circulação discursiva aconteçam.

E é aí que precisamos trazer a técnica.

Não como vilã.

Não como demônio algorítmico.

Não existe um pequeno capeta sentado dentro do servidor dizendo:

“Hoje vou destruir o diálogo amoroso dos brasileiros.”

Calma.

A técnica não precisa querer nada.

Ela simplesmente organiza possibilidades de circulação.

O próprio Manual do MPI estabelece que a técnica deve ser examinada antes de chegarmos à discursividade digital, e que o Feed deve ser entendido como uma função ambiental que altera tempo, atenção, memória e circulação da informação. 

E isso muda bastante a pergunta.


6. A TAL DA ATENÇÃO

Eu comecei a prestar atenção na atenção.

Olha que coisa ridícula.

Cronômetro ligado.

Quarenta segundos.

Cinquenta.

Um minuto.

Um minuto e vinte.

“É... não estende muito o pastel, não, meu irmão.”

Porque talvez ninguém consiga comer.

E aqui eu preciso tomar cuidado.

Não estou afirmando que existe um número universal mágico segundo o qual todo ser humano perde a capacidade de prestar atenção depois de um minuto e vinte.

Isso seria justamente o tipo de simplificação que o MPI manda evitar.

O que eu observei foi outra coisa:

naquele ambiente, a própria circulação parecia favorecer falas curtas, fragmentadas e rapidamente substituíveis.

Isso é diferente.

E a diferença importa.

Porque podemos começar a perguntar:

o que chamamos de atenção quando aquilo que recebe atenção não permanece tempo suficiente para ser elaborado?

Talvez a palavra “atenção” esteja carregando coisas diferentes.

Visualizar é atenção?

Comentar é atenção?

Curtir é atenção?

Responder é atenção?

Permanecer é atenção?

Lembrar amanhã é atenção?

Transformar aquilo em experiência material é atenção?

Não sei.

E talvez seja justamente por não saber que a pergunta interessa.

O Ministério da Saúde vem tratando o ambiente digital como questão relevante para a saúde mental e, em 2026, publicou relatório específico sobre o encontro “Saúde Mental no Mundo Digital”, reunindo especialistas, gestores, pesquisadores e comunicadores para discutir transformações contemporâneas desse ambiente. 

Isso não prova a nossa hipótese.

Nem deveria.

O documento serve como evidência de que o ambiente digital constitui um problema institucional e investigativo reconhecido, não como autorização para dizer que TikTok causa isso ou aquilo.

Essa diferença é importante.

Porque a Loka gosta de fazer barulho.

Mas o método não.



7. A ILUSÃO DE QUE ESTAMOS NOS RELACIONANDO

Talvez aqui esteja uma das conjecturas mais simples.

E justamente por isso eu gosto dela.

Exposição não é necessariamente relação.

Você vê.

Eu vejo.

Nós vemos.

Todo mundo vê.

E parece que estamos participando de alguma coisa.

Mas participação em fluxo não necessariamente significa permanência em relação.

Você pode entrar numa live.

Pode ser recebido.

Pode falar.

Pode ser respondido.

Pode responder.

Pode discordar.

Pode sair.

E daqui a três minutos ninguém sabe mais que você esteve lá.

Não estou dizendo que isso é ruim.

Nem bom.

Esse julgamento não nos serve.

É apenas uma característica possível de um ambiente cuja lógica é circulação.

E aí entra a Loka.

Ela olha para aquele palco e pensa:

“Visitei uma live dos mortos.”

Não porque as pessoas estejam mortas.

Mas porque os discursos podem morrer enquanto ainda estão sendo pronunciados.

A frase nasce.

Circula.

É substituída.

Outra frase aparece.

Outra.

Outra.

E outra.

O discurso não precisa ser destruído.

Ele pode simplesmente ser varrido pelo tempo técnico da plataforma.

É aqui que aquela conjectura sobre o Egito retorna.

Não para dizer que o TikTok é o Egito.

Pelo amor de Deus.

Não vamos cometer esse crime metodológico.

O que interessa é outra coisa:

nada é permanente.

Nem civilização.

Nem linguagem.

Nem casamento.

Nem plataforma.

Nem aplicativo.

Nem discurso.

Nem tendência.

Nem algoritmo.

Nem nós.

A diferença está na escala temporal.

Uma civilização pode atravessar milênios porque suas formas materiais, políticas, religiosas, econômicas e culturais podem ser reproduzidas, reorganizadas e transformadas ao longo do tempo.

Um discurso digital pode alcançar milhares de pessoas e desaparecer da circulação em poucas horas.

Então a pergunta não é:

 “O que é mais importante?”

A pergunta talvez seja:

 “Que tipo de permanência uma forma discursiva precisa para transformar atenção em experiência?”


8. A LOKA NÃO QUER SALVAR O DIÁLOGO

E aqui é onde alguém pode esperar uma conclusão bonitinha.

“Precisamos escutar mais.”

“Precisamos ter empatia.”

“Precisamos dialogar.”

“Precisamos desacelerar.”

Não.

Não necessariamente.

Isso já seria um dever ser.

E nós não estamos aqui para fabricar dever ser.

O silêncio que apareceu durante nossa própria investigação não é uma receita de comportamento.

É um elemento metodológico.

O próprio Manual estabelece que o silêncio possui função investigativa: nem toda pergunta exige resposta imediata, nem toda evidência permite conclusão, e a pausa pode representar tempo de elaboração ou insuficiência documental. 

Então talvez o silêncio seja menos uma virtude e mais uma condição de não preenchimento.

Um fala.

Outro fala.

Um terceiro fala.

E depois...

ninguém precisa imediatamente ocupar o espaço.

Porque, quando todo vazio precisa ser preenchido, o discurso não deixa espaço para que a fala anterior termine de existir.

E aí chegamos ao ponto que me interessa:

talvez o problema não seja a quantidade de discurso.

Talvez seja a velocidade com que um discurso precisa ser substituído por outro.


9. O TER, O SER E A ARMADILHA DA REPRESENTAÇÃO

Agora chegamos naquela parte em que a Loka começa a mexer onde não devia.

“Eu quero alguém que tenha.”

Tá.

Mas tenha o quê?

Dinheiro.

Beleza.

Caráter.

Olhar.

Dentes.

Estabilidade.

E aí vem a pergunta que incomoda:

o que esse ter representa?

Porque, se determinada característica do outro funciona como promessa de satisfação, talvez o objeto não esteja sendo escolhido somente por aquilo que ele é, mas pelo que sua posse ou presença pode representar para quem o escolhe.

E aqui não estamos afirmando que toda escolha amorosa funciona assim.

Seria absurdo.

Estamos observando uma forma discursiva.

No discurso, entretanto, o “ter” aparece com facilidade.

E o “ser” fica mais complicado.

Porque dizer “ele tem dinheiro” é relativamente simples.

Dizer “ele é alguém com quem consigo construir uma experiência compartilhada” é outra coisa.

A segunda frase exige tempo.

Exige convivência.

Exige acontecimentos.

Exige contradição.

Exige memória.

Exige materialidade.

Ou seja:

exige aquilo que o fluxo rápido da discursividade digital não necessariamente fornece.

E aí está o paradoxo.

A plataforma permite falar infinitamente sobre relacionamento.

Mas falar sobre relacionamento não significa necessariamente produzir relação.

A plataforma permite discutir desejo.

Mas discutir desejo não significa necessariamente compreender sua origem.

A plataforma permite declarar quem você quer.

Mas declarar quem você quer não significa conhecer quem você encontrará.

E talvez o mais estranho seja isto:

o outro pode ser transformado em objeto discursivo antes mesmo de existir como experiência relacional.


10. GIRARD ENTRA PELA PORTA DOS FUNDOS

É aqui que René Girard pode aparecer.

Não como autoridade.

Como cadáver discursivo.

Ele não vem nos salvar.

Vem depor.

A teoria do desejo mimético oferece uma possibilidade interessante: aquilo que desejamos pode ser mediado pelo desejo, pelo valor ou pelo olhar do outro.

Isso ajuda a tensionar uma pergunta simples:

quanto daquilo que aparece como desejo individual já chega socialmente modelado?

Mas cuidado.

O fato de Girard oferecer uma ferramenta para pensar isso não significa que possamos dizer:

“Pronto! Todo mundo naquela live está reproduzindo desejo mimético.”

Não temos esse dado.

Temos uma hipótese.

E a hipótese precisa suportar a possibilidade de estar errada.

O Manual é explícito: uma hipótese pertence ao MPI justamente porque pode ser contrariada por novos documentos. 

Então Girard entra.

Olha.

Dá seu depoimento.

E senta.

Porque aqui ninguém tem autoridade definitiva.

Freud entra.

Marx entra.

Bauman entra.

Becker entra.

Cioran entra.

Nietzsche entra.

Lacan entra.

Byung-Chul Han entra.

Zuboff entra.

Todos podem falar.

Nenhum pode encerrar.

Esse é o princípio dos cadáveres discursivos.

Eles estão mortos.

A investigação não.


11. O QUE A TÉCNICA FAZ COM O TEMPO?

Talvez essa seja a pergunta que ficou escondida desde o começo.

Não:

“O TikTok destruiu os relacionamentos?”

Não temos nenhuma base para afirmar isso.

Não:

“As pessoas ficaram incapazes de amar?”

Também não.

Não:

“A internet tornou tudo superficial?”

Generalização fácil demais.

A pergunta mais modesta é:

 O que acontece com a elaboração de uma questão quando ela entra em um ambiente técnico cuja circulação depende de velocidade, fragmentação, seleção e substituição contínua?


Essa pergunta é investigável.

Porque podemos observar tempo.

Podemos observar duração.

Podemos observar interrupção.

Podemos observar deslocamento de assunto.

Podemos comparar diferentes ambientes.

Podemos investigar mecanismos de recomendação.

Podemos estudar economia da atenção.

Podemos examinar documentos institucionais.

Podemos ouvir as pessoas.

Podemos voltar à plataforma.

Podemos sair dela.

Podemos voltar.

Podemos comparar.

Ou seja:

a investigação continua aberta.

E é exatamente assim que deveria permanecer.


12. A LOKA OLHA PARA O PALCO

No fim, fiquei pensando naquela primeira entrada.

“Porra, eu fui educado e fui bem recebido.”

Tudo normal.

Então por que aquilo chamou tanto a atenção?

Talvez porque eu tenha entrado esperando encontrar alguma coisa parecida com o que eu já vinha elaborando discursivamente sobre a plataforma.

E encontrei algo mais confuso.

Mais fragmentado.

Mais banal.

Mais contraditório.

Mais humano, talvez.

Ou talvez nem isso.

Porque também não sabemos.

E essa é a beleza da investigação.

Você entra procurando uma coisa.

Encontra outra.

E descobre que nem sabe ainda o que encontrou.

Isso é muito melhor do que ter razão.

Porque ter razão cedo demais é uma espécie de morte intelectual.

Você fecha a questão.

Coloca uma tampa.

Pronto.

Acabou.

A Loka prefere deixar aberta.

Ela olha para a tela.

A live continua.

Alguém fala.

Outro responde.

Outro entra.

Outro sai.

A pergunta inicial está perdida em algum lugar.

Talvez alguém ainda esteja respondendo.

Talvez ninguém esteja.

Talvez a própria pergunta já tenha sido substituída por outra.

E aí eu penso:

que porra de atenção é essa que precisa correr tanto para continuar sendo atenção?

E talvez a resposta não esteja na plataforma.

Talvez esteja no corpo.

No tempo.

Naquilo que permanece depois que a tela apaga.

Porque, no fim das contas, a única coisa que conseguimos observar com alguma segurança é aquilo que acontece depois que o espetáculo termina.

O corpo continua.

A vida continua.

A dívida continua.

O trabalho continua.

O relacionamento, se houver, continua.

A solidão, se houver, continua.

A memória continua.

E a live?

A live acabou.

A Loka fecha a porta.

Olha para trás.

E diz:

“Visitei uma live dos mortos. Agora vou dar um rolê nesse tal de TikTok.”

Não porque as pessoas estejam mortas.

Porque talvez alguns discursos estejam morrendo mais rápido do que conseguimos perceber que eles nasceram.


13. HIPÓTESE PROVISÓRIA

A partir do material atualmente disponível, permanece como hipótese que a aceleração técnica da circulação discursiva pode produzir uma forma específica de atenção caracterizada por exposição e resposta rápidas, mas não necessariamente por permanência suficiente para a elaboração do objeto inicialmente colocado em discussão.

No recorte observado, uma pergunta sobre relacionamento parece ter sido progressivamente deslocada para classificações morais, atributos desejáveis, disputas identitárias e performances discursivas. Entretanto, a documentação disponível não permite afirmar que essa dinâmica represente a totalidade dos usuários da plataforma, os relacionamentos concretos dos participantes ou a própria plataforma em sua totalidade.

A hipótese, portanto, permanece restrita ao fenômeno observado:

quando a velocidade de circulação se torna parte das condições materiais do discurso, talvez a atenção permaneça disponível enquanto a elaboração se torna cada vez mais difícil de sustentar.

Mas ainda falta chão.

Precisamos comparar.

Precisamos documentar.

Precisamos observar outras transmissões.

Precisamos examinar o funcionamento técnico da plataforma.

Precisamos distinguir duração da fala, retenção, engajamento, recomendação e permanência.

Precisamos saber o que o corpo faz depois que a tela fecha.

Porque talvez seja aí que a coisa comece de verdade.

Ou talvez não.

A investigação permanece aberta.


NOTA ÉTICO-METODOLÓGICA

Este texto não constitui avaliação psicológica, diagnóstico, julgamento moral ou caracterização individual dos participantes das transmissões observadas. As pessoas e situações foram deliberadamente desindividualizadas, e as observações são tratadas como material exploratório, não como amostra representativa da população usuária da plataforma.

A utilização de categorias oriundas da Psicologia, da Psicanálise ou de outras áreas não autoriza inferências clínicas sobre indivíduos não avaliados. O Código de Ética Profissional do Psicólogo estabelece princípios relacionados ao respeito à dignidade, à promoção da liberdade, da igualdade e da integridade humana, bem como responsabilidades profissionais quanto ao uso de conhecimentos psicológicos. 

Da mesma maneira, a presença de inteligência artificial na elaboração textual não transforma a ferramenta em sujeito da investigação. O próprio CFP tem ressaltado a necessidade de uso crítico, ético e responsável de IA, reconhecendo seus potenciais e riscos e preservando a responsabilidade humana sobre decisões profissionais. 

No MPI, essa cautela é coerente com o princípio de que o investigador deve distinguir descrição, interpretação e hipótese, além de não utilizar o método para produzir diagnósticos individuais, estigmatizar grupos ou justificar discriminações. 


NOTA SOBRE O MÉTODO MPI

O texto segue a arquitetura definida pelo Manual Operacional Oficial do MPI: acontecimento, delimitação, observação material, condições materiais, organização social, técnica, discurso, discursividade digital e hipótese provisória. O Manual determina ainda que a hipótese não encerra a investigação, mas organiza provisoriamente sua continuidade. 

A forma crônica foi utilizada como linguagem de aproximação narrativa, sem ficcionalização das pessoas observadas. Isso corresponde à função estabelecida para a Crônica Clínica Comentada no Manual: aproximar o leitor do fenômeno sem dramatizar pessoas reais. 

A ironia e o deboche, portanto, não têm como alvo indivíduos. O alvo é a certeza. A contradição. A própria pretensão discursiva de explicar aquilo que ainda não conseguimos observar. Essa distinção também está expressamente prevista no Manual: a ironia pode ser utilizada para revelar contradições, jamais para ridicularizar pessoas. 


REFERÊNCIAS:

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

BECKER, Ernest. A negação da morte. Rio de Janeiro: Record, 1973.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo: Resolução CFP nº 010/2005. Brasília, DF: CFP, 2005. Disponível em:

https://site.cfp.org.br/documentos/confira-o-novo-codigo-de-etica-profissional-do-psicologo/

Acesso em: 19 ago. 2026. 

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Inteligência Artificial na Psicologia: guia para uma prática ética e responsável. Brasília, DF: CFP, 2025. Disponível em:

https://site.cfp.org.br/publicacao/inteligencia-artificial-na-psicologia-guia-para-uma-pratica-etica-e-responsavel/

Acesso em: 19 ago. 2026. 

GIRARD, René. Mentira romântica e verdade romanesca. São Paulo: É Realizações, 2009.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013.

NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Relatório — Encontro Saúde Mental no Mundo Digital. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em:

https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/relatorios/2026/relatorio-encontro-saude-mental-no-mundo-digital.pdf/view

Acesso em: 19 ago. 2026. 

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 6023: informação e documentação: referências: elaboração. Rio de Janeiro: ABNT, 2018. A norma estabelece os elementos e a ordem de apresentação das referências, incluindo documentos eletrônicos. 


#mpi 
#nsdp 
#alokadorole 
#mpimaispertodaignorancia

PALAVRAS RASTREÁVEIS

TikTok, discursividade digital, atenção, algoritmo, economia da atenção, relacionamentos, relacionamento amoroso, desejo, demanda, ter e ser, outro, alteridade, materialidade, psicologia social, psicologia e tecnologia, inteligência artificial, redes sociais, lives, transmissão ao vivo, comportamento digital, performance digital, discurso, discurso amoroso, desejo mimético, René Girard, Lacan, Bauman, Byung-Chul Han, Shoshana Zuboff, Ernest Becker, Freud, Nietzsche, Mais Perto da Ignorância, MPI, Loka do Rolê, técnica, tempo, velocidade, engajamento, retenção, comunicação digital, relações humanas, conflito discursivo, moralização, gênero, homem e mulher, amor líquido, subjetividade, experiência digital.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Respira!Não é desespero.É método.

Respira! Não é desespero. É método. Você está certo numa coisa: se o eixo discursivo é mapeamento como técnica de administração de corpos, então IBM e o Holocausto (Edwin Black) não é detalhe — é estrutura. E ele precisa entrar não como comparação rasa, mas como operador histórico da discussão. Vamos reorganizar isso dentro do MPI, com coerência, densidade e todas as camadas que você vem construindo: Arbex, Bauman, Black, Zuboff, O’Neil, Freud, CID-11, DSM-5, Código de Ética, modernidade técnica, Estado brasileiro. Sem delírio. Sem futurologia. Sem prescrição. Só tensão histórica. MAPEAR A DOR É ORGANIZAR CORPOS (e o Brasil sabe fazer isso) Autor: José Antônio Lucindo da Silva Projeto: Mais Perto da Ignorância Palavras-chave: mapeamento, técnica, IBM, Barbacena, saúde mental, Estado, classificação, modernidade, Bauman, Arbex, Black, Zuboff, Freud, Brasil.  Resumo O Ministério da Saúde anuncia uma Pesquisa Nacional de Saúde Mental para mapear a po...

A Carta Que Voltou Tarde Demais

A Carta Que Voltou Tarde Demais Palavras chaves; carta, resposta, Freud, psicanálise, supereu, mal-estar, sexualidade, norma social, desejo, moral, comentário público, redes sociais, algoritmo, visibilidade, intimidade, discurso midiático, transferência, ética da resposta, deslocamento simbólico, carta aberta, Loka do Rolê, fratura simbólica, crítica cultural, contemporaneidade, Caro Dr. Freud, capítulo ensaístico. (Resposta ao Dr. Freud na Era do Comentário Público) Caro Dr. Freud, Escrevo-lhe novamente, mas agora de forma mais precisa. Segundo alguns dados midiáticos recentemente difundidos, um jornalista de alta credibilidade foi interpelado publicamente por uma seguidora que lhe pediu que jamais tornasse pública sua suposta orientação sexual. A interpelação veio revestida de vergonha e oração, como se moral e cuidado fossem sinônimos. Não houve crime. Não houve escândalo. Houve discurso. A resposta do jornalista foi direta: delimitou fronteira, nomeou o cará...

O diploma cansado, o algoritmo produtivo e o sujeito que continua acreditando na promessa

O diploma cansado, o algoritmo produtivo e o sujeito que continua acreditando na promessa Autor José Antônio Lucindo da Silva Projeto Mais Perto da Ignorância — MPI Palavras-chave; educação superior, inflação de diplomas, sociedade do cansaço, capitalismo de vigilância, disciplinamento do trabalho, angústia, absurdo, produtividade acadêmica Durante décadas, o ensino superior foi apresentado como o caminho mais seguro para mobilidade social. Estudar significava melhorar de vida, conquistar estabilidade e acessar posições mais valorizadas no mercado de trabalho. No entanto, a própria expansão massiva das universidades produziu um efeito paradoxal: quando milhões de pessoas passam a possuir diploma universitário, o valor diferencial dessa credencial diminui. Paralelamente, empresas ampliam sistemas de vigilância institucional, formalizam códigos de conduta e intensificam mecanismos de monitoramento do comportamento dos trabalhadores. Nesse cenário emerg...