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PAÇOCA E PAÇOQUINHA: O DIA EM QUE A PRAÇA VIROU ARGUMENTO E O BOLETO CONTINUOU SENDO BOLETO

PAÇOCA E PAÇOQUINHA: O DIA EM QUE A PRAÇA VIROU ARGUMENTO E O BOLETO CONTINUOU SENDO BOLETO


Autor: José Antônio Lucindo da Silva
Projeto: Mais Perto da Ignorância — MPI

Palavras-chave: materialidade, território, trabalho, renda, discursividade digital, praça pública, conflito, comércio, necessidade econômica, redes sociais, pertencimento, legitimidade, subjetividade, circulação discursiva, finitude.


RESUMO

Duas atividades econômicas chegam ao mesmo território e, antes que alguém consiga terminar de montar uma barraca, a situação já ganhou personagens, versões, indignações, comentários, justificativas e uma pequena indústria de certezas. Aqui entram Paçoca e Paçoquinha — não como pessoas, nem como lados, mas como nomes provisórios para mercadorias e atividades que tornam visível uma questão anterior ao discurso: a necessidade material de trabalhar e produzir renda. Este ensaio não pretende decidir quem tem razão. Aliás, essa seria provavelmente a maneira mais rápida de perder o objeto. O que se tensiona é a passagem de uma condição material para uma narrativa digital capaz de transformar território em pertencimento, trabalho em legitimidade e conflito localizado em espetáculo discursivo. A hipótese é simples e incômoda: talvez o discurso esteja tentando resolver simbolicamente aquilo que a materialidade já havia colocado em movimento. A praça, entretanto, permanece. O trabalho continua. O dinheiro precisa chegar. E a timeline, como quase tudo que fazemos para esquecer a finitude, muda de assunto.


INTRODUÇÃO — ANTES DE PAÇOCA E PAÇOQUINHA EXISTIA UMA PRAÇA

Mano, vamos voltar um pouco.

Só um pouco.

Porque a internet tem essa mania maravilhosa de começar as histórias pelo momento em que alguém apertou o botão de gravar.

A câmera liga.

A pessoa fala.

A outra responde.

Alguém comenta.

Outro alguém toma partido.

Mais alguém descobre uma informação.

A indignação cresce.

A réplica aparece.

A tréplica talvez venha depois.

E pronto.

Nasce a impressão de que o acontecimento começou quando começou a ser contado.

Só que não.

Antes da câmera havia uma praça.

Antes da praça virar argumento havia uma cidade.

Antes da cidade aparecer como cenário havia território, circulação, infraestrutura, trabalho, comércio, consumidores, mercadorias e sujeitos tentando transformar atividade econômica em dinheiro.

E antes de qualquer pessoa dizer “eu tenho direito”, provavelmente já existia uma necessidade muito menos elegante:

“eu preciso trabalhar.”

É daqui que o MPI quer começar.

Não pelo discurso.

Antes dele.

Não porque o discurso seja irrelevante. Pelo contrário. Ele interessa justamente porque aparece depois e reorganiza aquilo que já estava acontecendo.

A situação que estamos chamando, provisoriamente, de Paçoca e Paçoquinha não será tratada aqui como uma disputa entre pessoas. Também não será tratada como uma investigação jurídica sobre quem possui autorização, concessão ou legitimidade para ocupar determinado espaço. Não temos, neste material, documentação suficiente para produzir esse tipo de conclusão. E não é esse o objeto.

O objeto é anterior.

É a própria passagem da materialidade para a discursividade.

É observar o que acontece quando uma necessidade econômica encontra um território limitado e, depois, essa situação atravessa a máquina das redes sociais.

E aí começa a festa.

A praça deixa de ser apenas praça.

A mercadoria deixa de ser apenas mercadoria.

O trabalho deixa de ser apenas trabalho.

E aparecem coisas muito mais sofisticadas:

pertencimento.
legitimidade.
injustiça.
direito.
tradição.
defesa.
acusação.

De repente, duas pessoas que precisam trabalhar podem ser transformadas em personagens de uma história que precisa de lados.

Só que não existem lados aqui.

Essa é a primeira coisa que precisamos retirar.

Paçoca não é um lado.

Paçoquinha não é outro lado.

São nomes deliberadamente irônicos para desvirtualizar o acontecimento e impedir que o discurso original seja simplesmente reproduzido como verdade.

A pergunta não é quem venceu.

A pergunta é:

O que existia antes de alguém começar a dizer quem estava certo?


1. A PRAÇA NÃO COMEÇOU NO INSTAGRAM

Existe uma pequena arrogância humana em acreditar que aquilo que aparece diante de uma câmera começa a existir quando é filmado.

A praça não nasceu no Reel.

O comércio não nasceu no comentário.

O trabalho não nasceu na indignação.

E a necessidade econômica certamente não esperou a conexão Wi-Fi.

O que chegou às redes foi uma discursivização posterior de uma situação material.

Isso é fundamental.

Porque, se começarmos pelo discurso, teremos a tendência de tomar suas categorias como se fossem propriedades naturais do acontecimento.

“Dona da praça.”

“Ambulante.”

“Estabelecimento.”

“Direito de trabalhar.”

“Espaço público.”

“Espaço adotado.”

“Quem chegou primeiro.”

“Quem pode.”

“Quem não pode.”

Tudo isso pode ter relevância em diferentes níveis.

Mas nenhuma dessas palavras explica sozinha por que duas atividades econômicas chegaram a disputar um mesmo território.

A materialidade vem antes.

E aqui precisamos fazer uma correção importante para não transformar a materialidade em uma nova religião.

Não estamos dizendo:

“A materialidade é a verdade e o discurso é mentira.”

Isso seria apenas trocar um dogma por outro.

Estamos dizendo algo mais modesto:

A materialidade possui prioridade metodológica porque constitui as condições de possibilidade das próprias formas discursivas que pretendem explicá-la.

Até esta frase, veja só, é discurso.

Nós também estamos dentro da coisa.

Estamos usando linguagem para falar da linguagem.

Estamos produzindo uma narrativa para investigar a produção de narrativas.

Não há uma montanha suficientemente alta onde a Loka possa subir e declarar:

“Agora eu estou fora da materialidade.”

Não está.

Ninguém está.


2. PAÇOCA E PAÇOQUINHA NÃO SÃO O PROBLEMA

Aqui está a hipótese que começou a aparecer no percurso desta investigação:

Paçoca e Paçoquinha não são o problema. São apenas as mercadorias que tornaram visível uma disputa material que poderia ter acontecido com qualquer outra coisa.

Essa frase parece uma brincadeira.

É uma brincadeira.

Mas não apenas.

Porque, se retirarmos a mercadoria específica, o problema continua reconhecível.

Poderia ser café.

Poderia ser pão.

Poderia ser artesanato.

Poderia ser outro alimento.

Poderia ser outro vendedor.

Poderia ser outro espaço.

A mercadoria muda.

A condição permanece possível.

Duas atividades econômicas procuram realizar-se sobre uma mesma infraestrutura territorial.

É aí que o problema deixa de ser “quem está certo” e passa a ser outro:

que condições materiais fazem com que diferentes necessidades econômicas encontrem o mesmo território como condição de renda?

Não há herói nessa pergunta.

Nem vilão.

Ela é quase ofensivamente desprovida de glamour.

É economia.

É território.

É trabalho.

É sobrevivência material.

É gente tentando transformar alguma coisa que possui — mercadoria, habilidade, equipamento, tempo, força de trabalho — em dinheiro.

E dinheiro, por sua vez, não é exatamente uma abstração quando a conta chega.


3. O BOLETO TEM UMA MATERIALIDADE QUE O COMENTÁRIO NÃO TEM

Talvez essa seja a parte mais grosseiramente óbvia.

E justamente por isso seja tão fácil esquecê-la.

O comentário pode desaparecer.

O boleto não desaparece porque alguém mudou de assunto.

A publicação pode perder alcance.

A fome não perde alcance.

A discussão pode ser arquivada.

O trabalho continua amanhã.

A pessoa pode apagar o Reel.

Mas continua precisando pagar alguma coisa.

É aí que a Loka olha para toda aquela produção discursiva e pergunta:

“Mano, vocês vão mesmo gastar tanta palavra para explicar por que precisam trabalhar?”

Não há desprezo nessa frase pela necessidade dos sujeitos.

Há desprezo pela grandiosidade que o discurso pode adquirir quando começa a se apresentar como se fosse a própria realidade.

Uma pessoa precisa vender.

Outra também.

Uma atividade econômica já estava estabelecida.

Outra pretende ocupar o mesmo espaço.

O território é limitado.

O dinheiro é necessário.

Os consumidores circulam.

E então aparece a internet dizendo:

“Temos um grande conflito.”

Talvez.

Mas talvez tenhamos apenas uma situação material relativamente antiga recebendo uma quantidade extraordinária de linguagem.


4. QUANDO A NECESSIDADE PRECISA VIRAR LEGITIMIDADE

Aqui a coisa fica mais interessante.

“Preciso trabalhar” é uma frase materialmente forte.

Discursivamente, porém, ela é quase pobre.

Quando entra na arena pública, pode transformar-se em:

“Tenho direito de trabalhar.”

Já temos outra estrutura.

Agora existe uma posição.

Existe uma legitimidade.

Existe uma reivindicação.

Existe alguém que pode ser imaginado como obstáculo.

O mesmo acontece do outro lado.

“Preciso proteger minha atividade econômica” pode transformar-se em:

“Tenho direito de preservar esse espaço.”

E, novamente, surge uma estrutura discursiva.

Não estamos dizendo que essas formulações sejam falsas.

Estamos observando a transformação.

Necessidade material → reivindicação discursiva.

É nessa passagem que o acontecimento começa a ganhar personagens.

E a internet adora personagens.

A internet não gosta muito de sistemas sem protagonistas.

Ela prefere:

um contra outro.

É mais fácil.

Mais rápido.

Mais compartilhável.

Mais comentável.

Mais consumível.

E então nasce nossa dupla:

Paçoca e Paçoquinha.

Não duas pessoas.

Não duas verdades.

Não duas moralidades.

Dois nomes para uma operação narrativa.


5. O DISCURSO NÃO É INÚTIL — ELE FAZ ALGUMA COISA

Seria intelectualmente preguiçoso concluir que o discurso não serve para nada.

Serve.

Ele organiza.

Nomeia.

Interpreta.

Produz reconhecimento.

Convoca audiência.

Constrói memória.

Estabelece posições.

Transforma acontecimentos dispersos em narrativas compartilháveis.

E é justamente por fazer tudo isso que ele precisa ser tensionado.

Porque, quando o discurso reorganiza a situação, ele também pode deslocar o centro da questão.

O objeto inicial pode ser:

ocupação econômica de um território.

Depois pode tornar-se:

disputa por legitimidade.

Depois:

disputa por pertencimento.

Depois:

disputa moral.

Depois:

disputa de reputações.

E, finalmente, talvez nem estejamos mais discutindo o espaço.

Estamos discutindo quem merece ser acreditado.

Essa é uma mudança importante.

A praça desaparece parcialmente.

O território vira cenário.

Os sujeitos viram personagens.

E os espectadores entram no acontecimento sem necessariamente conhecer suas condições materiais.


6. A PRAÇA VIRA TELA

Byung-Chul Han ajuda a tensionar esse deslocamento não porque tenha escrito sobre Paçoca e Paçoquinha — obviamente não escreveu —, mas porque sua crítica da sociedade de desempenho e da digitalização permite pensar uma cultura em que a exposição e a atividade incessante ganham centralidade.

No material disponível em nosso arquivo, Han descreve o sujeito de desempenho como alguém que passa a coincidir com a própria exigência de produzir mais, transformando liberdade e coerção em uma relação paradoxal.

Aqui não precisamos transformar esse conflito localizado em exemplo automático da tese de Han.

Seria preguiçoso.

O que podemos fazer é perguntar:

o que acontece quando até uma disputa econômica localizada passa a precisar ser performada publicamente?

O trabalho já não é apenas vender.

Pode tornar-se necessário mostrar que se está trabalhando.

Mostrar a dificuldade.

Mostrar o impedimento.

Mostrar a indignação.

Mostrar a resposta.

Mostrar a autorização.

Mostrar o outro lado.

A vida econômica ganha uma segunda camada:

a necessidade de produzir uma narrativa sobre a própria necessidade econômica.

E aí aparece uma espécie de círculo:

trabalho → conflito → exposição → discurso → reação → nova exposição → novo discurso.

O trabalho continua sendo necessário.

Mas agora também existe a necessidade de explicar o trabalho.


7. A ILUSÃO DE QUE O DISCURSO ESTÁ FORA DA MATERIALIDADE

Aqui precisamos ser ainda mais chatos.

Porque é tentador imaginar:

materialidade de um lado; discurso do outro.

Não.

O discurso também é materialmente produzido.

Para alguém gravar um vídeo, existem corpo, câmera, telefone, energia, internet, plataforma, infraestrutura, tempo, linguagem, acesso e audiência.

Para alguém comentar, também.

Para nós analisarmos, também.

A própria rede social não é uma nuvem metafísica.

É infraestrutura.

É servidor.

É energia.

É trabalho.

É capital.

É tecnologia.

É circulação.

É organização social.

Portanto, não existe uma separação limpa entre:

“o real”

e

“o discurso”.

Existe uma relação.

O discurso emerge da materialidade e retorna a ela produzindo efeitos.

É por isso que o MPI não quer simplesmente destruir o discurso.

Quer perguntar:

Que materialidade permitiu que esse discurso aparecesse dessa maneira?

E depois:

O que esse discurso passa a fazer com a materialidade quando começa a circular?

Agora temos um problema de verdade.

Não uma resposta.


8. NÃO HÁ LADOS

A insistência nessa frase é importante:

não há lados.

Porque “lado” já é uma solução narrativa.

A realidade pode ser muito mais miseravelmente complicada.

Uma pessoa trabalha.

Outra pessoa trabalha.

Uma atividade possui uma história.

Outra atividade chega.

Existe um espaço.

Existem consumidores.

Existem regras.

Existem relações econômicas.

Existem interpretações diferentes.

Existem informações incompletas.

Existem discursos publicados.

Existem espectadores.

E nada disso precisa produzir dois exércitos.

A tendência humana de transformar contradições em binários é antiga.

O mundo fica mais confortável quando cabe em:

certo/errado.

bom/mau.

vítima/agressor.

antigo/novo.

público/privado.

nós/eles.

Só que a materialidade não tem obrigação de caber nesses pares.

Ela é inconveniente.

Ela mistura coisas.

Ela sobrepõe necessidades.

Ela produz contradições sem pedir licença.


9. O HUMANO ADORA TRANSFORMAR O TEMPORÁRIO EM ETERNO

Aqui entra a parte em que a Loka começa a ficar desagradável.

A praça parece permanente.

Não é.

A cidade parece permanente.

Também não é.

O comércio parece permanente.

Não é.

A reputação parece permanente.

Muito menos.

A publicação parece importante.

Por algumas horas, talvez.

Depois vem outra.

Depois outra.

Depois outra.

E a humanidade continua fazendo aquilo que faz desde sempre:

construindo pequenas eternidades para sujeitos que sabem, em algum lugar, que vão morrer.

Cioran serve aqui não como ornamento pessimista, mas como dispositivo de corrosão da nossa necessidade de conferir importância absoluta às nossas construções.

A pretensão humana é curiosa.

Construímos uma praça.

Depois construímos regras para a praça.

Depois construímos discursos sobre as regras.

Depois discutimos quem pertence à praça.

Depois filmamos a discussão.

Depois discutimos o vídeo.

E, por alguns minutos, parece que estamos diante de uma questão fundamental da existência.

A Loka olha.

Silêncio.

E:

“Mano... é uma praça.”

Não porque a praça não importe.

Mas porque nós confundimos a importância circunstancial que alguma coisa possui para nós com uma importância ontológica que ela jamais prometeu possuir.


10. A CIDADE É MAIS ANTIGA QUE O CONFLITO

Não estamos dizendo que a cidade é eterna.

Estamos dizendo que, dentro da escala do acontecimento observado, a configuração urbana antecede os sujeitos que agora disputam seu significado.

Isso é metodologicamente decisivo.

Paçoca não criou a cidade.

Paçoquinha também não.

Nenhuma delas criou o território.

Nenhuma delas criou a necessidade humana de comercializar.

Nenhuma delas criou a circulação de pessoas.

Nenhuma delas criou a necessidade de transformar trabalho em renda.

O acontecimento é localizado.

A estrutura que o torna possível é muito mais antiga.

E é justamente por isso que a comparação com conflitos históricos maiores só pode ser feita com extremo cuidado.

Não existe equivalência histórica entre uma disputa comercial localizada e guerras, conflitos armados ou grandes processos civilizacionais.

A escala é outra.

A violência é outra.

As instituições são outras.

As consequências são outras.

O que pode existir é uma pergunta estrutural mais abstrata:

o que acontece quando necessidades materiais diferentes encontram recursos territorialmente limitados?

Essa pergunta pode atravessar diferentes escalas sem afirmar que os acontecimentos sejam equivalentes.

É uma pergunta.

Não uma equivalência.


11. O FOGO, A PRAÇA E O RIDÍCULO HUMANO

Harari pode entrar aqui como referência cultural para lembrar a enorme distância entre as formas contemporâneas de organização e as condições históricas que permitiram sua existência — mas sem transformar sua narrativa histórica em prova para esta hipótese.

O fogo veio antes da praça.

A praça veio antes do Reel.

A cidade veio antes do comentário.

E o corpo veio antes de todos eles.

Talvez seja essa a sequência que nos interessa:

corpo → condições materiais → organização social → técnica → discurso.

Não porque a história humana seja linear.

Não é.

Mas porque essa ordem nos impede de começar pelo último andar e fingir que o prédio nasceu ali.


12. A LOKA NÃO É ÁRBITRA

Aqui precisamos deixar isso absolutamente claro.

A Loka não chega para decidir:

“Paçoca está certa.”

Nem:

“Paçoquinha está certa.”

Nem:

“A Prefeitura está certa.”

Nem:

“O segurança está errado.”

Nada disso.

Porque isso nos jogaria diretamente para dentro do tribunal discursivo que estamos investigando.

A Loka atravessa o tribunal.

Ela olha para os argumentos.

Olha para as provas.

Olha para as versões.

Olha para os comentários.

E pergunta:

“Tá. Mas antes disso tudo, quem precisava trabalhar?”

E depois:

“E antes de vocês precisarem trabalhar aqui, o que já existia?”

E depois:

“E antes da praça?”

E então chega ao ponto em que nenhuma resposta discursiva resolve mais nada.

Corpo.

Tempo.

Finitude.

Ninguém morreu e voltou para contar.

Essa frase não pretende produzir filosofia definitiva.

Ela serve para retirar nossa arrogância epistemológica.

Toda conclusão sobre o acontecimento é provisória.

Toda interpretação é situada.

Toda hipótese pode ser revisada.

E, no MPI, isso importa.


13. O CONTRASTE NÃO É ENTRE DUAS VERDADES

Talvez o contraste fundamental não esteja entre Paçoca e Paçoquinha.

Talvez esteja entre duas velocidades.

De um lado:

a velocidade da materialidade.

Comer.

Trabalhar.

Vender.

Receber.

Pagar.

Voltar.

Repetir.

De outro:

a velocidade da discursividade digital.

Publicar.

Reagir.

Comentar.

Compartilhar.

Responder.

Replicar.

Esquecer.

O digital pode transformar uma situação localizada em acontecimento circulante em questão de minutos.

A materialidade não acompanha essa velocidade.

O corpo continua lento.

A fome continua lenta.

O trabalho continua exigindo tempo.

A renda continua precisando ser produzida.

A praça continua ocupando espaço físico.

O dinheiro continua tendo que aparecer.

É aí que aparece uma ambivalência interessante:

o acontecimento discursivo pode acelerar aquilo que materialmente continua lento.

E talvez seja justamente dessa diferença de velocidade que nasça parte da sensação de que alguma coisa enorme aconteceu.

Talvez tenha acontecido.

Talvez não.

Ainda não sabemos.


14. A ESCUTA TAMBÉM PODE SER DEVORADA PELO ESPETÁCULO

Como psicólogo, seria tentador transformar imediatamente esse episódio em diagnóstico da subjetividade contemporânea.

Não faremos isso.

Não há base para diagnosticar ninguém.

Não há clínica possível de uma pessoa a partir de vídeos públicos.

E o Código de Ética Profissional do Psicólogo impede que a Psicologia seja utilizada como tribunal improvisado da vida alheia.

O que podemos investigar é outra coisa:

o ambiente discursivo no qual sujeitos precisam apresentar publicamente sua versão de si mesmos.

Isso é diferente.

A pessoa não está simplesmente dizendo:

“aconteceu isso.”

Ela pode estar também tentando recuperar controle sobre a narrativa.

E isso é compreensível como fenômeno social sem precisar psicologizar indivíduos.

A exposição pública pode produzir uma segunda disputa:

não apenas pelo espaço físico, mas pelo espaço interpretativo.

Quem controla a narrativa?

Quem será acreditado?

Qual versão circula?

Qual versão permanece?

Qual desaparece?

A praça continua lá.

Mas agora existe uma segunda praça:

a praça discursiva.

E nessa praça cabem milhares de espectadores que jamais estiveram fisicamente no local.


15. A PRAÇA DISCURSIVA É MUITO MAIOR QUE A PRAÇA FÍSICA

Aqui está uma das ironias mais interessantes do caso.

Fisicamente, o território é limitado.

Digitalmente, o território é quase indefinido.

Uma barraca ocupa alguns metros.

Um Reel pode ocupar milhares de telas.

Uma mesa ocupa espaço.

Um comentário ocupa atenção.

A mercadoria ocupa território.

A narrativa ocupa imaginário.

E aí o problema material pequeno pode adquirir uma extensão discursiva gigantesca.

Isso não significa que a narrativa seja falsa.

Significa que sua escala mudou.

O conflito deixou de ser apenas territorial.

Passou a ser também atencional.

E atenção é recurso.

Talvez seja uma das formas mais interessantes de pensar a transformação contemporânea do acontecimento:

o espaço físico permanece limitado; o espaço discursivo pode crescer indefinidamente.

Mas essa expansão não elimina o território original.

No fim, alguém ainda precisa colocar uma barraca em algum lugar.


16. QUANDO A MERCADORIA GANHA PERSONALIDADE

É por isso que Paçoca e Paçoquinha funcionam.

Porque são deliberadamente ridículas.

E o ridículo tem uma função epistemológica aqui.

Se dissermos:

“estabelecimento versus ambulante”,

já entramos em uma linguagem jurídica, econômica e social.

Se dissermos:

“Paçoca versus Paçoquinha”,

a solenidade quebra.

A pergunta volta a aparecer:

o que estamos realmente discutindo?

Não estamos desrespeitando o trabalho.

Estamos desinflando a narrativa.

A ironia retira o acontecimento de sua pretensão de excepcionalidade.

É como se a Loka dissesse:

“Vocês inventaram personagens muito sérios para duas atividades que precisam vender comida.”

E talvez esse seja o papel da ironia dentro do MPI.

Não rir do sofrimento.

Rir da pretensão de transformar sofrimento, necessidade ou conflito em uma verdade absoluta.


17. O QUE SOBRA QUANDO RETIRAMOS OS PERSONAGENS?

Vamos tentar.

Retiremos Paçoca.

Retiremos Paçoquinha.

Retiremos certo.

Retiremos errado.

Retiremos vítima.

Retiremos culpado.

Retiremos pertencimento.

Retiremos legitimidade.

Retiremos o comentário.

Retiremos o Reel.

Retiremos a torcida.

O que sobra?

Território.

Trabalho.

Mercadoria.

Demanda.

Renda.

Necessidade.

Corpo.

Tempo.

Finitude.

Talvez seja pouco.

Mas é um pouco bastante.

Porque tudo o que veio depois precisou desse pouco para existir.


18. A MATERIALIDADE NÃO VENCE A DISCURSIVIDADE

Essa distinção é necessária.

Não queremos construir uma nova batalha:

materialidade × discurso.

Seria uma repetição do problema.

A materialidade não precisa vencer.

O discurso não precisa perder.

A questão é outra:

o discurso não deve ser confundido com aquilo que o antecedeu.

Ele é uma forma de elaboração.

Uma camada.

Uma representação.

Uma circulação.

Uma produção social.

Ele pode produzir efeitos materiais.

E justamente por isso deve ser analisado.

Mas ele não é autônomo.

Ele depende.

Depende de corpos.

Depende de infraestrutura.

Depende de trabalho.

Depende de tecnologia.

Depende de condições econômicas.

Depende de plataformas.

Depende de atenção.

Depende de energia.

Até a indignação precisa de bateria.


19. A HIPÓTESE

Então chegamos aqui.

Não a uma conclusão.

A uma hipótese.

Talvez o conflito entre Paçoca e Paçoquinha não constitua, em si, o acontecimento central, mas apenas a superfície discursivamente visível de uma condição material anterior: diferentes atividades econômicas encontrando o mesmo território como condição de realização e renda. A partir daí, as redes sociais podem transformar uma situação localizada em uma narrativa de pertencimento, legitimidade, injustiça e antagonismo. O discurso não cria necessariamente a necessidade que colocou os sujeitos em movimento; ele a reorganiza simbolicamente, produzindo personagens e interpretações que podem adquirir uma escala muito maior que o acontecimento físico que lhes deu origem.

Mas ainda há uma segunda hipótese:

Talvez o excesso de discursividade não indique a existência de um conflito excepcional, mas a necessidade contemporânea de conferir significado público a conflitos materiais ordinários.

E há uma terceira:

Talvez o que pareça uma disputa entre sujeitos seja, antes de qualquer julgamento, o encontro circunstancial de necessidades econômicas diferentes dentro de uma infraestrutura territorial limitada.

Nenhuma dessas hipóteses está demonstrada.

E é justamente por isso que continuam sendo hipóteses.


20. E A LOKA VARRERIA A PRAÇA

Agora imagine a cena.

Paçoca está falando.

Paçoquinha está respondendo.

Os comentários estão subindo.

Alguém descobriu uma nova informação.

Outro alguém publicou uma nova versão.

Mais alguém está indignado.

Um quarto sujeito já está discutindo nos comentários sem sequer ter estado lá.

E então chega a Loka.

Ela olha.

Respira.

Olha novamente.

E fala:

“Mano...”

Silêncio.

“Vocês estão brigando para decidir quem tem razão dentro de uma coisa que nenhum de vocês inventou.”

Mais silêncio.

“A praça estava aí antes da postagem.”

Pausa.

“A cidade estava aí antes da discussão.”

Pausa.

“O trabalho estava aí antes do Reel.”

Pausa.

“E o corpo estava aí antes de tudo.”

Ela olha para Paçoca.

Olha para Paçoquinha.

E:

“Amanhã tem café.”

Silêncio.

“Depois tem feijão.”

Silêncio.

“Depois tem boleto.”

Silêncio.

“Depois tem trabalho.”

E finalmente:

“E essa briga aí provavelmente já virou outro assunto na internet.”

Então ela pega a vassoura.

Não para resolver.

Não para decidir.

Não para expulsar ninguém.

Só para lembrar que a praça é material antes de ser narrativa.

E talvez esse seja o máximo que a Loka possa fazer:

varrer a solenidade.

Não o conflito.

Não as pessoas.

Não a necessidade.

A solenidade.

Porque talvez tenhamos transformado uma situação econômica localizada em uma pequena tragédia moral simplesmente porque precisamos desesperadamente de histórias nas quais alguém esteja certo.

A materialidade não oferece esse conforto.

Ela é muito mais grosseira.

Ela diz:

há território.

há necessidade.

há trabalho.

há dinheiro.

há tempo.

há corpo.

e há fim.

O resto é nossa extraordinária capacidade de conversar sobre isso.


CONCLUSÃO SEM REDENÇÃO — O BOLETO NÃO PARTICIPA DO DEBATE

Talvez seja justamente aqui que o artigo deva terminar sem terminar.

Porque qualquer conclusão definitiva seria suspeita.

Não sabemos se Paçoca tem razão.

Não sabemos se Paçoquinha tem razão.

Não sabemos se alguém tem razão.

E, metodologicamente, talvez nem devêssemos começar por aí.

Sabemos que existem discursos públicos registrados.

Sabemos que eles apresentam diferentes interpretações do acontecimento.

Sabemos que há uma dimensão territorial e econômica na situação descrita.

Sabemos que as narrativas posteriores reorganizam esse acontecimento.

E podemos formular uma hipótese:

quando necessidades econômicas encontram um território limitado, a situação material pode ser posteriormente convertida em uma disputa discursiva de legitimidades.

Mas ainda não sabemos exatamente o que essa conversão produz sobre os sujeitos, sobre o trabalho, sobre a percepção do conflito e sobre a própria experiência de pertencimento ao território.

Essa investigação continua aberta.

E talvez precise continuar aberta.

Porque o MPI não pretende colocar uma placa dizendo:

“Aqui está a verdade.”

Seria ridículo.

A placa também seria uma construção humana.

A praça continuaria indiferente.

Paçoca e Paçoquinha continuariam precisando trabalhar.

O dinheiro continuaria sendo necessário.

E nós continuaríamos produzindo palavras para explicar aquilo que, talvez, seja mais antigo do que nossas palavras.

Então a Loka olha uma última vez para tudo isso e diz:

“Mano, não tem lado.”

“Tem gente.”

“Tem trabalho.”

“Tem território.”

“Tem necessidade.”

“E tem um monte de gente na internet tentando transformar isso numa verdade.”

Ninguém morreu e voltou para contar.

Então, pelo menos por enquanto, vamos ter a decência de não fabricar certeza onde temos apenas material para formular hipótese.

Paçoca não é o problema.

Paçoquinha também não.

A praça não é personagem.

O boleto não comenta.

O corpo não participa da enquete.

E amanhã, infelizmente para a grandiosidade de nossas narrativas, o dia começa de novo.


NOTA DO AUTOR — MPI

Este texto integra o arquivo crítico do projeto Mais Perto da Ignorância (MPI) e não constitui aconselhamento psicológico, orientação clínica, diagnóstico ou prescrição de comportamento.

O material público utilizado como disparador é tratado como objeto discursivo de investigação, e não como prova suficiente para determinar responsabilidades jurídicas, intenções individuais ou verdades factuais que não estejam documentadas.

A análise distingue, metodologicamente, descrição do material observado, interpretação teórica e hipótese argumentativa.

O objetivo não é decidir entre Paçoca e Paçoquinha.

Também não é produzir uma solução.

É tensionar a passagem entre condições materiais de existência e sua posterior elaboração discursiva, perguntando o que pode ser perdido quando o discurso passa a ocupar o lugar daquilo que o antecedeu.

O MPI não promete alívio.

Produz fricção.

E, neste caso, talvez a fricção mais honesta seja admitir:

ainda não sabemos.


REFERÊNCIAS

Referências do material público utilizado como disparador

As publicações do Instagram foram fornecidas no corpus desta investigação pelo autor e são tratadas como registros públicos da discursividade analisada, sem que sua existência seja tomada como comprovação independente das alegações apresentadas nos vídeos do Instagram, Links:


- https://www.instagram.com/reel/Db4XS7cB8Ee

- https://www.instagram.com/reel/Db3K0dQuNuM

- https://www.instagram.com/reel/Db3Hw_Vo2ut

- https://www.instagram.com/reel/Db1a4Eezyux

- https://www.instagram.com/reel/Db6HPWaMU7x


Observação: os links e transcrições constituem o corpus discursivo apresentado para análise. Não foram utilizados, neste texto, para afirmar como fatos comprovados as versões jurídicas ou administrativas mencionadas pelos participantes.

Referências teóricas

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. A obra disponível no arquivo relaciona a questão da ordem e da civilização aos custos produzidos pela organização social moderna.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015. A edição disponível no arquivo apresenta a crítica à sociedade do desempenho e à coincidência entre liberdade e coerção.

HAN, Byung-Chul. Não-coisas: reviravolta do mundo da vida. São Paulo: Vozes. O material disponível no arquivo discute a desmaterialização da experiência e a mediação digital como forma de afastamento da resistência e da alteridade do mundo.

ROUDINESCO, Elisabeth. O eu soberano: ensaio sobre as derivas identitárias. Rio de Janeiro: Zahar. O material disponível no arquivo aborda a construção discursiva de pertencimentos e as transformações contemporâneas das formas de identidade.

SHAUGHNESSY, John J.; ZECHMEISTER, Eugene B.; ZECHMEISTER, Jeanne S. Metodologia de pesquisa em psicologia. Porto Alegre: AMGH. O material disponível no arquivo apresenta procedimentos de investigação e distinções metodológicas relevantes para a formulação de hipóteses.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. Porto Alegre: Artmed. A referência é utilizada aqui apenas como parte do repertório metodológico do MPI, sem qualquer aplicação diagnóstica aos sujeitos envolvidos no corpus.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. CID-11: Classificação Internacional de Doenças. A referência integra o repertório metodológico do projeto, sem aplicação diagnóstica ao material analisado.


MINI BIO

José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo (CRP — Ativo), pesquisador e autor do projeto Mais Perto da Ignorância (MPI), onde investiga, com ironia e rigor ético, os efeitos dos discursos contemporâneos sobre a subjetividade, a escuta e o sofrimento humano.


#mpi
#alokadorole
@alokdorole_personagem
#maispertodaignorancia

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