AUMENTO DE SALÁRIO, HOME OFFICE OU REDUÇÃO DA JORNADA: O QUE ESTÁ SENDO NEGOCIADO QUANDO O TRABALHO DEIXA DE SER APENAS TRABALHO?
AUMENTO DE SALÁRIO, HOME OFFICE OU REDUÇÃO DA JORNADA: O QUE ESTÁ SENDO NEGOCIADO QUANDO O TRABALHO DEIXA DE SER APENAS TRABALHO?
Resumo
Uma reportagem publicada pela Forbes Brasil, com base em levantamento realizado pela Robert Half com mais de setecentos profissionais, informa que o aumento salarial aparece como principal prioridade entre recrutadores e trabalhadores, à frente da ampliação do home office e da redução da jornada. Entre recrutadores, 62,44% indicaram o aumento de remuneração, enquanto 20,15% priorizaram mais dias de trabalho remoto e 17,41% escolheram a redução da jornada. Entre funcionários, os percentuais foram de 57,71%, 25,14% e 17,14%, respectivamente.
Esses dados não autorizam concluir que os trabalhadores prefiram dinheiro ao tempo livre ou que a redução da jornada tenha perdido relevância. Eles registram respostas produzidas em condições econômicas, sociais e institucionais específicas. Este artigo investiga quais formas de segurança podem estar sendo negociadas quando a remuneração aparece como prioridade. A análise segue o Protocolo Mais Perto da Ignorância, partindo da ordem corpo, condições materiais, organização social, técnica e discurso.
O texto articula dados de fontes institucionais, como a Organização Internacional do Trabalho, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e o Ministério do Trabalho e Emprego, com as contribuições interpretativas de Domenico De Masi e Byung-Chul Han. A discussão se amplia para o lazer, o ócio criativo e a transformação da experiência em conteúdo nas plataformas digitais.
A hipótese desenvolvida é que o trabalhador não está necessariamente escolhendo dinheiro em vez de tempo, mas tentando negociar alguma margem de segurança dentro de uma estrutura que transforma salário, disponibilidade, descanso e lazer em componentes da própria lógica de desempenho.
Palavras-chave: trabalho, salário, mercado de trabalho, home office, trabalho remoto, redução da jornada, produtividade, relações de trabalho, saúde mental, riscos psicossociais, lazer, ócio criativo, plataformas digitais, subjetividade, discurso digital, Byung-Chul Han, Domenico De Masi, Mais Perto da Ignorância.
1 INTRODUÇÃO
A pergunta parece simples: o que os trabalhadores preferem, aumento de salário, mais dias de home office ou redução da jornada?
A pesquisa divulgada pela Forbes Brasil apresenta uma resposta quantitativa. O aumento salarial aparece como prioridade principal. Entre recrutadores, 62,44% indicaram essa alternativa. O home office foi escolhido por 20,15%, enquanto a redução da jornada ficou em 17,41%. Entre funcionários, 57,71% priorizaram o aumento da remuneração, 25,14% escolheram mais dias de trabalho remoto e 17,14% apontaram a redução da jornada.
O dado é relevante, mas não fala sozinho.
Uma estatística registra respostas. Ela não registra, por si só, a história material de quem responde, suas despesas, seus vínculos, suas dívidas, seu tempo de deslocamento, suas responsabilidades familiares, seu estado de saúde, seu medo de perder o emprego ou suas experiências anteriores de trabalho.
Mesmo assim, a estatística costuma ser imediatamente transformada em narrativa moral. Diz-se que os trabalhadores preferem dinheiro ao tempo. Diz-se que ninguém quer trabalhar menos. Diz-se que o salário é o benefício mais desejado. A resposta de uma pesquisa passa a funcionar como retrato definitivo da subjetividade de uma classe inteira.
É nesse momento que o Protocolo Mais Perto da Ignorância interrompe a velocidade da interpretação e pergunta: quem definiu o problema?
A pergunta não pretende negar o dado. Pretende investigar a forma como ele foi produzido e o que pode ou não ser afirmado a partir dele. O levantamento informa uma preferência declarada entre alternativas apresentadas. Não explica sozinho os motivos dessa preferência e não autoriza concluir que os trabalhadores desejem permanecer mais tempo submetidos ao trabalho.
Uma escolha realizada sob pressão econômica não possui necessariamente o mesmo significado de uma escolha feita em situação de estabilidade. A liberdade de responder pode coexistir com restrições concretas. O sujeito pode escolher o salário porque precisa pagar moradia, alimentação, transporte, medicamentos, educação ou dívidas. Pode escolher o home office porque o deslocamento consome horas, dinheiro e corpo. Pode escolher a redução da jornada porque já não consegue sustentar a carga física e cognitiva.
As alternativas não aparecem em um vazio psicológico. Elas são produzidas dentro de condições materiais.
2 MÉTODO E POSIÇÃO EPISTEMOLÓGICA
Este artigo segue o Protocolo Científico, Ético e Discursivo do projeto Mais Perto da Ignorância. O protocolo estabelece a ordem analítica corpo, condições materiais, organização social, técnica e discurso.
Essa ordem impede que a análise comece por abstrações como produtividade, flexibilidade, autonomia, mérito ou escolha. Antes de interpretar o vocabulário empresarial, é necessário investigar o corpo que trabalha, o tempo que é consumido, os custos que pressionam a renda, os vínculos que organizam a vida e as tecnologias que distribuem a disponibilidade.
O artigo distingue três níveis de elaboração. O primeiro é a descrição factual. O segundo é a interpretação teórica. O terceiro é a argumentação crítica do MPI, que propõe uma hipótese provisória sobre a relação entre salário, segurança, tempo, lazer, plataformas e desempenho.
Byung-Chul Han não será tratado como fonte empírica para explicar a pesquisa da Robert Half. Sua obra entra como referência filosófica para interpretar a interiorização da exigência de desempenho. Domenico De Masi será mobilizado como autor do conceito de ócio criativo, não como representante de uma solução definitiva para o problema do lazer contemporâneo.
3 O SALÁRIO E AS FORMAS DE SEGURANÇA
Dizer que o salário compra segurança é insuficiente. É necessário perguntar que tipo de segurança está sendo negociado.
Existe uma segurança material, relacionada à possibilidade de sustentar as condições básicas da vida. Existe uma segurança laboral, ligada à permanência no emprego, à redução do risco de substituição e à capacidade de aceitar ou recusar uma nova oportunidade. Existe uma dimensão existencial, que pode aparecer como efeito subjetivo provisório de uma menor ameaça econômica. E existe uma dimensão discursiva, na qual o aumento salarial é apresentado como reconhecimento, mérito, sucesso e valor pessoal.
Essas dimensões não são idênticas.
O salário não compra diretamente a existência. Ele pode reduzir temporariamente a insegurança material. Pode adiar o momento em que a renda deixa de cobrir as despesas. Pode permitir que uma pessoa atravesse um mês sem escolher qual conta permanecerá aberta. Pode diminuir a exposição à dívida. Pode oferecer uma margem mínima para que o corpo continue funcionando.
Em uma realidade marcada por aumento do custo habitacional, alimentação cara, transporte, saúde e endividamento, receber mais pode significar apenas perder menos. O aumento da remuneração pode ser interpretado como recompensa pela empresa, mas experimentado pelo trabalhador como tentativa de recompor um equilíbrio constantemente corroído.
Para a empresa, o aumento salarial pode funcionar como mecanismo de atração, retenção e competitividade. Para o trabalhador, pode significar a diferença entre pagar as contas ou ampliar uma dívida já existente. A mesma remuneração pode ser apresentada como investimento em talentos e vivida como proteção limitada contra a instabilidade.
O dado da pesquisa não permite afirmar que os trabalhadores estejam escolhendo riqueza em vez de tempo. Ele pode indicar que, nas condições econômicas apresentadas, a remuneração aparece como a alternativa com maior capacidade de diminuir uma vulnerabilidade imediata.
O trabalhador talvez não esteja escolhendo dinheiro contra a vida. Talvez esteja tentando preservar a vida com o dinheiro que o trabalho oferece.
4 O TRABALHO COMO ADMINISTRAÇÃO DE RISCOS
Aumentar o salário pode reduzir parcialmente o risco financeiro. Trabalhar em casa pode reduzir o risco associado ao deslocamento, aos gastos de transporte e ao tempo perdido no trânsito. Reduzir a jornada pode diminuir parte da sobrecarga física e cognitiva.
Nenhuma dessas alternativas elimina completamente a vulnerabilidade. Cada uma administra um tipo diferente de exposição.
Quando o debate é apresentado como escolha entre benefícios, o trabalhador aparece como consumidor de vantagens corporativas. Quando a materialidade retorna ao centro, ele aparece como alguém obrigado a distribuir perdas. Precisa decidir qual vulnerabilidade consegue suportar naquele momento.
O aumento salarial pode manter a pessoa em uma atividade desgastante, mas reduzir a ameaça de inadimplência. O trabalho remoto pode diminuir o deslocamento, mas ampliar a disponibilidade digital. A redução da jornada pode produzir tempo, mas também reduzir a renda.
O problema não é escolher a alternativa correta. O problema é que nenhuma alternativa oferece, isoladamente, uma saída da estrutura que organiza o trabalho.
5 O TEMPO, O CORPO E A JORNADA
A disputa contemporânea não ocorre apenas sobre o número de horas trabalhadas. Ela envolve a capacidade de interromper o trabalho, de não responder imediatamente, de não permanecer acessível e de separar a atividade laboral das demais dimensões da vida.
O corpo não trabalha apenas durante o horário formal. Ele continua recebendo mensagens, organizando tarefas, antecipando problemas, respondendo notificações e carregando para casa aquilo que não foi encerrado no expediente.
A Organização Internacional do Trabalho identifica jornadas longas, estresse, assédio, baixa remuneração, insegurança laboral, baixa autonomia e falta de apoio como fatores relacionados aos riscos psicossociais do trabalho. Seu relatório de 2026 também destaca que a digitalização, a inteligência artificial, o trabalho em plataformas e os modelos remoto e híbrido estão reorganizando supervisão, expectativas e tempo de trabalho.
A OIT informa que fatores psicossociais relacionados ao trabalho estão associados a mais de 840 mil mortes anuais por doenças cardiovasculares e transtornos mentais, além de quase 45 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade. Esses números pertencem ao escopo do relatório da organização e não devem ser usados como prova de que qualquer caso individual possui uma causa única. Eles ajudam a dimensionar a relevância coletiva das condições de organização do trabalho.
O corpo continua sujeito aos limites biológicos. A aceleração informacional não reduz a necessidade de descanso. A conectividade não elimina a necessidade de recuperação física. A plataforma pode redistribuir tarefas e monitorar atividades, mas não transforma o organismo em recurso ilimitado.
A técnica modifica a experiência do tempo sem modificar a finitude do corpo.
6 HOME OFFICE, AUTONOMIA E DISPONIBILIDADE
O trabalho remoto foi frequentemente apresentado como sinônimo de autonomia. A casa aparecia como espaço de liberdade, redução de deslocamento e reorganização da rotina. Para alguns trabalhadores, essa experiência pode efetivamente reduzir custos e ampliar algum controle cotidiano.
Mas a mesma tecnologia pode dissolver fronteiras. A sala torna-se escritório. O celular transforma-se em extensão do expediente. O computador permanece aberto. A notificação invade o descanso. O horário formal não desaparece, mas deixa de ser suficiente para descrever o tempo efetivamente ocupado pelo trabalho.
A questão não é apenas onde o trabalhador trabalha. É quem controla as horas que parecem livres.
A flexibilidade pode significar autonomia relativa, mas também pode deslocar para o indivíduo a responsabilidade por administrar disponibilidade, produtividade, atualização, formação contínua e conectividade. A organização se apresenta como flexível; o trabalhador absorve a instabilidade produzida por essa flexibilidade.
A OCDE, no Employment Outlook 2026, relaciona oportunidades de emprego, renda e qualidade do trabalho às condições territoriais e econômicas. O relatório destaca que o local onde as pessoas vivem interfere nas oportunidades de trabalho, na progressão profissional e nos rendimentos disponíveis. Também aponta que os salários reais permanecem sob pressão em diversos países, apesar de crescimento recente.
O trabalho remoto pode reduzir o deslocamento para alguns e aumentar a sobreposição entre trabalho e vida doméstica para outros. Pode criar autonomia relativa e, simultaneamente, intensificar a vigilância. Pode proteger tempo e, ao mesmo tempo, ampliar a expectativa de resposta.
A técnica não produz um único efeito. Ela reorganiza as condições nas quais diferentes efeitos se tornam possíveis.
7 A SOCIEDADE DO DESEMPENHO E O SALÁRIO COMO RECONHECIMENTO
Em Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han descreve uma forma de organização na qual a exigência não depende somente de uma autoridade externa. O sujeito passa a participar da própria cobrança. A vida torna-se projeto de desempenho, produtividade e aperfeiçoamento.
Essa leitura não substitui a análise material. Ela a tensiona.
O trabalhador precisa do salário para viver, mas pode também interpretar o aumento como reconhecimento de seu valor. A remuneração não é somente quantidade de dinheiro. Pode ser convertida em sinal de competência, pertencimento e sucesso.
A performance transforma a necessidade em identidade.
O sujeito não apenas trabalha para receber. Ele pode aprender a se reconhecer por aquilo que consegue produzir, suportar e acumular. O aumento salarial aparece, então, como segurança material e validação simbólica. Mas a validação pode exigir a continuidade do desempenho que produz o cansaço.
A contradição não é que o trabalhador queira ser explorado. A contradição é que a estrutura pode oferecer reconhecimento na mesma forma que intensifica a exigência.
O salário pode ser proteção e captura. Pode reduzir a ameaça econômica e reforçar a permanência em uma lógica de autossuperação. Pode fornecer margem de segurança e, simultaneamente, transformar essa margem em motivo para continuar oferecendo mais tempo, mais energia e mais disponibilidade.
8 ONDE ENTRA O LAZER?
A oposição entre trabalhar para comer e viver para trabalhar é insuficiente. Existe uma terceira dimensão: trabalhar para comprar as condições mínimas de um lazer que deveria interromper o trabalho.
O lazer não aparece automaticamente quando a jornada termina. Ele depende de renda, território, transporte, moradia, segurança, saúde, infraestrutura cultural e tempo disponível.
Viajar custa. Descansar custa. Cuidar do corpo custa. Frequentar espaços culturais custa. Encontrar amigos custa. Até não fazer nada pode exigir uma renda capaz de sustentar o direito de não fazer nada.
Quando o custo do lazer consome uma parcela significativa da renda, o tempo livre deixa de ser apenas tempo. Ele se torna mercadoria de acesso desigual. O sujeito não compra simplesmente descanso. Compra uma experiência de descanso dentro das condições autorizadas pelo mercado.
O trabalhador precisa vender tempo para comprar o direito de esquecer, por algumas horas, que vende tempo.
A pergunta não é apenas quanto tempo livre alguém possui. A pergunta é que renda, infraestrutura, cidade, corpo e condições materiais são necessários para que esse tempo possa ser vivido como lazer.
9 DOMENICO DE MASI E O ÓCIO CRIATIVO
Domenico De Masi entra nesta discussão como autor do conceito de ócio criativo. Em sua formulação, trabalho, estudo e lazer podem ser articulados. O ócio não aparece apenas como ausência de atividade, mas como espaço de elaboração, criatividade e integração de dimensões que a organização industrial do trabalho separou.
É importante não transformar essa formulação em uma descrição absoluta de seu período histórico. O lazer já podia ser mercadoria, e a criatividade já podia ser incorporada ao trabalho. A questão é reconhecer que a captura contemporânea pelas plataformas ocorre em outra escala, com outras formas de mensuração, circulação e mediação técnica.
No ócio criativo de De Masi, ainda existe a possibilidade de uma suspensão relativa da produção imediata. Há espaço para abstração, reflexão, maturação e elaboração sem que todo pensamento precise ser imediatamente exposto.
Essa condição se modifica quando a experiência entra nas plataformas digitais.
A reflexão pode virar publicação. A experiência pode virar conteúdo. O conteúdo pode virar dado. O dado pode virar audiência. A audiência pode virar valor econômico.
O ócio criativo, ao encontrar a infraestrutura das plataformas, pode ser reconfigurado como material de circulação. A experiência deixa de ser somente vivida. Ela pode ser registrada, editada, compartilhada, avaliada e transformada em capital social.
A diferença não está em afirmar que antes o lazer estivesse completamente fora do mercado. A diferença está no modo como as plataformas ampliam a captura, a mensuração e a monetização da experiência.
Hoje, uma ideia não precisa apenas existir. Ela pode ser publicada. Uma experiência não precisa apenas ser vivida. Ela pode ser registrada. Uma reflexão não precisa apenas amadurecer. Ela pode ser convertida em postagem, vídeo, curso, opinião, marca pessoal ou promessa de transformação.
O pensamento precisa aparecer. O lazer precisa render. A experiência precisa ser mostrada. A criatividade precisa performar.
10 O ÓCIO COMO NEGÓCIO
O ócio é o negócio hoje.
Não porque tenha deixado de existir, mas porque pode ser vendido, calculado, transformado em conteúdo e reinserido na produtividade.
O mercado não precisa eliminar o lazer. Basta convertê-lo em produto, experiência, assinatura, pacote, imagem, serviço ou capital social.
O descanso pode ser vendido como técnica para retornar melhor ao trabalho. A viagem pode produzir fotografias, narrativas e audiência. O autocuidado pode ser transformado em marca. O hobby pode ser apresentado como competência. O silêncio pode virar método de recuperação da produtividade.
O ócio deixa de ser interrupção e passa a ser investimento.
A pessoa não descansa porque o descanso possui valor próprio. Descansa para voltar mais eficiente. Não viaja apenas para desaparecer. Viaja para produzir memória, imagem e narrativa. Não pratica uma atividade apenas porque deseja. Pratica porque ela pode melhorar o corpo, a saúde, a aparência, o desempenho ou a empregabilidade.
A sociedade do desempenho pode absorver a integração proposta pelo ócio criativo e transformá-la em exigência de autogerenciamento. Trabalho, estudo e lazer deixam de aparecer como dimensões articuladas da existência e passam a funcionar como setores de um projeto permanente de otimização pessoal.
O sujeito trabalha, estuda, descansa e se diverte sob a mesma pergunta silenciosa: isso está produzindo algum resultado?
11 O SUJEITO COMO PRODUTO DAQUILO QUE PRODUZ
A plataforma não transforma somente o objeto produzido em valor. Ela transforma também o produtor em objeto de avaliação.
O perfil, o comportamento, o tempo de permanência, as preferências, a frequência de publicação, a capacidade de gerar reação e a disponibilidade passam a integrar a própria mercadoria.
Você produz um conteúdo. O conteúdo produz dados. Os dados produzem um perfil. O perfil volta para organizar aquilo que você produzirá depois.
Essa formulação não significa que a pessoa deixe de ser sujeito em todos os sentidos ou que a plataforma possua uma intenção subjetiva própria. A descrição deve permanecer material. Existem arquiteturas técnicas, modelos de negócios, métricas, bancos de dados, sistemas de recomendação, publicidade direcionada e formas de monitoramento. Existem decisões humanas e institucionais que definem o que será capturado, medido e valorizado.
A plataforma não precisa desejar nada. Sua arquitetura pode produzir efeitos.
O conteúdo produzido pelo usuário pode ser simultaneamente expressão, mercadoria, dado e instrumento de classificação.
A reflexão que poderia permanecer incompleta ou silenciosa encontra uma estrutura que recompensa a publicação. A pausa precisa aparecer. O descanso precisa ser narrado. O lazer precisa provar que aconteceu.
A pergunta da Loka do Rolê é simples e inconveniente: o que ainda pode permanecer sem ser publicado?
12 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pergunta inicial era o que os trabalhadores preferem: aumento de salário, home office ou redução da jornada.
Depois da análise, a pergunta não desaparece. Ela muda de posição.
O aumento salarial foi a alternativa mais escolhida no levantamento divulgado pela Forbes Brasil. Essa descrição permanece válida. O que não permanece válido é a transformação automática desse resultado em explicação completa sobre os desejos dos trabalhadores.
O dado não prova que os trabalhadores prefiram dinheiro ao tempo livre. Não prova que rejeitem a redução da jornada. Não prova que desejem continuar trabalhando mais. Ele mostra uma prioridade declarada diante de alternativas específicas, em condições econômicas específicas.
O salário pode significar reconhecimento. Pode significar valorização profissional. Pode significar ascensão. Pode significar segurança laboral. Pode significar apenas a tentativa de continuar pagando as contas.
O trabalho remoto pode significar autonomia relativa. Pode reduzir deslocamento. Pode ampliar convivência. Pode dissolver fronteiras. Pode transferir custos para a casa. Pode aumentar a disponibilidade digital.
A redução da jornada pode significar descanso, cuidado, recuperação fisiológica, diminuição da sobrecarga cognitiva ou possibilidade de permanecer algumas horas fora da lógica produtiva. Nenhuma dessas interpretações está diretamente contida na pesquisa. Elas constituem hipóteses analíticas que exigem investigações específicas.
O ócio criativo pertence à formulação de Domenico De Masi. A captura do ócio pelas plataformas pertence a uma transformação social e digital que amplia a circulação, a mensuração e a monetização da experiência. Byung-Chul Han oferece uma chave interpretativa para compreender como a sociedade do desempenho pode converter descanso, criatividade e cuidado em investimento na própria produtividade.
Entre De Masi e Han, a Loka do Rolê retorna ao corpo.
Ela pergunta onde o ócio acontece. Em qual casa. Em qual cidade. Depois de quantas horas de trabalho. Com qual renda. Com qual transporte. Com qual saúde. Com qual tempo de recuperação.
A técnica reorganiza o trabalho. O mercado organiza o acesso ao lazer. O discurso transforma disponibilidade em autonomia. A plataforma transforma experiência em dado. O sujeito produz o objeto e passa a ser produzido pela circulação desse objeto.
A reflexão pode virar publicação. A publicação pode virar conteúdo. O conteúdo pode virar dado. O dado pode virar perfil. O perfil pode voltar para organizar a próxima produção.
E assim a pausa retorna ao trabalho com uma aparência de liberdade.
O sujeito trabalha para sobreviver, descansa para continuar trabalhando e consome o descanso como prova de que ainda está vivendo.
No fim, até o ócio bate ponto.
Notas do autor
Este artigo distingue descrição factual, interpretação teórica e argumentação crítica. A descrição factual utiliza dados divulgados pela Forbes Brasil com base em levantamento realizado pela Robert Half, além de informações institucionais da Organização Internacional do Trabalho, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e do Ministério do Trabalho e Emprego.
A interpretação teórica utiliza Domenico De Masi para discutir o conceito de ócio criativo e Byung-Chul Han para tensionar a sociedade do desempenho, a autexploração e a captura do tempo livre pela produtividade.
A argumentação crítica pertence ao projeto Mais Perto da Ignorância e permanece como hipótese provisória. O texto não possui finalidade clínica, diagnóstica, terapêutica ou prescritiva. Não oferece aconselhamento psicológico, orientação individual ou promessa de melhora.
Mini bio
José Antônio Lucindo — Psicólogo, CRP 06/172551.
Criador do projeto Mais Perto da Ignorância, dedicado à análise crítica das relações entre subjetividade, corpo, condições materiais, organização social, tecnologia e discurso digital.
Palavras marcadoras de busca
trabalho, salário, aumento salarial, mercado de trabalho, home office, trabalho remoto, redução da jornada, jornada de trabalho, tempo livre, lazer, ócio, ócio criativo, Domenico De Masi, Byung-Chul Han, Sociedade do Cansaço, desempenho, autexploração, produtividade, flexibilidade, disponibilidade, saúde mental, riscos psicossociais, sofrimento psíquico, psicologia social, psicologia do trabalho, corpo, tempo, materialidade, organização social, capitalismo de plataforma, plataformas digitais, economia da atenção, subjetividade, discurso digital, descanso, experiência, conteúdo, audiência, dados, perfil digital, Mais Perto da Ignorância, MPI.
Referências
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. NR-1: gerenciamento de riscos ocupacionais. Perguntas e respostas. Brasília, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselhos-e-orgaos-colegiados/comissao-tripartite-partitaria-permanente/perguntas-e-respostas-2013-capitulo-1-5-da-nr-1-1. Acesso em: 5 ago. 2026.
DE MASI, Domenico. O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.
FORBES BRASIL. Aumento de salário, home office ou redução de jornada: o que os profissionais priorizam em 2026. Forbes Brasil, 2026. Disponível em: https://forbes.com.br/carreira/2026/07/rascunho-automatico/. Acesso em: 5 ago. 2026.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. PNAD Contínua: em 2025, taxa anual de desocupação foi de 5,6%, enquanto taxa de subutilização foi de 14,5%. Rio de Janeiro: IBGE, 2026. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/45759-pnad-continua-em-2025-taxa-anual-de-desocupacao-foi-de-5-6-enquanto-taxa-de-subutilizacao-foi-14-5. Acesso em: 5 ago. 2026.
INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION. The psychosocial working environment: global developments and pathways for action. Geneva: ILO, 2026. Disponível em: https://www.ilo.org/publications/psychosocial-working-environment-global-developments-and-pathways-action. Acesso em: 5 ago. 2026.
INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION. It’s time to address psychosocial hazards in a changing world of work. Geneva: ILO, 28 abr. 2026. Disponível em: https://www.ilo.org/resource/article/it%E2%80%99s-time-address-psychosocial-hazards-changing-world-work. Acesso em: 5 ago. 2026.
ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT. OECD Employment Outlook 2026: geographic disparities in jobs and incomes. Paris: OECD, 2026. Disponível em: https://www.oecd.org/en/publications/2026/07/oecd-employment-outlook-2026_a41e8b9f.html. Acesso em: 5 ago. 2026.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. World mental health today: latest data. Geneva: WHO, 2025. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240113817. Acesso em: 5 ago. 2026.
#mpi
#alokadorole
#mpimaispertodaignorancia #maispertodaignorancia
@alokanorole_persona
Comentários
Enviar um comentário