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Quais permanências psicobiossociais tornam diferentes formas de dependência historicamente possíveis?

Quais permanências psicobiossociais tornam diferentes formas de dependência historicamente possíveis?


PARTE 1 — O acontecimento nunca chega sozinho

Toda investigação começa com um acontecimento.

Essa talvez seja a afirmação mais simples do Método Editorial do Mais Perto da Ignorância (MPI). Ao mesmo tempo, é uma das mais difíceis de sustentar. Vivemos em uma época que exige interpretações imediatas, diagnósticos rápidos e respostas instantâneas. Antes mesmo de compreendermos o que aconteceu, alguém já explicou suas causas, apontou culpados e apresentou soluções. O acontecimento mal emerge e já é coberto por camadas de discursos que disputam seu significado.

O MPI propõe o caminho inverso.

Não porque desconfie do conhecimento produzido até aqui, mas porque reconhece que o conhecimento também possui história, interesses, limites e condições de produção. Antes de perguntar o que um acontecimento significa, torna-se necessário perguntar o que, de fato, aconteceu.

Essa mudança parece pequena. Não é.

Ela reorganiza completamente a investigação.

Durante muito tempo, as dependências foram descritas a partir de seus objetos. Falou-se da dependência do álcool, da cocaína, do crack, dos opioides, do jogo, das apostas esportivas, das redes sociais, da pornografia, do trabalho, do consumo e, mais recentemente, da inteligência artificial. Cada novo objeto parecia inaugurar um novo problema. Cada avanço técnico parecia exigir uma nova teoria. Cada transformação cultural parecia anunciar uma ruptura definitiva com tudo aquilo que havia sido observado anteriormente.

Mas será que estamos realmente diante de fenômenos inteiramente novos?

Ou será que apenas mudaram os objetos, enquanto determinadas condições continuam atravessando a experiência humana?

Essa pergunta inaugura a Hipótese nº 04.

Ela não procura descobrir qual dependência é mais grave. Também não pretende estabelecer uma classificação definitiva entre dependências químicas e comportamentais. Seu interesse é anterior a essas distinções.

Ela pergunta:

Quais permanências psicobiossociais tornam diferentes formas de dependência historicamente possíveis?

Observe que essa formulação não procura uma essência escondida da dependência. Tampouco afirma que exista uma estrutura universal válida para todos os tempos e lugares. Ela apenas desloca o olhar.

Em vez de partir do objeto, parte das condições.

Em vez de partir do sintoma, parte do acontecimento.

Em vez de partir da explicação, parte da observação.

É nesse ponto que o método exige sua primeira disciplina.

Quando uma notícia informa o aumento das apostas esportivas, quando um relatório descreve o crescimento do consumo de psicofármacos, quando uma pesquisa revela alterações no comportamento digital de adolescentes ou quando um serviço de saúde registra novos padrões de sofrimento, a pergunta inicial não deve ser: "qual é a causa?".

Também não deve ser: "quem é o culpado?".

Muito menos: "qual teoria explica isso?".

A pergunta inaugural permanece outra:

O que aconteceu?

Essa simplicidade é apenas aparente.

Porque um acontecimento nunca se apresenta isolado.

Uma internação hospitalar é um acontecimento.

Uma propaganda é um acontecimento.

Uma inovação tecnológica é um acontecimento.

Uma mudança legislativa é um acontecimento.

Uma crise econômica é um acontecimento.

Uma transformação nas formas de trabalho também é um acontecimento.

Cada um deles deixa marcas no corpo, reorganiza relações sociais, altera práticas cotidianas e produz novos discursos sobre aquilo que está acontecendo.

Por isso, o acontecimento nunca é suficiente por si só.

Ele funciona como a porta de entrada da investigação.

É precisamente aqui que a Hipótese nº 04 começa a se diferenciar das anteriores.

Até este momento do Dossiê #NSDP, perguntávamos quais fatores poderiam participar da constituição das dependências. Agora a pergunta muda de natureza.

Não buscamos uma origem única.

Buscamos permanências.

Permanências não significam imobilidade.

Elas também mudam.

Mas mudam permanecendo.

A fome continua atravessando a história humana, embora a alimentação tenha mudado profundamente.

O medo permanece, ainda que seus objetos históricos sejam diferentes.

O pertencimento continua organizando a vida coletiva, embora as comunidades assumam formas distintas em cada época.

A necessidade de reconhecimento reaparece continuamente, ainda que as tecnologias que a organizam sejam radicalmente diferentes.

Talvez algo semelhante ocorra com determinadas formas de dependência.

Talvez aquilo que hoje chamamos por nomes diferentes participe de reorganizações históricas de questões muito mais antigas.

Mas isso ainda não passa de uma possibilidade.

E o MPI não transforma possibilidades em certezas.

A investigação apenas começou.

Neste momento, não sabemos quais permanências existem.

Não sabemos sequer se elas existem.

Sabemos apenas que o acontecimento, isoladamente, não basta.

Ele precisa ser interrogado.

É exatamente por isso que o método estabelece sua segunda exigência.

Depois do acontecimento, não vem imediatamente a interpretação.

Vem o corpo.

Porque toda hipótese, por mais sofisticada que pareça, continua submetida a uma pergunta extremamente simples:

O corpo confirma aquilo que o discurso afirma?

É para essa pergunta que seguiremos na próxima caminhada.

A caminhada continua...


PARTE 2 — O corpo não começa no discurso

Se toda investigação começa por um acontecimento, ela encontra seu primeiro critério de verificação no corpo.

Essa afirmação parece óbvia, mas talvez seja uma das mais esquecidas na contemporaneidade. Vivemos cercados por discursos sobre saúde, sofrimento, felicidade, desempenho, autonomia, liberdade e dependência. Nunca produzimos tantas explicações sobre o comportamento humano. Entretanto, quanto maior se torna a produção discursiva, maior parece ser o risco de confundirmos descrição com realidade.

O MPI procura interromper esse movimento.

Não porque o discurso seja irrelevante. Pelo contrário. O discurso organiza experiências, produz sentidos, institui normas, cria categorias diagnósticas, orienta políticas públicas e influencia profundamente a maneira como percebemos a nós mesmos e aos outros.

Mas o discurso não inaugura a existência do corpo.

O corpo o antecede.

Respirar antecede qualquer teoria sobre a respiração.

A fome antecede qualquer economia.

O nascimento antecede qualquer identidade.

O envelhecimento antecede qualquer filosofia.

A dor antecede qualquer explicação para a dor.

É precisamente por isso que o método estabelece uma pergunta permanente:

O corpo confirma aquilo que o discurso afirma?

Essa pergunta não diminui a importância das palavras.

Ela apenas devolve ao corpo a função de critério permanente de investigação.

Ao observarmos diferentes formas de dependência, frequentemente encontramos discursos muito distintos entre si. Há narrativas biomédicas, psicológicas, sociológicas, jurídicas, econômicas, religiosas e morais. Cada uma organiza determinados aspectos do fenômeno e invisibiliza outros. Todas podem contribuir para a compreensão. Nenhuma, isoladamente, encerra o problema.

O corpo, entretanto, permanece atravessando todas elas.

É o corpo que dorme pouco.

É o corpo que permanece desperto durante noites sucessivas.

É o corpo que experimenta abstinência.

É o corpo que trabalha além de seus limites.

É o corpo que se alimenta insuficientemente.

É o corpo que envelhece.

É o corpo que adoece.

É o corpo que morre.

Por isso, antes de perguntarmos qual teoria melhor explica determinada dependência, talvez seja necessário perguntar:

O que esse corpo está tentando sustentar?

Essa questão não deve ser confundida com uma interpretação psicológica imediata. Não estamos supondo intenções ocultas nem reduzindo a experiência humana à vida psíquica. Estamos apenas reconhecendo que todo corpo vive inserido em condições concretas.

Nenhum corpo existe fora do tempo.

Nenhum corpo existe fora de um território.

Nenhum corpo existe fora de relações sociais.

Nenhum corpo existe fora das técnicas disponíveis em sua época.

A própria ideia de autonomia muda conforme mudam as condições materiais da existência.

Um trabalhador submetido a jornadas exaustivas experimenta um corpo diferente daquele cuja rotina permite descanso, alimentação adequada e acesso a serviços de saúde. Um adolescente que cresce cercado por plataformas digitais aprende a organizar sua atenção de maneira distinta daquela de gerações anteriores. Um idoso atravessa o tempo carregando marcas biográficas que nenhuma tecnologia consegue apagar completamente.

Cada corpo registra sua história.

Mas registra também a história de seu tempo.

É aqui que a Hipótese nº 04 começa a adquirir outra profundidade.

Talvez as permanências psicobiossociais não devam ser procuradas apenas nos discursos ou nos objetos de dependência.

Talvez elas possam ser observadas naquilo que o corpo continua exigindo, apesar das mudanças históricas.

O corpo continua necessitando de repouso.

Continua necessitando de alimento.

Continua necessitando de vínculo.

Continua reagindo ao medo.

Continua produzindo memória.

Continua estabelecendo hábitos.

Continua aprendendo.

Continua esquecendo.

Essas permanências não explicam, por si só, nenhuma dependência. Mas delimitam um horizonte dentro do qual diferentes formas de dependência podem emergir.

Quando uma sociedade reorganiza o trabalho, o consumo ou as tecnologias, ela não modifica apenas instituições. Ela modifica ritmos corporais. Modifica ciclos de sono. Modifica formas de atenção. Modifica possibilidades de encontro. Modifica experiências de espera. Modifica maneiras de lidar com o prazer, com a frustração e com o sofrimento.

Essas transformações não acontecem primeiro na linguagem.

Acontecem na vida concreta.

Só depois são nomeadas.

Talvez seja exatamente nesse intervalo — entre a experiência corporal e sua organização discursiva — que algumas permanências possam ser investigadas.

Não para afirmar que sempre existiram da mesma forma.

Mas para perguntar de que maneira continuam produzindo efeitos sob condições históricas diferentes.

Nesse ponto, a Hipótese nº 04 exige outro cuidado metodológico.

Não basta observar o corpo isoladamente.

O corpo nunca é apenas biologia.

Ele também é trabalho.

Também é território.

Também é alimentação.

Também é moradia.

Também é renda.

Também é acesso à educação.

Também é violência.

Também é cuidado.

Também é técnica.

O corpo não existe separado das condições que o tornam possível.

É justamente por isso que a próxima etapa da investigação não permanecerá dentro do organismo.

Ela seguirá para aquilo que sustenta esse organismo cotidianamente.

Não perguntaremos ainda pelos discursos.

Perguntaremos pelas condições materiais da existência.

Porque talvez algumas permanências psicobiossociais não estejam escondidas dentro do indivíduo.

Talvez estejam distribuídas na maneira como uma sociedade organiza a possibilidade de viver.

A caminhada continua...



PARTE 3 — As condições materiais também pensam

Na caminhada anterior, interrompemos a investigação diante de uma constatação aparentemente simples: o corpo nunca existe sozinho.

Agora precisamos avançar um passo.

Se o corpo não existe isoladamente, então a pergunta deixa de ser apenas biológica.

Ela passa a ser material.

Isso significa reconhecer que todo corpo nasce dentro de determinadas condições de existência que não escolheu.

Ninguém escolhe o território onde nasce.

Ninguém escolhe a renda familiar que encontra.

Ninguém escolhe a disponibilidade de alimento.

Ninguém escolhe a qualidade da escola.

Ninguém escolhe a organização econômica de seu tempo histórico.

Ninguém escolhe as tecnologias que encontrará ao nascer.

Tudo isso já estava em funcionamento antes que qualquer sujeito pudesse dizer "eu".

Talvez seja exatamente aqui que uma parte importante das investigações sobre dependência comece a perder profundidade.

Frequentemente perguntamos por que determinada pessoa passou a consumir uma substância, a jogar compulsivamente, a permanecer conectada durante horas ou a trabalhar até o esgotamento.

Mas talvez exista uma pergunta anterior.

Em que mundo esse corpo precisou aprender a existir?

Essa pergunta muda o centro da investigação.

Ela não elimina a responsabilidade individual.

Também não transforma a sociedade em uma entidade abstrata que explica tudo.

Ela apenas desloca o foco para aquilo que antecede muitas escolhas.

Antes de qualquer decisão, existe uma realidade material.

Existe uma casa.

Ou a ausência dela.

Existe alimento.

Ou a insegurança alimentar.

Existe trabalho.

Ou desemprego.

Existe transporte.

Ou isolamento.

Existe acesso aos serviços de saúde.

Ou longas filas.

Existe tempo disponível.

Ou jornadas que ocupam quase toda a vida desperta.

Essas condições não determinam automaticamente uma forma de dependência.

Mas delimitam o campo dentro do qual inúmeras decisões passam a ser tomadas.

O corpo administra possibilidades.

Não infinitas possibilidades.

Possibilidades historicamente disponíveis.

É por isso que o MPI insiste em retornar continuamente às condições materiais.

Não porque elas expliquem tudo.

Mas porque nenhuma hipótese permanece sólida quando ignora o chão sobre o qual a vida acontece.

Imagine dois indivíduos.

Ambos experimentam sofrimento.

Ambos enfrentam perdas.

Ambos procuram formas de aliviar a dor.

Se observarmos apenas o sofrimento, talvez concluamos que vivem experiências semelhantes.

Entretanto, um possui moradia estável, alimentação adequada, rede de apoio, acesso à saúde e tempo para descanso.

O outro enfrenta desemprego, insegurança alimentar, violência cotidiana, transporte precário e ausência de vínculos protetivos.

Seria metodologicamente suficiente afirmar apenas que ambos sofrem?

Ou seria necessário investigar como essas condições reorganizam aquilo que cada um consegue fazer com esse sofrimento?

É exatamente aqui que a Hipótese nº 04 começa a afastar-se das explicações monocausais.

Ela não procura uma variável decisiva.

Procura relações.

As condições materiais não produzem apenas limitações.

Produzem ritmos.

Produzem expectativas.

Produzem formas de convivência.

Produzem maneiras distintas de experimentar o tempo.

Quem vive sob permanente insegurança organiza o futuro de maneira diferente de quem dispõe de relativa estabilidade.

Quem precisa trabalhar em múltiplos empregos administra o descanso de maneira diferente de quem possui maior autonomia sobre sua própria agenda.

Quem cresce em territórios marcados pela violência aprende precocemente a reorganizar sua atenção, seu medo e suas formas de proteção.

Esses processos não pertencem exclusivamente ao indivíduo.

Também não pertencem exclusivamente à sociedade.

Eles acontecem na relação entre ambos.

Talvez seja precisamente por isso que o MPI adota uma perspectiva psicobiossocial.

Nenhuma dessas dimensões existe isoladamente.

O psicológico não flutua acima do corpo.

O biológico não existe fora da história.

O social não paira acima das pessoas.

Cada dimensão modifica continuamente as demais.

Mas há ainda um aspecto que merece atenção.

As condições materiais não são apenas cenário.

Elas participam da produção da experiência.

Uma cidade organizada para longos deslocamentos produz uma experiência corporal específica.

Um território sem áreas de convivência reorganiza os encontros humanos.

Uma economia baseada na aceleração permanente modifica a percepção do tempo.

Uma lógica de produtividade contínua altera o significado do descanso.

Pouco a pouco, aquilo que parecia ser apenas contexto começa a participar da própria constituição da vida cotidiana.

É por isso que talvez devamos abandonar uma velha metáfora.

Durante muito tempo imaginamos que a sociedade fosse o palco onde os indivíduos atuavam.

Talvez essa imagem seja insuficiente.

A sociedade não é apenas o palco.

Ela participa da escrita da peça.

Cada rua.

Cada escola.

Cada fábrica.

Cada aplicativo.

Cada supermercado.

Cada hospital.

Cada política pública.

Cada ausência de política pública.

Tudo isso reorganiza, silenciosamente, as possibilidades de viver.

E é nesse ponto que a Hipótese nº 04 faz uma inflexão importante.

Talvez as permanências psicobiossociais não sejam propriedades escondidas dentro das pessoas.

Talvez elas também estejam distribuídas nas formas relativamente estáveis pelas quais diferentes sociedades organizam o acesso aos recursos necessários para viver.

Mas ainda não podemos afirmar isso.

Porque existe uma etapa anterior.

As condições materiais não surgem espontaneamente.

Elas também são organizadas.

Existe uma lógica que distribui trabalho.

Distribui riqueza.

Distribui tempo.

Distribui oportunidades.

Distribui escassez.

Distribui proteção.

Distribui vulnerabilidades.

Se queremos compreender como determinadas permanências atravessam diferentes formas históricas de dependência, precisaremos caminhar mais um pouco.

Depois do corpo.

Depois das condições materiais.

Será necessário perguntar como essas condições são produzidas, mantidas e transformadas pelas formas de organização social.

É para lá que a caminhada seguirá.

A caminhada continua...

PARTE 4 — A organização social também produz possibilidades

Na caminhada anterior, chegamos a uma conclusão provisória.

As condições materiais não existem por acaso.

Elas são produzidas.

Essa afirmação parece simples. No entanto, ela desloca novamente a investigação.

Até aqui observamos o acontecimento.

Depois retornamos ao corpo.

Em seguida, caminhamos pelas condições materiais que sustentam esse corpo.

Agora precisamos fazer outra pergunta.

Quem organiza essas condições?

Não estamos procurando um culpado.

O MPI não trabalha com culpados.

Trabalha com processos.

A história humana nunca foi organizada da mesma maneira.

As formas de produzir alimentos mudaram.

As formas de distribuir riquezas mudaram.

As formas de trabalhar mudaram.

As formas de educar mudaram.

As formas de cuidar mudaram.

As formas de punir mudaram.

As formas de consumir mudaram.

As formas de amar também mudaram.

Cada época reorganiza a vida de maneira diferente.

Por isso, talvez uma dependência nunca possa ser compreendida sem perguntar:

Como essa sociedade organiza a possibilidade de viver?

Essa pergunta exige cautela.

Ela não pretende substituir o indivíduo pela sociedade, nem dissolver a responsabilidade pessoal em estruturas abstratas.

Ela apenas reconhece que toda escolha acontece dentro de um campo de possibilidades historicamente organizado.

A liberdade nunca aparece no vazio.

Ela sempre encontra limites.

E esses limites não são distribuídos igualmente.

Alguns nascem cercados por múltiplas possibilidades.

Outros aprendem desde cedo a administrar escassez.

Alguns experimentam estabilidade.

Outros vivem sob permanente imprevisibilidade.

Alguns encontram instituições capazes de proteger.

Outros encontram instituições incapazes de responder às necessidades mais elementares.

Nada disso determina, automaticamente, uma forma de dependência.

Mas modifica profundamente o horizonte dentro do qual a vida se organiza.

Talvez devêssemos abandonar outra ideia muito difundida.

A ideia de que a sociedade funciona como um grande cenário sobre o qual indivíduos completamente autônomos tomam decisões independentes.

Essa imagem é sedutora.

Mas talvez seja insuficiente.

A organização social participa da fabricação cotidiana das possibilidades.

Ela define quanto tempo trabalhamos.

Quanto tempo descansamos.

Quanto tempo convivemos.

Quanto tempo estudamos.

Quanto tempo permanecemos conectados.

Quanto tempo sobra para simplesmente existir.

Poucas coisas dizem tanto sobre uma sociedade quanto a forma como ela distribui o tempo.

O tempo também é um recurso material.

Quando ele desaparece, desaparecem junto inúmeras possibilidades de elaboração da experiência.

Talvez por isso diferentes formas de aceleração tenham se tornado um dos traços mais marcantes do mundo contemporâneo.

Não apenas aceleramos deslocamentos.

Aceleramos decisões.

Aceleramos o consumo.

Aceleramos a informação.

Aceleramos vínculos.

Aceleramos o entretenimento.

Aceleramos o próprio sofrimento.

Vivemos como se tudo precisasse acontecer antes que algo pudesse ser compreendido.

Mas o corpo continua obedecendo ritmos que não podem ser totalmente acelerados.

O sono continua exigindo tempo.

O luto continua exigindo tempo.

A aprendizagem continua exigindo tempo.

A infância continua exigindo tempo.

O envelhecimento continua exigindo tempo.

Quando a organização social passa a exigir velocidades incompatíveis com esses ritmos, surge uma tensão que não pode ser ignorada.

Não porque ela produza dependências de forma direta.

Mas porque reorganiza permanentemente a relação entre o corpo e o mundo.

É nesse ponto que a Hipótese nº 04 começa a revelar outra dimensão de suas permanências.

Talvez aquilo que permanece não seja apenas uma característica do indivíduo.

Talvez permaneçam determinadas formas históricas de organizar necessidades humanas fundamentais.

Toda sociedade precisa produzir alimento.

Toda sociedade precisa organizar trabalho.

Toda sociedade precisa distribuir cuidados.

Toda sociedade precisa estabelecer normas de convivência.

Toda sociedade precisa criar mecanismos de reconhecimento.

Toda sociedade precisa responder, de alguma forma, ao sofrimento, ao conflito e à morte.

As respostas variam.

Mas os problemas permanecem.

Talvez seja exatamente essa permanência dos problemas — e não das respostas — que deva interessar ao MPI.

As respostas mudam conforme mudam as épocas.

Os mercados.

As tecnologias.

As instituições.

Os discursos.

Mas certas perguntas continuam reaparecendo.

Como garantir pertencimento?

Como lidar com a perda?

Como suportar o medo?

Como enfrentar a finitude?

Como administrar a espera?

Como conviver com a incerteza?

Essas perguntas atravessam séculos.

Mudam apenas os instrumentos utilizados para enfrentá-las.

É por isso que o objeto da Hipótese nº 04 não é a substância.

Não é o algoritmo.

Não é a plataforma digital.

Não é o jogo.

Não é a droga.

Não é o trabalho.

Esses objetos podem desaparecer.

Outros ocuparão seu lugar.

O que interessa ao MPI é compreender por que determinadas formas de relação reaparecem continuamente, ainda que mediadas por objetos completamente diferentes.

Nesse ponto, torna-se impossível ignorar outra dimensão da vida contemporânea.

As sociedades não se organizam apenas por instituições, leis e formas de trabalho.

Elas também se organizam pelas técnicas que produzem.

Cada técnica amplia algumas possibilidades.

E reduz outras.

Nenhuma técnica é neutra porque toda técnica reorganiza aquilo que um corpo pode fazer, perceber, desejar, lembrar e esquecer.

É por isso que nossa caminhada agora precisa atravessar um novo território.

Até aqui observamos a organização social.

Agora será necessário investigar a técnica.

Não como vilã.

Nem como salvadora.

Mas como uma das condições pelas quais antigas permanências podem assumir formas inteiramente novas.

A caminhada continua...

PARTE 5 — A técnica reorganiza o mundo antes de reorganizar o discurso

Na caminhada anterior, chegamos a uma hipótese provisória.

As condições materiais não existem isoladamente.

Elas são organizadas socialmente.

Mas essa organização nunca acontece sem instrumentos.

Toda sociedade produz técnicas.

Toda técnica modifica aquilo que uma sociedade consegue fazer.

Esse talvez seja um dos maiores equívocos do nosso tempo.

Quando falamos em técnica, quase sempre pensamos em computadores, celulares, inteligência artificial ou plataformas digitais.

Mas a técnica é muito mais antiga do que a eletricidade.

O fogo foi uma técnica.

A agricultura foi uma técnica.

A escrita foi uma técnica.

A roda foi uma técnica.

A imprensa foi uma técnica.

O relógio foi uma técnica.

A fábrica foi uma técnica.

A internet é uma técnica.

A inteligência artificial também é uma técnica.

Cada uma delas reorganizou profundamente a experiência humana.

Não porque mudaram apenas os objetos.

Mas porque mudaram aquilo que passou a ser possível fazer.

É justamente aqui que o MPI precisa fazer uma distinção importante.

A técnica não é boa.

A técnica não é má.

A técnica não possui intenção.

Ela amplia possibilidades.

E, ao ampliar algumas possibilidades, inevitavelmente reduz outras.

Quando o relógio passou a organizar a vida social, não surgiu apenas uma nova maneira de medir o tempo.

Surgiu uma nova maneira de viver o tempo.

Quando os meios digitais passaram a organizar a circulação das informações, não surgiu apenas uma nova forma de comunicação.

Surgiu uma nova forma de experimentar a atenção.

Quando aplicativos passaram a mediar relações de trabalho, não surgiu apenas um novo mercado.

Surgiu uma nova experiência cotidiana de disponibilidade permanente.

A técnica não modifica apenas ferramentas.

Ela modifica ritmos.

Modifica expectativas.

Modifica gestos.

Modifica hábitos.

Modifica memórias.

Modifica possibilidades de encontro.

Modifica maneiras de esperar.

Modifica maneiras de desejar.

Por isso, talvez uma dependência nunca possa ser compreendida apenas observando o objeto consumido.

É necessário perguntar:

Que possibilidades essa técnica reorganizou?

Essa pergunta é diferente daquela frequentemente encontrada no debate público.

Não perguntamos:

"A tecnologia faz mal?"

Também não perguntamos:

"A inteligência artificial vai destruir a humanidade?"

Nem:

"As redes sociais produzem dependência?"

Essas perguntas costumam dividir o mundo entre defensores e opositores da técnica.

O MPI procura outro caminho.

Pergunta:

O que essa técnica tornou possível?

E, simultaneamente:

O que ela tornou mais difícil?

Toda técnica reorganiza ganhos.

Mas também reorganiza perdas.

A escrita permitiu preservar conhecimentos durante séculos.

Ao mesmo tempo, reduziu a necessidade de memorizar grandes narrativas oralmente.

Os automóveis ampliaram deslocamentos.

Também reorganizaram profundamente as cidades.

A internet ampliou o acesso à informação.

Também reorganizou radicalmente a velocidade com que informações circulam.

A inteligência artificial amplia determinadas capacidades cognitivas.

Mas também modifica aquilo que talvez deixemos de exercitar.

Nada disso constitui um julgamento moral.

Constitui apenas uma descrição inicial.

Porque ainda não sabemos quais consequências permanecerão ao longo do tempo.

Talvez algumas desapareçam rapidamente.

Talvez outras reorganizem séculos de história.

Ainda não sabemos.

É precisamente por isso que a investigação permanece aberta.

Nesse ponto, a Hipótese nº 04 encontra uma das contribuições mais importantes do método do MPI.

As permanências psicobiossociais talvez não sobrevivam apesar das técnicas.

Talvez sobrevivam através delas.

A necessidade de pertencimento continua existindo.

Mas as formas de pertencimento mudam.

A necessidade de reconhecimento continua existindo.

Mas os dispositivos de reconhecimento se transformam.

A necessidade de comunicação permanece.

Entretanto, mudam os meios pelos quais nos comunicamos.

A necessidade de enfrentar a solidão permanece.

Mas os instrumentos disponíveis para lidar com ela são continuamente reorganizados.

Talvez seja exatamente por isso que diferentes dependências aparecem associadas a diferentes épocas.

Não porque as necessidades fundamentais tenham sido substituídas.

Mas porque as técnicas modificaram profundamente os caminhos disponíveis para responder a elas.

É importante evitar uma armadilha metodológica.

Quando uma nova técnica surge, existe uma tendência histórica de atribuir a ela praticamente todas as transformações observadas.

Já aconteceu com a imprensa.

Com o rádio.

Com a televisão.

Com os videogames.

Com a internet.

Agora acontece com a inteligência artificial.

O entusiasmo e o medo costumam caminhar juntos.

Mas o entusiasmo também pode ocultar permanências.

E o medo também.

Talvez nenhuma técnica produza, sozinha, aquilo que frequentemente lhe atribuímos.

Talvez ela reorganize condições já existentes.

Talvez acelere processos antigos.

Talvez amplifique vulnerabilidades anteriores.

Talvez modifique a escala de fenômenos conhecidos.

Mas isso só poderá ser compreendido se continuarmos investigando.

É exatamente nesse ponto que a Hipótese nº 04 exige outro deslocamento.

Até aqui observamos o corpo.

As condições materiais.

A organização social.

A técnica.

Mas toda técnica produz narrativas sobre si mesma.

Toda sociedade cria explicações para aquilo que inventa.

Toda época aprende a contar histórias sobre seus próprios instrumentos.

É nesse momento que surgem os discursos.

Não como origem da realidade.

Mas como tentativas de organizá-la, justificá-la, criticá-la, regulamentá-la ou disputá-la.

Se quisermos compreender como determinadas permanências atravessam diferentes formas históricas de dependência, precisaremos agora investigar aquilo que as sociedades dizem sobre si mesmas.

Porque o discurso não cria o corpo.

Mas reorganiza profundamente a forma como passamos a compreendê-lo.

É para essa nova etapa que a caminhada seguirá.

A caminhada continua...


PARTE 6 — O discurso não cria a realidade. Ele disputa seu significado.

Chegamos a um ponto delicado da caminhada.

Durante muito tempo, diferentes tradições intelectuais atribuíram ao discurso um lugar privilegiado na compreensão da realidade. Em alguns momentos, parecia suficiente modificar a linguagem para transformar o mundo. Em outros, bastava alterar conceitos para supor que os fenômenos também haviam mudado.

O MPI propõe outra ordem.

Não porque o discurso seja secundário.

Mas porque ele chega depois.

Primeiro acontece.

Depois sentimos.

Depois sobrevivemos.

Depois organizamos materialmente a vida.

Depois produzimos técnicas.

Só então começamos a narrar aquilo que aconteceu.

É nesse momento que surge o discurso.

O discurso é uma tentativa humana de organizar o mundo.

Ele nomeia.

Classifica.

Hierarquiza.

Explica.

Justifica.

Condena.

Absolve.

Produz categorias.

Produz identidades.

Produz diagnósticos.

Produz políticas públicas.

Produz direitos.

Produz exclusões.

Nenhuma sociedade existe sem discurso.

Mas nenhuma sociedade se reduz ao discurso.

Essa distinção é decisiva para a Hipótese nº 04.

Porque talvez um dos maiores riscos metodológicos da contemporaneidade seja transformar toda investigação em uma disputa exclusivamente discursiva.

Discutimos palavras.

Discutimos conceitos.

Discutimos narrativas.

Enquanto isso, os corpos continuam dormindo pouco.

Continuam adoecendo.

Continuam trabalhando.

Continuam sentindo fome.

Continuam morrendo.

O discurso modifica profundamente nossa compreensão desses acontecimentos.

Mas não elimina sua materialidade.

É justamente por isso que o protocolo do MPI estabelece uma pergunta permanente:

O corpo confirma aquilo que o discurso afirma?

Essa pergunta não desqualifica o discurso.

Ela apenas impede que ele se torne autossuficiente.

Quando uma sociedade passa a chamar determinado comportamento de doença, produz consequências reais.

Quando deixa de chamá-lo assim, também produz consequências.

Quando uma legislação modifica categorias jurídicas, modifica práticas institucionais.

Quando uma campanha pública altera formas de nomear determinado fenômeno, reorganiza percepções coletivas.

O discurso produz efeitos.

Mas continua sendo efeito e produtor de efeitos.

Não é o ponto inaugural da investigação.

Talvez possamos compreender isso observando a própria história das dependências.

Ao longo dos séculos, aquilo que hoje chamamos de dependência recebeu nomes muito diferentes.

Já foi pecado.

Já foi vício.

Já foi fraqueza moral.

Já foi desvio.

Já foi crime.

Já foi doença.

Já foi transtorno.

Já foi estilo de vida.

Cada nome reorganizou práticas sociais.

Mudaram as formas de tratamento.

Mudaram as formas de punição.

Mudaram as formas de cuidado.

Mudaram as formas de pesquisa.

Mudaram as políticas públicas.

Entretanto, uma pergunta permanece.

O fenômeno mudou na mesma velocidade em que mudaram os nomes?

Talvez sim.

Talvez não.

Ainda não sabemos.

E justamente por isso continuamos investigando.

É aqui que os Cadáveres Discursivos assumem plenamente sua função metodológica.

Freud entra na caminhada.

Não para responder.

Mas para perguntar.

Marx também.

Nietzsche.

Camus.

André Green.

Byung-Chul Han.

Shoshana Zuboff.

Bauman.

Ernest Becker.

Todos comparecem ao Tribunal da Ignorância.

Nenhum ocupa a cadeira da verdade.

Todos oferecem documentos.

Todos iluminam partes do problema.

Nenhum encerra a investigação.

Essa talvez seja uma das rupturas mais importantes do MPI.

Os autores deixam de funcionar como autoridades.

Passam a funcionar como testemunhas históricas.

Cada um observou um tempo.

Cada um descreveu determinadas permanências.

Cada um deixou perguntas.

Mas nenhuma pergunta permanece intacta quando o acontecimento muda.

É por isso que o Arquivista não cita autores para vencer debates.

Ele os apresenta como registros históricos de modos humanos de compreender o mundo.

Silvan, por sua vez, pergunta:

"Essa explicação ainda continua de pé diante do corpo?"

Breguésio acrescenta:

"Ou estamos apenas repetindo um discurso porque ele se tornou confortável?"

A Loka do Rolê devolve todos à rua.

Porque a cidade continua produzindo acontecimentos que nenhum livro conseguiu antecipar completamente.

Nesse momento da caminhada, outra hipótese começa a ganhar forma.

Talvez as permanências psicobiossociais não estejam apenas nos corpos.

Nem apenas nas condições materiais.

Nem apenas na organização social.

Nem apenas nas técnicas.

Talvez elas também permaneçam na maneira como diferentes épocas insistem em construir explicações definitivas para fenômenos que continuam mudando.

Talvez exista uma permanência ainda mais profunda.

A necessidade humana de transformar hipóteses em certezas.

De substituir perguntas por respostas.

De encerrar investigações antes que elas possam produzir novos problemas.

Se essa permanência existir, ela atravessará não apenas as dependências.

Atravessará a própria produção do conhecimento.

É exatamente nesse ponto que surge a última camada metodológica da Hipótese nº 04.

Porque, no século XXI, os discursos já não circulam apenas entre pessoas.

Eles passam por sistemas técnicos capazes de selecionar, ordenar, acelerar, repetir, ocultar e amplificar determinadas narrativas.

O discurso continua existindo.

Mas agora sua circulação também possui arquitetura.

E compreender essa arquitetura talvez seja indispensável para investigar como determinadas permanências assumem formas inéditas na contemporaneidade.

É para esse território que nossa caminhada seguirá.

Não investigaremos apenas o discurso.

Investigaremos a discursividade digital.

A caminhada continua...

PARTE 7 — A discursividade digital reorganiza a atenção antes de reorganizar as ideias

Na caminhada anterior, interrompemos a investigação diante de uma hipótese importante.

O discurso nunca circulou sozinho.

Ele sempre precisou de algum meio.

Precisou da voz.

Precisou da escrita.

Precisou do papel.

Precisou da imprensa.

Precisou do rádio.

Precisou da televisão.

Precisou da internet.

A diferença é que, durante grande parte da história, o meio servia principalmente para transportar o discurso.

Hoje, essa relação tornou-se mais complexa.

O meio também passou a organizar quais discursos chegam primeiro.

Quais permanecem visíveis.

Quais desaparecem.

Quais retornam continuamente.

Quais jamais serão encontrados.

É exatamente aqui que o MPI distingue discurso de discursividade digital.

O discurso continua sendo aquilo que os seres humanos produzem para interpretar a realidade.

A discursividade digital é o conjunto de processos técnicos que reorganizam a circulação, a repetição, a visibilidade e a permanência desses discursos.

Essa distinção parece pequena.

Mas ela altera profundamente a investigação.

Durante muito tempo acreditamos que as ideias competiam principalmente por sua força argumentativa.

Hoje sabemos que elas também disputam tempo de exposição.

Disputam repetição.

Disputam prioridade.

Disputam atenção.

Talvez o recurso mais escasso do século XXI não seja a informação.

Seja a atenção.

Nunca tivemos acesso a tantos conteúdos.

Nunca produzimos tantos textos.

Nunca registramos tantas imagens.

Nunca publicamos tantas opiniões.

Entretanto, a experiência cotidiana parece cada vez mais fragmentada.

Não porque pensamos menos.

Mas porque somos continuamente convocados a interromper aquilo que estávamos pensando.

Essa interrupção permanente não é apenas psicológica.

Ela também é técnica.

Os sistemas digitais organizam fluxos.

Selecionam prioridades.

Calculam probabilidades.

Distribuem visibilidades.

Nenhuma dessas operações acontece no vazio.

Elas reorganizam a experiência cotidiana.

Isso não significa afirmar que os algoritmos controlam completamente o comportamento humano.

O MPI rejeita esse tipo de determinismo.

As pessoas continuam interpretando.

Continuam resistindo.

Continuam criando.

Continuam recusando.

Mas também seria insuficiente imaginar que a técnica apenas transporta conteúdos de forma neutra.

Ela organiza condições de circulação.

E toda condição de circulação modifica aquilo que pode circular.

Talvez seja precisamente aqui que uma nova permanência apareça.

Ao longo da história, os seres humanos sempre disputaram atenção.

O contador de histórias disputava atenção.

O sacerdote disputava atenção.

O professor disputava atenção.

O jornal disputava atenção.

A televisão disputava atenção.

Nada disso é novo.

O que parece novo é a velocidade com que essa disputa passou a ser reorganizada.

A técnica deixou de apenas ampliar a comunicação.

Passou a administrar continuamente a distribuição da atenção coletiva.

Essa mudança produz consequências que ainda estamos aprendendo a investigar.

Ela modifica ritmos de leitura.

Modifica tempos de espera.

Modifica formas de memória.

Modifica critérios de relevância.

Modifica expectativas de recompensa.

Modifica até mesmo aquilo que consideramos digno de permanecer em nossa consciência.

Mas talvez a questão mais importante não seja essa.

Talvez devamos perguntar outra coisa.

O que permanece humano mesmo quando toda a circulação da informação muda?

Essa pergunta nos devolve à Hipótese nº 04.

Porque talvez a discursividade digital não tenha criado necessidades completamente novas.

Talvez ela reorganize necessidades muito antigas.

O desejo de reconhecimento permanece.

A busca por pertencimento permanece.

A curiosidade permanece.

O medo permanece.

A comparação permanece.

A necessidade de orientação permanece.

A necessidade de reconhecimento pelo outro permanece.

O que muda são os dispositivos através dos quais essas necessidades passam a circular.

Essa distinção impede dois erros muito frequentes.

O primeiro consiste em demonizar a tecnologia.

O segundo consiste em imaginá-la completamente neutra.

O MPI não adota nenhum desses caminhos.

A técnica reorganiza possibilidades.

A discursividade digital reorganiza a circulação dessas possibilidades.

O restante permanece objeto de investigação.

É exatamente por isso que o Feed ocupa um lugar específico dentro da Dramaturgia Clínica Discursiva.

O Feed não representa a internet.

Não representa uma rede social.

Não representa uma empresa.

O Feed representa uma função metodológica.

Ele lembra continuamente que aquilo que vemos nunca corresponde à totalidade do que existe.

Sempre existe algo que permaneceu invisível.

Sempre existe algo que deixou de circular.

Sempre existe um silêncio produzido pelas próprias formas de circulação.

Enquanto Breguésio pergunta.

Enquanto o Arquivista apresenta documentos.

Enquanto Silvan desmonta explicações excessivamente rápidas.

Enquanto A Loka do Rolê devolve tudo ao corpo e ao território.

O Feed reorganiza aquilo que cada um consegue enxergar.

Ele não cria a realidade.

Mas reorganiza continuamente a experiência da realidade.

Talvez seja exatamente aí que resida uma das maiores transformações contemporâneas.

Não vivemos apenas entre discursos.

Vivemos entre arquiteturas de circulação.

Arquiteturas que selecionam.

Arquiteturas que repetem.

Arquiteturas que aceleram.

Arquiteturas que esquecem.

Arquiteturas que mantêm determinados temas permanentemente presentes e outros permanentemente ausentes.

Entretanto, mesmo diante dessa enorme reorganização técnica, uma pergunta continua resistindo.

Quais permanências continuam atravessando todas essas transformações?

É essa pergunta que impedirá o MPI de transformar a tecnologia na nova explicação universal.

Porque nenhuma técnica substitui a investigação.

Nenhum algoritmo elimina o corpo.

Nenhuma plataforma revoga a história.

Nenhuma inovação dissolve completamente as condições materiais da existência.

A caminhada, portanto, aproxima-se de um momento decisivo.

Até aqui investigamos o acontecimento, o corpo, as condições materiais, a organização social, a técnica, o discurso e a discursividade digital.

Agora será necessário colocar tudo isso em movimento.

Não em uma conclusão.

Mas em um procedimento.

Chegou o momento de convocar o Tribunal da Ignorância.

Não para decidir quem está certo.

Mas para verificar se a própria Hipótese nº 04 consegue resistir às perguntas que ela mesma produziu.

Porque uma hipótese que não suporta ser interrogada já deixou de ser uma hipótese.

Transformou-se em crença.

E o MPI não foi criado para administrar crenças.

Foi criado para investigar.

A caminhada continua...

PARTE 8 — O Tribunal da Ignorância: quando a hipótese passa a investigar a si mesma

Até aqui caminhamos por sete territórios.

Começamos pelo acontecimento.

Passamos pelo corpo.

Seguimos pelas condições materiais.

Observamos a organização social.

Atravessamos a técnica.

Interrogamos o discurso.

Chegamos à discursividade digital.

Agora acontece algo diferente.

Pela primeira vez, a investigação deixa de olhar apenas para o mundo.

Ela volta o olhar para si mesma.

Porque toda hipótese corre um risco.

O risco de começar investigando a realidade...

e terminar defendendo a própria hipótese.

É exatamente para impedir esse movimento que existe o Tribunal da Ignorância.

Ele não foi criado para produzir sentenças.

Foi criado para impedir que uma hipótese envelheça sem ser interrogada.

Enquanto muitas instituições procuram confirmar aquilo em que acreditam, o Tribunal faz a pergunta inversa:

Onde esta hipótese pode estar errada?

Essa talvez seja a pergunta mais difícil de suportar.

Porque todos nós, em algum momento, nos apaixonamos pelas nossas próprias explicações.

Gostamos quando uma teoria parece organizar o mundo.

Sentimos alívio quando uma hipótese parece explicar acontecimentos diferentes.

Existe conforto em acreditar que finalmente encontramos uma chave capaz de abrir todas as portas.

Mas é justamente nesse instante que a investigação começa a morrer.

O MPI parte de outra posição.

Nenhuma hipótese merece permanecer viva apenas porque é elegante.

Ela precisa sobreviver ao confronto com os acontecimentos.

Por isso, a Hipótese nº 04 chega agora ao Tribunal.

Não para ser defendida.

Mas para ser interrogada.


Breguésio toma a palavra.

— Nós caminhamos durante todo esse percurso perguntando pelas permanências.

Mas quem garantiu que elas existem?

Não estaremos apenas criando uma nova palavra para organizar aquilo que ainda não compreendemos?

Talvez existam apenas acontecimentos independentes.

Talvez cada dependência seja realmente um fenômeno completamente diferente.

Talvez não exista nada que permaneça.

Se isso for verdade...

o que acontece com toda esta hipótese?

O silêncio toma conta da sala.

Porque a pergunta é legítima.

Nenhuma hipótese pode fugir dela.


O Arquivista abre seus documentos.

— Os registros históricos mostram mudanças profundas.

Mudaram as substâncias.

Mudaram os mercados.

Mudaram os tratamentos.

Mudaram as leis.

Mudaram os diagnósticos.

Mudaram as instituições.

Mudaram as tecnologias.

Mas também mostram algo curioso.

Certas perguntas retornam continuamente.

Como lidar com o sofrimento?

Como enfrentar perdas?

Como produzir pertencimento?

Como organizar o prazer?

Como suportar a espera?

Como administrar o medo?

Essas perguntas aparecem em épocas muito diferentes.

O Arquivista fecha lentamente seus documentos.

— Os documentos não provam permanências.

Mostram apenas que determinadas questões reaparecem.

O restante continua sendo investigação.


Silvan sorri discretamente.

— Talvez estejamos cometendo um erro elegante.

Sempre que encontramos algo que retorna, sentimos vontade de chamá-lo de essência.

Mas retorno não é essência.

Repetição não é identidade.

Uma pergunta pode retornar por razões completamente diferentes.

Talvez estejamos observando apenas semelhanças produzidas pela nossa própria maneira de olhar.

Talvez as permanências estejam menos na realidade...

e mais no observador.

A sala permanece em silêncio.

Porque Silvan não desmontou apenas uma teoria.

Desmontou a tranquilidade de quem acreditava já ter encontrado uma resposta.



O Feed interrompe a audiência.

Nenhuma palavra.

Nenhuma explicação.

Apenas imagens.

Notícias.

Vídeos.

Gráficos.

Alertas.

Publicidade.

Estatísticas.

Influenciadores.

Especialistas.

Indignações.

Escândalos.

Tudo atravessa a sala ao mesmo tempo.

Durante alguns segundos, ninguém consegue terminar uma única linha de raciocínio.

Então o Feed pergunta.

— Vocês perceberam?

Não interrompi a investigação.

Interrompi a atenção.

Talvez exista uma diferença.

Talvez a maior dificuldade contemporânea não seja produzir conhecimento.

Seja permanecer tempo suficiente diante de uma pergunta.

O silêncio retorna.

Agora ainda mais pesado.



A Loka do Rolê levanta-se.

Ela não olha para os autores.

Não olha para o Feed.

Não olha para a hipótese.

Olha pela janela.

Lá fora existe uma cidade.

Uma ambulância atravessa a avenida.

Um entregador espera o semáforo abrir.

Uma mulher sai de um posto de saúde.

Uma criança corre atrás de uma bola.

Um homem dorme sobre um pedaço de papelão.

Outro consulta o celular pela décima vez em poucos minutos.

A cidade continua.

Como sempre continuou.

A Loka fala lentamente.

— Antes de discutirmos permanências...

respondam outra pergunta.

Onde está o corpo?

Porque toda vez que uma hipótese esquece o corpo...

ela começa a acreditar apenas em si mesma.

E toda vez que esquece a rua...

ela passa a conversar apenas com outros livros.

Se as permanências existirem...

elas deverão aparecer primeiro aqui.

No corpo.

No trabalho.

Na fome.

No cuidado.

Na violência.

Na infância.

Na velhice.

No território.

Na cidade.

Não nas teorias.

As teorias virão depois.

Como sempre vieram.



O Tribunal encerra a sessão.

Nenhuma decisão foi tomada.

Nenhuma hipótese foi confirmada.

Nenhuma foi rejeitada.

A Hipótese nº 04 saiu do Tribunal mais frágil do que entrou.

E talvez isso seja um bom sinal.

Porque hipóteses fortes demais costumam parar de investigar.

Hipóteses frágeis continuam caminhando.

Talvez seja exatamente essa a função do Tribunal da Ignorância.

Não proteger hipóteses.

Mas protegê-las de si mesmas.

Na próxima caminhada, restará apenas uma etapa.

Não será uma conclusão.

Será um retorno.

Voltaremos ao acontecimento do qual partimos.

Não para encerrá-lo.

Mas para verificar se, depois de toda essa caminhada, aprendemos a olhar para ele de outra maneira.

Só então será possível escrever a Hipótese Provisória.

E, mesmo assim, ela permanecerá aberta ao próximo acontecimento.

A caminhada continua...


Quais permanências psicobiossociais tornam diferentes formas de dependência historicamente possíveis?

PARTE FINAL — A hipótese permanece. A investigação continua.

Chegamos ao final desta caminhada.

Não ao final do problema.

Não ao final da hipótese.

Chegamos apenas ao limite desta escrita.

O percurso começou por um acontecimento.

Poderia ter sido qualquer um.

Uma notícia sobre apostas.

Uma internação.

Uma pesquisa científica.

Um aumento do consumo de psicofármacos.

Uma criança diante de uma tela.

Um trabalhador exausto.

Um adolescente acordado durante a madrugada.

Uma cidade que já não consegue descansar.

Pouco importava qual acontecimento escolheríamos.

Porque, desde o início, a intenção nunca foi explicar aquele fato específico.

A intenção era descobrir se existia um caminho capaz de investigá-lo sem reduzi-lo imediatamente a uma única causa.

Foi assim que caminhamos.

Primeiro perguntamos pelo acontecimento.

Depois retornamos ao corpo.

Em seguida observamos as condições materiais.

Passamos pela organização social.

Investigamos a técnica.

Chegamos ao discurso.

Depois à discursividade digital.

E, finalmente, submetemos toda essa construção ao Tribunal da Ignorância.

Ao longo desse percurso, uma transformação silenciosa aconteceu.

No início desta hipótese, procurávamos compreender as dependências.

Agora compreendemos que talvez o verdadeiro objeto da investigação nunca tenham sido apenas as dependências.

Talvez o verdadeiro objeto sejam as condições que tornam determinadas formas de dependência historicamente possíveis.

Essa mudança altera profundamente o Dossiê #NSDP.

A substância deixa de ocupar o centro.

O algoritmo deixa de ocupar o centro.

O jogo deixa de ocupar o centro.

A inteligência artificial deixa de ocupar o centro.

O consumo deixa de ocupar o centro.

Nenhum desses elementos desaparece.

Mas todos deixam de ser tratados como explicações suficientes.

Eles passam a ser compreendidos como acontecimentos situados dentro de processos muito maiores.

Foi exatamente nesse ponto que surgiu a pergunta que organizou toda esta caminhada.

Quais permanências psicobiossociais tornam diferentes formas de dependência historicamente possíveis?

Observe que continuamos sem respondê-la.

E isso não representa um fracasso metodológico.

Representa justamente o contrário.

Uma hipótese existe para organizar perguntas.

Não para eliminá-las.

Ao longo desta investigação, encontramos algumas permanências possíveis.

O corpo continua impondo limites.

A fome continua existindo.

A necessidade de pertencimento continua atravessando diferentes épocas.

A necessidade de reconhecimento continua reaparecendo sob novas formas.

O sofrimento continua exigindo elaboração.

A finitude continua organizando silenciosamente a existência humana.

O medo continua reorganizando comportamentos.

A aprendizagem continua exigindo tempo.

O cuidado continua sendo indispensável.

Essas permanências, entretanto, jamais apareceram isoladamente.

Sempre surgiram atravessadas pelas condições materiais.

Pelas formas de organização social.

Pelas técnicas disponíveis.

Pelos discursos produzidos em cada época.

Pelas arquiteturas contemporâneas da discursividade digital.

Talvez seja exatamente essa a principal contribuição da Hipótese nº 04.

Ela impede que qualquer uma dessas dimensões seja transformada em explicação única.

Nem a biologia explica tudo.

Nem a psicologia.

Nem a economia.

Nem a sociologia.

Nem a tecnologia.

Nem o discurso.

Nem o algoritmo.

Todos participam.

Nenhum basta.

Ao longo da caminhada também aprendemos outra coisa.

Os autores deixaram de ocupar o lugar de juízes.

Freud já não aparece para resolver a questão.

Marx também não.

Nietzsche tampouco.

Camus.

André Green.

Bauman.

Byung-Chul Han.

Shoshana Zuboff.

Ernest Becker.

Todos continuam presentes.

Mas agora comparecem como aquilo que o MPI passou a chamar de Cadáveres Discursivos.

Não porque tenham perdido importância.

Mas porque nenhuma teoria permanece viva apenas por ter sido escrita.

Toda teoria precisa voltar continuamente ao acontecimento.

Precisa reencontrar o corpo.

Precisa caminhar novamente pelas ruas.

Precisa aceitar que novos documentos poderão confirmar algumas de suas hipóteses e abandonar outras.

Os autores deixam de ser autoridades.

Passam a ser companheiros de caminhada.

Talvez esse seja um dos maiores deslocamentos metodológicos do projeto.

O conhecimento deixa de funcionar como coleção de respostas.

Passa a funcionar como arquivo de perguntas.

É justamente por isso que o Tribunal da Ignorância nunca produz sentenças.

Ele apenas impede que nossas hipóteses envelheçam sem serem interrogadas.

Ao final desta caminhada, resta apenas uma pergunta.

Ela não pertence à Hipótese nº 04.

Ela pertence ao próprio MPI.

Como continuar investigando sem transformar a investigação em uma nova crença?

Talvez essa pergunta nunca seja respondida definitivamente.

Talvez ela precise permanecer aberta para proteger todas as hipóteses que ainda serão construídas.

É por isso que esta hipótese não termina com uma conclusão.

Termina com um compromisso metodológico.

Sempre que um novo acontecimento surgir, o percurso recomeçará.

Voltaremos ao corpo.

Voltaremos às condições materiais.

Voltaremos à organização social.

Voltaremos à técnica.

Voltaremos ao discurso.

Voltaremos à discursividade digital.

Voltaremos ao Tribunal da Ignorância.

E voltaremos, sobretudo, à dúvida.

Porque é a dúvida — e não a certeza — que mantém viva uma investigação.


Hipótese Provisória nº 04

Diferentes formas históricas de dependência podem constituir reorganizações de permanências psicobiossociais que atravessam o corpo, as condições materiais de existência, as formas de organização social, as técnicas, os discursos e a discursividade digital. Essas permanências não são pressupostas como essências nem como causas universais; permanecem como objetos de investigação, continuamente confrontados pelos acontecimentos, pelos documentos e pela experiência concreta.


Registro no Arquivo Vivo do MPI

Esta hipótese permanece provisória, revisável e subordinada ao método.

Ela não encerra uma investigação.

Ela inaugura um programa de pesquisa.

Cada notícia analisada pelo Radar #NSDP, cada episódio do Tribunal da Ignorância, cada Crônica Clínica Comentada, cada podcast e cada novo documento do Arquivo Vivo passam, a partir desta hipótese, a responder menos à pergunta "qual é a causa?" e mais à pergunta:

– Quais permanências psicobiossociais tornam este acontecimento historicamente possível?


Talvez essa seja a principal contribuição da Hipótese nº 04 para o MPI.

Ela transforma o projeto definitivamente em um método de investigação, e não em um repositório de explicações.

Fim da caminhada de hoje.

A investigação continua.

Sim. Pensando na arquitetura editorial que o MPI consolidou ao longo de todos esses documentos, eu padronizaria um fechamento que passará a acompanhar todas as Hipóteses, Crônicas Clínicas Comentadas, ensaios metodológicos e Dossiês #NSDP. Isso fortalece tanto a consistência científica quanto a indexação do Arquivo Vivo.


REFERÊNCIAS:

As referências abaixo constituem o Banco Teórico mobilizado nesta hipótese. Elas não funcionam como autoridades finais, mas como instrumentos de investigação (Cadáveres Discursivos), conforme o método do MPI.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

BECKER, Ernest. A negação da morte. Rio de Janeiro: Record, 2007.

CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2019.

CIORAN, Emil M. Breviário de decomposição. São Paulo: Rocco, 2011.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

GREEN, André. Narcisismo de vida, narcisismo de morte. São Paulo: Escuta, 1988.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.

HAN, Byung-Chul. Infocracia: digitalização e crise da democracia. Petrópolis: Vozes, 2022.

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. Genebra: OMS.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.

Além das obras teóricas, o projeto recomenda, sempre que pertinente ao tema investigado, a consulta contínua a bases documentais e científicas como:

IBGE;

IPEA;

Fiocruz;

Ministério da Saúde;

SciELO;

PubMed;

CAPES;

Organização Mundial da Saúde (OMS);

Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).


NOTA METODOLÓGICA

Este texto integra o Projeto Mais Perto da Ignorância (MPI) e o Dossiê #NSDP – Notícias sobre Dependências Químicas e outras Dependências.

As hipóteses aqui apresentadas possuem caráter provisório, revisável e investigativo. O objetivo não consiste em estabelecer explicações definitivas, mas em construir percursos de investigação a partir de acontecimentos documentados.

O método adota como eixo analítico a perspectiva psicobiossocial e discursivo-digital, obedecendo à sequência metodológica:

Acontecimento → Corpo → Condições Materiais → Organização Social → Técnica → Discurso → Discursividade Digital → Hipótese Provisória.

Os autores mobilizados funcionam como Cadáveres Discursivos, isto é, instrumentos históricos de leitura, jamais autoridades definitivas.

Este material possui finalidade científica, editorial e educativa. Não substitui avaliação clínica, psicológica, psiquiátrica, jurídica ou qualquer outra intervenção profissional.


Mini Bio 

Mais Perto da Ignorância (MPI) é um projeto editorial independente dedicado à investigação de fenômenos contemporâneos a partir de uma perspectiva psicobiossocial e discursivo-digital. Em vez de buscar respostas rápidas ou explicações monocausais, o projeto organiza percursos de investigação fundamentados em acontecimentos documentados, evidências científicas e reflexão interdisciplinar. Seus produtos incluem ensaios metodológicos, Crônicas Clínicas Comentadas, podcasts, o Tribunal da Ignorância, o Radar #NSDP e o Arquivo Vivo, sempre orientados pelo compromisso de investigar antes de concluir.


PALAVRAS-CHAVE

Dependência; Dependências Químicas; Dependências Comportamentais; Psicologia; Psicanálise; Saúde Mental; Psicobiossocial; Discursividade Digital; Condições Materiais; Organização Social; Técnica; Atenção; Algoritmos; Capitalismo de Vigilância; Sociedade do Cansaço; Trauma; Corpo; Tempo; Território; Investigação Científica; Método Científico; Filosofia; Sociologia; Neurociências; Saúde Coletiva; Arquivo Vivo; Tribunal da Ignorância; MPI; NSDP.


#mpi 
#nsdp 
#alokadorole 
#maispertodaignorancia #mpimaispertodaignorancia


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