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EM UM RODEIO QUALQUER, OS BOIS TINHAM MAIS EDUCAÇÃO / Crônica da Loka do Rolê

EM UM RODEIO QUALQUER, OS BOIS TINHAM MAIS EDUCAÇÃO

Crônica da Loka do Rolê



Eu fui visitar um rodeio qualquer.

Não vou dizer onde.

Não porque seja segredo.

É porque, depois de certa idade, a gente aprende que trocar o nome do lugar não muda muita coisa.

Troca a placa.

Troca a cidade.

Troca a marca da festa.

Troca o cantor.

Troca a caminhonete.

Troca o influenciador.

E, se bobear, troca até o boi.

O resto continua lá.

Eu cheguei num rodeio qualquer esperando encontrar aquilo que um rodeio costuma prometer: poeira, arena, cavalo, boi, peão, berrante, música, comida, gente cansada, gente bêbada, gente apaixonada pelo campo e aquela velha fantasia brasileira de que existe alguma coisa profundamente autêntica escondida atrás de uma caminhonete levantada dois metros acima do chão.

Encontrei.

Só que tinha uma coisa estranha.

Os bois pareciam ser os únicos animais que ainda sabiam exatamente o que estavam fazendo.

Fiquei olhando.

O boi entrava na arena.

Pulava.

Corria.

Tentava se livrar do sujeito agarrado nele.

Depois saía.

Fim.

Nenhum pronunciamento.

Nenhum story.

Nenhum advogado digital.

Nenhum vídeo de sete minutos explicando que, na verdade, o boi começou.

Nenhuma tropa.

Nenhuma nota oficial do boi.

Nenhum amigo do boi dizendo que ele estava bêbado.

Nenhuma ex-namorada do boi aparecendo para contar que, no rodeio do ano passado, ele já tinha sido agressivo.

O boi, aparentemente, tinha uma vantagem sobre nós:

não precisava construir uma narrativa para justificar a própria existência.

Eu continuei andando.

E percebi que o rodeio qualquer tinha uma segunda arena.

Era a arena dos humanos.

E nessa arena ninguém usava chapéu de peão.

Usava câmera.

A câmera virou o novo berrante.

Todo mundo precisava anunciar alguma coisa.

“Eu vou contar o que aconteceu.”

“Eu tenho a minha versão.”

“Eu tenho vídeo.”

“Eu tenho testemunha.”

“Eu tenho áudio.”

“Eu tenho prova.”

“Eu vou mostrar tudo.”

E eu pensei:

— Meu Deus. Finalmente inventaram o rodeio em que a montaria é a reputação.

O sujeito monta na própria imagem pública, tenta permanecer sobre ela durante oito segundos e, se cair, corre para a internet explicar que não caiu.

Foi empurrado.

Foi provocado.

Foi mal interpretado.

Foi perseguido.

Foi vítima.

Foi herói.

Foi injustiçado.

Foi homem.

Foi mais homem ainda.

E, se necessário, alguém sempre aparece para explicar que o outro não é homem.

A masculinidade, naquele lugar, parecia uma espécie de cartão de crédito.

Quanto mais barulho fazia, maior era o limite.

Eu fui andando.

Vi caminhonetes.

Muitas caminhonetes.

Uma, duas, dez, dezenove.

Não sei.

A certa altura, eu já não sabia se estava num rodeio ou numa exposição internacional de veículos destinados a compensar alguma coisa que a psicologia ainda não conseguiu catalogar.

Caminhonete grande.

Caminhonete maior.

Caminhonete modificada.

Caminhonete de um milhão.

Caminhonete de dois.

Caminhonete com roda que parecia ter sido projetada para atravessar uma guerra.

E pensei:

— É curioso.

O rodeio começou com o boi.

Terminou com o sujeito tentando provar que o carro dele é maior que o do outro.

Talvez seja a evolução.

Darwin, se estivesse aqui, provavelmente pediria para ir embora.

Porque ele estudou a adaptação das espécies.

Não essa coisa.

Essa coisa é outra.

É adaptação ao algoritmo.


O sujeito já não precisa apenas ter dinheiro.

Precisa mostrar.

Não precisa apenas ter uma caminhonete.

Precisa filmar.

Não precisa apenas participar de uma festa.

Precisa transformar a festa em conteúdo.

Não precisa apenas viver.

Precisa produzir evidência de que está vivendo.

E isso muda tudo.


Porque uma festa deixa de ser exatamente uma festa quando cada pessoa começa a carregar uma pequena emissora de televisão no bolso.


O descanso vira conteúdo.

A bebida vira conteúdo.

A briga vira conteúdo.

A reconciliação vira conteúdo.

O pedido de desculpas vira conteúdo.

A vítima vira conteúdo.

O agressor vira conteúdo.

A saída do evento vira conteúdo.

Até a própria vergonha precisa ser monetizada antes que esfrie.


Eu fiquei olhando aquela multidão e pensei que talvez o verdadeiro rodeio já não acontecesse na arena.


A arena estava na tela.

A arena era a tela.


E o público não estava apenas assistindo.


Estava julgando.

Torcendo.

Condenando.

Defendendo.

Compartilhando.

Escolhendo um lado.


Porque aparentemente ninguém mais consegue assistir a uma confusão sem imediatamente precisar de um vilão.

A gente gosta disso.

É confortável.

Muito mais confortável do que admitir:


“Eu não estava lá.”


Essa frase deveria ser ensinada nas escolas.

Eu não estava lá.

Mas ela não dá engajamento.

Então a internet faz o contrário.


Ela pega uma história incompleta, coloca trilha sonora, corta quinze segundos, escolhe uma legenda e entrega ao cidadão a sensação maravilhosa de ter participado da investigação.


O tribunal está aberto.

O juiz está no celular.

O promotor está no comentário.

A sentença vem antes da apuração.

E a testemunha, às vezes, é um print.

Eu achei bonito.

Bonito de um jeito miserável.


Porque naquele rodeio qualquer bastava alguém dizer:


“Fulano roubou.”


Pronto.


O roubo já existia.

Não precisava polícia.

Não precisava prova.

Não precisava investigação.


Não precisava sequer perguntar:


“Roubou o quê?”

Bastava o verbo.

Roubou.


E, se roubou, merece.

Se merece, alguém pode cobrar.

Se pode cobrar, alguém pode perseguir.

Se perseguiu, alguém pode bater.

Se bateu, alguém pode quebrar.

Se quebrou, alguém grava.

Se gravou, alguém posta.

Se postou, alguém comenta.

Se comentou, alguém compartilha.

E, quando você percebe, uma acusação virou uma pequena indústria audiovisual.



Eu não sei quem estava certo.

E é justamente aí que começa a parte interessante.

Porque a crônica não precisa decidir.


A crônica precisa olhar.

Olhar para o corpo.

Para o chão.

Para a porta quebrada.

Para o trailer.

Para os funcionários.

Para os seguranças.

Para as pessoas que estavam próximas.

Para as crianças que estavam em outros trailers.

Para o sujeito que apanhou.

Para quem estava dentro.

Para quem estava fora.

Para quem tentou separar.

Para quem chegou depois.

Para quem filmou.

Para quem publicou.

Para quem assistiu.

Para quem transformou tudo isso em torcida organizada.


Porque o corpo é sempre o primeiro a pagar a conta de uma discussão que começou como discurso.

É aí que eu volto para a velha materialidade.

Aquela coisa inconveniente.

Aquela coisa que não cabe bem no Instagram.


Corpo.

Pele.

Sangue.

Medo.

Dor.

Objeto quebrado.

Porta arrebentada.

Noite sem dormir.

Segurança que demora.

Polícia que é chamada.

Gente escondida dentro de um trailer.

Gente correndo.

Gente gritando.

Gente dizendo que tinha arma.

Gente dizendo que não tinha.

Gente dizendo que tinha sido ameaçada.

Gente dizendo que foi provocada.


E, no meio disso tudo, alguém sempre aparece com uma frase absolutamente genial:


“Eu não aceito desaforo.”

Eu adoro essa frase.

Ela deveria estar escrita na entrada de todos os rodeios.


NÃO ACEITAMOS DESAFORO.


Logo abaixo:


Mas aceitamos bebida, multidão, câmera, dinheiro, fama, ego e testosterona em quantidade industrial.


Porque aparentemente o problema nunca é a estrutura.


É o desaforo.


O desaforo é uma categoria jurídica muito interessante.

Ele permite que o sujeito abandone a própria responsabilidade e entre numa espécie de justiça privada.


“Desrespeitou minha equipe.”

“Desrespeitou meus funcionários.”

“Desrespeitou minha família.”

“Desrespeitou meu nome.”


E então vem a parte mágica:


“Eu fui lá.”


Pronto.


Nasceu o justiceiro.


Polícia?


Não.


Juiz?


Também não.


Carrasco?


Talvez.


Tudo isso dentro de um camping.


Eu fiquei imaginando o velho Oeste.

Só que com internet 5G.

O pistoleiro agora não precisa de revólver.

Precisa de milhões de seguidores.

A reputação virou arma.

A exposição virou arma.

A audiência virou arma.

E o cancelamento é a versão moderna da praça pública.

Só que agora a praça cabe na palma da mão.


E todo mundo pode jogar pedra.

Eu continuei andando.

Em algum momento encontrei uma reportagem dizendo que o rodeio qualquer tinha suas tradições.


Música.

Comitiva.

Catira.

Berrante.

Comida.

Memória.

Cultura.

Gente que ainda sabia explicar por que aquele lugar existia antes de existir o algoritmo.


Achei quase comovente.

Porque havia, naquele mesmo espaço, uma disputa curiosa entre duas versões do campo.


De um lado, a memória.

Do outro, a performance.

De um lado, o rodeio.

Do outro, o rodeio sobre o rodeio.

De um lado, o peão.

Do outro, o influenciador.


E não estou dizendo que um é moralmente superior ao outro.


Não tenho paciência para essa disputa.


Estou dizendo que são economias diferentes.


Uma produz espetáculo.

A outra produz atenção.

E atenção é dinheiro.

Muito dinheiro.


Aí começa a ficar mais interessante.


Porque talvez a festa não esteja simplesmente “perdendo suas origens”.

Talvez ela esteja sendo reorganizada por outra lógica.


A lógica da plataforma.

A festa continua tendo boi.


Mas o boi não necessariamente gera o maior alcance.


O conflito gera.

A caminhonete gera.

A ostentação gera.

A celebridade gera.

A polêmica gera.

A acusação gera.

O pedido de desculpas gera.

Até o sujeito indo embora gera.


É uma máquina.

E máquinas não precisam acreditar em nada.

Elas só precisam funcionar.

O problema é que nós começamos a funcionar junto.

O corpo humano foi colocado dentro dessa máquina como matéria-prima.


A pessoa chega ao rodeio.

Bebe.

Cansa.

Se exalta.

Briga.

É filmada.

Publica.

Recebe comentários.

Responde.

Aumenta a exposição.

Recebe mais comentários.

Aumenta a raiva.

Publica outro vídeo.

Mais comentários.

Mais audiência.

Mais dinheiro.

Mais raiva.


E alguém, em algum lugar, olhando para aquilo, diz:


“Que conteúdo bom.”


Eu fico pensando no que exatamente estamos chamando de conteúdo.

Porque conteúdo costumava ser alguma coisa dentro de um recipiente.

Agora parece que somos nós dentro dele.

A pessoa já não sabe se está vivendo uma experiência ou produzindo material para alguém assistir.

E talvez seja por isso que a briga não termina quando a briga termina.


Ela continua.

Continua no story.

Continua no comentário.

Continua na matéria.

Continua no vídeo-resposta.

Continua na entrevista.

Continua na ex.

Continua no amigo da ex.

Continua na análise da análise.


E, quando parece que acabou, alguém pergunta:


“Mas você viu o que ele falou?”


Claro que vi.


Eu moro na internet contra a minha vontade.

Eu vi.

Eu vi também o pedido de desculpas.

E essa parte me interessa.


Porque, depois da confusão, aparece aquilo que deveria ter aparecido antes:


O Bom e o Velho " LIMITE".


A organização do rodeio se manifesta.

As regras do camping aparecem.

A convivência coletiva volta a existir como alguma coisa que não depende da quantidade de seguidores.


O influenciador deixa o espaço.

Ele reconhece que houve erro.

Diz que verificou imagens.

Diz que houve uma sequência de erros.

Diz que vai reparar os danos.


E eu penso:


Olha só.

A realidade ainda existe.

Ela só costuma chegar atrasada.

Primeiro vêm os vídeos.

Depois vêm as versões.

Depois vêm os julgamentos.

Depois vem a instituição.

E, se tivermos sorte, vem a câmera.

A câmera, essa criatura fria, não tem ego.

Ela não quer ser homem.

Não quer ser mulher.

Não quer ser vítima.

Não quer ser herói.

Não quer ganhar seguidores.

Ela só registra.

É claro que uma câmera não explica tudo.


Mas às vezes ela tem uma qualidade revolucionária:


"NÃO grita."


Eu gosto disso.

Talvez porque eu esteja cansada.

Cansada desse mundo onde todo mundo precisa falar antes de pensar.

Onde todo mundo precisa se defender antes de saber do que está sendo acusado.

Onde todo mundo precisa publicar antes de perguntar.

Onde a própria culpa virou uma questão de estratégia narrativa.

Não existe mais:

“Eu fiz.”

Existe:

“Eu fiz, mas…”

Esse “mas” é um monumento.

“Eu bati, mas…”

“Eu fui atrás, mas…”

“Eu quebrei, mas…”

“Eu estava bêbado, mas…”

“Ele provocou, mas…”

“Eu estava defendendo…”

“Eu estava protegendo…”

“Eu estava reagindo…”


E, de repente, ninguém fez nada.

O trailer se destruiu sozinho.

A porta decidiu cair.

A cinta encontrou um rosto por acaso.

Os socos foram fenômenos meteorológicos.

A caminhonete quase atropelou alguém porque estava emocionalmente instável.

E a culpa, coitada, ficou sem endereço.

Eu quase ri.

Mas não ri.


Porque existe uma parte dessa história que não é engraçada.


É o corpo.

Sempre o corpo.

O corpo é aquilo que aparece quando a narrativa acaba.


Você pode apagar o story.

Pode editar o vídeo.

Pode bloquear comentário.

Pode contratar assessoria.

Pode pedir desculpas.

Pode dizer que foi mal interpretado.


Mas o corpo sabe.


O corpo sabe quando alguém corre.

O corpo sabe quando alguém se esconde.

O corpo sabe quando uma porta quebra.

O corpo sabe quando alguém entra num trailer e fecha a porta.

O corpo sabe quando cinco, seis, oito homens aparecem.

O corpo sabe quando a segurança demora.


E talvez essa seja a parte mais cruel da história:

a tecnologia pode reorganizar o acontecimento em discurso.

Mas ainda não descobriu como convencer o corpo de que ele não estava lá.

Eu olhei novamente para a arena.


O boi estava lá.

Quieto.

Esperando.

E eu pensei:

— Bicho inteligente.


Ele não precisava explicar sua versão.

Não precisava provar que era macho.

Não precisava dizer que não aceitava desaforo.

Não precisava mostrar patrimônio.

Não precisava convocar seguidores.

Não precisava transformar o próprio conflito em série.

Ele entrava.

Fazia o que conseguia.

Saía.

E acabou.


Talvez os animais estejam mesmo trocando de lugar.

Talvez o boi tenha ficado na arena porque alguém precisava manter alguma dignidade mínima.


E nós, os humanos, fomos para fora.

Para o camping.

Para as caminhonetes.

Para os stories.

Para os grupos.

Para os comentários.

Para o tribunal.

Para a fofoca.

Para a guerra de versões.


E ficamos ali, disputando quem tinha mais razão, mais dinheiro, mais seguidores, mais amigos, mais força, mais caminhonete, mais coragem, mais acesso, mais poder.

Uma competição maravilhosa.

Só faltou o prêmio.

Embora, pensando bem, talvez o prêmio já exista.


A "Audiência".


Eu fui embora daquele rodeio qualquer sem saber quem estava certo.


E sinceramente?

Que alívio.


Porque talvez a pergunta mais importante não seja essa.

Talvez a pergunta seja outra.


O que precisa acontecer com uma festa para que os animais da arena sejam mais previsíveis do que os animais humanos do camping?


Eu não tenho resposta.

Ainda bem.


Resposta demais costuma ser o começo da próxima briga.


Eu só sei que, naquele rodeio qualquer, encontrei bois que entravam na arena para cumprir um papel e humanos que entravam na arena social para provar que eram alguma coisa.


O boi não precisava parecer poderoso.

O homem precisava.

O boi não precisava de milhões de seguidores.

O homem precisava.

O boi não precisava mostrar a caminhonete.

O homem precisava.


O boi não precisava transformar a própria vida em publicidade.


O homem precisava.


E talvez seja isso que mais me incomodou.


Não a briga.

Não a bebida.

Não a caminhonete.

Não o trailer.

Nem sequer o espetáculo.


O que me incomodou foi perceber que, em algum momento, viver deixou de ser suficiente.


Era preciso provar.

Provar que era rico.

Provar que era forte.

Provar que era homem.

Provar que era vítima.

Provar que era inocente.

Provar que tinha razão.

Provar que conhecia gente.

Provar que tinha acesso.

Provar que tinha poder.

Provar que tinha público.


E, quando ninguém mais sabe exatamente o que está fazendo, todo mundo começa a produzir provas de alguma coisa.


Eu fiquei olhando para a arena vazia.

O rodeio tinha terminado por aquele dia.

Mas o espetáculo continuava.

Sempre continua.

Porque agora existe internet.

E a internet não precisa de arena.

Ela só precisa de gente.

Gente cansada.

Gente excitada.

Gente bêbada.

Gente rica.

Gente pobre.

Gente querendo aparecer.

Gente querendo desaparecer.

Gente querendo justiça.

Gente querendo vingança.

Gente querendo seguidores.

Gente querendo ser vista.

E, principalmente, gente querendo acreditar que está vendo a verdade.


Eu fui embora.

Deixei os bois para trás.

Eles pareciam bem mais tranquilos.

Talvez porque não tivessem Instagram.


Ou talvez porque ainda soubessem a diferença entre estar numa arena e transformar a própria vida numa.

Eu não sei.

E, no fim das contas, esse talvez seja o único luxo que ainda me interessa:

não saber.


Porque, num mundo em que todo mundo já chega com sentença pronta, admitir ignorância talvez seja uma das poucas formas restantes de não participar da próxima pancadaria.


E eu, sinceramente, já estou velha demais para apanhar por uma opinião que nem é minha.

Fui embora.

O rodeio ficou.

Os bois também.

E os humanos continuaram se montando uns nos outros.

Como sempre.


REFERÊNCIAS DE TRANSCRIÇÃO — MATERIAL PRIMÁRIO UTILIZADO

As falas fornecidas para esta crônica foram tratadas como material discursivo bruto: relatos, acusações, respostas, comentários e versões públicas. Elas não foram convertidas automaticamente em fatos. A crônica preserva justamente a existência de versões conflitantes.

César Rincon — pronunciamento sobre a confusão, pedido de desculpas e saída do evento:

https://br.bossanews.com/cesar-rincon-pede-desculpas-apos-briga-com-miguel-mendes-e-kelly-fazendeira-na-festa-do-peao-de-barretos/

Miguel Mendes e Kelly Fazendeira — relatos sobre agressão e depredação do trailer:

https://www.band.com.br/entretenimento/casal-acusa-rincon-e-amigos-de-destruirem-trailer-durante-briga-em-barretos-202608260931

Relato jornalístico com as versões de Miguel, Kelly e Rincon:

https://www.uol.com.br/splash/noticias/2026/08/26/influenciadores-briga-barretos.ghtm

Relato sobre a agressão com cinto e as versões conflitantes:

https://www.itatiaia.com.br/entretenimento/influenciador-acusa-affair-de-ana-castela-de-te-lo-agredido-com-um-cinto-em-barretos/

Relato sobre a saída de Rincon e manifestação da organização:

https://midiamax.com.br/midiamais/famosos/2026/coisa-idiota-rincon-deixa-barretos-apos-briga-influenciadores/


REFERÊNCIAS DO TEXTO — BASE DE CONTEXTO

Estas referências não são apresentadas como “provas” da crônica. Funcionam como camada documental e teórica de leitura que permitiu deslocar o episódio da fofoca para a materialidade: corpo, espaço coletivo, trabalho, regras, técnica, exposição e economia da atenção.

Festa do Peão de Barretos — contexto do evento e sua dimensão material:

https://www.uol.com.br/splash/noticias/2026/08/20/festa-do-peao-barretos-comeca-hoje.ghtm

Folha de S.Paulo — tradição sertaneja e permanência de práticas culturais:

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/08/rancho-raiz-mantem-tradicao-viva-na-festa-do-peao-de-barretos.shtml

Shoshana Zuboff — A Era do Capitalismo de Vigilância.

A referência sustenta a leitura da transformação da experiência humana em matéria de extração, previsão e valor econômico, sem que a crônica precise transformar Zuboff em personagem ou argumento de autoridade.

Byung-Chul Han — Sociedade do Cansaço; Psicopolítica.

A referência atravessa a crítica à exposição, à autoexploração e à transformação da própria existência em desempenho público.

Karl Marx — Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política.

É utilizado como eixo metodológico de retorno às condições materiais antes da abstração discursiva: o conflito não começa no discurso sobre o conflito; começa em corpos, espaços, trabalho, objetos, relações e condições concretas.

Sigmund Freud — O Mal-Estar na Civilização.

A referência sustenta a tensão entre convivência coletiva, limite e exigências pulsionais, sem patologizar indivíduos envolvidos no episódio.

André Green — A Loucura Privada.

Entra como referência para pensar os efeitos subjetivos da ruptura da capacidade de simbolização e da passagem do conflito para a atuação, sem transformar o episódio em diagnóstico clínico.

Michel Foucault — Vigiar e Punir.

A referência atravessa a passagem da acusação para a punição, especialmente quando sujeitos privados passam a ocupar simbolicamente posições de polícia, juiz e executor.

Código de Ética Profissional do Psicólogo — CFP.

Funciona como limite metodológico: não patologizar os envolvidos, não transformar relato em diagnóstico e diferenciar descrição, interpretação e opinião.


Nota editorial

Esta versão mantém deliberadamente o rodeo sem nome. O acontecimento real serve como matéria-prima, mas a crônica não pretende julgar judicialmente os envolvidos nem estabelecer uma versão definitiva dos fatos.

A operação da Loka é outra: retirar os nomes para devolver os mecanismos.

O que interessa não é descobrir qual humano é “o vilão” do rodeio.

É observar como corpo, dinheiro, espaço coletivo, trabalho, álcool, influência digital, câmeras, reputação, grupos e discurso podem se combinar até que uma festa deixe de ser apenas uma festa e passe a funcionar como uma pequena máquina de produção de conflito.

E, no centro dela, continuam os corpos.

Antes do story.

Antes do comentário.

Antes da sentença.

Antes da narrativa.

O corpo.

Como sempre.


Mini-bio:

José Antônio Lucindo — Psicólogo CRP – Ativo


#alokadorole

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@alokanorole_persona

#maispertodaignorancia

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