Avançar para o conteúdo principal

Nunca deixe para ontem o que você pode fazer amanhã — o presente já passou e ninguém avisou

Nunca deixe para ontem o que você pode fazer amanhã — o presente já passou e ninguém avisou


Autor: José Antônio Lucindo da Silva

Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI)


RESUMO

Este artigo analisa criticamente o colapso entre discurso e materialidade na contemporaneidade, tomando como eixo a convergência entre tecnologia, trabalho, clima e subjetividade. A partir de dados institucionais, notícias amplamente veiculadas e obras teóricas clássicas e contemporâneas, o texto desmonta a narrativa de progresso, adaptação e eficiência que circula nas redes sociais e nos discursos corporativos, contrastando-a com as condições concretas de existência: calor extremo, precarização do trabalho, dissolução do laço social e esvaziamento da escuta. No tom corrosivo e lúcido da Loka do Rolê, o ensaio sustenta que o “futuro” anunciado já ocorreu — e foi ignorado. O presente aparece como um atraso crônico: um ontem mal elaborado que insiste em se repetir. Não há promessa de saída, apenas a nomeação do impasse e a exposição ética do mal-estar que a técnica, travestida de salvação, insiste em produzir.


INTRODUÇÃO

Bem-vindo ao futuro.
 Só não repara: ele já passou.
Enquanto o feed anuncia inovação, IA orientada a resultados, produtividade inteligente e adaptação contínua, o corpo sua, a cidade ferve, o trabalho esfarela e o sujeito dorme mal — quando dorme. O discurso corre na frente, sorridente, dizendo que está tudo sob controle. A realidade, atrasada e sem marketing, insiste em lembrar que o controle sempre foi uma ficção cara.
Este texto não nasce do susto. Nasce do cansaço.
 Porque os dados estavam lá. Os relatórios estavam lá. As previsões estavam lá. INPE, IBGE, universidades, pesquisas revisadas por pares. Tudo dito, medido, diagnosticado. Ainda assim, seguimos chamando de “inesperado” aquilo que foi previsto com antecedência quase constrangedora.
O que está sendo desmontado aqui não é a tecnologia em si, nem o trabalho, nem a ciência. É o discurso que promete futuro enquanto cancela o presente. É a lógica que chama adaptação de virtude quando ela já virou submissão elegante. É a substituição da escuta por dashboards, métricas e frases prontas.
A Loka do Rolê entra nesse texto não para orientar ninguém, mas para apontar o óbvio que virou tabu: o progresso avançou tanto que esqueceu de perguntar se alguém ainda está vivo do outro lado.


CORPO DO TEXTO

1. O futuro como cortina de fumaça:

Toda vez que o discurso diz “2026 será…”, alguém já está passando mal em 2025.
 O hype da tecnologia amadureceu, dizem. A IA agora é pragmática, orientada a resultados, ROI, eficiência. O problema é que o resultado nunca inclui o corpo que não dorme, o trabalhador excluído por algoritmo, a cidade que virou forno, o jovem que troca adolescência por ativismo climático porque não sobrou tempo.
O futuro virou uma abstração confortável. Ele sempre chega amanhã. Assim, ninguém responde hoje.
A ironia é simples: o presente foi ontem.
 E ontem foi ignorado.


2. Dados existem. Escuta, não.

Relatórios climáticos
alertaram para o aumento de ondas de calor, ilhas térmicas, desigualdade climática urbana. Pesquisas sobre trabalho já apontavam a precarização silenciosa, a exclusão algorítmica, a transformação da gestão de pessoas em gestão de métricas. Estudos sobre IA advertiam: sem contexto, ela amplia pontos cegos.
Nada disso foi surpresa.
 Foi apenas tratado como ruído.
A técnica avançou. A escuta regrediu.
Freud já avisava: a civilização troca liberdade por segurança. O problema é quando a segurança vira excesso, e o excesso vira cegueira. Hoje, terceirizamos o julgamento, automatizamos a decisão e chamamos isso de racionalidade. O mal-estar não desaparece — só perde linguagem.


3. Trabalho, calor e algoritmo: o mesmo discurso:

O calor extremo em Belém não é um “evento climático”. É uma condição de existência.
 O jovem que não dorme, o comércio que perde renda, o alimento que encarece, o corpo que adoece — tudo isso é material. Não é metáfora.
Enquanto isso, o discurso do trabalho exige resiliência, adaptação, requalificação contínua. A culpa nunca é da estrutura; é sempre do sujeito que não acompanhou.
A IA entra como promessa de neutralidade, mas opera dentro da mesma lógica instrumental: eficiência sem contexto, decisão sem escuta, exclusão sem rosto. O gestor vira curador de algoritmo. O trabalhador vira dado descartável. E chamam isso de evolução.

4. A moral do processo civilizatório:


Pensando algoritmicamente, o problema nunca foi a técnica.
 Foi a moral que a orienta.
A história já mostrou — de sistemas burocráticos do século XX a plataformas digitais atuais — que quando dados são usados sem ética, sem alteridade e sem escuta, o resultado é sempre o mesmo: otimização da violência.
Hoje, a violência não grita. Ela silencia. Exclui. Desliga. Deleta.
Excluir em vez de demitir.
 Otimizar em vez de cuidar.
 Prever em vez de ouvir.

5. Nunca deixe para ontem o que você pode fazer amanhã:


A frase parece absurda. E é justamente por isso que funciona.
Nunca deixe para ontem o que você pode fazer amanhã.
 Se conseguir, nunca tente de novo.
Essa é a lógica do nosso tempo: empurrar decisões, ignorar alertas, chamar colapso de transição. O progresso é bom — pena que dura tempo demais.
Enquanto isso, o corpo paga a conta. A cidade aquece. O trabalho adoece. E o discurso segue intacto, limpo, performático.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:


Este texto não oferece saída.
 Porque saída virou produto.
 E produto não escuta ninguém.
O que se oferece aqui é apenas a nomeação do impasse. A recusa do discurso anestésico. A lembrança incômoda de que não faltaram dados — faltou coragem para escutá-los.
O futuro não chegou.
 Ele só passou despercebido.


NOTAS DO AUTOR — MPI:

Este texto não é aconselhamento psicológico.
 Não substitui acompanhamento clínico.
 Não prescreve condutas, adaptações ou caminhos.
Integra o arquivo crítico do projeto Mais Perto da Ignorância e existe para produzir pensamento, fricção e desconforto ético — não alívio imediato.
Se não incomodou, precisa ser relido.
 Se confortou, foi mal interpretado.

REFERÊNCIAS:


BBC NEWS BRASIL. ‘Não tem como dormir’: a vida na cidade brasileira com 212 dias de calor extremo. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/ckg9gqw6y50o.

INPE — Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Relatórios sobre mudanças climáticas no Brasil. Disponível em: https://www.inpe.br.

IBGE — Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico e indicadores sociais. Disponível em: https://www.ibge.gov.br.

FREUD, S. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago.

HAN, B.-C. Não-coisas. Petrópolis: Vozes.

ZUBOFF, S. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca.

NICOLELIS, M. Nada mais será como antes. São Paulo: Planeta.

(Outras fontes jornalísticas e institucionais citadas ao longo do texto foram apresentadas por extenso no corpo da análise.)

MINI BIO:


José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo (CRP 06/172551), pesquisador e autor do projeto Mais Perto da Ignorância, onde investiga, com ironia e rigor ético, os efeitos dos discursos contemporâneos sobre a subjetividade, a escuta e o sofrimento humano.

#alokadorole #maispertodaignorancia


Comentários

Mensagens populares deste blogue

A Técnica, a Exclusão e o Eu: Reflexões Sobre a Alienação Digital e a Identidade na Contemporaneidade

A Técnica, a Exclusão e o Eu: Reflexões Sobre a Alienação Digital e a Identidade na Contemporaneidade Assista o vídeo em nosso canal no YouTube Introdução A cada dia me questiono mais sobre a relação entre a tecnologia e a construção da identidade. Se antes o trabalho era um elemento fundamental na compreensão da realidade, como Freud argumentava, hoje vejo que esse vínculo está se desfazendo diante da ascensão da inteligência artificial e das redes discursivas. A materialidade da experiência é gradualmente substituída por discursos digitais, onde a identidade do sujeito se molda a partir de impulsos momentâneos amplificados por algoritmos. Bauman (1991), ao analisar a modernidade e o Holocausto, mostrou como a racionalidade técnica foi usada para organizar processos de exclusão em grande escala. Hoje, percebo que essa exclusão não ocorre mais por burocracias formais, mas pela lógica de filtragem algorítmica, que seleciona quem merece existir dentro da esfera pública digita...

A Carta Que Voltou Tarde Demais

A Carta Que Voltou Tarde Demais Palavras chaves; carta, resposta, Freud, psicanálise, supereu, mal-estar, sexualidade, norma social, desejo, moral, comentário público, redes sociais, algoritmo, visibilidade, intimidade, discurso midiático, transferência, ética da resposta, deslocamento simbólico, carta aberta, Loka do Rolê, fratura simbólica, crítica cultural, contemporaneidade, Caro Dr. Freud, capítulo ensaístico. (Resposta ao Dr. Freud na Era do Comentário Público) Caro Dr. Freud, Escrevo-lhe novamente, mas agora de forma mais precisa. Segundo alguns dados midiáticos recentemente difundidos, um jornalista de alta credibilidade foi interpelado publicamente por uma seguidora que lhe pediu que jamais tornasse pública sua suposta orientação sexual. A interpelação veio revestida de vergonha e oração, como se moral e cuidado fossem sinônimos. Não houve crime. Não houve escândalo. Houve discurso. A resposta do jornalista foi direta: delimitou fronteira, nomeou o cará...

Respira!Não é desespero.É método.

Respira! Não é desespero. É método. Você está certo numa coisa: se o eixo discursivo é mapeamento como técnica de administração de corpos, então IBM e o Holocausto (Edwin Black) não é detalhe — é estrutura. E ele precisa entrar não como comparação rasa, mas como operador histórico da discussão. Vamos reorganizar isso dentro do MPI, com coerência, densidade e todas as camadas que você vem construindo: Arbex, Bauman, Black, Zuboff, O’Neil, Freud, CID-11, DSM-5, Código de Ética, modernidade técnica, Estado brasileiro. Sem delírio. Sem futurologia. Sem prescrição. Só tensão histórica. MAPEAR A DOR É ORGANIZAR CORPOS (e o Brasil sabe fazer isso) Autor: José Antônio Lucindo da Silva Projeto: Mais Perto da Ignorância Palavras-chave: mapeamento, técnica, IBM, Barbacena, saúde mental, Estado, classificação, modernidade, Bauman, Arbex, Black, Zuboff, Freud, Brasil.  Resumo O Ministério da Saúde anuncia uma Pesquisa Nacional de Saúde Mental para mapear a po...