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“Patologizar o Humano é a Nova Fé”

“Patologizar o Humano é a Nova Fé”  - “Cês tão chamando de doença o que antes se chamava vida. E tão chamando de cura o que antes se chamava silêncio.” — Loka do Rolê Tem uma moda nova na vitrine da alma: diagnosticar tudo. Timidez? Transtorno. Solidão? Disfunção. Raiva? Disregulação emocional. Tristeza? Falha química. O que o psiquiatra da matéria da CNN Brasil “Sociedade patologiza características normais de personalidade” chamou de medicalização da vida é só o outro nome daquilo que Freud chamava de “mal-estar na civilização”. A diferença é que, no tempo dele, o sintoma era linguagem. Hoje, é produto — e tem bula, bula digital, assinatura premium e gatilho para engajamento. Vivemos uma era em que sentir virou infração. As empresas vendem “saúde mental” em drops, os algoritmos oferecem “autocuidado” em 3x sem juros, e a psiquiatria midiática se tornou a capelania da performance. Enquanto isso, o sujeito se ajoelha diante do diagnóstico como quem reza pra n...

O espetáculo da escuta: quando a empatia vira performance

O espetáculo da escuta: quando a empatia vira performance Projeto: Mais Perto da Ignorância Hashtags: #alokadorole  #maispertodaignorancia 1. O palco do altruísmo “Se eu conseguir ajudar uma pessoa, já fecho as contas.” A frase parece brotar da humildade, mas é puro marketing emocional. O altruísmo contemporâneo, travestido de empatia digital, é a mais eficiente forma de autopromoção que a cultura do espetáculo já inventou. Mario Vargas Llosa (2013) chamou de civilização do espetáculo esse tempo em que o entretenimento se tornou o novo dogma moral. Tudo precisa brilhar para existir; até a dor precisa de edição. A cultura, segundo Llosa, degenerou em mercadoria leve — “um mundo onde o primeiro lugar na tabela de valores é ocupado pelo entretenimento” (p. 25). A compaixão virou estratégia de engajamento e a ética, um produto com trilha sonora. O influenciador que promete “atingir milhões” ou “salvar uma pessoa” não fala a partir da experiência, mas da vitrine. Ele é o si...

O medo digital e o fim do valor: entre a angústia do possível e a ansiedade do código

O medo digital e o fim do valor: entre a angústia do possível e a ansiedade do código Autor: José Antônio Lucindo da Silva CRP: 06/172551 Projeto: Mais Perto da Ignorância Resumo O artigo propõe uma leitura crítica sobre o medo contemporâneo a partir da genealogia da angústia. Partindo de Kierkegaard, que compreende a angústia como condição da liberdade e da existência, até Freud, que a interpreta como sinal do real diante da falha simbólica, discute-se sua mutação na modernidade tardia: a transposição da angústia em “ansiedade”. Esta, na contemporaneidade, é apresentada não como patologia, mas como forma discursiva e material do medo. Articulando Marx, Bauman, Byung-Chul Han e Shoshana Zuboff, analisa-se como a angústia, outrora vinculada à experiência de ser, tornou-se produto simbólico e funcional dentro do capitalismo digital. O artigo defende que a escuta da angústia — sem valor, moral ou pretensão de cura — constitui o último gesto ético possível diante da saturação t...

Intimidade artificial e o fim da escuta: notas para uma clínica do nada (com público)

Intimidade artificial e o fim da escuta: notas para uma clínica do nada (com público) Resumo O artigo analisa criticamente o fenômeno da chamada “intimidade artificial” a partir de reportagens recentes e ensaios jornalísticos que descrevem vínculos obsessivos entre usuários e chatbots generativos. No enquadre teórico, cruzam-se Freud (mal-estar e não-soberania do eu), Lacan (hiância do desejo e estádio do espelho), Melanie Klein (posições esquizo-paranoide e depressiva), Elisabeth Roudinesco (o mito contemporâneo do eu soberano) e Byung-Chul Han (sociedade do cansaço e crise da narração). A tese central é simples e cruel: sem escuta — entendida como espaço simbólico de elaboração da falta — não há intimidade, apenas interatividade emocional. A máquina funciona como espelho sem corpo: confirma, não contradiz; valida, não frustra. O “eu” se administra, o “outro” desaparece e o laço vira circuito. A partir de casos e argumentos reunidos pela Gazeta do Povo e leituras correlata...

A Educação do Medo e a Ansiedade como Política de Estado

A Educação do Medo e a Ansiedade como Política de Estado Resumo O presente artigo propõe uma análise crítica da formação subjetiva na contemporaneidade, observando a relação entre medo, educação e ansiedade como dispositivos estruturais do controle social. Com base em Freud, Becker, Cioran, Han e Zuboff, argumenta-se que o medo da realidade é hoje o principal instrumento pedagógico da civilização digital. A partir da figura discursiva da Loka do Rolê, representante simbólica da escuta do inexorável, a reflexão tensiona os limites entre a experiência vivida e sua conversão em dados. O artigo articula dimensões biológicas, tecnológicas e sociais, discutindo o colapso do tempo, a infantilização da consciência e o deslocamento do sujeito do campo da existência para o da simulação. Palavras-chave: ansiedade; medo; educação; tecnologia; niilismo; capitalismo de vigilância. 1. Introdução A educação moderna foi construída como promessa de emancipação. Mas na sociedade digital, ela ...

A Loka do Rolê e o Terror Abjeto: a escuta como limite ético do humano

A Loka do Rolê e o Terror Abjeto: a escuta como limite ético do humano José Antônio Lucindo da Silva Psicólogo – CRP 06/172551 Projeto: Mais Perto da Ignorância Subprojeto: Contos da Loka do Rolê Resumo Este artigo analisa a figura discursiva da Loka do Rolê como representação simbólico-clínica do limite da escuta na contemporaneidade. A partir de uma articulação entre Freud, Julia Kristeva, Cioran, Byung-Chul Han e o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP, 2005), desenvolve-se o conceito de terror abjeto, entendido como a experiência de escutar o que antecede a simbolização — o som, o corpo, o grito e o resto. A Loka do Rolê é tratada aqui não como personagem, mas como força discursiva que corporifica a impossibilidade de cura e a necessidade de sustentar o insuportável. Sua fala encarna o abjeto freudiano-kristeviano: o retorno do recalcado que não pode ser simbolizado, apenas ouvido. Assim, o artigo propõe uma ética da escuta fundada não na interpretação, mas na ...

A Mãe do Monstro entrou na casa errada!

A Mãe do Monstro entrou na casa errada (conto clínico sobre o medo, a culpa e o espetáculo da escuta) Interlúdio da Loka Batem na porta com palavras grandes demais. Cheiro de incenso moral e urgência de clique. Trazem “castração” enrolada em papel brilhante. Eu não vendo medo: aqui o medo respira. Se entrar, fala baixo. Se falar alto, escuta. Eu ouvi a batida antes do punho tocar a madeira. Medo faz esse som de unha no esmalte, uma pressa que não sabe o que procura. Abri. Na soleira, a Revista veio inteira — título, tipografia, aura de legitimidade, perfume de tese. Falava como quem prega. — Vim trazer uma história. A mãe do monstro. A cultura, o útero, o ódio. — Tira o sapato — eu disse. — Aqui o chão é de escuta. Ela olhou pros pés, hesitou, tirou. Medo tem vergonha de pés descalços. Entrou na sala grafitada, parede cinza-grafite, mesa com marcas de cigarro, um recorte antigo colado com fita: “Carta de Freud a uma mãe”. Coloquei café. — A gente precisa falar de castração ...