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A Educação do Medo e a Ansiedade como Política de Estado

A Educação do Medo e a Ansiedade como Política de Estado



Resumo

O presente artigo propõe uma análise crítica da formação subjetiva na contemporaneidade, observando a relação entre medo, educação e ansiedade como dispositivos estruturais do controle social. Com base em Freud, Becker, Cioran, Han e Zuboff, argumenta-se que o medo da realidade é hoje o principal instrumento pedagógico da civilização digital. A partir da figura discursiva da Loka do Rolê, representante simbólica da escuta do inexorável, a reflexão tensiona os limites entre a experiência vivida e sua conversão em dados. O artigo articula dimensões biológicas, tecnológicas e sociais, discutindo o colapso do tempo, a infantilização da consciência e o deslocamento do sujeito do campo da existência para o da simulação.

Palavras-chave: ansiedade; medo; educação; tecnologia; niilismo; capitalismo de vigilância.


1. Introdução

A educação moderna foi construída como promessa de emancipação.
Mas na sociedade digital, ela se tornou o modo mais eficiente de domesticação.
O que antes era formação crítica, hoje é condicionamento algorítmico — e o medo, que deveria ser enfrentado, foi transformado em produto pedagógico.
A Loka do Rolê, essa escuta da morte que ironiza a lucidez, diria:

“Vocês querem ensinar a juventude a usar o abismo com responsabilidade.”

O Brasil de 2025 é um país atravessado pela ansiedade, pelo cansaço e pelo medo da realidade.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2024), 9,3% da população adulta apresenta transtornos de ansiedade — um dos maiores índices do planeta.
Entre os jovens, 36% relatam sintomas de ansiedade intensa (Fiocruz, 2023).
Mas o dado mais revelador é o de que 52% dos brasileiros afirmam ter medo constante de perder o emprego (Datafolha, 2025).
A ansiedade, portanto, não é um sintoma individual: é uma política de Estado.


2. O medo como estrutura civilizatória

O medo não é apenas uma emoção; é um modo de governo.
Desde Freud (O Mal-Estar na Civilização, 1930), sabemos que a cultura opera pela repressão do desejo e pela produção da culpa.
Hoje, essa repressão foi substituída pela aceleração: a sociedade não reprime, estimula até a exaustão.
O sujeito não é punido por desejar demais, mas por desejar de menos.
Byung-Chul Han (2010) descreve essa mutação como o surgimento da “sociedade da positividade”: o lugar onde o “não” foi abolido, e o sujeito deve ser permanentemente produtivo, feliz, disponível.
A educação, então, deixou de formar pensamento e passou a formar adaptação.
Aprende-se a evitar o fracasso, não a suportá-lo.
E quando a escola falha, o algoritmo assume a função pedagógica.
O feed é o novo quadro-negro, e o sistema é o novo superego.
O medo da nota baixa foi substituído pelo medo do esquecimento digital.


3. O colapso da transmissão e o corpo ansioso

Durkheim, em O Suicídio (1897), já observava que as sociedades em crise de coesão produzem indivíduos em desamparo simbólico.
O sujeito contemporâneo vive exatamente isso: a dissolução dos laços comunitários e a ascensão de uma vida regida por métricas.
Não há mais transmissão entre gerações, apenas atualização de software.
O jovem ensina o velho a usar o aplicativo, e o velho ensina o jovem a suportar o tédio.
A educação digital, com seus “guias de segurança online”, é a caricatura dessa falência.
Ela ensina o adolescente a evitar o risco, mas não a pensar sobre ele.
É a pedagogia do medo higienizado: o pânico tratado como falha moral.
E enquanto o discurso promete equilíbrio emocional, o corpo grita.
O burnout, a insônia e o pânico são hoje as novas linguagens do inconsciente — sínteses fisiológicas do colapso simbólico.
O sujeito não se angustia mais com o sentido da vida, mas com a velocidade do upload.


4. O superego algorítmico e a infantilização da consciência

Freud descrevia o superego como a instância moral que impõe a culpa.
No século XXI, essa função foi absorvida pelas plataformas digitais: o superego algorítmico.
Ele não proíbe, mede; não julga, recomenda; não pune, silencia.
Zuboff (2019) denomina esse regime de capitalismo de vigilância:
um sistema que transforma cada ato, emoção e pensamento em dado monetizável.
O sujeito acredita que está aprendendo, mas o que ele está fazendo é fornecendo informação sobre o próprio comportamento.
A educação, quando capturada por esse regime, perde o corpo.
Aprende-se sobre ética digital, mas não sobre ética do encontro.
Aprende-se sobre segurança online, mas não sobre segurança alimentar.
Enquanto o governo divulga manuais de “uso consciente da internet”, 33 milhões de brasileiros vivem em insegurança alimentar grave (Rede PENSSAN, 2024).
A ansiedade, portanto, é o sintoma da contradição entre a promessa digital e a miséria material.


5. A mentira pedagógica e a falência da escuta

Ernst Becker (1973), em A Negação da Morte, apontava que toda cultura se sustenta numa mentira heroica: a recusa de reconhecer a finitude.
A educação moderna é essa mentira institucionalizada — o mito de que o saber livra da morte.
Mas saber demais também mata.
Mata o espanto, o silêncio, a pausa.
Cioran, em Breviário da Decomposição (1949), ironiza:

 - “O homem inventou a educação para não encarar o pavor de ser homem.”

E a Loka do Rolê, encostada num muro de escola pichada, completaria:

“Vocês não educam pra vida.

Educam pra continuar respirando dentro da jaula.”
A escuta — esse ato arcaico e subversivo — desapareceu do processo educativo.
O ruído tomou o lugar da palavra.
E o medo do silêncio se tornou o sintoma mais evidente da era informacional.


6. Conclusão

O medo contemporâneo não é irracional; é racionalizado, administrado, produtivo.
A ansiedade não é um desvio; é uma engrenagem da economia.
O sujeito moderno é o trabalhador que sofre em silêncio, mas não pode parar de sorrir — porque o sistema mede até sua tristeza.
A Loka do Rolê, essa morte lúcida e debochada que escuta o que o mundo silencia, encerraria o discurso dizendo:

 - “A educação do medo é o manual de instruções da covardia coletiva.

E a ansiedade é só o corpo avisando que a alma cansou de fazer hora extra.”

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

BECKER, Ernest. A negação da morte. Rio de Janeiro: Record, 1976.

BECKER, Ernest. A mentira caracterológica. São Paulo: Cultrix, 1977.

BYUNG-CHUL HAN. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

CIORAN, Emil. Breviário da decomposição. São Paulo: Rocco, 2011.
DURKHEIM, Émile. O suicídio. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.

FIORUCCI, Fundação Oswaldo Cruz. Relatório Saúde e Juventude. Rio de Janeiro, 2023.

IBGE. Síntese de Indicadores Sociais – Brasil 2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2024.

REDE PENSSAN. Mapa da Insegurança Alimentar no Brasil. São Paulo, 2024.

DATAFOLHA. Percepções de insegurança e futuro no Brasil. São Paulo, 2025.

José Antônio Lucindo da Silva
Psicólogo – CRP 06/172551
Projeto: Mais Perto da Ignorância

🎙️ A Loka do Rolê fala do medo como disciplina obrigatória da era digital — e da ansiedade como o novo boletim da alma.
Entre ruído e ironia, ela revela o corpo cansado de obedecer sorrindo.

 - A educação do medo é o manual de instruções da covardia coletiva.”
Assista ao conto completo no YouTube 🎥👇
👉 https://youtu.be/72ePpayN6WY?si=yAlz2SzVKPWFGvUi


#alokadorole
#maispertodaignorancia


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