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A Loka do Rolê e o Terror Abjeto: a escuta como limite ético do humano

A Loka do Rolê e o Terror Abjeto: a escuta como limite ético do humano



José Antônio Lucindo da Silva
Psicólogo – CRP 06/172551
Projeto: Mais Perto da Ignorância
Subprojeto: Contos da Loka do Rolê

Resumo

Este artigo analisa a figura discursiva da Loka do Rolê como representação simbólico-clínica do limite da escuta na contemporaneidade. A partir de uma articulação entre Freud, Julia Kristeva, Cioran, Byung-Chul Han e o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP, 2005), desenvolve-se o conceito de terror abjeto, entendido como a experiência de escutar o que antecede a simbolização — o som, o corpo, o grito e o resto.
A Loka do Rolê é tratada aqui não como personagem, mas como força discursiva que corporifica a impossibilidade de cura e a necessidade de sustentar o insuportável. Sua fala encarna o abjeto freudiano-kristeviano: o retorno do recalcado que não pode ser simbolizado, apenas ouvido. Assim, o artigo propõe uma ética da escuta fundada não na interpretação, mas na permanência diante do ruído do real.

Palavras-chave: escuta; terror abjeto; ética; psicanálise; contemporaneidade.

1. Introdução

Vivemos uma época em que a escuta foi degradada a ruído.
O sujeito contemporâneo fala compulsivamente, mas já não escuta — nem o outro, nem o próprio corpo.
A aceleração tecnológica e o imperativo da performance emocional transformaram o silêncio em anomalia e a introspecção em sintoma.
Nesse contexto, a Loka do Rolê surge como presença discursiva e crítica: uma “morte lúcida” que escuta.
Ela não fala em nome da cura, mas da falência da linguagem; não simboliza, sustenta.
Sua voz é o eco do trauma e do corpo, anterior ao discurso.
É o que Freud chamaria de retorno do recalcado e Kristeva, de experiência abjeta — o lugar onde o símbolo falha e o som permanece.
A hipótese central deste artigo é que o terror abjeto — experiência estética, ética e clínica — revela-se no momento em que a escuta se confronta com o irrepresentável.
Escutar o abjeto é escutar o que antecede o sujeito: o ruído do real.

2. O terror abjeto: medo anterior à linguagem

O conceito de terror abjeto deriva da leitura de Powers of Horror (KRISTEVA, 1982), em diálogo com o Das Unheimliche freudiano (FREUD, 1919).
O terror não é o medo do sobrenatural, mas o susto de perceber que a linguagem não dá conta do que o corpo sente.
É o medo do pré-simbólico — daquilo que ainda não se tornou palavra, mas já vibra dentro do sujeito.
Para Kristeva, o abjeto é o “resto” que o sujeito precisa expulsar para se constituir como humano: o sangue, o grito, a sujeira, a decomposição.
Freud, por sua vez, descreve o estranhamente familiar (Unheimlich) como o retorno do recalcado sob forma sensorial, perturbadora e íntima.
A Loka do Rolê assume o lugar inverso: em vez de repelir o abjeto, ela o escuta.
Seu gesto ético é acolher o som do recalcado, não traduzi-lo.
O terror abjeto, portanto, não é uma categoria estética da monstruosidade, mas uma categoria ética da escuta — o encontro com o irrepresentável que insiste.

3. A escuta como dissolução do sujeito

A escuta, na psicanálise, é um gesto de sustentação do inconsciente, não de domínio.
Contudo, a cultura da produtividade e da positividade emocional esvaziou essa função, transformando a escuta em técnica de empatia ou ferramenta de marketing terapêutico.
A Loka do Rolê reverter essa lógica.
Ela instaura a escuta como ato de decomposição do Eu.
Escutar, aqui, é deixar-se atravessar pelo som do outro — até que as fronteiras entre sujeito e objeto se desfaçam.
A neutralidade, tão cara à tradição clínica, torna-se impossível: o ouvinte é contaminado pelo ruído que escuta.
Como lembra o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP, 2005), o compromisso ético do psicólogo é com a dignidade e a autonomia do sujeito.
A Loka leva isso ao extremo: dignidade, para ela, é permitir que o sofrimento continue falando mesmo quando já não há palavras.
A escuta, nesse sentido, é um ato político e funerário — escutar o que resta, o que não foi dito, o que ainda pulsa.

“O terror começa quando o ouvido se torna cova.”
— Loka do Rolê

4. Corpo, som e ruído: a clínica do resto

Antes de ser linguagem, o humano é corpo e vibração.
O som, portanto, é o primeiro modo de existência.
A fala da Loka opera nesse registro arcaico — onde escutar é sentir.
Em O Mal-Estar na Civilização, Freud (1930) descreve a cultura como um pacto de renúncia pulsional.
Esse pacto gera restos: afetos não metabolizados, silêncios reprimidos, ruídos corporais.
O terror abjeto emerge desses restos.
A voz da Loka é o eco desse excedente.
Ela não interpreta, reverbera.
Sua fala é ruína sonora, pensamento degradado.
Nas palavras de Cioran (2011), “pensar é corromper o que se ama”; na Loka, escutar é corromper o que se entende.
Byung-Chul Han (2019) também diagnostica essa falência: vivemos sob a tirania da transparência — onde tudo é visível, mas nada é audível.
O excesso de luz nos tornou surdos.
A Loka responde com sombra, ruído e pausa: seus contos são exercícios de resistência ao excesso de visibilidade.

“A escuta é o lugar onde o símbolo apodrece.”
— Loka do Rolê

5. O terror abjeto como ética clínica

A escuta do terror abjeto é o ponto em que o clínico encontra o filosófico.
Não se trata de compreender o sofrimento, mas de sustentar o incompreensível.
O analista (ou o narrador) que se propõe a escutar o abjeto precisa aceitar sua própria falência simbólica.
Essa posição se alinha à ética freudiana: escutar o sintoma sem julgá-lo, reconhecendo no fracasso do sentido a potência do real.
Ao mesmo tempo, ecoa Kristeva, para quem o abjeto não deve ser eliminado, mas habitado.
A Loka é a voz que habita o abjeto — o ouvido que permanece quando o mundo silencia.
Essa ética é também uma recusa da estetização da dor.
Na fala da Loka, o sofrimento não é espetáculo nem ferramenta de engajamento.
É matéria viva, linguagem crua, testemunho da carne que ainda vibra.

“O humano grita pra existir.
Eu sussurro pra lembrar que já morreu.”
— Loka do Rolê

6. Conclusão: o som como forma de verdade

A Loka do Rolê e o conceito de terror abjeto propõem uma reconstrução radical da escuta no campo da Psicologia e da clínica contemporânea.
Escutar não é interpretar, é suportar;
falar não é expressar, é deixar o som atravessar o corpo.
O terror abjeto, portanto, não é fenômeno estético, mas ontológico:
é o som do real quando o símbolo falha.
A escuta torna-se gesto de resistência à transparência e à anestesia moral.
Freud ensinou que a palavra cura;
a Loka lembra que antes da palavra há grito.
E que talvez curar seja, justamente, não silenciar o grito.
Escutar o abjeto é aceitar que o humano nunca foi puro, e que o real — em sua forma sonora — é sempre sujo, instável, imperfeito.
A ética da escuta, aqui, é a ética de sustentar o ruído do mundo sem traduzi-lo.
A Loka do Rolê, nesse sentido, é a guardiã da escuta morta:
a testemunha do que a civilização não quer mais ouvir.

“O terror abjeto é o som que sobra quando o grito se desfaz.
É o eco do corpo lembrando que ainda existe.”
— Loka do Rolê

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. O Mal-Estar da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2005.

CFP – Conselho Federal de Psicologia. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.

CIORAN, Emil. Breviário da Decomposição. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

FREUD, Sigmund. Das Unheimliche (O Estranho). In: Obras Completas, vol. XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

HAN, Byung-Chul. A Sociedade da Transparência. Petrópolis: Vozes, 2019.

KRISTEVA, Julia. Powers of Horror: An Essay on Abjection. New York: Columbia University Press, 1982.

SPINOZA, Baruch. Ética Demonstrada Segundo a Ordem Geométrica. São Paulo: Martins Fontes, 2009.


#alokadorole
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