O espetáculo da escuta: quando a empatia vira performance
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1. O palco do altruísmo
“Se eu conseguir ajudar uma pessoa, já fecho as contas.”
A frase parece brotar da humildade, mas é puro marketing emocional.
O altruísmo contemporâneo, travestido de empatia digital, é a mais eficiente forma de autopromoção que a cultura do espetáculo já inventou.
Mario Vargas Llosa (2013) chamou de civilização do espetáculo esse tempo em que o entretenimento se tornou o novo dogma moral. Tudo precisa brilhar para existir; até a dor precisa de edição. A cultura, segundo Llosa, degenerou em mercadoria leve — “um mundo onde o primeiro lugar na tabela de valores é ocupado pelo entretenimento” (p. 25). A compaixão virou estratégia de engajamento e a ética, um produto com trilha sonora.
O influenciador que promete “atingir milhões” ou “salvar uma pessoa” não fala a partir da experiência, mas da vitrine. Ele é o sintoma social de uma espiritualidade terceirizada — alguém que confunde escuta com visibilidade e confissão com algoritmo. Guy Debord (1967) já havia previsto o script: “tudo o que antes era vivido diretamente tornou-se mera representação” (p. 12). O palco digital é o confessionário sem perdão, o púlpito sem corpo, a clínica sem escuta.
2. A indústria da empatia
A “ajuda” virou KPI (indicador de performance).
A palavra “escuta” foi capturada pelo mercado da influência — esse ecossistema que transforma sofrimento em conteúdo e vulnerabilidade em nicho.
Byung-Chul Han (2022) observa que o domínio da informação faz desaparecer as coisas e, com elas, as memórias: “não vivemos em um regime de violência, mas em um domínio de informação que se apresenta como liberdade” (p. 14).
A liberdade de comunicar substitui a liberdade de pensar; o sujeito acredita ser ouvido porque foi notificado.
O influenciador que se propõe a “falar sobre saúde mental” ignora, quase sempre, que o discurso é também material: depende de estrutura técnica, tempo livre, banda larga e privilégio. Falar “para quem não tem acesso” é uma contradição insolúvel — o próprio meio já exclui quem mais precisa.
Mais de 20 milhões de brasileiros ainda vivem sem internet em casa (IBGE, 2023). Esse dado desmonta o mito da universalidade digital: há sujeitos que não estão no mapa do algoritmo, que não aparecem no feed, que não têm “engajamento”. A empatia digital, portanto, é uma bolha autocomplacente que conversa consigo mesma.
3. O ruído do dever-ser
Byung-Chul Han (2015), em A Sociedade do Cansaço, descreve o mal-estar do sujeito do desempenho: ele não é mais coagido, mas se autoexplora. O imperativo não é mais “tu deves”, mas “tu podes” — e por isso, deve.
O discurso do influenciador segue essa gramática: “você pode melhorar”, “você deve cuidar de si”, “basta querer”.
Mas querer não basta quando as condições materiais impedem o querer.
O que se apresenta como convite à saúde é, na verdade, uma nova forma de opressão: o sujeito é responsabilizado por não ter atingido o padrão de bem-estar exigido pelo mercado da felicidade.
Freud, em O Mal-Estar na Civilização (1930/2022), já havia diagnosticado essa ambiguidade. A civilização promete conforto, mas cobra em renúncia; promete prazer, mas exige repressão.
A atualidade digital apenas sofisticou o mesmo dilema: o prazer é permitido desde que seja publicável, e o sofrimento, desde que rentável.
4. A ironia do “atingir milhões”
“Milhões” são a nova métrica da salvação.
O influenciador fala em “milhões de vidas tocadas” como se as almas tivessem contador de cliques.
Mas — pergunta a Loka do Rolê — o que sobra quando se desliga o wi-fi?
Em A Civilização do Espetáculo, Llosa (2013) observa que “a distinção entre preço e valor se apagou” (p. 119).
A cultura da performance moral dissolve a experiência em número.
Ajudar deixa de ser gesto ético e vira resultado estatístico.
E, paradoxalmente, quanto mais pessoas o discurso “atinge”, menos escuta ele produz — porque a escuta exige demora, falha, interrupção.
Christopher Lasch (1979), em A Cultura do Narcisismo, descreveu esse movimento de modo brutal: a busca incessante por validação substitui o desejo de compreensão. O sujeito pós-moderno quer ser visto, não reconhecido. Quer audiência, não alteridade.
5. A falência da escuta
Escutar é um ato de perda.
Quando escuto o outro, suspendo a soberania do meu Eu.
Levinas (1982) diria que o rosto do outro me convoca, me obriga, me tira de mim — “a presença do rosto é já um apelo” (p. 56).
Mas a mídia não suporta a alteridade; ela só reproduz reflexos.
Escutar virou luxo simbólico, privilégio de quem tem tempo e não depende da próxima entrega de aplicativo.
E é aí que a Loka fala:
- “Cês chamam de escuta o que é só eco do próprio espelho.
Cês confundem silêncio com falta de wi-fi.”
A escuta verdadeira é matéria suja, contraditória, não se presta ao espetáculo.
Ela se dá na presença, na carne, no olhar que não tem filtro.
O influenciador, ao dizer “se eu ajudar uma pessoa, já fecho as contas”, esquece que o simples fato de poder falar em rede é resultado de um aparato econômico, técnico e simbólico — um privilégio que o distancia exatamente de quem ele afirma representar.
6. O riso da ruína
Cioran (1949), em seu Breviário da Decomposição, ri do humano como quem ri do delírio de ter sentido.
Para ele, o pensamento nasce do esgotamento — “a lucidez é a ferida mais próxima do sol” (p. 37).
E é com essa lucidez que se deve olhar o espetáculo da empatia:
o altruísmo midiático é o niilismo travestido de esperança;
a escuta publicitária é o silêncio higienizado do mercado;
e a humildade performada é o luxo de quem nunca precisou calar pra sobreviver.
A civilização do espetáculo não acabou com a dor — apenas a estetizou.
Transformou o mal-estar em legenda e o desespero em trilha sonora.
O sujeito não sofre mais: ele publica o sofrimento.
E o que não é compartilhável deixa de existir.
7. Epílogo da Loka
- “Cês tão achando que salvar uma vida é bater meta?
Que escutar é postar sobre o que ouviu?
Que empatia é usar o sofrimento alheio como thumbnail?
Se é isso, então fechem as contas mesmo —
porque o saldo de humanidade tá negativo faz tempo.”
O espetáculo da escuta continua.
Mas quem realmente escuta sabe: toda fala ética começa no silêncio que o palco não suporta.
Referências:
BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
BYUNG-CHUL HAN. Não Coisas: reviravoltas do mundo da vida. Petrópolis: Vozes, 2022.
CIORAN, Emil. Breviário da decomposição. Lisboa: Relógio D’Água, 1991.
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Paris: Buchet-Chastel, 1967.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
LASCH, Christopher. A cultura do narcisismo. Rio de Janeiro: Imago, 1983.
LEVINAS, Emmanuel. Ética e Infinito. Lisboa: Edições 70, 1982.
LLOSA, Mario Vargas. A civilização do espetáculo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.
MARCUSE, Herbert. Eros e civilização. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
José Antônio Lucindo da Silva – Psicólogo (CRP 06/172551)
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