Avançar para o conteúdo principal

“Patologizar o Humano é a Nova Fé”

“Patologizar o Humano é a Nova Fé”



 - “Cês tão chamando de doença o que antes se chamava vida.
E tão chamando de cura o que antes se chamava silêncio.” — Loka do Rolê


Tem uma moda nova na vitrine da alma: diagnosticar tudo.
Timidez? Transtorno.
Solidão? Disfunção.
Raiva? Disregulação emocional.
Tristeza? Falha química.
O que o psiquiatra da matéria da CNN Brasil “Sociedade patologiza características normais de personalidade” chamou de medicalização da vida é só o outro nome daquilo que Freud chamava de “mal-estar na civilização”.
A diferença é que, no tempo dele, o sintoma era linguagem.
Hoje, é produto — e tem bula, bula digital, assinatura premium e gatilho para engajamento.
Vivemos uma era em que sentir virou infração.
As empresas vendem “saúde mental” em drops, os algoritmos oferecem “autocuidado” em 3x sem juros, e a psiquiatria midiática se tornou a capelania da performance.
Enquanto isso, o sujeito se ajoelha diante do diagnóstico como quem reza pra não sentir mais nada.
Byung-Chul Han diria que a dor foi desativada pelo imperativo do “tudo bem”.
Zygmunt Bauman chamaria isso de “higienização emocional”: uma liquidez tão limpa que o sujeito escorrega da própria experiência.
E Marcuse, se ainda estivesse vivo, avisaria que o “homem unidimensional” agora se trata via app — e agradece.
A loucura virou falha de sistema, e o sistema — irônico — prescreve login como tratamento.
Ninguém quer conflito, só estabilidade.
Ninguém quer escuta, só resposta.
E o corpo, coitado, continua gritando por dentro enquanto o DSM atualiza mais um rótulo pra chamar de Eu.
A medicalização da personalidade é a vitória do medo sobre a ambiguidade.
É a tentativa de curar a humanidade de si mesma.
Mas o que a cultura chama de “transtorno” é, na verdade, o vestígio da liberdade: o ponto onde o sujeito ainda resiste à domesticação.
Freud avisou que o preço da civilização era o sintoma.
Green chamou de “loucura privada” esse esforço de recalcular a rota emocional pra caber no mapa da normalidade.
E Han completou: o sujeito de desempenho é o próprio carrasco — produzindo até o seu próprio diagnóstico pra continuar sendo útil.
A Loka do Rolê olha pra tudo isso e ri.
Ri de nervoso, de tédio, de lucidez.
Porque sabe que o sofrimento virou uma experiência regulamentada — com tempo de espera, TCC protocolar e supervisão em nuvem.
O sintoma não é mais escutado; é corrigido.
E quem insiste em escutar, enlouquece junto.
O que a reportagem chama de patologização, a Loka chama de catequese clínica.
Uma catequese que troca o confessionário pelo prontuário e a culpa pela posologia.
O sujeito não peca mais — desregula.
Não enlouquece — sai da curva.
Não sofre — “precisa de ajuste”.
O problema é que ninguém explica o que acontece quando a dor é toda medicada:
O corpo fica mudo.
E o silêncio, quando não tem mais sintoma pra gritar, começa a apodrecer.
Talvez seja esse o verdadeiro mal-estar contemporâneo: o terror de existir sem diagnóstico.
De não caber no laudo, nem no feed, nem na bula.
De ser, simplesmente, humano — e suportar.
“A saúde mental virou uma religião com antidepressivos no lugar da hóstia.” — Loka do Rolê
Enquanto Freud buscava entender o sentido do sofrimento, o mercado busca eliminá-lo.
Mas o sofrimento é o último vestígio do real — aquilo que ainda resiste à simulação.
Quando ele for totalmente silenciado, o que restará não será um sujeito curado, mas um sistema anestesiado.
E talvez o verdadeiro gesto clínico, hoje, seja lembrar que nem toda dor é doença, e nem todo diagnóstico é cuidado.
A escuta — essa coisa arcaica e lenta — ainda é o que separa o humano da máquina.
E, por enquanto, a Loka insiste em ouvir o que o mundo tenta calar.

Leitura indicada:

https://www.cnnbrasil.com.br/saude/psiquiatra-sociedade-patologiza-caracteristicas-normais-de-personalidade/

 Concepção e texto: José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551)

 Projeto: Mais Perto da Ignorância

#alokadorole
#maispertodaignorancia

Comentários

Mensagens populares deste blogue

A Técnica, a Exclusão e o Eu: Reflexões Sobre a Alienação Digital e a Identidade na Contemporaneidade

A Técnica, a Exclusão e o Eu: Reflexões Sobre a Alienação Digital e a Identidade na Contemporaneidade Assista o vídeo em nosso canal no YouTube Introdução A cada dia me questiono mais sobre a relação entre a tecnologia e a construção da identidade. Se antes o trabalho era um elemento fundamental na compreensão da realidade, como Freud argumentava, hoje vejo que esse vínculo está se desfazendo diante da ascensão da inteligência artificial e das redes discursivas. A materialidade da experiência é gradualmente substituída por discursos digitais, onde a identidade do sujeito se molda a partir de impulsos momentâneos amplificados por algoritmos. Bauman (1991), ao analisar a modernidade e o Holocausto, mostrou como a racionalidade técnica foi usada para organizar processos de exclusão em grande escala. Hoje, percebo que essa exclusão não ocorre mais por burocracias formais, mas pela lógica de filtragem algorítmica, que seleciona quem merece existir dentro da esfera pública digita...

A Carta Que Voltou Tarde Demais

A Carta Que Voltou Tarde Demais Palavras chaves; carta, resposta, Freud, psicanálise, supereu, mal-estar, sexualidade, norma social, desejo, moral, comentário público, redes sociais, algoritmo, visibilidade, intimidade, discurso midiático, transferência, ética da resposta, deslocamento simbólico, carta aberta, Loka do Rolê, fratura simbólica, crítica cultural, contemporaneidade, Caro Dr. Freud, capítulo ensaístico. (Resposta ao Dr. Freud na Era do Comentário Público) Caro Dr. Freud, Escrevo-lhe novamente, mas agora de forma mais precisa. Segundo alguns dados midiáticos recentemente difundidos, um jornalista de alta credibilidade foi interpelado publicamente por uma seguidora que lhe pediu que jamais tornasse pública sua suposta orientação sexual. A interpelação veio revestida de vergonha e oração, como se moral e cuidado fossem sinônimos. Não houve crime. Não houve escândalo. Houve discurso. A resposta do jornalista foi direta: delimitou fronteira, nomeou o cará...

Respira!Não é desespero.É método.

Respira! Não é desespero. É método. Você está certo numa coisa: se o eixo discursivo é mapeamento como técnica de administração de corpos, então IBM e o Holocausto (Edwin Black) não é detalhe — é estrutura. E ele precisa entrar não como comparação rasa, mas como operador histórico da discussão. Vamos reorganizar isso dentro do MPI, com coerência, densidade e todas as camadas que você vem construindo: Arbex, Bauman, Black, Zuboff, O’Neil, Freud, CID-11, DSM-5, Código de Ética, modernidade técnica, Estado brasileiro. Sem delírio. Sem futurologia. Sem prescrição. Só tensão histórica. MAPEAR A DOR É ORGANIZAR CORPOS (e o Brasil sabe fazer isso) Autor: José Antônio Lucindo da Silva Projeto: Mais Perto da Ignorância Palavras-chave: mapeamento, técnica, IBM, Barbacena, saúde mental, Estado, classificação, modernidade, Bauman, Arbex, Black, Zuboff, Freud, Brasil.  Resumo O Ministério da Saúde anuncia uma Pesquisa Nacional de Saúde Mental para mapear a po...