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A Mãe do Monstro entrou na casa errada!

A Mãe do Monstro entrou na casa errada

(conto clínico sobre o medo, a culpa e o espetáculo da escuta)


Interlúdio da Loka

Batem na porta com palavras grandes demais.
Cheiro de incenso moral e urgência de clique.
Trazem “castração” enrolada em papel brilhante.
Eu não vendo medo: aqui o medo respira.
Se entrar, fala baixo. Se falar alto, escuta.

Eu ouvi a batida antes do punho tocar a madeira. Medo faz esse som de unha no esmalte, uma pressa que não sabe o que procura. Abri. Na soleira, a Revista veio inteira — título, tipografia, aura de legitimidade, perfume de tese. Falava como quem prega.

— Vim trazer uma história. A mãe do monstro. A cultura, o útero, o ódio.

— Tira o sapato — eu disse. — Aqui o chão é de escuta.

Ela olhou pros pés, hesitou, tirou. Medo tem vergonha de pés descalços. Entrou na sala grafitada, parede cinza-grafite, mesa com marcas de cigarro, um recorte antigo colado com fita: “Carta de Freud a uma mãe”. Coloquei café.

— A gente precisa falar de castração — a Revista começou, ajeitando as páginas —, da mãe religiosa que pare monstros, da massa que consome violência.

— A gente precisa falar de quem lucra com o grito — eu respondi. — Senta.

Ela sentou com pose de especialista. O Medo sentou junto, miúdo, mas espalhado. O público, esse curioso que mora atrás da minha janela quebrada, encostou o ouvido. Eu sabia que a visita era mais marketing que reflexão, mas eu não recuso palavra ferida.

— Você entende — a Revista continuou —, há uma matriz do ódio, uma mãe-útero-superego, o fantasma da prole, a linha que liga Hitchcock, o massacre e a pulsão.

— Bonito — falei. — Mas quem que você está escutando quando fala bonito assim?

Silêncio breve. O Medo coçou o queixo.

— O leitor — ela disse. — O leitor precisa entender o monstro.

— Ah — eu sorri. — Você não quer que o leitor entenda. Quer que ele maratone. Seu texto é um trailer com citação. Crítica em formato de convite. “Veja por si mesmo.” A psicanálise aqui é isca.

Ela torceu a boca, mas a sala não perdoa. Minha casa funciona como consultório invertido: quem fala é a língua pública, quem escuta é o silêncio clínico. A Revista começou a se ouvir pela primeira vez. E ninguém gosta de ouvir a própria respiração quando o fôlego é curto.

— Olha, Loka — disse de repente, mudando de tom —, eu também quero o bem. Denunciar a violência, criticar a normalização do horror…

— Quer engajamento — interrompi, sem raiva. — No Brasil, medo é a métrica do importante. E você descobriu que tem mais alcance falar do monstro do que escutá-lo. Não é maldade. É hábito. É casa-grande com colar de seminário.

O Medo se animou: “Fala mais de mim, vai.” Eu fiz que não com a cabeça. Não alimento bicho que cresce de clique.

— Sabe qual a diferença entre clínica e catequese? — perguntei. — Na clínica, o sofrimento é sujeito. Na catequese, é cenário.

Ela respirou fundo.

— Mas e a mãe? A mãe… é um eixo potente. Mãe é metáfora, é política, é o começo de tudo.

— Mãe também é pessoa — eu disse, baixinho. — E quando você transforma pessoa em alegoria, você terceiriza a ética. Culpa vira efeito especial. A criança vira set de filmagem. E o desejo… vira show.

O Medo fez cara de ofendido. Peguei, então, o recorte colado na parede. Li como quem oferece água:

 – “A homossexualidade não é motivo de vergonha, não é vício, não é degradação, e não pode ser classificada como doença.”

— Carta de Freud a uma mãe (1935)

— Essa carta — eu continuei — é a antimatéria do seu texto. Freud não espetaculariza a diferença, desarma o tribunal. Ele responde a uma mãe com ternura laica. Aqui dentro, a ética é simples: diversidade é variação, não monstro.

— Você sabe — retrucou a Revista —, eu não disse que é doença.

— Não disse — concordei. — Mas colou diferença e horror na mesma vitrine. E vendeu como reflexão. A pior propaganda não é a que mente: é a que dramatiza o que deveria ser escutado.

Ela baixou os olhos. Era uma revista, mas também era um corpo com medo de ser irrelevante sem grito. Eu entendo. O país transforma tragédia em pauta desde a catequese. Só trocou batina por thread.

— Tá, mas… e a massa? — ela insistiu. — O povo quer sangue, quer serial, quer culpa que alivia. Eu só falo a língua do tempo.

— E se você mudasse a língua? — perguntei. — Em vez de “a mãe do monstro”, “a mãe com medo”. Em vez de “castração” como facão, “diferença” como enigma. Em vez de “assista já”, “escute devagar”.

Ela riu curto.

— Isso não dá clique.

— Escuta não dá clique — confirmei. — Dá sujeito.

A janela devolveu um fiat lux de rua. Passou um carro vendendo gás e a trilha sonora invadiu a cena. O povo lá fora seguia sua vida, empurrando carrinho de feira, brigando pelo preço do tomate, mandando áudio de um minuto: “Amor, compra pão e para de ver notícia que te deixa ruim.” Eu gosto quando a cidade fura a bolha do argumento. É o senso comum lembrando que a vida não cabe num ensaio — e ainda assim precisa de palavra boa.

— Posso ser sincera? — a Revista disse, num timbre mais humano. — Eu tenho medo de não ser ouvida se eu não dramatizar.

— Todo mundo tem — respondi. — A diferença é o que a gente faz com esse medo. Você estetiza. Eu deixo respirar. Quer tentar?

Ela mordeu o lábio. O Medo pigarreou, vaidoso.

— Tá. Tenta comigo — ela disse, meio desafiando, meio pedindo ajuda.

Apaguei a lâmpada de cima e acendi a de mesa. Luz de consulta. Pedi que ela falasse de novo, mas em língua de rua.

— Eu… — começou, tropeçando — eu escrevi esse texto porque a série cutuca. Muita gente usa mãe como lixeira de culpa. Eu quis mostrar que não dá pra jogar em cima dela tudo que a cultura mata. E também não dá pra transformar diferença em bicho-papão.

— Melhor — eu sorri. — Continua.

— Eu sei que tem gente que vai ver a série só pra sentir nojo e dormir melhor. Eu não quero reforçar isso. Queria… que alguém fechasse o notebook e conversasse com a própria mãe. Ou com a própria diferença. Sem plateia.

O Medo suspirou, um pouco menor.

— Viu? — eu disse. — Você sabe falar sem catequizar. E sem vender ingresso pro pânico.

Ela coçou a orelha, surpresa com a própria voz.

— Mas e o jargão? — perguntou. — Sem “superego-útero” eu perco status?

— Status é cortina — respondi. — A casa pega fogo igual. Tira o termo de efeito e coloca o caldo de verdade. Em vez de “matriz do ódio”, diz “gente com medo do que não controla”. Em vez de “monstro”, diz “diferença que te desafia a crescer”. Em vez de “veja agora”, diz “escute o que você não queria ouvir”.

— E a psicanálise?

— A psicanálise entra como ética, não como cenário. Menos tese, mais pergunta. Menos altar, mais chão.

Ela assentiu. A janela respirou. O público do lado de fora, esse coro que gosta de drama, perdeu um pouco do interesse — conversa íntima não rende print. Foi bom sinal.

— Então o que eu faço com o meu texto? — ela quis saber.

— Reescreve a porta e a saída. Na entrada, diz: “isso aqui não é sobre monstros, é sobre medo”. Na saída, oferece silêncio. Se o leitor terminar com vontade de abraçar alguém em vez de maratonar, você acertou o tom.

— É pouco pop — ela arriscou.

— É muito humano — devolvi. — E humano tem mais fôlego que trend.

O Medo encolheu pro tamanho de um gato cansado e foi dormir no tapete. Fiquei olhando a Revista, agora menos revista e mais gente. A casa funciona assim: quem entra com discurso sai com corpo. Nem sempre agradece. Às vezes volta com advogado. Mas hoje, por um luxo raro, era só escuta.

— Loka — ela disse, quase rindo —, você acha que eu consigo publicar algo que não convide a assistir?

— Convida a conversar — respondi. — “Fecha a aba, liga pra tua mãe.” “Desliga a TV, pergunta pro teu amigo o que dói.” “Em vez de comentar o monstro, escuta tua própria diferença.” É pouco glamouroso, eu sei. Mas é o único jeito de sair do looping.

Ela respirou, demoradamente.

— E se me chamarem de ingênua?

— Diz que é clínica — sorri. — No Brasil, cuidar virou o ato mais radical. Ninguém sabe lidar quando a crítica não vem com faca.

Ficamos em silêncio. O café esfriou. Lá fora, a rua seguiu sendo Brasil: barulho, meme, boleto, abraço apertado, medo dando expediente e descanso. A Revista levantou devagar.

— Posso te mandar a nova versão?

— Não precisa — respondi. — Só promete que vai escrever como quem escuta.

Ela prometeu sem palavras. Na porta, calçou os sapatos, olhou uma última vez pro recorte na parede. A carta de Freud brilhava como aviso de saída de emergência.

— Obrigada — disse. — Foi… diferente.

— Ainda bem — falei. — Diferente é o mínimo que a gente deve ao outro.

A porta fechou sem barulho. O público do lado de fora dispersou, procurando outra janela pra encostar o ouvido. O gato-medo continuou dormindo. Eu recolhi as xícaras, varri migalhas de catequese caída no chão, e escrevi com spray no pedaço de parede ainda limpo:

 – “Se for pra falar de monstros, começa pelo seu medo.
Se for pra falar de mães, começa pelo seu amor.
Se for pra falar de cultura, começa pelo silêncio.”


Sentei. Deixei a casa respirar. No escuro macio da sala, a Loka do Rolê, que sou eu quando ninguém filma, cochichou pro nada:

— Não há escuta no palco. Só plateia.
— E eu não nasci pra vender ingresso.

Nota de rodapé (em voz baixa)

Este conto foi escrito com a ética no volante: diferença não é doença; sofrimento não é espetáculo; psicanálise não é figurino. Se doeu, respira. Se riu, guarda. Se for postar, poste um abraço.


Referências:

WYLLYS, Jean. A mãe do monstro. Revista CULT, São Paulo, 2025. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/mae-do-monstro/. Acesso em: 19 out. 2025.

FREUD, Sigmund. Carta a uma mãe americana sobre a homossexualidade (1935). In: IANNINI, Gilson (org.). Caro Dr. Freud: respostas do século XXI a uma carta sobre homossexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.

FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. In: Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2021.

CIORAN, Emil. Nos cumes do desespero. São Paulo: Rocco, 1998.

HAN, Byung-Chul. A crise da narração. Lisboa: Relógio D’Água, 2020.

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

BECKER, Ernest. A negação da morte. Rio de Janeiro: Record, 2018.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Casos clínicos do DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2024.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Internacional de Doenças – CID-11. Genebra: OMS, 2022.


CRP 06/172551 — José Antônio Lucindo da Silva
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